Crítica: “Hamnet”, de Chloé Zhao (e Maggie O’Farrell), é absolutamente arrebatador

texto de Marcelo Costa

William Shakespeare, o maior escritor da língua inglesa e o maior dramaturgo da História, nasceu em Stratford-upon-Avon, uma cidadezinha no condado de Warwickshire ao sul de Birmingham, que, hoje, tem menos de 28 mil habitantes. Foi ali, nessa pequena “vila”, que Will conheceu Anne Hathaway, casou-se com ela a toque de caixa (afinal, ela estava grávida – ele tinha 18 anos e ela 26) e construiu uma familia há mais de 450 anos.

As obras do bardo perduram até hoje, mas sua vida particular já foi explorada por dezenas de biógrafos, e permanece pouco conhecida, com várias lacunas. Em 2020, a escritora irlandesa Maggie O’Farrell escreveu um romance que utiliza fatos conhecidos da vida de “Will” enquanto cobre as lacunas com ficção. Adaptado para o cinema por Chloé Zhao (que venceu o Oscar em 2020 com “Nomadland”), “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (“Hamlet”, 2025) venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme e, com oito indicações ao Oscar, é um dos favoritos ao maior prêmio da temporada.

Na trama de “Hamnet”, Will se apaixona por Agnes (assim como Hamnet e Hamlet, Agnes e Anne são historicamente considerados o mesmo nome ou intercambiáveis), eles se casam e seis meses depois nasce Susanna, a primeira filha. Dois anos depois, Agnes dá a luz aos gêmeos Hamnet e Judith, e enquanto William tenta sair da sombra do pai violento para se transformar em Shakespeare (já residindo em Londres), Agnes toma conta da prole.

Num período de doenças severas e pestes cruéis (como exemplo marcante, Judith, irmã de Hamnet, iria enterrar no futuro seus três filhos, dois deles – um de 19 anos, o outro de 21 – num intervalo de nove dias em 1939), Hamnet perderá a vida aos 11 anos (em 1596), e o trauma familiar irá inspirar, no romance de Maggie O’Farrell, uma das maiores obras de toda a língua inglesa, “A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, escrita entre 1599 e 1601.

Na peça, o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca, traído por Cláudio, seu irmão, que o envenenou e em seguida tomou o trono casando-se com a rainha. Um banho de sangue tal qual outra tragédia famosa do bardo, “Romeu e Julieta” – uma “história de amor” (?) entre uma garota de 13 anos e um rapaz de 17 que durou três dias e causou seis mortes – “Hamlet” cravou no imaginário frases como “ser ou não ser, eis a questão”, “há mais coisas no céu e na terra do que sonha a tua filosofia” e “há algo de podre no reino da Dinamarca”, que sempre retornam, adaptadas, quando a ordem do dia é falar sobre desespero, traição, vingança e/ou corrupção.

Porém, no filme “Hamnet”, toda a alegoria utilizada pela escritora irlandesa e abraçada com esmero pela diretora japonesa com auxílio esplendoroso de Paul Mescal (correto) como William Shakespeare e, principalmente, de Jessie Buckley (dona da estatueta de Melhor Atriz da temporada) como Agnes, é uma maneira de estudar, de maneira extremamente delicada, o luto familiar, aquele fragmento de segundo em que a perda de um ente faz desmoronar uma relação, em primeiro plano, e toda família por conseguinte.

Agnes culpa severamente o marido por estar ausente. William a ama, ama os filhos e se culpa também, mas a vida, impiedosa, segue (dolorosa, afinal viver é acumular tristezas), e cada pessoa enfrenta seus fantasmas com as ferramentas que têm a mão. Não há regras, mas sim maneiras e maneiras de se lidar com a perda e enfrentar o luto – Nick Cave, que perdeu um filho de 15 anos, conversa muito sobre o tema com o jornalista Seán O’Haggan no imperdível livro “Fé, Esperança e Carnificina” , de 2022.

Em “Hamnet”, a maneira como Maggie O’Farrell e Chloé Zhao – que assinam o roteiro, juntas – amarram a história de Hamnet e Hamlet é divinamente soberba, resultando em um dos finais mais envolventes e arrebatadores do cinema neste século. Digno de sorrisos e (muitas) lágrimas, “Hamnet”, mais do que versar sobre luto, é um filme sobre esperança e reconstrução, uma obra belamente filmada, conduzida com delicadez e força e que consegue a proeza de honrar Agnes e William Shakespeare: não há muito a conquistar após isso, certo. Palmas!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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