Crítica: “Para Sempre Medo” mostra que o raio da boa sorte não cai várias vezes no mesmo lugar

texto de Davi Caro

Não dá para culpar Osgood Perkins por não ser perfeito o tempo todo. Mas o fato é que, especialmente depois do surpreendente sucesso de “Longlegs” (2024), as expectativas para qualquer novo projeto do diretor aumentaram vertiginosamente. Tanto é que, só em 2025, o homem conseguiu enfileirar dois projetos diferentes. Por um lado, “O Macaco” (“The Monkey”) se beneficia de muito do que deu certo em seu longa mais aclamado, além de poder se amparar em um roteiro que adapta uma história menos conhecida, porém não menos instigante, de Stephen King. O sucesso da crítica, se não se converteu em números esmagadores de público, pelo menos foi o suficiente para conseguir solidificar um enredo que tem tudo para se converter em um futuro cult.

Por outro lado, a mesma maré de boa sorte não se estendeu a “Para Sempre Medo” (“Keeper”, 2025 – que tradução mequetrefe, convenhamos), que chega agora aos cinemas brasileiros após um período generoso de exibição nos cinemas estrangeiros. A distribuição da Neon, indicativa (para muitos) de qualidade cinematográfica, pode ser algo enganosa aqui: mesmo um elenco enxuto, com potencial e dedicação, e uma história conduzida por um argumento pertinente não conseguem salvar este projeto de ser uma decepção, ainda que relativamente. Ao invés de um desastre anunciado, o que fica é a impressão de potencial desperdiçado.

Liz (Tatiana Maslany) é uma pintora que vive um dilema afetivo. Isso porque, às vésperas de completar um ano de seu relacionamento com o médico Malcolm (Rossif Sutherland), ela ainda sofre de certa desconfiança – e o comportamento algo evasivo do namorado não ajuda a reprimir a possibilidade da existência de uma família secreta, ou de outras amantes. Assim, a proposta de um fim de semana comemorativo em uma casa na floresta se torna mais do que promissora. A casa, uma herança familiar, passa longe de ser privativa. Janelas sem cortinas, portas que não trancam e amplas janelas, se causam estranhamento, não chegam a assustar a jovem, à princípio. As coisas começam a mudar, entretanto, com o aparecimento de um bolo de chocolate, que teria sido preparado pela pessoa responsável por cuidar da casa.

Não demora muito para que Liz também seja apresentada ao primo de Malcolm, Darren (Birkett Turton), que mora em outra casa na mesma propriedade, e cujo comportamento é completamente diferente ao de seu familiar: misógino, nojento e arrogante, o rapaz toma como principal alvo sua acompanhante, a jovem Minka (Eden Weiss), que, em segredo, também parece ter tido uma experiência estranha com um bolo de chocolate muito parecido com o oferecido a Liz. É após ingerir o tal bolo, entretanto, que a moça começa a ser acometida por estranhas e perturbadoras alucinações, que indicam uma trama mais sombria que ocorre dentro da casa. Sozinha em casa após um chamado de trabalho de Malcolm, Liz precisa correr contra o tempo para entender as violentas visões, e como estas representam uma ameaça muito maior do que ela própria imagina.

Uma breve olhada na sinopse de “Para Sempre Medo” pode ser o suficiente para decifrar a trama praticamente inteira do filme – no pior sentido. Se, no papel, a ideia do roteiro (escrito por Nick Lepard) é instigante, a realização simplesmente não funciona. Mesmo as alusões iniciais protocolares ao grande mistério que habita o cerne do longa não são bem construídas o suficiente para gerar engajamento no espectador. Pelo contrário: se há um filme capaz de fazer com que cinéfilos recorram ao celular para ver mensagens ou o feed de qualquer rede social, é este. Do início, com tomadas ambiciosas e intrigantes que almejam (com pouco sucesso) criar uma aura enigmática, até o pouco inspirado final, é tudo carregado na aparência, porém raso em substância.

Mesmo performances milagrosas não seriam capazes de salvar um enredo um tanto acomodado. E olha que Tatiana Maslany já provou ser uma atriz mais do que talentosa. O problema é que sua personagem quase não consegue se decidir entre o empoderamento e a subjeição frágil. E, dessa forma, a intérprete não consegue convencer em nenhuma das duas frentes. Não ajuda, claro, o fato de que seu principal coadjuvante tem o carisma de uma folha sulfite em branco. Rossif Sutherland não aparenta qualquer esforço em gerar atenção a seu personagem, e prova que não, talento não corre na família – o sobrenome não é coincidência: o ator é filho do falecido Donald Sutherland, e meio-irmão de Kiefer “Jack Bauer” Sutherland. Com poucas passagens dedicadas ao machista Darren de Birkett Turton (quase caricato em sua atuação repulsiva), a responsabilidade de carregar uma trama bastante irregular cai sobre as costas de Maslany. E é um fardo claramente pesado demais para uma pessoa só.

Algumas escolhas visuais são interessantes, e a cinematografia trabalha bem com o ambiente isolado de uma casa rodeada por árvores e um riacho. A trilha sonora, à cargo do canadense Edo Van Breemen, oscila entre o surpreendente e o inexpressivo, apesar de se sobressair em momentos de maior tensão. O trabalho de edição talvez seja, aqui, o mais louvável: qualquer arremedo de susto que possa ser obtido aqui se deve totalmente às tomadas mais longas, que vão na contramão de muito do que se faz no cinema contemporâneo. Trata-se de um elemento que poderia alienar muito do público de cinema mainstream, e que, em melhores circunstâncias, poderia inclusive ajudar a configurar um novo clássico.

E é exatamente isso que “Para Sempre Medo” claramente gostaria de ser. Ambicioso, contundente em sua interpretação de temas mais atuais do que nunca, e embalado por um cineasta com credenciais mais do que comprovadas, porém, o resultado vai pelo caminho contrário: acidentado, confuso, irregular e, ao fim, esquecível. O tempo talvez fará com que esta seja apenas uma glorificada nota de rodapé nas notáveis carreiras de Osgood Perkins e Tatiana Maslany – e olhe lá. Melhor sorte na próxima.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

One thought on “Crítica: “Para Sempre Medo” mostra que o raio da boa sorte não cai várias vezes no mesmo lugar

  1. Davi, pra confessar a boca miúda. Fui assistir a longlegs na época com uma expectativa imensa devido a todo hype lido. E saí com uma sensação de “é isso mesmo?”. Portanto, teu texto não me surpreende porque mesmo o festejado já me parecia assim assado.

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