Conexão Brasil/Portugal: Manuel Molarinho fala sobre “Outra Vez Arroz”, novo disco do Baleia Baleia Baleia

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Em 2018, em entrevista ao Scream & Yell, Manuel Molarinho afirmava que “O Baleia Baleia Baleia produz uma sonoridade ligada ao instinto, à emoção e à ideia de não ter medo de ser um ato inesperado”. Oito anos depois, encontramo-nos novamente numa esplanada no Chiado, e as suas palavras continuam a nortear o mais recente álbum do duo portuense que nos preparamos para abordar, tal como diversas questões relativas ao grupo. “Outra Vez Arroz” (2026) é um disco de continuidade, combativo, eclético e onde a banda exprime o seu desencanto relativamente ao futuro em função das guerras, do genocídio, da concentração da riqueza num grupo restrito de pessoas e da ausência de consciência de classe.

O single de índole punk “NPC” expressa o niilismo presente no trabalho, mas faixas como a insinuante “Deixa O Frio Entrar” (que versa sobre a possibilidade de acolhimento e na ideia de verdade para as pessoas que nos são queridas) e a catártica “Hedoninho” (uma enumeração dos pequenos e grandes prazeres da vida) servem de contraponto ao estado geral e conferem um tom positivo ao disco. Para além das músicas citadas, destacam-se “Sobrestimulados” (uma denuncia forte contra a gentrificação) que demonstra a força roqueira do grupo e “Super-Agrobeto” que representa uma tirada humorada sobre alguém que virá salvar o mundo, dando a sua opinião sobre tudo. “É a nossa música mais engraçadinha”, diz Manuel.

No novo álbum, a interventiva “Antifa Ao Contrário É Otário” conta com a colaboração inédita em disco de dois músicos exteriores à banda portuense (Evaya e Scúru Fitchádu) e sobre a eventualidade de estender, futuramente, as parcerias a artistas brasileiros, Molarinho destaca o valor da amizade como o fator decisivo. “Eu sempre fiz músicas com amigos e se tivessem vontade de colaborar eu faria uma parceria com eles. Nesse sentido, podia fazer algo com Monch Monch, Tangolo Mangos e com a Sophia Chablau. Teria de ser com estas pessoas que eu considero amigas. Nunca fiz música só pelo interesse artístico, o lado humano é que me interessa”, explica.

Relativamente ao selo Saliva Diva, do qual Manuel Molarinho e o baterista Ricardo Cabral fizeram parte da sua fundação, em 2020, o vocalista e baixista do Baleia Baleia Baleia destaca a vitalidade do mesmo em função de um panorama nem sempre fecundo e em que muitos selos acabam ao fim de poucos anos devido à pouca rentabilidade financeira: “O Saliva Diva está vivo e ativo, organizou mais de 100 concertos por ano desde o fim da pandemia, tem uma curadoria na ilha da Madeira, em Lisboa, no Porto e em Coimbra e tem também independência e capacidade para lançar o próximo álbum do Baleia Baleia Baleia, perfazendo 32 discos editados até ao momento. Por isso, só temos de ficar orgulhosos com o nosso trabalho”.

Para além de Portugal (onde se prepara atualmente para realizar 14 shows de apresentação do novo disco entre fevereiro e abril), o duo portuense já atuou na Galiza (Espanha), Bélgica, Brasil e na Irlanda. A possibilidade de se apresentar em novos palcos internacionais e os objetivos futuros do grupo, constituem um desafio ao qual Manuel Molarinho responde com serenidade e pragmatismo. “O futuro não nos preocupa muito e o importante é tocar o mais possível. Mesmo que fosse só em palcos pequenos não nos chatearíamos com isso. Se a música continuar a ser um ganha-pão ou parte dele então é ótimo, porque não ambiciono ter um emprego das 9h às 17h. Claro que gostava de conhecer novos países e perceber como é que o público reage à nossa música. Mas, o importante é que me sinta feliz no que faço”, conclui.

De Lisboa para o Brasil, Manuel Molarinho conversou com o Scream & Yell sobre o Baleia Baleia Baleia. Confira:

Ouça abaixo o álbum na integra!

Como nasceu o álbum “Outra Vez Arroz” (2026) e o que é que vocês procuraram alcançar com este trabalho?
O álbum nasceu de maneira normal. Quando nos juntamos na sala de ensaios e nas passagens de som vão saindo uns riffs e algumas coisas que nós guardamos. Na realidade, há dois anos já tínhamos sido gentrificados na nossa sala de ensaios, no Porto, e fomos para outra. A atual criou alguns constrangimentos e temos ensaiado cada vez menos e agora vamos ser gentrificados novamente. Isto tem sido sempre uma demanda. Neste disco sentimos uma necessidade de nos isolarmos um pouco e o nosso técnico de som, Bruno Barroso, tinha uma sala em Chaves (cidade no norte de Portugal) e empurrámos essa vontade de construir. Porque, a certa altura, fizemos duas mini residências em Chaves para pegarmos nas ideias que reunimos e construir qualquer coisa. Foi a primeira vez que saímos para compor durante três ou quatro dias. Portanto, vem do processo normal de fazer música, estar em banda e ter menos tempo para ensaiar. Fomos apanhados numa curva, que é diferente dos outros discos. Apesar dos álbuns anteriores terem tido sempre uma toada interventiva e preocupada socialmente se calhar não estavam tão chateados. Este disco é mais desiludido. As coisas não estão muito fáceis, não vislumbramos um horizonte próspero e se calhar no mundo ninguém está preparado para este chorrilho de informação. Por essa razão, os veículos criativos servem para depositar a nossa frustração e construirmos algo que seja mais produtivo.

Sinto que no novo trabalho a banda alargou o seu espectro musical adotando uma sonoridade mais suja e, tematicamente, versaram diferentes estados de espírito. Concorda?
Concordo totalmente. Na parte instrumental, o nosso objetivo é o de integrar coisas novas e neste trabalho a bateria tem uns ritmos mais vivos do que nos outros discos. Eu e o Ricardo Cabral reparámos que a música acaba por estar em escalas maiores e a parte rítmica tem maior festividade. É um fato engraçado, porque as faixas são mais duras. Nós incluímos no álbum influências rítmicas ligadas à terra, ou seja, elementos vivos que nos deixassem mais alegres e do ponto de vista textural introduzimos efeitos que não tínhamos acrescentado antes. Foi o caso de alguns pedais que eu já usava no formato solo, que são simulações de sintetizadores, e que funcionaram bem. Sim, é um álbum mais sujo em termos sonoros. Do ponto de vista lírico, isto sempre foi um olhar para nós e para o que está ao nosso redor. Se calhar aprofundamos o niilismo. Mas, também para contrariar um pouco isso, porque faz parte do nosso processo, quando estamos muito niilistas temos de ir buscar forças dentro de nós. Por isso, abordámos a questão do hedonismo e do prazer como salvação e igualmente do abraço empático e do acolhimento. Esses tópicos são quase imposições para que não olhemos a vida da mesma forma e irmo-nos lembrando de olhar para os outros lados. Embora o panorama esteja complicado, há sempre o prazer de cantar, dançar, dar um abraço e estarmos com alguém e sentir esse calor. Isso também nos faz sentir vivos. Existe igualmente uma procura dentro de nós de razões para continuar a construir e estarmos felizes no meio desta confusão e encontrarmos um rumo.

A interventiva “Antifa Ao Contrário É Otário” conta com a participação dos músicos Evaya e Scúru Fitchádu. Como surgiu esta colaboração e como avalia o contributo que eles deram à faixa?
Para além deles, também há um coro informal de várias pessoas que nós juntamos e que foram cantar na nossa sala de ensaios, ao qual chamamos de Coro Informal Antifa. Uma das coisas que tínhamos reparado é que o Baleia Baleia Baleia ao fim de três discos e apesar de gostarmos de tocar sozinhos (embora já tenha havido um par de concertos que fizemos com Matias Ferreira no segundo baixo) sentimos que estava na altura de ter uma contribuição. Na realidade, nunca nos fez sentido ter um ‘featuring’ só porque sim, mas essa música tinha um espaço que queríamos preencher. O Scúru Fitchádu é das principais vozes anti-fascistas da cena portuguesa presente, o trabalho dele é superinteressante e nós admiramo-lo bastante. Se pensássemos em alguém para fazer uma participação conosco seria sempre a primeira pessoa. Ele mostrou-se interessado em colocar vozes, nós tínhamos a música, existiam partes em aberto e demos-lhe a abertura para escrever e cantar o que quisesse. Fomos apanhados de surpresa porque ele não pôde estar conosco e gravou à parte e mandou-nos as faixas. Quando nos enviou a sua parte ficamos super surpreendidos da maneira mais positiva. Sentimos que a música ganhou e era o que faltava. A participação da Evaya é um pouco diferente, porque veio na sequência de uma ideia que possuíamos só que pretendíamos uma segunda voz para completar. Nos concertos, tocamos uma versão da Evaya (admiramos muito o que ela faz) e depois pusemos o coro para gritar em força “Não passarão”. Já que íamos utilizar uma colaboração numa música, ao menos que fosse em força. Foi uma experiência para nós, porque nunca tínhamos passado por isto. Ter uma música, estar a gravar com alguém externo que participou nela, e como é que iriamos reagir a isso era algo de novo. Mas, foi tudo muito fixe (legal) e as ideias foram ao sítio com bastante facilidade. O coro contou com 20 e tal pessoas que participaram via WhatsApp e como não podiam estar presentes mandaram a faixa de voz e nós incluímos na música. Tratou-se de uma bela experiência e é uma das canções do disco que achamos positivas. No fundo, exprime que enquanto houver coração e soubermos dar a mão uns aos outros o ódio não passa. Era a faixa em que fazia sentido participar em conjunto com membros da nossa comunidade.

Vocês fizeram um tour no Brasil em novembro de 2024 em conjunto com Monch Monch (o projeto de Lucas Monch). Que recordações guarda dos shows, de tocar com os Tangolo Mangos e a Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e da recetividade do público brasileiro?
Tenho muitas saudades. Em primeiro lugar, focando-me nas dificuldades, quando vou para fora fico com uma melhor noção do país onde vivo. De fato, em Portugal há muitas queixas e existem imensas coisas que deviam ser melhoradas. Mas, senti uma realidade no undergound brasileiro ainda mais dura. É extremamente difícil, porque as distâncias são maiores e não é igualmente fácil arrastar público. Isso depende geralmente ou exclusivamente das bilheteiras e as pessoas estão dispostas a pagar menos por razões sociais. O que eu verifiquei é que os músicos de lá, que são incríveis, tocavam pelo Uber e pelo jantar. Deparar-nos com essa realidade também é bom, porque Portugal apesar de tudo tem um underground que é preocupado e a maior parte das associações e dos bares querem garantir que há uma dignidade no tratamento e dão-te comida e dormida ou qualquer coisa. Claro que foram todos espetaculares conosco, mas é ainda mais difícil. Isso fez-nos admirar imenso as pessoas que estão lá a tentar fazer o mesmo que nós. Mas, há o outro lado da história, porque a forma de estar e acolher é um pouco diferente. É mais alto astral e a energia está sempre em cima. Tocámos rodeados de músicos inacreditáveis e passámos uma semana na Bahia, mais concretamente em Salvador, quando decorria o Inverno em Portugal, e nós estávamos dentro do mar morno (risos). Depois, passeamos por São Paulo, Rio de Janeiro e fomos até Minas Gerais. Também tivemos muita sorte com os shows que apanhamos e esse com a Sophia Chablau e com Monch Monch lá no Rio era numa festa que é o Fechamento. Basicamente, aquilo era um escritório pequeno, mas quando fazem a festa na rua tem características muito específicas, porque passa o elétrico (bonde). Quando isso acontece, é mesmo junto aos músicos e eles têm de se encolher e depois voltam a ficar perto uns dos outros e é uma festa que arrasta centenas de pessoas para a rua. Nós, que eramos completos desconhecidos, estávamos a atuar num Rio de Janeiro carregado de pessoas. Tocar com os Tangolo Mangos em Salvador também nos garantiu uma casa cheia. Aliás, nós tivemos três ou quatro espaços repletos de público, pela forma como aquilo foi preparado. Nesse aspecto, foi o próprio Lucas Monch que organizou. Isso permitiu-nos ter uma experiência muito vasta. Desde atuar numa cozinha, que era um palco em Juiz de Fora, que foi incrível, e tocar para centenas de pessoas no Rio. Passamos um pouco por tudo e acabamos por criar amigos, porque também fizemos o tour com o pessoal que tocou com Monch Monch lá. Tratou-se do sentimento de estar em tourné, conhecer as pessoas e passar horas seguidas ao volante. Viemos completamente refrescados por uma nova cena, a admirar vários músicos que não conhecíamos e a sermos muito acarinhados. Ficamos também com a noção de que estamos num underground privilegiado onde existe uma humanização. Era importante que os espaços fossem devidamente apoiados porque a vida não são só números.

O Baleia Baleia Baleia é uma das bandas mais ativas ao nível de palco no panorama alternativo português. Ao fim de quase 300 shows realizados em Portugal e no exterior, o que é que vos continua a motivar nos espetáculos? A adesão do público ou a capacidade de se superarem como músicos?
Acho que é o todo. Há uma ânsia dentro de nós três de jogar fora os nossos demonios, digo nós três porque o Bruno Barroso sendo o nosso técnico de som principal esteve em 90% dos nossos concertos ou mais. Um dia de palco significa acordarmos, encontrarmo-nos, bebermos café, conversamos, carregarmos o material, estarmos com o corpo ativo e seguidamente entrarmos num mundo que até agora é desconhecido, que é a casa onde vamos tocar. Depois conhecemos as pessoas nesse espaço, damo-nos com elas e ficamos a saber como é que passam as dificuldades e sobre a cena. Às vezes dá para humanizar e outras não tanto e quando tocamos libertamos tudo. Quando dou um concerto sinto-me mais leve e melhor. Estou sempre a pôr tudo em causa e para quem é músico no underground a ideia de desistir é uma coisa que aparece pelo menos uma vez por ano, mas passa. Por isso, toco e fico mais feliz. É claro que ter um projeto consequente e com adesão de público amplia. No entanto, aumenta quando as pessoas estão próximas, porque quando os palcos têm dois metros de altura e o público está a 30 metros essa distância não nos faz perceber o calor. Nós adoramos tocar em palcos para muita gente pela questão dos coros como aconteceu no festival Bons Sons e no Paredes de Coura e é uma coisa que nunca tínhamos ouvido com as pessoas a cantarem mais alto do que nós. Os nossos momentos do cotidiano e as desconfianças desaparecem, diluem e toda a gente está numa catarse e fica leve. Como disse antes, ter uma banda consequente amplia esse sentimento, mas já toquei em grupos menos populares e era sempre espetacular. Adoro tocar ao vivo, viajar e comer fora. É um dia de indulgência porque como e bebo mais. Faço coisas que não faria no dia a dia ou exagero. Há também um lado desafiante que é o de pensar como é que poderei melhorar a intensidade ao vivo. Por isso, há sempre algo a aprimorar. No fundo, é uma contínua superação. Estamos a caminho dos 300 shows e pensamos como nos mantemos interessados a fazer isto. Além disso, temos de pensar que o palco é um teste à nossa capacidade de nos conectarmos com as pessoas à nossa volta.

Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Scream & Yell?
Em 2018 dizíamos que seria lindo tocar no Brasil. Entretanto, passaram-se seis anos e fizemos um tour lá (risos). Desde que isso aconteceu, a vontade é de voltar. É óbvio que há pessoas que já nos conhecem, seguem o Baleia Baleia Baleia nas redes sociais e estão atentas aos nossos passos. Acho que temos, pelo menos, a hipótese do álbum chegar organicamente a mais pessoas, que nos escutem e mandem uma mensagem para matar saudades. Atuar no Brasil novamente está no nosso pensamento. Mas, há uma dificuldade. Nós fomos lá com o apoio da GDA e de outra forma seria impossível, porque sem o apoio financeiro (sobretudo para as viagens) torna-se muito difícil de concretizar. O Baleia Baleia Baleia não tem dimensão para garantir palcos que por si só pagassem as viagens. Se não conseguirmos uma situação similar não teremos a disponibilidade para nos aventurarmos dessa forma. Ainda assim, a hipótese de voltar existe e temos vontade. Nós recebemos mensagens de pessoas que viram os nossos shows e diziam: “Voltem, voltem!”. Isso deixa-nos muito sensibilizados porque fomos bastante felizes lá. Vivemos um mês no Brasil, que é algo que não estamos habituados a fazer. A única coisa que efetuamos era atuar e nos outros dias íamos ver concertos. Era uma vida superlivre e em que tivemos um contato muito grande com a cultura underground. Os calores são diferentes e nada contra o de Portugal, mas o calor brasileiro deixa-nos imensas saudades.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é do estúdio tsunami.alert

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