texto de Paolo Bardelli
Quem sabe como Marta Del Grandi consegue fazer tudo parecer fácil? É uma qualidade, um talento incomum. Você pode pensar que tocar música complexa é difícil, mas na realidade o verdadeiro desafio é tornar suas canções sérias, bem construídas e acessíveis. E nesse aspecto, “Dream Fire” (2026) é um sucesso em todos os sentidos.
O terceiro álbum de uma das cantoras e compositoras italianas mais cosmopolitas (nascida em Milão, mas que viveu na Bélgica, China e Nepal), gravado para uma gravadora londrina, é um trabalho primoroso: completo, refinado e sem momentos banais.
Ela se inspirou no “espírito livre de Joni Mitchell, nos ecos noir de Nina Nastasia, na clareza pop de Carole King e no minimalismo contido de Agnès Obel”, mas a referência mais moderna é a de Cate Le Bon, despojada de todos os elementos sonoros que possam remeter aos anos 1980. A base fundamental das canções, porém, é um art-pop refinado e preciso, com vocais extremamente polidos que parecem construir uma montanha.
Há baladas essenciais e minimalistas, feitas de nervos e pulsações, como “20 Days of Summer”, com um refrão lânguido e melancólico que poderia até evocar o Radiohead; fragmentos selvagens e jazzísticos como “Antarctica”; riffs que parecem contorcidos, mas que se imprimem no cérebro como uma tatuagem involuntária (“Neon Lights”).
Cada canção tem seu próprio DNA único, mas, no geral, o álbum oferece um retrato coeso. Em alguns momentos, Del Grandi parece se inspirar em importantes cantoras e compositoras como Suzanne Vega (a faixa de abertura, “You Could Perhaps”), em outros, ela simplifica com um violão acústico linear (a faixa-título, “Dream Life”), mas o aspecto mais importante é a sua voz, que surge de diferentes direções, sutil, mas não excessivamente, direta, mas imprevisível, um estilo vocal que parece eterno e que parece vir de tempos distantes. Ou do futuro.
O tema do álbum é a “consciência de não poder controlar completamente o futuro”, que é — em uma análise mais atenta — o ponto de partida para direcioná-lo da melhor maneira possível. Se nos concentrarmos apenas no que podemos realmente mudar ou direcionar, e confiarmos no acaso, no destino ou em Deus para “o que não podemos mudar”, então talvez nossos esforços sejam mais bem-sucedidos.
Além disso, a sensação de “sonho” é muito forte desde o título, talvez mais presente na letra do que na música, que quase não tem nada de etéreo.
“As coincidências e os encontros me levaram de volta ao tema dos sonhos, das memórias e das reminiscências, uma dimensão em que a percepção do real e do irreal se torna tênue e, muitas vezes, indistinguível’, explica Marta. “As canções refletem essa atmosfera e a articulam em diferentes direções, com momentos mais introspectivos e trechos mais surreais e fantasiosos. Todas as canções têm uma conexão com o tema, com uma interpretação ampla””, completa.
Sonho ou material, “Dream Life” nos apresenta uma artista no auge de seu poder expressivo, sem se distrair com nada além de seu desejo artístico. Para onde ela pode ir? Para muito, muito longe.
Texto publicado originalmente no site italiano Kalporz, parceiro de conteúdo do Scream & Yell.