Entrevista: Ironias fala sobre volta à cena com “Odisseia Emergente ao Fracasso”

entrevista de Alexandre Lopes

Fundado em 2014 pelo vocalista e guitarrista Jacintho, entre Leme e Jundiaí (interior de São Paulo), o Ironias surgiu no circuito punk/DIY com uma linguagem crua, poética e politizada que dialogava com a urgência do pós-punk. Enquanto estava na ativa, foram dois EPs e muito pé na estrada, principalmente pelo Sul do país. Mas com o caminho iminente de viver em um mundo que acelera enquanto se esvazia, o grupo se viu em um período de hiato, com seus integrantes concentrando-se em outros projetos artísticos, profissionais e acadêmicos.

Dez anos depois, o grupo retorna reformulado, agora com Jacintho, Cely Couto (bateria), Matheus Campos (guitarra) e Lucas Rosa (baixo). “Odisseia Emergente ao Fracasso”, álbum que marcou o retorno do Ironias em 2025, nasceu justamente deste intervalo: do acúmulo de experiências, da fricção entre passado e presente, da necessidade de dizer algo quando tudo parece já ter sido dito ou automatizado.

Com 11 faixas, o álbum transita entre indie rock, pós-punk e punk-hardcore, equilibrando peso, fúria, delicadeza e contemplação. As guitarras alternam entre cortes secos afiados e a atmosfera etérea de cordas embebidas em reverb; a base rítmica sustenta um terreno pulsante; e a voz de Jacintho conduz uma poesia existencialista marcada por paradoxos, distopia algorítmica, exaustão contemporânea e pequenas epifanias que surgem em meio às ruínas digitais e emocionais da contemporaneidade.

Mais do que uma volta, o álbum funciona como uma espécie de manifesto tardio sobre tabalho, tecnologia e sobrevivência. A própria arte da capa, assinada por Diogo Robert de Lima com finalização de Lari Limoeiro, reforça essa ideia ao propor um sistema de ideogramas que permite “ler” o disco visualmente, como se cada faixa fosse parte de uma jornada simbólica maior.

Nesta entrevista ao Scream & Yell, Jacintho fala sobre o que aconteceu durante os dez anos de hiato do Ironias, como a banda mudou nesse intervalo, as referências filosóficas e musicais que atravessam o disco e os desafios de voltar a existir enquanto banda em um cenário cada vez mais mediado por plataformas. “Odisseia Emergente ao Fracasso” não promete um final feliz, mas oferece algo honesto: seguir em frente mesmo quando o destino torce contra tudo e todos.

O que aconteceu com a banda durante esses dez anos parada? Em que momento vocês perceberam que era hora de voltar?
Cada um acabou se concentrando em outros projetos específicos, tanto artísticos/musicais quanto profissionais e acadêmicos. Eu me dediquei absolutamente ao meu projeto solo, numa pesquisa na música latina que gerou em 2019 o disco “Tropical Desespero” onde me concentrei até o período da pandemia e posteriormente me engajei mais na atuação como produtor cultural, na idealização e realização do Festival MIGRA no interior de SP. Lucas Rosa também passou por vários processos profissionais, mas seguiu vivendo o underground com bandas como Antes da Queda e Mogi. Cely e Matheus se dedicaram muito nesse período ao coletivo Pé de Macaco em São Carlos (SP), responsável por dar um grande suporte no underground no interior. E na pandemia eles criaram a Cáustico, que é um duo de noise-rock super experimental, com som denso e atmosférico.

Acho que o chamado ao retorno do Ironias inicialmente partiu de mim, até porque é um projeto que eu havia começado solo, então tenho uma relação muito íntima com essa construção. Durante esse período todo, muita coisa que eu havia escrito e que compusemos me tocava absurdamente, sobretudo nessa disrupção tecnológica, a reflexão sobre o trabalho dentro desse contexto, tudo isso é muito intrínseco na narrativa do Ironias. Acho que esse apelo no presente sobre algo que a gente já refletia no passado foi o que conduziu. A partir disso chamei o Lucas e Matheus pra conversar e de cara a gente já tinha em mente a Cely como a pessoa certa pra estar conosco nessa nova fase.

Com esta nova formação, como cada integrante influenciou o som e a identidade desse renascimento? Mudou o processo de composição e gravação em relação a antes?
Nós tivemos a chegada da Cely que já conhecia muito o Ironias, acompanhou vários shows, tinha uma relação próxima, então já se identificava na linguagem e no contexto da proposta. Na identidade, estética sonora e narrativa, eu acho que isso já veio pra essa fase de modo bem claro porque apesar de até então termos apenas dois EP’s como banda, a linguagem era bem definida pra nós. O Ironias tinha um mood sombrio e extremamente enérgico, nesse novo trabalho conseguimos abrir uma brecha pra uma intenção um pouco mais solar e até contemplativa, com mais aplicações técnicas melódicas e poéticas. Acho que muito em virtude de novas referências que assumimos nesse período de hiato.

Penso que nosso modo de operar essa nova fase mudou um tanto, porque tem sido um retorno quase que EAD (risos), pois estamos divididos em três cidades diferentes no interior. Então antes eu chegava nos ensaios com uma base da composição e fazíamos o arranjo juntos ali, na hora. Hoje esse processo é por etapas e à distância: eu levanto uma pré-demo simplificada, ajustando mais harmonia, letra, intenção e depois cada um vai incluindo/gravando seu arranjo individualmente, aí quando nos encontramos a gente fecha as ideias.

“Odisseia Emergente ao Fracasso” é um título que já carrega pessimismo e um certo peso, que também é traduzido no punch da maioria das faixas. Você diria que o título reflete a questões pessoais da banda ou o estado do mundo em que vivemos agora?
A construção narrativa do Ironias é muito baseada na literatura da filosofia existencialista, obviamente atravessado por fatos e contextos sociais contemporâneos. Então são abordagens que vão desde uma relação melancólica e visceral de caráter íntimo até a reflexão dos processos de exploração imperialistas, a relação humana com o trabalho, com a disrupção tecnológica, a disfunção social, enfim. Dentro de um ponto de vista não necessariamente do afrontamento, mas de como esses modos nos afetam.

Quais foram as principais referências sonoras e culturais para a criação deste álbum?
Na estética sonora talvez alguns pontos convergentes nas referências que levantamos estejam em artistas e bandas mais contemporâneas que buscam ressignificar a estética e a leitura do punk, pós-punk, do rock de modo geral, como Idles, Viagra Boys, Metá Metá e até mesmo Boogarins. Mas ali no fundo o que nos pega de fato em sinergia é a influência do pós-punk, da dark-wave, sobretudo artistas como Bauhaus, Gang of Four, Siouxsie and the Banshees e ao lado a construção do punk-hardcore com Black Flag. Individualmente, a gente trouxe muita coisa que potencializou essa criação, sobretudo o Matheus, que é um cara que tem uma capacidade impressionante de criar sons, texturas e atmosferas com os pedais e a guitarra. É uma virtude da Cáustico e que ele soube abordar muito bem nesse processo do Ironias.

Na construção poética que cabe a mim, a narrativa existencialista permeia a filosofia e é um processo de conhecimento de autores e títulos que foram me afetando ao longo da vida, que vai do “Alienista” de Machado de Assis a “Notas do Subsolo” de Dostoiévski, passando por Nietzsche, Bauman, Hakim Bey, Pierre Levy e tantos outros. Mas a lírica, a adequação poética, as métricas, a construção da musicalidade e ritmo das letras é essencialmente influenciada pela música brasileira. Por Gilberto Gil, por Cátia de França, por Djavan e Jards Macalé, que tinha uma capacidade absurda de abordar a melancolia, o caos e o desprezo com uma visceralidade poética incrível.

A arte da capa de “Odisseia Emergente ao Fracasso”, do Ironias

A capa tem um glossário de ideogramas que permite “ler o álbum”. Como foram as tratativas com Diogo Robert e Lari Limoeiro para o conceito?
O Diogo tem muita sensibilidade na criação simbólica dos seus trabalhos, a gente já se conectava muito desde a primeira fase do Ironias e sempre dialogamos muito sobre esses processos até porque ele já acompanhava a maneira com o que eu construía narrativas também. Apresentamos um apanhado de referências bem diversificado, sugerindo uma base de paleta de cores, mais as letras e as músicas pra ele sacar o universo. A ideia era construir algo “emoldurado” independente do conteúdo. O ponto crucial é que fosse uma construção simbólica dele, da maneira como ele sentia essas músicas e a nossa narrativa, absolutamente sem necessidade nenhuma de ser objetivo. E por fim ele chegou com várias ilustrações e um glossário de ideogramas, o que trouxe uma magia pra capa pela quantidade de detalhes e pelas possibilidades de interpretações. A Lari entrou no processo de montagem do layout e colorização, que calhou exatamente com a intenção visual que a gente tava buscando.

A vida de músico independente já não era muito fácil, mas agora depois de dez anos, como é que está sendo voltar para vocês?
Sem dúvida o impacto do algoritmo atrelado às grandes majors no streaming, as dinâmicas de tráfego pago e afins geram um grande processo de sufocamento da música independente.Há 10 anos atrás a gente tinha ao nosso favor a capacidade de mobilização social coletiva, fazendo festivais, shows, feiras e afins. A gente lidava com uma comunidade mais aberta e potencial à mobilização para sair de casa a fim de conhecer música nova. Tanto que a gente se conheceu e se formou nessas experiências coletivas. Hoje esse seria o principal reflexo na dificuldade de construção de público; as pessoas têm definido seus gostos através do algoritmo, não mais necessariamente através de uma experiência de busca, de apreciação, de movimentos que ocorrem ao seu redor. E no fim, somos 4 millennials tentando se comunicar com praticamente 3 gerações (contando a nossa), sendo que absolutamente todas estão impactadas e acomodadas a essa nova dinâmica. Não da música e dos artistas, mas sim a maneira que a tecnologia criou um novo processo de industrialização e distribuição da música.

Além do lançamento do novo disco, o que mais vem por aí? Quais são os próximos planos da banda?
Tocar o que não tocamos nos últimos dez anos (risos). Na verdade é um novo processo de reconhecimento do público, a gente se reconectando com quem já conhecia o projeto e estabelecendo novos vínculos com quem tá ouvindo pela primeira vez. O grande problema é sermos engolidos pela necessidade de produção de conteúdo para que nosso som gire e chegue às pessoas através das vias virtuais – essa tem sido nossa mimética vida sentenciada à adaptação (risos). Mas de toda forma, em dezembro já tivemos duas datas no interior e para 2026 o propósito é fazer ainda no primeiro semestre uma circulação em SP e mais algum estado vizinho. Com o álbum na rua, agora a gente tá começando a bater esse planejamento.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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