“Magnum” é uma boa surpresa que faz valer a pena vencer o ceticismo com a Marvel

texto de Davi Caro

Por vários motivos, “Homem de Ferro” (2008) ainda é um dos feitos mais admiráveis no cinema mainstream dos últimos 25 anos. Não apenas por ter, como o primeiro passo independente do recém-formado Marvel Studios (ainda que com o apoio generoso da Paramount), sido a pedra angular do que eventualmente se tornaria o multi-bem sucedido Universo Cinematográfico Marvel (ou MCU). Ainda que pertença a um passado já um pouco distante, é fato que um longa-metragem dirigido por um ator de pouca fama, protagonizado por outro ator de reputação, no mínimo, complicada, e baseado em um personagem pouco conhecido pelo público em geral não era exatamente uma aposta certa. Mas a direção de Jon Favreau se provou a estratégia certa, e Robert Downey Jr. deu a volta por cima na própria carreira ao transformar o alter-ego do bilionário Tony Stark em um ícone pop.

Mas isso foi há muito tempo atrás. Em 2026, mesmo a proposta de trazer de volta o mesmo Downey Jr. em um papel paradoxalmente muito similar, e muito diferente, do que popularizou antes não é o suficiente para gerar engajamento de audiências em uma narrativa compartilhada que vem mostrando inescapáveis sinais de desgaste – algo que já se estende por alguns anos. E ainda que o vindouro “Vingadores: Doutor Destino” consiga replicar ao menos um pouco do triunfo alcançado pelo par de arrasa-quarteirões que foi “Guerra Infinita” (2018) e “Ultimato” (2019), o crossover dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo dificilmente agregará a boa vontade de antigos fãs (já habituados ao nível decrescente de qualidade nas produções recentes) ou novos seguidores (estafados com o excesso de projetos cinematográficos centrados em adaptar super-heróis dos quadrinhos).

O que é uma pena. Afinal, o mesmo desgaste causado pela equivocada equação “quantidade acima de qualidade” dos estúdios capitaneados por Kevin Feige acaba fazendo com que pontuais iniciativas dedicadas a uma abordagem mais fresca acabem passando por baixo do radar de muita gente. O que nos leva a “Magnum” (“Wonder Man”, 2026), nova série ambientada no mesmo universo cinematográfico iniciado em 2008, e que emprega muitos dos mesmos elementos… com objetivos e resultados fundamentalmente diferentes. Com o diretor Dustin Daniel Cretton (que já trabalhou com a Marvel em “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, de 2020) por trás das câmeras ao longo da maioria de seus nove episódios, o projeto, disponível via Disney+, é tudo o que quase todas as últimas investidas da mesma empresa para o cinema e o streaming não são. E, por isso mesmo, é tão especial.

(Importante mencionar aqui – mesmo que provavelmente já esteja claro – que o “Magnum” que dá nome à série nada tem a ver com o investigador particular de bigode vivido por Tom Selleck na série homônima dos anos 80.)

Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II) é um jovem ator em busca de uma grande oportunidade de deixar sua marca em Hollywood. Talentoso, embora perfeccionista e ensimesmado, o rapaz também esconde um grande segredo: por meio de circunstâncias meramente aludidas, ele possui poderes especiais que luta para manter sob controle. Isso porque, por motivos que a série (hilariamente) explica, todos os grandes estúdios de cinema vêm continuamente barrando indivíduos dotados de habilidades sobre-humanas de participarem de projetos cinematográficos. Assim, Williams luta para se afirmar junto à própria família, de origem haitiana, e em meio ao concorrido e desleal ambiente no qual escolheu caminhar. E o que parece ser sua grande chance finalmente aparece de duas maneiras: primeiro, na forma de uma oportunidade de participar de uma audição para o remake de um clássico filme de super-heróis dos anos 80, chamado “Wonder Man”, dirigido pelo celebrado diretor autoral Von Kovak (Zlato Buric). A segunda, e mais improvável, se materializa em um encontro ao acaso com Trevor Slattery (Ben Kingsley), o ator de raízes britânicas mais conhecido por ter, anteriormente, se mostrado ao mundo como o “terrorista” Mandarim, cujas ameaças (fantasiosas) foram frustradas pelo já citado Tony Stark (como visto em “Homem de Ferro 3”, de 2013). Com uma visão idealista do cinema e da atuação como um todo, Slattery decide agir como um mentor para Simon, por razões completamente altruístas (ou não), enquanto procura retomar sua vida e deixar seus dias de senhor da guerra de faz-de-conta para trás.

O grande diferencial de “Magnum” está em seu enredo: é preciso certo nível de esforço, na maior parte do tempo, para que se possa lembrar de que esta é uma série de super-heróis. E o motivo vai muito além do fato de a produção centrar foco em um personagem lado C do universo dos quadrinhos: muitos dos dilemas enfrentados pelo personagem homônimo são, dadas as devidas proporções, bastante ordinários. Não é a primeira vez que o Marvel Studios envereda por caminhos que escapam à rotina tradicional de narrativas super-heróicas – vide o subestimado “Lobisomem Na Noite”, de 2021, pesadamente calcado no horror – mas nunca da mesma forma que aqui. Se a grande vantagem da Marvel em relação à sua Distinta Concorrência sempre foi o de situar suas histórias em um mundo mais diretamente inspirado na realidade habitada pelos leitores, “Magnum” eleva esse senso de familiaridade à enésima potência, e o resultado final reflete esse esforço consciente.

E o elenco se mostra mais do que disposto a trabalhar à altura da tarefa. Especialmente quando se trata do intérprete central: Yahya Abdul Mateen II é bem familiarizado com a experiência de viver personagens repletos de dualidades (como em “Candyman”, de Nia DaCosta, de 2022) e cheios de nuances e complexidades (tal qual seu Dr. Manhattan em “Watchmen”, de 2019). Aqui, enfocando a humanidade e as inseguranças inerentes a todo ser humano – super-poderoso ou não – Mateen mira no cerne da essência de um herói pouco conhecido, e acerta em cheio ao revitalizar o que a maioria das pessoas busca em histórias do tipo, para começo de conversa: falibilidade, conflitos internos e necessidades afetivas tão realistas quanto poderiam ser.

E seu Simon Williams brilha mais ainda quando pareado com a atuação sublime de Ben Kingsley. Aliás, é impressionante ver o arco traçado por este último em sua jornada dentro do MCU. De um falso antagonista que provocou a ira de fãs fundamentalistas das HQs quando de sua primeira aparição, em 2013, passando por uma breve participação no já mencionado “Shang-Chi”, a figura de Trevor Slattery agora se converte por completo em um coadjuvante mais bem desenvolvido, aprofundado na medida certa e com sua própria dose de dilemas. Kingsley, carismático como sempre, rouba todas as cenas em que participa, sem exagerar na canastrice controlada e trazendo toda uma nova dose de magnetismo para a trama como um todo.

Todos os outros coadjuvantes cumprem papéis que vão do previsível ao inesperado: o desempenho do croata Zlato Buric como o diretor Von Kovak foca, perigosamente, no mesmo tipo de excentricidade explorado pelo ator em seu pequeno papel em “Superman” (2025), o que pode passar a nítida impressão de unidimensionalidade e pouca versatilidade; o mesmo pode ser dito de Arian Moayed, que aqui reprisa o papel do agente governamental P. Cleary, responsável por monitorar e suprimir atividades de meta-humanos e que vê em Simon, naturalmente, uma ameaça em potencial. No entanto, apesar de já haver aparecido na pele do personagem anteriormente (mais recentemente na série “Ms. Marvel”, de 2022), pouco ou nenhum desenvolvimento de personagem pode ser notado aqui. É lastimável, em contrapartida, pensar que mais tempo poderia ter sido dedicado à carismática comediante X Mayo, que aqui vive a empresária de Simon, Janelle Jackson, ou mesmo às participações especiais de grandes nomes, como Josh Gad e Joe Pantoliano, que interpretam a si mesmos e ajudam a encaminhar o enredo com mais agilidade. Ressalvas à parte, o argumento ainda assim só funciona tão bem por se ancorar na química louvável entre seus dois elementos principais.

Pensando em valores de produção, não demora para ficar claro que “Magnum” faz muito mais com muito menos do que a média dos filmes e séries relacionados à temática de heróis. Filmado em locações reais e se utilizando de grandes efeitos visuais com parcimônia, a série tem muito mais a ver com a incrível “O Estúdio”, de Seth Rogen, do que com “Quarteto Fantástico” (2025), por exemplo. Além de representar um rompimento com a estética multicolorida e extravagante da maioria das grandes tramas que explora, a produção também ajuda a conceber um futuro não muito distante onde o padrão formulaico e cansado do estúdio responsável por dois dos maiores sucessos de massa dos tempos recentes dará lugar à visões mais autorais de narrativas, no qual o mundano possa se sobrepor ante o fantástico e onde os expectadores passarão a ver os heróis das telas com admiração, mas, sobretudo, com auto-identificação e respeito. Se o agora desgastado MCU vai, nas palavras do próprio manda-chuva Kevin Feige,, “passar por um sutil reboot” após as duas novas grandes produções dos Vingadores (a segunda das quais, “Guerras Secretas”, chega aos cinemas em 2028), “Magnum” indica um futuro promissor não por perpetuar tradições engessadas e redundantes, mas por saber o que faz de melhor e não procurar ser o que não é. Refletir sobre quando foi que um projeto de super-heróis (e no streaming, ainda por cima) soube levantar tantas questões de maneira tão espontânea e honesta já diz muito sobre o poder que o roteiro certo, com os intérpretes certos, no momento certo, é capaz de fazer.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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