texto de Fernando Yokota
Na década de 1930, Theodor Adorno denunciava uma forma pobre de música que ganhava popularidade por sua suposta acessibilidade, seja por sua “simplicidade” ou pela possibilidade de adquiri-la na forma de gravações em disco: o frankfurtiano tinha em sua alça de mira o jazz.
Avance para o presente e temos o rock, ou pelo menos sua vertente mais tradicional, como o Adorno de 2026 reivindicando um certo “lugar de virtude”, não raramente escorregando para a versão da cultura pop da “tradição e dos bons costumes”. O gênero, no entanto, resiste por diversos meios, mas tomemos a nostalgia, que em princípio seria princípio ativo unicamente a serviço de um discurso esteticamente conservador, como objeto de interesse e que tem no lineup do Lollapalooza Brasil deste ano dois exemplos notáveis.
Deftones e o “pêndulo da nostalgia”
“White Pony”, clássico indisputável dos Deftones, foi lançado há 26 anos. A distância entre o Lollapalooza 2026 e o lançamento do álbum é a mesma que a distância entre o “White Pony” e “Sheer Heart Attack” do Queen ou “Gita” de Raul Seixas.
Existe uma ideia de que, na cultura pop, ocorre a cada duas ou três décadas o que chamam de “pêndulo da nostalgia”, ou seja, algo que um dia foi moda, deixou de ser e agora volta a ser. No caso dos Deftones, o fogo no mato seco acontece por conta de meios como o Tik Tok, que concederam à música dos californianos o poder da transcendência geracional. Uma banda que, em seu pico, encheu casas de médio porte, agora não só é co-headliner em grandes festivais como também quebra a barreira do nicho de “banda de metal”, coabitando posters com artistas como Sabrina Capenter e Tyler, The Creator, sendo ressignificada como trilha sonora de sexo para uma Geração Z.

O liquidificador de estilos do Turnstile
Na outra ponta do fim de semana no Autódromo de Interlagos temos o igualmente co-headliner Turnstile, que integra uma onda de regeneração da imagem da cidade de Baltimore, por muito tempo entendida como sinônimo de violência urbana e degradação nos Estados Unidos.
A cidade encontra um lugar peculiar na psiqué estadunidense, uma espécie de fênix relutante da geração Z, que tenta renascer das cinzas do capitalismo tardio e que acolhe figuras como Luigi Mangione (este, natural de Baltimore) como estandartes da resistência contra um sistema que os abandonou.
Ainda que de forma menos controversa que no caso de Mangione, o Turnstile representa a geração que ressignifica o rock através de um coquetel de diversidade social (Franz Lyons, baixista, é negro e Meg Mills assumiu uma das guitarras em 2023) e de estilos, com a banda misturando hardcore, yacht rock e reggae em músicas de três minutos.
Esse “liquidificador musical” só funciona pelo fato da banda fazê-lo de forma orgânica, expressão de uma geração que é capaz de ver Bad Brains, The Specials e o Police como um espectro de influências, sem a lente do sectarismo musical.
O headliner, essa figura mística
Seja pela ressignificação por parte dos fãs como no caso dos Deftones, ou pela abordagem ecumênica de estilos do Turnstile, o lineup do Lollaalooza, analisado do ponto de vista do rock, gera interesse por propor uma resposta para uma pergunta que os fãs se relutam em fazer: quem encabeçará os festivais depois que os Metallicas, os Iron Maidens e os AC/DCs aposentarem?
Neste podcast, Kam Haq, curador do Download Festival no Reino Unido para a Live Nation falou, entre outras coisas, sobre a dificuldade de se encontrar (e produzir) novos headliners atualmente. Vale a pena ouví-lo!
Curiosamente, o Brasil tem lugar peculiar nessa questão. Nos últimos anos, artistas como o System Of A Down, Bring Me The Horizon, Evanescence e, recentemente, o Avenged Sevenfold, fizeram no país suas maiores apresentações fora de festivais, mostrando um provável caminho que o mapa dos festivais possa seguir.
A partir dessa perspectiva, o Lollapalooza de 2026 passa a ser terreno etnográfico fértil. Para quem as bandas vão tocar? Qual a idade dessas pessoas? O que elas escutam? Exageros à parte, são questões que estão diretamente relacionadas à manutenção do rock como commodity cultural relevante, absolvendo-a do destino de ser trilha sonora de charutaria e motoclube pelo resto da eternidade.

– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/