My Chemical Romance em São Paulo: George Orwell teria muito do que se orgulhar

texto de Davi Caro
fotos de @bmaisca

Houve um tempo em que, por algum motivo estapafúrdio que a história parece ter procurado enterrar, a palavra “emo” podia ser quase ofensiva. Não era nada legal ser chamado assim, especialmente se o tal apodo vinha de alguém usando alguma camiseta de alguma banda de metal obscura (ou não), coturnos e pins de alguma banda punk obscura (ou não). Claro, havia aqueles que se orgulhavam em serem chamados assim. Em retrospecto, talvez houvesse muita coisa para se orgulhar, mesmo: assim como em qualquer período da história da arte, a primeira década dos anos 2000 trouxe muito de memorável, e muito que poderia – ou deveria – ser facilmente esquecido. Acima destes dois extremos, no entanto, existem obras que se sobressaem. Trabalhos que rompem amarras de qualquer gênero, reducionista ou não, e fogem do efêmero em prol de mirar no atemporal. E é nesse microcosmo que habita “The Black Parade”, terceiro disco de estúdio do My Chemical Romance, lançado originalmente em 2006.

Quando se alastraram as notícias de que a banda norte-americana – formada por Gerard Way (vocais), Ray Toro (guitarras), Mikey Way (baixo), Frank Iero (guitarras), e acrescida do baterista Jarrod Alexander – retornaria ao Brasil pela primeira vez em 18 anos, após interromper suas atividades em 2013, a repercussão pegou a todos de surpresa. Não pelo previsível apelo que esta turnê (que também passou pelo Chile, pelo Peru e pela Argentina) teria junto aos fãs de longa data, que acompanharam o lançamento da breve discografia do grupo em tempo real, mas sim pela forma celebratória com a qual o anúncio foi recebido pelas gerações mais novas. Tal foi a cena testemunhada na noite do último 05 de fevereiro, quando uma multidão multi-geracional lotou o Allianz Parque, em São Paulo, para o primeiro dos dois shows que o quinteto faria na capital paulista. Os únicos, aliás, desta turnê em solo brasileiro. E, ainda por cima, com um acréscimo: seguindo a proposta dos shows que vinham recentemente realizando no exterior, estas apresentações tinham como principal chamariz a execução, na íntegra, de seu disco mais celebrado, às vésperas de seu vigésimo aniversário.

The Hives

O que prometia ser uma noite memorável em muitos sentidos não poderia ter começado de forma diferente: afinal, o My Chemical Romance trouxe ninguém menos do que o The Hives como sua luxuosa atração de abertura. Sim, os suecos vêm estreitando cada vez mais seus laços com o Brasil e com a América Latina; sim, não faz muito tempo que eles estiveram aqui pela última vez; sim, a hiperatividade cênica do quinteto, e, sobretudo, do frontman “Howlin’” Pelle Almqvist, pode ser um pouco demais às vezes. E, mesmo assim, os “Scorpions do indie rock” (como observado por um membro do público, em alusão ao combo alemão de hard rock e sua igualmente terna relação com audiências tupiniquins ao longo dos anos) fizeram, com seus curtos 50 minutos, e tocando para um público alheio, o que a maior parte das bandas não conseguiria fazer “jogando em casa”, com o dobro do tempo.

Interessante, inclusive, notar a maneira com a qual as canções do Hives servem ao legado do rock garageiro do início do milênio da mesma maneira que os registros do My Chemical Romance o fazem junto a seu próprio nicho: dizer que um set list que contém “Tick Tick Boom”, “Walk Idiot Walk” e “Hate To Say I Told You So” é capaz de levantar qualquer multidão melancólica é, no mínimo, uma redundância. Acompanhado pelos guitarristas Nicholaus Arson e Vigilante Carlstroem, o baixista Dr. Matt Destruction e o baterista Chris Dangerous, Almqvist correu, pulou, foi para o público e falou português – um idioma com o qual o cantor vem se familiarizando bem – enquanto vestia, como seus colegas, uma roupa adornada de cordões de luzes que complementaram bem um show curto, no qual mesmo faixas dos discos mais recentes, “The Death of Randy Fitzsimmons” (2023) e “The Hives Forever Forever The Hives” (2025), figuraram. Foi curto, mas bonito.

My Chemical Romance

Eram quase 21 horas quando, após ajustes protocolares, um homem vestido de zelador entrou no palco, brandindo uma vassoura como se estivesse limpando o chão. O que se seguiu foi uma procissão de atores e atrizes, em antecipação à entrada da própria banda, uniformizada com os trajes que figuraram nos climáticos clipes dirigidos por Mark Webb, à época de “The Black Parade”. Atuando tanto quanto os outros membros do elenco presentes no palco, e precedidos por um vídeo no qual um locutor estoico introduz brevemente alguns detalhes da trama que vai suceder, os músicos iniciam a primeira parte do espetáculo, no qual atravessam o repertório do celebrado disco em sua ordem original. E a recepção não poderia ter sido mais calorosa: o volume ensurdecedor dos gritos dos seguidores dedicados parecia surpreender até mesmo a própria banda, que mesmo assim demonstrou esforço em se ater aos personagens que vivem ao longo da história.

Está aí um ponto importante a ser discutido: a trama apresentada em si. Embora alguns detalhes tenham sido deixado claros através das aparições de vídeos nos grandes telões presentes no palco (claramente inspiradas em vídeos de propaganda européia e soviética da metade do século XX), muitos elementos são mantidos nas sombras, até mesmo a fim de ampliar a sensação de imersão no show. O uso de um idioma fictício, chamado “keposhka” (que fez sua primeira aparição nas apresentações do ano passado), na representação de mensagens e slogans ao longo da noite, só ajuda a aumentar o mistério da narrativa que envolve um macabro manicômio controlado por opressivos guardas, vestidos com uniformes militares e tapa-olhos, e onde os membros do grupo servem como uma espécie de grupo residente. Muito disso, no entanto, fica aberto à interpretação, o que também vêm gerando teorias mil em meio à fanbase da banda.

Mas o mais digno de nota – como não poderia deixar de ser – é a música: com um time seleto de músicos se ocupando de instrumentos auxiliares, como os teclados (a cargo de Jamie Muhoberac) e violino (cortesia de Kayleigh Goldsworthy), é palpável, e inegável, o comprometimento dos cinco principais integrantes em preservar os arranjos e atmosferas originais do álbum. “The End.” inicia o show de modo bombástico, embora seja iniciada pelo violão de Ray Toro. O ritmo engata, porém, a tempo das agitadas “Dead!” e “This is How I Disappear”, onde o trabalho percussivo de Jarrod Alexander se faz destacar mais. É após “The Sharpest Lives”, porém, que o primeiro grande momento da noite se faz presente: “Welcome to the Black Parade” é entoada por todos os presentes, em uníssono, como uma espécie de mantra. No palco, os dois guitarristas se alternam também nos backing vocals, com Frank Iero se concentrando em melodias e partes rítmicas enquanto Ray Toro (que lembrava um pouco Max Cavalera, em alguns rápidos momentos) se encarregava dos ótimos solos.

My Chemical Romance

No entanto, desde o começo, todas as atenções se voltaram para Gerard Way: magnético, intenso em suas expressões faciais e linguagem corporal, e sem poupar as próprias cordas vocais, o cantor deu tudo de si em uma interpretação que remete, ainda que muito levemente, à imposição populista cheia de conflitos de Bob Geldof em “Pink Floyd: The Wall” (1982). Além de conduzir a audiência com maestria na dobradinha “I Don’t Love You”/”House of Wolves”, sem romper o personagem em nenhum momento, Way desfila pelo palco, interage com figurantes (um, em particular, é o principal coadjuvante da história), com um fantoche, na sinistra “Cancer” e com um olho gigante, que acentua a subtrama de paranóia e vigilância orwelliana presente durante o show.

Com uma vocalista devidamente caracterizada fazendo as vezes de Liza Minelli (que participou das gravações do disco) na climática “Mama”, o My Chemical Romance deu início à segunda parte do disco, que teve continuidade com a ótima “Sleep” e uma brilhante “Teenagers”, também acompanhada em coro pelo público. “Disenchanted” também incluiu um show de luzes em meio ao público, que acompanhou com as lanternas dos celulares, e “Famous Last Words”, com um impressionante show pirotécnico cheio de chamas por todos os lados do palco, trouxe um épico e hipnotizante clímax para um show recheado de momentos épicos e hipnotizantes. Mas, quando todos já pensavam ter visto o encerramento da primeira parte do show (algo indicado pela reprise de “The End.”), veio a faixa-bônus “Blood”, na qual Gerard Way, trajado como médico, “eviscerou” o principal coadjuvante do show, que foi trazido ao palco sobre uma maca. Com sangue falso espirrando, e sob gritos e aplausos do público, os integrantes da banda, ainda caracterizados, foram removidos por “guardas” do manicômio, e o dramático final do repertório de “The Black Parade” foi sucedido por alguns minutos de chiados nos telões, acompanhados de uma violoncelista, sozinha, na penumbra.

Mas é claro que havia mais. Muito mais: já sem os uniformes sombrios, muito mais despojados e à vontade fora dos personagens que interpretaram até então, os músicos voltaram ao palco, dando sequência a um set que revisitou seus discos anteriores e posteriores. “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)” – do derradeiro “Danger Days: The True Lies of the Fabulous Killjoys” (2010) – foi ovacionada, enquanto “Skylines and Turnstiles” (do debut do grupo, “I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love”, de 2002) e o lado B “Heaven Help Us” apelaram para a parcela mais hardcore da fanbase. “The World Is Ugly” (da coletânea “Conventional Weapons”), antecedida por um falante, e berrante, Gerard – que agradeceu ao elenco que participou da execução de “The Black Parade”, fez piadas, e mencionou o fato de esta ser não apenas a primeira turnê completa da banda pela América Latina, como também os dezoito anos que se passaram desde sua última visita – figurou pela primeira vez no setlist desta turnê.

My Chemical Romance

“Hang ‘Em High” (“Para a melhor banda do mundo, o The Hives”, de “Three Cheers for Sweet Revenge”, 2004) e “Thank You for the Venom”, em seguida, foram incríveis, e prepararam o terreno tanto para o hit “I’m Okay (I’m Not Okay)” (também de “Three Cheers…”) quanto para outra estréia nesta excursão: “Cemetery Drive”, dedicada por Way ao amigo e parceiro Gabriel Bá – co-criador da série em quadrinhos “The Umbrella Academy” – e seu irmão, o também quadrinista Fábio Moon, que estavam presentes no Allianz. Exaustos, os integrantes do MCR eram só sorrisos quando encaminharam o show para o fim: primeiro com a sensacional “Headfirst for Halos”, e, em seguida, com uma previsível, porém não menos catártica “Helena”.

A guitarra de Ray Toro, escorada nos amplificadores, ainda reverberava microfonia quando o quinteto deu adeus ao público, que começou a esvaziar o estádio. Ficou, por um momento, a esperança de um bis, que não veio. Mas não é como se precisasse: com um repertório de 24 músicas, incluindo aí um trabalho ambicioso, meticuloso, e angular apresentado do início ao fim, não houve quem não tivesse ficado satisfeito com o Espetáculo (sim, com E maiúsculo) presenciado no estádio do Palmeiras. É certo que houveram repetitivas falhas no telão – que apagava e retomava a transmissão aleatoriamente – e o som, em determinados setores das arquibancadas, se mostrou um pouco embolado, tornando difícil entender alguns dos comentários do frontman.

O bom humor esbanjado pelos membros da banda, no entanto, é um mais do que bem-vindo contraste com os tópicos pesados abordados por sua música, e sobretudo em sua obra-prima. Pode parecer hipérbole barata chamar “The Black Parade” de “o ‘The Wall’ da geração Millenial”; em termos de primor cênico, requinte narrativo, e ambição sonora, entretanto, os paralelos com o trabalho do Pink Floyd se tornam mais inegáveis. Trata-se, sim, de um show digno de um dos mais notáveis álbuns dos anos 2000, concebido, em grande parte, por um nerd viciado em quadrinhos – difícil não ver acenos ao futuro totalitarista de Alan Moore em “V de Vingança” aqui – e interpretado (de mais de uma forma possível) por um time de performers que amadureceu, soube respeitar o próprio legado e também o próprio hiato (alô, Los Hermanos) e soube entender a importância da obra que deixou, não com servitude, mas com dignidade. Que o My Chemical Romance volte mais vezes, e não espere outros 18 anos: o termo “emo” pode, outrora, ter sido sinônimo de xingamento, e depois pode até ter caído em desuso, como uma relíquia de tempos mais ingênuos. Mas, se tomado como equivalente ao que o My Chemical Romance fez, e faz, ele torna-se o mais sincero dos elogios.

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 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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