texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota
Para além das guitarras, teclas, tambores e microfones que fazem parte desse vasto universo da música, existe uma infinidade de efeitos analógicos e digitais que ajudaram a moldar muito dos estilos que apreciamos hoje. Um exemplo é o loop, uma técnica que apareceu no século XX por meio de compositores vanguardistas como Pierre Schaeffer e Karlheinz Stockhausen, influenciou nomes fortes do rock progressivo como Robert Fripp e Brian Eno – que por sua vez influenciaram toda uma leva de pedais e aplicativos com a mesma função: capturar um trecho musical que pode ser executado de forma cíclica. Em outras palavras, você pode gravar por conta própria uma percussão ou uma base de violão, deixar tocando, e aí tocar mais alguma coisa ou cantar por cima dessa base, sem a necessidade de uma banda completa ou um grande estúdio por trás. Foi com esse artifício que o loop se transformou em atrativo para figuras da música pop como Ed Sheeran criarem hits no início desse século, e é dessa mesma escola que se forma a base das composições dos Hermanos Gutierrez, pelo que se pôde observar na apresentação realizada em um lotado Teatro Bradesco (SP) no início de fevereiro, em noite do Queremos!, um ano depois da primeira passagem pelo Brasil.
Nascidos em Zurique, Suíça, mas com ascendência equatoriana por parte de mãe, os irmãos Esteban e Alejandro Gutierrez fazem uso de muitos loops (e uma série de outros efeitos) como complemento ao instrumental formado basicamente por um par de guitarras, um lap steel e algumas percussões adicionais. Ao entrarem vestidos de preto e com um visual sóbrio que remete tanto ao Man in Black primordial Johnny Cash quanto a personagens coadjuvantes de séries como “Better Call Saul”, são recebidos com fortes aplausos – o que, junto com a casa cheia, apenas atesta o interesse na sonoridade criada por ambos nos últimos anos. Após cumprimentarem a plateia e deixarem claro como estavam felizes por estarem ali – coisa que se repetiria mais algumas vezes ao longo da noite – deixaram claro que a sobriedade estava só no visual e já trataram de envolver os presentes com a primeira canção.

E logo de cara, também é possível entender o papel do loop na sonoridade dos hermanos. Aos poucos, melodias e camadas de acordes vão formando uma paisagem distante e desértica, ainda que familiar. Esteban e Alejandro usam o minimalismo a favor da música, criando loops de guitarras que permitem que outros elementos sejam adicionados: Esteban faz uma base, rapidamente larga a guitarra enquanto pega um bongô para fazer uma percussão e gravar mais um loop no meio da música. Enquanto isso, Alejandro cria melodias quase vocais com seu lap steel; mais adiante, ele confessa que comprou o instrumento apenas por insistência do irmão. A cumplicidade fraterna se revela uma boa decisão, pois a suposta limitação técnica não o impede de usar o lap steel como uma voz única, que por vezes remete a nomes como Ben Harper ou David Gilmour, mas dentro do contexto e do cenário autoral dos Gutiérrez.
Em músicas como “Thunderbird” (de “El Bueno Y El Malo, 2022), eles trazem uma abordagem mais expansiva onde efeitos de modulação e do wah wah – dois clássicos das seis cordas – se somam ao timbre natural das guitarras e ressaltam a parte rítmica que se faz presente durante toda a apresentação. Os efeitos são aplicados como se fossem outro instrumento, criando diferentes cores e texturas instrumentais em tempo real. Por esse motivo, é de se imaginar que parte do público presente seja formado por guitarristas e entusiastas de solos e riffs, mas esse repórter presenciou um público bastante variado nas dependências do Teatro Bradesco.
O grau de interesse e conexão com os irmãos era notável, fato que impressionou até mesmo Esteban: “Muito obrigado, pessoal, vocês são muito respeitosos”. Realmente, na maior parte do tempo o que se via era interesse e silêncio respeitoso pelos Gutierrez, com algumas exceções (a exemplo de uma fileira que estava mais interessada em beber vinho e botar a conversa em dia do que ouvir música). Mas no geral, o público estava ganho e a conexão estava lá, até mesmo de formas inusitadas, como em um inevitável “vai Corinthians” gritado em certo momento por algum anônimo. Curiosamente, Esteban comentou em espanhol sobre uma camiseta do Palmeiras que ganhou de presente na turnê anterior. Sinais, fortes sinais.
Outro momento marcante foi com “Lágrimas Negras” e “El Fantasma”, do mais recente “Sonido Cosmico” (2024), onde as guitarras conjuram uma atmosfera onírica com arpejos e lamentos do slide, que depois dão espaço para mais percussões e camadas de cordas. A faixa título “Sonido Cosmico”, com suas melodias embebidas em wah wah e reverb, também se fez presente no set, e parece sedimentar a intenção dos irmãos em criar uma conexão entre deserto e espaço através das guitarras. Além de temas mais recentes, tocaram também “Venganza”, do primeiro álbum “8 años (2019), com um pé no freio na psicodelia mas que já traziam a fórmula de acordes misteriosos e levada marcante como parte da sonoridade.

Já confortáveis em seu universo particular, os Gutierrez aproveitaram também para saudar os gringos Mr. Dan Auerbach (Black Keys), produtor dos últimos álbuns que também é co-autor da canção “Tres Hermanos”, executada ao vivo juntamente com “Hold on to the Light”, tema de Jack Johnson tocado pela primeira vez por Esteban e Alejandro, que consideram Johnson como um herói e influência. De fato, o clima sossegado e algo surfista se faz presente nas canções, mesmo quando estas fazem mais referência ao deserto do que ao mar. Seguiram com canções de “Bueno y Malo” e tiveram outro grande momento com “Esperanza”, onde aproveitaram para celebrar suas raízes latinas e do quanto significava estar se apresentando nos países do continente. Houve espaço até para uma pequena homenagem brasileira durante a canção, com uma levada mais bossa nova que recebeu aplausos do teatro.
O resultado da noite foi uma plateia que aplaudiu de pé e ficou (em sua maioria) para o bis, que manteve o mesmo tom das canções do setlist. E talvez essa seja a única ressalva a ser dita sobre o show dos hermanos: a dinâmica das músicas não raro começa da mesma forma, com um início mais contemplativo e alguns acordes dedilhados, para depois seguir para outra parte mais percussiva com uma melodia feita no slide ou na guitarra, com um temperinho da percussão logo depois… O fato é que, após algum tempo, a fórmula começa a dar sinais de cansaço. Esteban e Alejandro mostram total domínio dos instrumentos e efeitos à sua disposição, e o público não parece se queixar. Mas, se querem realmente trazer algo de novo na arte de “compartilhar histórias sem usar palavras” (conforme dito pelo próprio Alejandro), seria interessante sair um pouco da caixa e explorar mais as próprias raízes latino-americanas ao invés do deserto estadunidense, brincar mais com os pedais de efeito, buscar mais o espírito de jam session e menos o formato bem sucedido de trilha sonora compacta para tempos de TikTok. Potencial para isso eles têm de sobra. A aguardar os próximos capítulos, já que devem lançar disco novo em setembro deste ano.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/