entrevista de Alexandre Lopes
Alguns discos de estreia chegam como cartão de visitas; outros, como convite pra se perder num lugar que você ainda não conhece direito. “Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio”, lançado em outubro de 2024 pela banda paulistana Miragem, segue mais o segundo caso: um álbum que parece vir de um sonho estranho, em que psicodelia, folk, pós-punk enevoado e synth pop oitentista se misturam numa névoa de sons e efeitos letárgicos. Um ano depois, essa mesma névoa reaparece em “Outros Delírios (Fim de Festa)”, session ao vivo lançada em 13 de novembro de 2025 que reinterpreta quatro faixas do disco em um clima lisérgico de fim de noite.
A banda formada por Camilla Loureiro (voz, guitarra, piano), Rafael Quebrante (baixo), Gustavo Esparça (guitarra), Lucas Soares (bateria) e Mariana Nogueira (teclado) vive num equilíbrio curioso entre caos e amarração sobre suas escolhas musicais. “Acho que nunca seguimos uma linha só. É sempre meio caótico”, diz Camilla. Segundo Rafael, Camilla quer escrever em “trilhões de estilos diferentes” e ele tenta costurar tudo isso como pode na mixagem. As referências do grupo passam por muitos caminhos: Sonic Youth, Weyes Blood, Mitski, Rita Lee, Júpiter Maçã, Beach House, Jeff Buckley, O Som Nosso de Cada Dia, mas também por Twin Peaks, Charli XCX e Fiona Apple. Mas nada entra como citação literal: são diferentes influências que perfazem uma forma de olhar pro mundo.
O curioso é que esse universo, que hoje parece tão coeso, nasceu de uma pessoa notoriamente tímida tentando aprender a se expor. Camilla cresceu introspectiva, com dificuldade de se abrir, e começou a explorar letras como forma de botar para fora grande parte de seus questionamentos e sonhos. “Sempre amei músicas em que sentia que o artista se abria, mostrava o coração. Aprender a escrever sobre isso foi um exercício mesmo. No começo, eu me forçava a colocar no papel. Depois foi ficando mais natural. Mas ensaiar e cantar algo tão pessoal foi bem difícil. Nas primeiras vezes eu tremia”, lembra a vocalista. “Agora eu sofro e transformo em música, senão fico puta de sofrer à toa (risos). Preciso colocar pra fora de algum jeito!”, resume.
O álbum de estreia (na integra acima) também foi fruto de um período longo e dolorido. “Esse disco foi um processo de sofrência”, admite Rafael. Foram quatro anos de gravação, quase tudo em casa, no tempo livre entre outros trabalhos. “Teve uma época em que eu fiquei meio doente mesmo, porque já fazia uns três meses que eu estava mixando as faixas tipo 14 horas por dia, dormindo só três.” Entre gambiarra de home studio, percalços internos e técnicos e perfeccionismo de ambos, o álbum foi tomando forma aos trancos, até encontrar uma unidade sonora.
Mas “Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio” não é só sofrimento. Ele também tem um eixo conceitual que foi se revelando aos poucos, muito influenciado por uma fase em que o casal se aproximou, meio que sem querer, de um culto esotérico. Daí surgiu a ideia de ressignificar um mundo chato em algo mágico: imagens como “cachoeiras vêm do meio do cimento” e a passagem de “Eterna Distração” para “Muitos Caminhos” e “Nada é Urgente” vão costurando essa transformação. “Acho legal acreditar em umas bobeiras”, diz Camilla, fazendo um pouco de piada consigo mesma.
Como desdobramento natural, a session gravada ao vivo para celebrar o primeiro aniversário do álbum, “Outros Delírios (Fim de Festa)” pega “Ócio”, “Apelo”, a faixa-título e “Nada é Urgente” e puxa o delírio alguns centímetros a mais, com o sax e backing vocals da convidada Thaís Neres, texturas que passeiam entre jazz, psicodelia lo-fi caseira. A estética do disco de estreia continua lá, mas agora soa como registro de um after em câmera lenta, quando ninguém sabe se a noite acabou ou se ainda cabe mais uma rodada alcoólica, como se o delírio resolvesse se esticar madrugada adentro por amigos que são inimigos do fim.
A seguir, você confere uma longa conversa do Scream & Yell com Camilla e Rafael, que falam sobre o processo de gravação do disco no intervalo entre empregos, as referências que moldaram o álbum, a construção das letras cheias de abstrações e imagens oníricas, e como foi transportar todas essas viagens. Vale botar o álbum e a session como trilha sonora para a leitura.
O disco passeia por vibes bem diferentes ao longo do tracklist, mas ao mesmo tempo parece que ele é bem amarrado por uma estética de som. Durante a gravação, vocês já pensaram em seguir uma linha estética ou isso foi surgindo aos poucos mesmo?
Camilla: Acho que nunca seguimos uma linha só. É sempre meio caótico… (risos)
Rafa: A Camilla tem vontade de escrever música em trilhões de estilos diferentes, e ela não repete. Se faz uma música de um jeito, a próxima já é outra coisa. Isso já acontecia no Grave, essa vontade de experimentar. Nós dois somos bem ecléticos. E se você se prende a um estilo só, cansa rápido. Tentar unir as coisas esteticamente acaba ficando mais na minha mão na hora de mixar. E nesse disco eu tive que mudar muita coisa de timbre e estética por necessidade mesmo, não por escolha. Foram quatro anos gravando. No meio disso, o nosso baterista [Antônio] faleceu.
Sério? Meus sentimentos. Imagino que isso tenha impactado tudo…
Rafa: Total. A segunda música do disco, “Expectativa”, foi gravada com ele aqui em casa. Foram dois canais estéreo. Depois disso, a gente demorou pra se recompor.
Camilla: É, foi mais ou menos um ano sem fazer nada mesmo…
Rafa: Sem conseguir nem encostar nos instrumentos, sabe? Tanto que, se você procurar no YouTube, tem vídeos de um show nosso aqui em casa, e é o show em que ele ainda tocava com a gente. Hoje em dia, a gente está com o Lucas na bateria e é bem diferente, tanto no estilo de tocar quanto no som da banda. Mudou muito, sabe? Acho que até quando a gente voltou, foi com uma outra cabeça…
Camilla: Numa vibe diferente, né?
Rafa: Total. Tipo: mano, tem que valorizar muito cada segundo disso aqui. Nada é garantido, nada. E até hoje é assim. Cada pequena coisa que acontece, a gente para e pensa: “caramba, que da hora isso que tá rolando”. A gente fica feliz só de ver as coisas acontecendo, de estar todo mundo respirando, sabe? Mas quando voltamos a gravar, já tinha se passado muito tempo… E aí, quando finalmente gravamos bateria em outro estúdio, o técnico esqueceu o microfone da caixa no chão.
Camilla: A única coisa que a gente não gravou aqui em casa foi a bateria, né?
Rafa: Sim. Sete músicas com bateria gravada, duas com drum machine e uma com o Antônio, que foi gravada aqui. E mesmo assim, quando o técnico mandou os arquivos, estava tudo desorganizado; bumbo embaixo de outra faixa, tom em cima de outra… Tive que remontar tudo no dedo.
E sobre os vocais? Dá pra notar uma voz mais “escondida” em algumas faixas…
Camilla: Sim, eu estava com um problema na gravação da voz. Quando ia gravar, às vezes no meio da nota começava um ruído esquisito, como se viesse do fundo da garganta.
Rafa: Era um chiado. E aí, se eu subisse o volume da voz, o ruído virava protagonista. Então a mixagem da voz foi toda baseada em esconder isso: texturas de vinil, reverb, tirar agudo… Depois a gente descobriu que era só aumentar o ganho e dar dois passos pra trás. (risos) Mas aí já tinha gravado o disco inteiro. Aí eu tento esconder como posso. Eu aprendi a mixar voz com um professor super tradicional, e ele tinha umas regras muito rígidas, como achar que todas as consoantes e vogais tinham que ficar no mesmo volume na automação. Aí eu pensava: “Meu parceiro, isso aí não é uma pessoa cantando, não!” (risos) É mais fácil meter o compressor no talo e cantar. Então fui meio que batendo de frente com isso e desenvolvendo meu jeito. Resultado: todas as músicas do disco têm no mínimo umas cinco vozes da Camilla empilhadas.
Camilla: Só “Turbilhão” é uma faixa solo, né?
Rafa: É, foi a única. Eu falei: “Essa música é muito pessoal, tem que soar como se você estivesse no quarto com a Camila”.
Camilla: É literalmente um take meu cantando e tocando violão, e acabou.
Rafa: Tinha que ser só ela, sem produção demais. Já nas outras, usamos efeitos, sobreposições de voz pra clarear palavras ou abrir mais a música. Tanta coisa que não dava nem pra regravar depois.
Camilla: Agora estou tentando deixar o processo mais leve. Pessoalmente, sinto que não vale a pena ficar encucando com cada micro detalhe. Além disso, a gente curte bandas com estética de voz mais no fundão mesmo. Mas acho que eu também tenho vergonha de deixar a voz muito alta. Me exponho, mas ainda fico tímida com isso.
Rafa: Eu teria deixado mais alto, mas entendo. No fim das contas, eu que coloco a voz na mix, então acabo equilibrando. Mas a gente sempre teve essa tensão. Quando fiz uns cursos de produção, os professores achavam a gente maluco (risos). Eles não entendiam a proposta.
Camilla: Tem muita gente na indústria da música brasileira que é bem quadrada com mixagem, né?
Rafa: Total. Mas foi você que me disse: “foda-se, faz o que você gosta”. Mesmo assim, tem partes que eu ainda fico inseguro. Tento colocar minhas loucuras de forma sutil. Tipo em “Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio”: no segundo verso tem um uma parte em que usei um mantra da Camila. Reverti a voz, coloquei reverb separado, desinverti o reverb invertido, distribuí delay… Fiz esse mantra invertido bizarro. Mas fui abaixando o volume pra não parecer que tem mil pessoas falando na sua cabeça (risos). Virou mais uma textura que uma coisa explícita.
Falando nisso, o disco começa com uma fala ao contrário. O que é aquilo?
Rafa: A Camila só falou “inventa aí um começo esquisito”, e eu fiz isso aí. (risos). Eu peguei a voz dela, inverti, fiz o mesmo com a guitarra, joguei delay, uma bagunça… E montei aquilo lá. Ela ouviu e falou “bala!” Foi isso. (risos)
Vocês podem contar o que é ou é segredo? (risos)
Camilla: Ah, é que a resposta é meio chata… O Rafa pegou a minha voz de algum take que em que estava cantando e ele inverteu. Então não é nada super pensado, sabe?
Rafa: Fiquei brincando com a reversão até achar algo que soasse bem.
Camilla: Aí eu até brinquei que parecia a Xuxa ao contrário, falando “adoro o diabo”, essas coisas… (risos)
E como você faz essas partes ao vivo?
Camilla: Não faço, mas seria interessante tentar isso ao vivo. A gente tem experimentado algumas texturas novas no palco, aos poucos. A gente tem uma caixinha de plástico amarela, pequenininha, que é um negócio engraçado, chama Mantra Box. Você vai passando por ela e tem um monte de mantra maluco gravado. No último show, coloquei no captador da guitarra, bem no começo de “Apelo”, e aí ficam umas texturas, umas paradas doidas rolando. Estamos começando a experimentar umas maluquices assim, devagarzinho.
Como é o processo de composição? Você pensa primeiro na letra? Primeiro na melodia? Como funciona?
Camilla: Já tive vários processos diferentes. Pra mim, é natural escrever melodia, tenho mais facilidade nisso. Mas tem vezes que estou frustrada ou sentindo muito alguma coisa, aí escrevo tudo que tem pra escrever, não necessariamente em formato de música, sabe? Aí revisito aquilo, dou forma, e já faço a melodia junto. Geralmente não demoro pra fazer a harmonia, a melodia, porque acho que é o que eu mais gosto, o que é mais fácil. Às vezes já vem um arranjo bem claro, tipo “essa música tem que ser assim, com bateria tal, ou mais psicodélica, ou mais punkzinha”, aí já me vem bem claro. Outras vezes eu faço a música inteira voz e violão. Eu componho muito no violão, aliás, acho que é onde mais componho, de longe. Faço voz e violão e estou reclamando de alguma coisa (risos).
A Mariana era uma fã e amiga que foi efetivada como tecladista? Como foi essa história?
Camilla: A Mari sempre trabalhou com a gente com audiovisual: fotos, clipes, essas coisas. Mas além disso, ela sempre esteve por perto, dando ideias, querendo participar. A entrada dela na banda foi meio curiosa: a gente tinha um show marcado e o Gustavo caiu de skate, quebrou a perna e se machucou feio. No show, a gente dividia o teclado e algumas partes eu tocava, outras ele. E aí pensei: “Putz, se o Gustavo não puder tocar, o que ele faz que ninguém mais consegue fazer?” Como a Mari já tinha comentado que queria aprender teclado e eu tinha emprestado um pra ela um tempo antes, perguntei: “Será que você consegue tirar essa música aqui pra tocar ao vivo com a gente, se o Gustavo não conseguir?” Ela topou, aprendeu direitinho… E aí foi pegando gosto, foi aprendendo mais e a gente foi incluindo ela.
Rafa: É engraçado porque a Mari já fazia vídeo com a gente há muito tempo, desde quando a banda ainda se chamava Grave. Ela sempre gravou clipes, teve contato com músicos, mas nunca tinha encostado em um instrumento, só olhava de longe. E agora, com a Miragem, ela realmente deu os primeiros passos e se dedicou de verdade. Ainda rola um nervosismo no palco, o que é normal, mas com o tempo passa. Acho que ela evoluiu absurdamente bem pro tempo que tá tocando. E, honestamente, além do som, a presença dela faz bem pra banda. A energia muda com ela junto, sabe?
Camilla: Total. A gente comentou sobre isso esses dias. Hoje em dia é mais comum ver uma vocalista mulher e o resto da banda ser homem, e fica uma energia meio “moleque”. Com a entrada da Mari, muda um pouco a vibe e é uma mudança boa!
Voltando um pouco no tempo: a banda antes se chamava Grave, é isso?
Camilla: Isso! Nos primórdios era a Grave. Na real, a banda nasceu de um TCC que eu fiz. Estudei design, mas sempre toquei guitarra e curti música. Teve uma fase que deixei a música um pouco de lado pra focar nos estudos. Só que, na época do TCC, eu queria uma desculpa pra voltar a fazer música. Aí inventei de gravar um EP e a gente começou a experimentar.
Rafa: E eu tava começando a estudar produção musical. Aí comprei meu primeiro computador, devia ter uns 20 ou 22 anos, e a gente foi gravando. Era bem no estilo “seja o que Deus quiser”. É bem diferente da Miragem. Porque quando conheci a Camilla, ela já tocava muito. A gente se conheceu com 13 anos, na escola.
Camilla: Isso, éramos da mesma sala.
Rafa: Ela já era um absurdo na guitarra. A gente jogava Guitar Hero com guitarra, baixo, bateria e vocal. Todo mundo tocava os instrumentos correspondentes, menos eu, que ainda não tocava baixo. Aí os caras falaram: “Compra um baixo aí e vamos tocar”. Aí comprei um Eagle por 300 conto. Foi aí que comecei.
Camilla: E ele tem esse baixo até hoje!
E tira um baita som dele. Parabéns!
Rafa: Mano, gosto demais dele. Não vendo por nada nesse mundo. E foi com ele que comecei a tocar com a galera. Aí a gente fundou a Milk Friends.
Camilla: Era nossa banda do colégio. Tocava AC/DC, Beatles, Arctic Monkeys…
Rafa: Mas a gente toca junto desde sempre, né?
Camilla: Sim, desde essa época. E o Lucas e o Gustavo também tocam juntos desde os 13 anos, mesmo que a gente ainda não conhecesse eles naquela época.
E como foi que vocês começaram a tocar juntos?
Camilla: A gente era os roqueiros da sala da escola (risos). Tinha um amigo de outra turma que era o descolado: tinha banda, tocava guitarra e cantava. A gente achava ele o “rock star da escola”. Aí um dia surgiu a ideia de tocar junto.
Rafa: Lembro direitinho. A gente falou: “Pô, vamos ensaiar um dia?” Ele era mais velho, mas topou. Aí no ensaio ele já mandou: “Vamos compor uma música então”. Ele se colocou na banda automaticamente (risos). E a gente só foi aceitando.
Camilla: Nessa época tocávamos mais cover. Ele escrevia umas coisas, a gente fazia os arranjos. Mas eu só fui começar a compor letra, melodia, tudo junto, bem mais pra frente.
Mas quando a banda se chamava Grave, já era música autoral?
Camilla: Já, foi aí que comecei mesmo, mas era bem diferente. Eu não sabia escrever letra, então a gente fazia umas músicas meio engraçadas. A gente curtia o desenho antigo da She-Ra, que tem uma vibe meio psicodélica. Teve um episódio que a gente pegou umas falas e transformou em música.
Rafa: O episódio se chamava “Neblina do Sono”, muito bom (risos). E nessa época a gente teve ideias muito malucas: “Vamos fazer stoner com dub?”, “Vamos tentar anos 80 eletrônico?”, “Vamos compor algo esquisito do ET Bilu?”. E a gente sentava e fazia (risos).
Camilla: Era tudo meio brincadeira.
Rafa: E agora não, agora a Camilla virou uma grande compositora. Ela chega com as músicas prontas e eu dou uns pitacos.
Camilla: Agora eu sofro e transformo em música, senão fico puta de sofrer à toa (risos). Preciso colocar pra fora de algum jeito!
Camilla, você parece um pouco mais introspectiva. Como foi colocar isso para fora nas letras? Foi difícil?
Camilla: Sim, foi bem difícil. Especialmente no processo do primeiro disco, que foi quando realmente comecei a compor sobre o que eu sentia, coisas mais profundas pra mim. Eu cresci muito introspectiva e tímida, sempre tive dificuldade de me abrir com as pessoas. Mas eu sempre amei músicas em que sentia que o artista se abria, mostrava o coração. Sempre me tocou muito. E aprender a escrever sobre isso foi um exercício mesmo. No começo, eu meio que me forçava a colocar no papel, fazer sair. Depois foi ficando mais natural. Mas ainda teve a parte de mostrar isso pras pessoas, ensaiar, cantar algo tão pessoal. Nossa, nas primeiras vezes eu tremia, ficava muito nervosa. Era estranho me expor desse jeito. Eu era bem insegura com isso, mas fui continuando. E o Rafa sempre me apoiou muito…
Rafa: Mas de verdade, você aprendeu a escrever numa velocidade absurda. Isso me surpreendeu muito. Eu lembro que você disse “mano, deixa eu ouvir umas músicas nacionais”, aí foi mergulhar no Milton, no Djavan… E seis meses depois, voltou escrevendo letra. Pra mim, é um processo que levaria anos, mas achei muito rápido.
Camilla: Foi um intensivão. Eu pesquisava “como escrever música”, fazia curso online… Depois cansei, porque às vezes era tudo muito quadrado. Mas foi um estudo real.
Quem te deu aquela sensação de “nossa, que lindo isso, quero escrever assim”?
Camilla: Ah, na época, eu estava ouvindo muito Fiona Apple e ela tinha acabado de lançar “Fetch The Bolt Cutters”, o disco me pegou muito. Li uma matéria em que ela falava do significado de cada música e isso me marcou. Também gosto muito da Mitski, da Weyes Blood… E de música brasileira, claro: Milton Nascimento é uma referência forte.
Rafa: A gente é muito fã de Charlie Brown também. Oficialmente, a gente gosta MUITO de Charlie Brown. (risos)
Camilla: (risos) Tá ali como grande influência, com certeza. Mas quando me perguntam isso, dá branco. Aí depois lembro de uns 15 nomes que não falei na hora…
Vi que vocês aprenderam muita coisa durante o processo de gravação, inclusive como não gravar um disco. Além do que o Rafa já comentou, quais foram as maiores dificuldades?
Camilla: Nossa, muitas coisas. Teve a parte prática, de gerenciar o tempo, entender como fazer as coisas, em que momento, em qual ordem faz mais sentido…
Rafa: Teve também a questão de prazo. A gente ficou muito tempo nesse processo, e aí chegou uma hora em que a Camilla falou: “Mano, tal dia o disco tem que estar pronto.”
Camilla: É que tinha composições minhas que já eram antigas. E eu sou uma pessoa que quer fazer várias coisas diferentes, né? Então eu estava tipo: “Caramba, quero que isso esteja no mundo logo, pra eu poder fazer outras coisas também.” Eu já estava me sentindo presa. Era algo que eu queria muito lançar, mas estava demorando tanto… e eu já com outras ideias, querendo seguir em frente, e aquilo ainda não tinha saído. Dá uma frustração, sabe?
Rafa: Esse disco foi um processo de sofrência. Teve uma época em que eu fiquei meio doente mesmo, porque já fazia uns três meses que eu estava mixando as faixas tipo 14 horas por dia, dormindo só três. Mas no final, consegui corrigir as coisas que queria. Foi isso: bater a cabeça na parede até ficar bom, tá ligado?
Camilla: E o foda é que fomos nós dois que produzimos o disco. O Rafa ficou mais com a parte da gravação e da mixagem, mas a gente tem ideias diferentes e os dois são perfeccionistas, só que de jeitos distintos. Então a gente batia cabeça, querendo fazer algo foda, mas também sem passar mais cinco anos nisso, sabe? Foi emocionalmente desgastante.
Rafa: Exato. Tanto que, pro próximo, a gente já está tipo: “Mano, vamos na paz de Cristo.” (risos) Só gravar e ver no que dá. E, sinceramente, não quero mais trabalhar com gravações que a gente não ficou feliz desde o começo. Isso me pegou muito. Porque quando o som já tá bom na gravação, mixar é uma beleza. Agora, quando você ouve e pensa “tá ruim”, tem que tentar consertar…
Teve músicas que vocês trabalharam e acabaram não entrando no disco?
Camilla: Teve algumas ideias no começo, mas a gente decidiu meio rápido o que entraria. Lembro de mostrar uma demo e o Rafa dizer: “Não gostei” (risos). A gente filtrou logo no início.
Rafa: E naquela época nem tinha um conceito fechado de disco. Quando definimos, percebemos que aquelas músicas não eram só ideias soltas, tinham um sentido em conjunto.
Camilla: A gente viu que umas oito músicas meio que contavam uma história. “Muitos Caminhos Para Um Delírio” foi a última que escrevi e pensei: “Está faltando uma música de maluco aqui” (risos). Ao longo do disco, eu fico meio que reclamando, e sinto que essa faixa é uma resposta a “Eterna Distração”.
Rafa: Porque não tem como explicar “Muitos Caminhos” sem entrar no assunto magia (risos). Teve uma época em que a gente meio que entrou sem querer pra um culto… (risos)
Sério? Como foi isso?
Rafa: Cara, na real foi meio sem querer. Eu fui fazer terapia com uma psicóloga, e a mulher começou com uns papos de: “Não, porque eu sou sacerdotisa de um culto, de um templo, a gente faz ritual…” E eu fiquei tipo: “Ah, tá bom. Sem preconceito religioso, né?” Só que foi um ano e meio dela me enchendo o saco: “Você tem que fazer ritual, tem que tomar ayahuasca, tem que não sei o quê…” Aí eu acabei fazendo o ritual. Só que eu sou bem ciência, sabe? Pé no chão total. Fiquei o tempo todo pensando “vamos falar dessa química aí”, tanto na questão química mesmo quanto no processo psicológico do ritual. Foi uma parada que, no fim, senti que ajudou. Mas a gente ficou muito amigo da galera do culto, a ponto de chegar lá e jogar videogame, fumar uma maconha… Quando a gente viu, a gente já estava no culto! (risos)
Lembro que a sacerdotisa chegou pra mim e disse: “Então, está todo mundo bravo porque você não foi iniciado. Você está aqui com a gente, mas não entrou no círculo de bruxaria. Vai ter que se iniciar. São 13 bruxas, você vai ser um dos 13 bruxos…” E eu: “Tô muito de boa disso aí, tô muito suave de me iniciar” (risos).
Camilla: E aí depois teve todas as tretas internas lá entre eles, e o negócio meio que implodiu mesmo.
Rafa: É. E eles meio que acreditavam de verdade, só que, pra não parecer que eram malucos, falavam aquela ideia de que “magia é a transmutação interna sua perante a realidade”. Tipo: em vez de mudar o mundo, você muda por dentro, e isso muda a forma como você percebe o mundo, tá ligado? E aí “Muitos Caminhos” é 100% sobre isso, sobre recontextualizar as coisas. A Camilla fala “cachoeiras vêm do meio do cimento”, e isso é sobre um chuveiro, tá ligado? É essa coisa de ressignificar tudo como uma coisa mágica.
Camilla: É que eu estava numa época que eu escrevia muita música no chuveiro. Daí essa frase veio disso (risos). E ainda sobre essa coisa da magia: eu cresci com meus pais que são umbandistas, então também fui criada indo a terreiro, vendo umas coisas assim… então, pra mim, foi menos estranho entrar num culto sem querer, sabe? Mas depois também fiquei tipo: “Acho que deu já, não está mais legal.” Hoje em dia eu não tenho nenhuma prática, tipo, não frequento nenhum lugar nem nada. Mas foi bom enquanto durou. Acho que entrar num culto por uns dois meses pode ser bom pra criatividade, às vezes, né? (risos)
Rafa: Uma coisa meio Tim Maia no Racional, assim…
Camilla: Total. E tem uma coisa: às vezes eu fico irritada porque também sou uma pessoa um pouco cética, pensando no meu background. Mas às vezes fico de saco cheio de ser sempre assim, sabe?
Rafa: Esse é o ponto que eu trouxe quando a Camilla começou a compor as músicas. Meu trampo é mestrar RPG pra gringo, então fico escrevendo um milhão de histórias e contando. Sempre joguei RPG, sou o cara das histórias. Aí chegou uma hora que eu falei: “O disco precisa de uma história.” Quando a Camilla compôs “muitos caminhos pro mesmo delírio”, eu pensei: “Essa é a história.” Sobre encontrar um mundo que você acha chato, que você não se identifica, e aos poucos aprender a ressignificar essas mesmas coisas como algo bonito e mágico. E é nisso que termina: tem “Muitos Caminhos”, que é a grande ressignificação, é a música mais doida, e depois vem a última, que é “Nada é Urgente”, que fala sobre como é bom estar num jardim, tocar com os amigos, e realmente ressignificar uma tarde numa casa de concreto chata numa experiência mega mágica, uma coisa inesquecível entre a gente. Digo mágica no sentido emocional mesmo. Uma coisa especial, tá ligado?
Camilla: Acho que o jeito que as pessoas vivem hoje em dia faz parecer bobo falar de magia. Mas eu sinto falta dessas coisas bobas e inocentes também. Acho legal acreditar em umas bobeiras. Por que não? É divertido!
Rafa: Eu acho isso bonito. Já falei várias vezes: eu sou meio “mauzão”, tá ligado? Queria não ser. Quando vejo essa inocência, acho bonito. Fico tipo: “Pô, eu queria… mas…”
Camilla: É a sua criança interior, sabe? Criança é muito criativa. E acho muito legal tentar cultivar isso de algum jeito.
Essa tentativa de enxergar o mundo de forma mais lúdica me lembra coisas do David Lynch, como aquela frase: “As pessoas ficam tentando entender o sentido da vida… Mas a vida não faz sentido.”
Camilla: Ele também era essa mistura, né? Uma coisa densa, sombria, mas com um olhar quase infantil, mágico. O David Lynch foi uma grande inspiração pra gente em muitas coisas. Principalmente essa parte mais filosófica dele. Me identifico demais com essa ideia de que as palavras limitam o que algo realmente significa. Ele dizia que não era um cara das palavras, e eu sinto isso também. Quando tento explicar minhas músicas, parece que não consigo. Porque o que eu quero dizer está além do que as palavras alcançam. Até musicalmente, “Twin Peaks” influenciou. Por exemplo, a faixa “Apelo” tem muita inspiração nisso. Tem umas partes ao contrário e um intervalo que tem um synth mais soturno… é o mesmo intervalo da música da Laura Palmer. Eu falo isso porque é literalmente inspirado mesmo.
Rafa: Acho que isso tem muito a ver com como a Camilla começou a escrever letras. A gente conversava bastante sobre isso: quanto mais direta e óbvia a letra, menos interessante ela é. A gente ficava circulando em volta da ideia. Tipo, não é pra parecer que a música está te dizendo algo direto. É pra você sentir no fundo da cuca, sabe? De um jeito que bate diferente pra cada pessoa.
E é curioso, porque tem música que é sobre algo super específico, mas várias pessoas escutam e acham que é sobre outra coisa. É preciso ser vago o suficiente pra gerar identificação, mas ter verdade e emoção o bastante pra ser real, pra ter peso. Só que esse equilíbrio é muito difícil de encontrar.
Camilla: Eu fico nesse conflito o tempo todo, porque gosto de muitas coisas diferentes. E ultimamente tenho curtido umas paradas bem diretas também. Tipo a Charli XCX, que fala que o disco dela é tipo um diário — super direto e reto. E tem a Doja Cat também, que contou que aquele rap que bombou era literalmente uma história real que aconteceu com ela. Então fico sempre nesse dilema, né? Gosto tanto das coisas mais abstratas quanto das bem diretas… E aí fico tentando equilibrar tudo isso.
Você comentou da influência da Charlie XCX. Você acha que dá pra perceber algo dela nas músicas de vocês, especialmente nesse disco?
Camilla: Olha, eu acho que não teve uma influência direta, com certeza não foi nada que eu pensei na época. Mas tem algumas músicas, por exemplo “Tão Tão Distante”, que eu escrevi e fiquei pensando: “putz, será que tá meio bobo?”, tipo, muito direto, sabe? Fico nessa dúvida de “será que não tem nada muito inovador aqui?”. E aí eu fico lutando contra mim mesma, querendo complicar coisas que não precisam ser complicadas. Mas no fim eu penso: tudo bem ter uma música assim. Acho que faz sentido. Então tem umas que eu julguei por estarem simples demais, mas eu também tento abraçar essa simplicidade, sabe?
Vi que lançaram os clipes de “Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio” e “Eterna Distração”, com animações quadro a quadro, motion design, e queria saber: quanto tempo você passa fazendo aquilo?
Camilla: Nossa, foi um tempo, uns três meses, acho. Uns três meses focada só nisso. Três meses de muita tendinite (risos). Eu trabalho como freelancer, então aproveitei uma janela de tempo que não tinha muito trabalho para focar nisso. Foram esses três meses desenhando o sapo e fazendo a animação. É uma linguagem meio rústica, né? Para deixar mais polido, ia precisar de muito mais tempo.
Sem precisar explicar se não quiser, vai que é segredo, mas por que tem um sapo? Vi que em algumas ilustrações suas tem um cavalinho também. Tem alguma simbologia especial?
Camilla: É um pouco, e ao mesmo tempo não é. Acho que tem um lance meio David Lynchiano, sabe?
Rafa: Eu lembro que a gente estava trocando ideia sobre o clipe e eu falei “mano, vamos criar um personagem legal, porque personagem é algo que as pessoas se apegam”. Aí a Camila falou “e se for um sapo?” e ele virou o personagem. E a gente tinha acabado de comprar uma estátua de sapo, tipo enfeite de jardim, num brechó. Era um sapo velho, meio na vibe do sapão. Quando foi, o sapo da Camila virou especial, assim…
Camilla: Eu acho o sapo um personagem divertido. Tem uns simbolismos que eu pensei para o clipe, que conversam com a música. Não vou revelar tudo (risos), mas tem uma pedra ali que meio que vira o sapo. A pedra representa a coisa mais rígida, quadrada.
Rafa: É aquela ideia de ressignificar, transformar a pedra em um ser vivo.
Camilla: O sapo representa mais a parte mágica. Tem até umas cartas de tarot que eu usei, peguei simbolismos e fiz umas coisas inspiradas. É isso.

Vi pelo Instagram que você pintou umas telas com temas das músicas, das faixas, e também a capa do disco. Essas telas surgiram antes ou depois das músicas?Como foi esse processo?
Camilla: Acho que todas as pinturas vieram depois do disco. Pintar é algo que sempre gostei muito, mas raramente botava a mão na massa mesmo, sabe? Tipo, lá na época do TCC eu até pensei “preciso de uma desculpa para voltar a pintar”. Quando fomos lançar as músicas, fiquei pensando em como seria a capa do single, do disco… Aí pensei “pô, seria legal se fosse pintado”. Eu gosto de pinturas mais abstratas também. Então, pensei que seria uma boa desculpa para pintar, sabe? Só fui pintar mesmo porque tinha o prazo de lançar a música, e era sempre em cima da hora. Aí acabei pintando todas as capas dos singles e a capa do disco. Achei bem legal.
Rafa: Deu um trabalho absurdo, né? Quando você terminou, ficou “nunca mais” (risos)?
Camilla: Ficou aquele trauma logo depois de terminar, sim. Mas já faria de novo. É aquele trauma típico depois que termina. A capa do disco foi uma coisa que eu não conseguia decidir como seria. Fiquei conversando com amigas pra ver ideias e tal, e elas falaram “ah, tem as capas dos símbolos que você pintou, e a Joana falou que seria legal ser um auto retrato seu, para mostrar um outro lado”. Como era uma coisa mais figurativa, principalmente o rosto sendo meu, fiz várias versões, um milhão.
Você pintaria para alguém, tipo, se alguém quisesse uma capa de disco para lançar? Faria esse tipo de trabalho?
Camilla: Sim, é até uma coisa que eu penso. Comecei fazendo pra gente mesmo, mas eu super pensaria em trampar com isso para outras bandas, tanto capa, pintura, quanto clipe de animação. É uma coisa que eu adoraria fazer. Eu acabo trabalhando com design, mas se eu puder migrar aos poucos pra fazer mais coisas para artistas, acho que seria muito massa.
Última pergunta: quais os próximos planos de vocês? Estão comprando material para um próximo disco?
Rafa: Olha, quando eu terminei de trabalhar no álbum, a Camilla virou pra mim e falou “Já compus outro!” (risos)
Camilla: Tenho 15 músicas, quer ouvir? (risos). Tenho bastante composição feita, mas estou naquela indecisão de qual roupagem vai ter, sabe? Acho que tem bastante trabalho ainda, mas estamos vendo com calma e testando uma coisa ou outra.
Rafa: E eu falei que a gente também tá naquele lance de que a gente aprendeu como não fazer um disco e o próximo a gente quer fazer certo, sabe? Não quero pular pro próximo processo sem estar preparado, tem que ser mais tranquilo. A gente tem que olhar pra trás e ver o processo como algo gostoso, divertido, sustentável a longo prazo. Então, a gente tá muito nessa de que o processo é tão importante quanto o resultado final. Se não estiver feliz com o que tá fazendo ali na hora, aquilo só vai morrer com o tempo, vai ficar insustentável mesmo. Então a gente tá esperando esse momento ainda, respirando.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.