Crítica: “Me Ame Com Ternura” reforça a magnitude de Vicky Krieps

texto de Renan Guerra

No fim de um verão, Clémence (Vicky Krieps) decide abrir seu coração ao ex-marido e revela que está vivendo novos amores, agora com mulheres. O que ela tratou como um ato de confiança no ex-marido, acaba virando o início de uma via crucis dolorosa. Laurent (Antoine Reinartz) começa um jogo cruel, tomando a guarda do filho do casal e passando a impedir qualquer contato do menino com a mãe. Diante dessa ruptura, Clémence precisa encontrar forças para se reinventar, lutando não apenas pelo papel de mãe, mas também pelo direito de ser quem é: uma mulher livre, em busca de amor e de si mesma. E é nessa jornada, entre a dor e a complexidade da liberdade, que “Me Ame Com Ternura” (“Love Me Tender”, 2025), se mostra um filme cheio de nuances, mas que é desenhado com pulso firme pela diretora Anna Cazenave Cambet, e que ganha brilho na atuação de Vicky Krieps, entregue como nunca.

 

O longa de Cambet não se desenha como um filme de família, nem um filme de juri, não é interesse da diretora nos contar aqui os meandros dessa batalha familiar – mesmo que o filme chegue a se conectar com temas como a alienação parental e a morosidade da justiça. “Me ame com ternura” se coloca como um filme de personagem, é um desenho em torno de Clemence e de sua jornada de transformação, auto-descoberta e crescimento. É nesse caminho que Vicky Krieps desabrocha, navegando pelas nuances de uma mulher madura que busca cada vez mais descobrir seus desejos, seus prazeres e seu lugar no mundo. Clemence busca construir uma carreira como escritora, numa tentativa de entender a sua história como ponto de partida para suas narrativas literárias – sendo que a sua própria escolha profissional é colocada em cheque na tentativa de afastar mãe e filho.

Neste sentido, “Me Ame com Ternura” é um filme que tensiona as expectativas sobre a maternidade, que bagunça o que se espera de uma relação mãe e filho e nos relembra que a maternidade é atravessada por diferentes questões externas que criam percalços, dores e traumas. Clemence não quer se afastar do filho, mas é aos poucos forçada a isso, e num processo moroso sob a guarda da criança, ela é cada vez mais vilanizada e colocada à margem da criação de seu próprio filho – esse distanciamento é um tempo que não se tem de volta; Clemence vai a cada dia perdendo esse filho, vendo ele crescer ao longe. E essa passagem de tempo do filme é também desenhada no corpo da protagonista. Vicky Krieps desenha uma postura corporal muito própria de Clemence e é interessante como essas nuances vão se transformando de forma delicada, numa construção única; tanto que o ato da personagem raspar os cabelos se torna uma parte natural de seu processo e uma transformação abraçada pela atriz.

Krieps já havia construído seu nome em trabalhos complexos como “Trama Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, e “Corsage”, de Marie Kreutzer. “Me ame com ternura” chega num momento muito sólido da atriz luxemburguesa, em que seu nome tem aparecido cada vez mais em obras de alguns dos nossos grandes diretores contemporâneos, de Mia Hansen-Løve a M. Night Shyamalan, de Rebecca Lenkiewicz a Jim Jarmusch – com quem trabalhou no recente “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2025.

Ao lado de Anna Cazenave Cambet, Krieps constroi uma de suas personagens mais complexas e difíceis, uma mulher com nuances que atraem e repelem o espectador, o enchendo de humanidade em uma narrativa que muitas vezes tende à aspereza. No meio dessa quase brutalidade de nossos tempos, “Me Ame com Ternura” cria lampejos de delicadeza, de encanto e de uma singeleza que tem o poder de te desmontar, caro leitor – tal qual a tocante cena da bicicleta, que ilustra muitos dos cartazes oficiais do filme.

“Me Ame Com Ternura” é uma narrativa densa sobre família, sobre desejo e, acima de tudo, sobre liberdade – sobre como construir nosso espaço no mundo e também abrir mão de muitas coisas, e se machucar, se remoer de dor; na mesma medida em que é sobre se entregar ao amor, às nossas crenças e à nossa própria verdade. E tudo isso vem encapsulado por uma cinematografia bela, que brilha uma França moderna e interessante, de gente bonita e pulsante e que ganha corpo na atuação apaixonante de uma Vicki Krieps em estado de graça.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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