texto de Paulo Pontes
fotos de Fernando Yokota
O que faz uma banda ser gigante? O número de discos vendidos? As turnês mundiais? A capacidade de atravessar gerações sem virar peça de museu? Há bandas grandes que desaparecem rápido. E há bandas que atravessam crises, mudanças estéticas, decisões impopulares e ainda assim continuam operando em outro nível: o da formação de repertório emocional, cultural e identitário de um público.
Uma banda se torna gigante quando deixa de depender do próprio tempo. Quando sobrevive às modas, aos ciclos de mercado e até ao próprio sucesso. Quando pode errar, dividir opiniões, lançar discos difíceis e continuar relevante. Gigante é a banda que resiste, inclusive ao peso do próprio passado. No sábado, 31 de janeiro, o Avenged Sevenfold mostrou no Brasil o que isso significa na prática. E, pelo menos por aqui, já não há dúvida: eles se tornaram gigantes.
Às 15h, quando os portões do Allianz Parque foram abertos, o entorno do estádio já estava tomado. Filas gigantescas se formavam ao redor do quarteirão, dobravam esquinas, se misturavam ao trânsito e ao comércio local. Chamava atenção não só o volume de pessoas, mas o perfil do público: majoritariamente jovem, muita gente na casa dos 20 anos, adolescentes acompanhados, camisetas que atravessavam diferentes fases da banda convivendo no mesmo espaço.
Não havia clima de nostalgia. Havia expectativa. Um público que não parecia estar ali para “rever” algo do passado, mas para vivenciar algo que ainda faz sentido no presente.

Trazer Mr. Bungle e A Day to Remember como atrações de abertura não é aleatório (e diz muito sobre quem o Avenged Sevenfold é hoje). São duas bandas radicalmente diferentes entre si, mas que orbitam, cada uma à sua maneira, o mesmo ecossistema de referências, tensões e contrastes que sempre definiram o A7X.
Mike Patton conduziu o show do Mr. Bungle – que havia se apresentado dias antes em show solo na capital paulista – com a naturalidade de quem nunca precisou se explicar. Exaltou Andreas Kisser (escalado para substituir Scott Ian, que tinha compromisso com o Anthrax) e, com humor torto e autoconsciente, resumiu o espírito da apresentação ao disparar: “Agora uma pausa, né? Somos velhos. Velhos macumbeiros gringos.”.

A frase arrancou risos, mas também funcionou como síntese estética: experiência, liberdade e zero concessão. O público respondeu melhor do que muitos imaginariam, especialmente quando o Bungle mandou o cover de “Refuse/Resist”, do Sepultura. Foi ali que surgiram as maiores rodas da tarde, em um Allianz ainda longe de estar completamente cheio, mas com um público empolgado.

Na sequência, o A Day to Remember assumiu o palco com outra proposta. Onde o Mr. Bungle apostava no risco, o ADTR apostava no controle. O show foi acompanhado de papel picado, fumaça, labaredas de fogo no palco, criando uma atmosfera visual pensada para amplificar a experiência.
Tudo parecia milimetricamente ensaiado e um setlist desenhado para manter a energia constante. Funcionou. O público cantou, pulou, respondeu aos refrãos e acompanhou cada estímulo visual. Faltou surpresa, sobrou eficiência.

Quando o Avenged Sevenfold finalmente subiu ao palco, o Allianz Parque deixou de ser apenas um local de show e se tornou um espaço simbólico. A banda que não tocava em São Paulo desde 2014 (e que passou uma década recalibrando sua relação com o Brasil), agora ocupava um estádio inteiro como atração principal. Um feito inédito em sua carreira.
Há algo de paradoxal nesse momento. O Avenged atinge seu maior público no país justamente quando vive uma fase artística menos conciliadora. “Life Is But a Dream…” (2023) é um disco divisivo, e isso se refletiu na recepção mais contida de algumas de suas músicas ao vivo. Ainda assim, elas estavam lá. Não como concessão, mas como posicionamento.
O setlist equilibrou passado e presente, ainda que com ausências sentidas. “The Stage”, uma das preferidas deste redator e presente em outras datas da turnê (inclusive em Curitiba), ficou de fora. Em contrapartida, os clássicos cumpriram seu papel de forma avassaladora.

“Afterlife” marcou o primeiro grande momento de catarse. “Hail to the King” transformou o estádio em coro uníssono (que refrão foda. Sem dúvidas umas das músicas mais divertidas lançadas nos últimos 15 anos na música pesada). “Bat Country” e “Nightmare” reafirmaram por que essas músicas atravessaram gerações. Em vários momentos, o público cantava tão alto que quase não dava pra ouvir a voz de M. Shadows (e isso parecia menos um problema e mais parte do espetáculo).
Houve pausas, pedidos de atendimento médico, distribuição de água. Houve também um chá revelação, repetindo a cena já vista em Curitiba. Um envelope foi entregue a M. Shadows, que anunciou o resultado para o estádio: menino, diferente da capital paranaense. Um gesto pequeno, quase aleatório, mas que ajuda a transformar um show em lembrança específica, única.

Instrumentalmente, o Avenged segue sólido. Synyster Gates é, de longe, um dos melhores (e talvez mais subestimados) guitarristas de sua geração. O baterista Brooks Wackerman toca que é um absurdo e mantém vivo (com muita personalidade) o legado de The Rev. Shadows, com todas as limitações conhecidas, entregou uma performance extremamente competente. Quando a voz falhava, o público assumia. E assumia com prazer.
O encerramento do show trouxe uma bela explosão de fogos ao redor do estádio, coroando uma noite que já havia se consolidado muito antes do último acorde. A sensação era esta: algo grande havia acontecido ali.

O Avenged Sevenfold chegou ao Allianz Parque como uma banda que sobreviveu a mudanças estéticas, crises internas, morte de integrante, problemas de saúde, divisões de público e escolhas artísticas arriscadas. Saiu de lá maior do que entrou. Ser gigante, talvez, seja isso: continuar relevante mesmo quando se recusa a agradar todo mundo. Lotar um estádio não apesar disso, mas junto com isso.
No Brasil, pelo menos, o recado foi claro: o Avenged Sevenfold já não é apenas grande. É gigante (e acaba de entrar pra história).

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/