Novo Rock Gaúcho 009: Carlos Zanettini, Imundo, Supervão, VooDoo BoDies, Troll, Código Penal, Betume, Os Torto, Prägä

por Homero Pivotto Jr.

Mais um ano novo que chega! Com ele, novas velhas resoluções que nem sempre conseguimos colocar em prática. Ao menos, que a música sendo alento em meio à selvageria do mundo contemporâneo. Por aqui, seguimos com o intuito de mostrar o trabalho de artistas autorais do Rio Grande do Sul.

Nesta edição da coluna Novo Rock Gaúcho no Scream & Yell, trazemos lançamentos do recém chegado 2026, bem como novidades tardias do ano passado. Dá um conferida aí!

– “Peixes Abissais”, Carlos Zanettini – Terceiro single do novo disco de Zanettini, com previsão de lançamento este ano. O single “Peixes Abissaus” foi escrito em maio de 2024, ainda sob o forte impacto das enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul. A faixa traz, sonora e liricamente, imagens submersas de “vidas que ficaram para trás”.

Dos singles lançados até agora (“Ciclos” e “Deixa Cair”), o mais recente é certamente a canção mais atmosférica, utilizando-se de elementos extremamente sutis para descrever a brutalidade de sonhos desfeitos e planos interrompidos, “engolidos pelos peixes abissais”.

Ao referenciar o “fundo desse rio, o fundo desse lago” (fala-se muito sobre se o Guaíba é afinal um rio ou um lago) e trazendo a imagem de uma cidade no fundo do oceano, Zanettini usa imagens desoladoras sobre vidas desfeitas, ao observar que talvez não exista um lugar para reconstruir, sempre pontuado pelos efeitos dramáticos de sua banda formada por Leonardo de Oliveira (guitarra), Maria Benincá (teclado) e Álcio Villalobos (bateria).


– “Espectros”, da Assombroso Mundo da Natureza – O primeiro álbum da Assombroso Mundo da Natureza chega em formato audiovisual com oito músicas e oito vídeos registrados ao vivo, formando uma obra que une som, letra e imagem em uma mesma proposta. O trabalho nasceu de um processo coletivo e espontâneo, guiado por improvisos, ensaios e por uma estética experimental que percorre todas as composições. As faixas exploram diferentes nuances de tempo, memória e sensação, às vezes de forma direta, às vezes psicodélica e, em muitos casos, transitando entre essas duas atmosferas dentro da mesma música.

As transições entre uma parte e outra das músicas ajudam a definir o clima de “Espectros“. Diversas faixas se movem como pequenos filmes internos, mudando de direção sem seguir estruturas tradicionais de repetição. Em vários momentos, essa construção assume uma energia dançante e pulsante, que atravessa boa parte do disco e surge de forma natural dentro dos arranjos. Tal liberdade reforça que o disco não adota uma formatação rígida e opera de maneira livre, permitindo que cada música encontre seu próprio tempo e forma. Esse fluxo contínuo traduz o conceito espectral que acompanha o álbum e que nasceu ainda nos primeiros rascunhos, quando as músicas estavam em estágio inicial. Essa alternância entre tempos e percepções foi determinante para a forma final do trabalho.

A escolha por registrar o álbum ao vivo se conecta diretamente à fase atual da banda.


– “Charlie Grind”, da Imundo – “Charlie Grind Jr.” é o nome do novo EP da Imundo, banda de Lajeado. A brincadeira com outras artistas do mundo rockista vai além do título: a capa também carrega elementos estéticos que fazem referência a nomes como Megadeth e Madball. O trampo, agora musicalmente falando, é fruto da mistura da sonoridade pesada com experimentações doidas, acenos ao reggae e ao ska, além de participações da galera do rap. A ideia é justamente combinar elementos de fora do hardcore para fazer uma obra diferente do lançamento anterior da banda.


– “MultiClimatic Incident”, de Carcinosi – A crise climática é real. A ciência confirma e a experiência empírica atesta. Já a arte reforça esse fato, transformando-o em testemunho histórico de quem assiste a natureza em colapso. Um exemplo é o novo som do trio death metal gaúcho Carcinosi, que disponibilizou em dezembro de 2025 o single “MultiClimatic Incident”. O lançamento chega ao mundo em degradação via plataformas de streaming e por meio de lyric video. A faixa marca o primeiro registro com a nova formação, composta por Tiago Vargas (Vocais/Baixo), Victor Nichele (Guitarras) e Leo Boeira (Bateria), e antecipa os caminhos estéticos e conceituais do próximo álbum da banda.

De acordo com material de divulgação, a música combina agressividade, atmosfera opressiva e uma abordagem narrativa que dialoga com o colapso ambiental, a extinção e os ciclos de destruição. A letra descreve um cenário de ruptura irreversível: céus em colapso, mares contaminados, fome, tempestades e um mundo que sangra, não como metáfora distante, mas como consequência direta de um processo contínuo de degradação. O conceito da composição ainda se baseia na ideia de que o fim não é um evento súbito, mas um processo acumulativo, em que desastres naturais, instabilidade climática e erosão moral convergem para um mesmo ponto de ruptura, de que um ciclo histórico se encerra para dar lugar a uma era de ruínas.


– “Em Nome do Sofrimento”, de Prägä – Num mundo assolado por pestes, nem toda praga é ruim. A banda de metalcore Prägä, de Santa Maria, entra nesse grupo. O conjunto liberou seu primeiro álbum, “Em Nome do Sofrimento”. São 10 faixas de bestialidade sonora e apuro na execução. Eis o que o grupo pontuou sobre o lançamento em post no instagram: “2025 foi construção e destruição pra PRÄGÄ. Processo real: ensaio puxado, conflito, erro, insistência e nenhuma fuga do incômodo. A banda se fechou pra entender o que fazia sentido dizer — e como dizer. O resultado é “Em Nome do Sofrimento”. O disco fala do sofrimento cotidiano não como algo individual, mas como algo produzido, cobrado e organizado: carma pago em dinheiro, justiça parcial, fé como controle, desigualdade vendida como destino. Um mundo que promete liberdade enquanto ensina submissão, individualiza corpos e apaga o coletivo. Aqui não tem redenção fácil — tem denúncia, conflito e a pergunta que insiste: quem vai lembrar?”.


– “Vale a Pena Ver de Novo?”, d’Os Torto – Duas categorias de pessoas costumam habitar o universo da música: os jovens e os jovens há mais tempo. O trio Os Torto está no segundo grupo, misturando a experiência dos veteranos com a disposição juvenil para não se levar a sério. O novo single, “Vale a Pena Ver de Novo?” (nome dado às reprises de novela na Globo), reforça essa impressão. No som, o trio resgata memórias do passado para transformar em punk rock presente.

A faixa, com pouco menos de dois minutos, apresenta uma releitura do tema de abertura do programa “A Escolinha do Professor Raimundo”. A versão acelerada da atração de humor criada por Chico Anysio é atravessada, ainda, por um trecho instrumental da música tema do Faustão. Hey, kids: vamos à escola, lá se aprende a viver.


– “Sozinho Contra Todos”, de Betume – O cinza do concreto da urbe testemunha a mecanicidade de errantes que correm para ganhar a vida durante o dia e das almas que vagam pela noite em busca de algum alento. Num cenário assim, a trilha sonora demanda sons que emulem a desesperança contemporânea, ao passo que acompanhem a urgência da loucura cotidiana dos novos tempos. É nesse cenário que surge a Betume (substância viscosa derivada do petróleo usada na composição do asfalto – este, um símbolo do “progresso).

O trio de cold oi! (mistura de street e post punk, grosso modo) porto-alegrense colocou na rua o single e clipe da música “Sozinho Contra Todos”. Com instrumental que remete a sonoridades popularizadas nos anos 1980, como expressão de subculturas urbanas, a faixa explora, liricamente, a solidão e os conflitos de quem é tido como desajustado. Ou seja: de pessoas que não se adequam dentro de uma sociedade que patrola qualquer senso de humanidade em nome das convenções do capital.

Segundo a própria Betume: ““Sozinho Contra Todos” é uma alusão tanto ao título do filme de Gaspar Noé de 1998, como ao nome de uma página de crônicas ambientada em Porto Alegre e mantida por Guilherme Silva, também editor da página Hic Sunt Leones, durante o período de 2018.”


– “1993 Sei que Estava Lá”, da Código Penal – Na primeira metade dos anos 1990 – mais precisamente 1993 -, quando misturar rap com hardcore ainda era algo novo, a Código Penal estava na vanguarda. Agora, mais de 30 anos depois, o sexteto segue na ativa (ainda que de maneira errática) e mostra essa trajetória de ritmo, poesia e peso no documentário “1993 Sei que Estava Lá”, disponível no canal do próprio grupo.

Outra novidade é que a rapaziada está com pré-venda do EP “Apologia” em vinil. Neste link, de um post dos caras no Instagram, tem infos de como adquirir o disco. Abaixo, infos que o grupo está divulgando em suas redes sobre o lançamento.


– O zine Boca de Lobo aborda o cenário da zona zul do RS – A cena independente gaúcha é formada de muitas cenas locais. E é sempre bacana quando se pode encontrar informações sobre esses fragmentos microcosmos underground aqui no sul do mundo. O zine Boca de Lobo é uma boa pedida para quem tem interesse em saber mais sobre o que rola na arte marginal de Rio Grande, São José do Norte e região, na faixa sul do RS.

O trampo documental é uma iniciativa da Laura Laco, baixista da banda Karmoníak, e já tem duas edições. As versões digitais da revista estilo faça-você-mesmo podem ser lidas online aqui.


– “Fogo Ancestral”, da Troll – Groove, peso e conexão com a terra. Esses elementos estão presentes em “Fogo Ancestral”, estreia da Troll no universo dos clipes. Captado e editado por Billy Valdez, o vídeo mostra cenas da banda tocando em meio à natureza em uma noite de lua cheia.

Conforme o próprio grupo: ““Fogo Ancestral” marca o início de uma nova fase da Troll, aprofundando o groove metal com uma identidade ainda mais brasileira, pesada e ritualística. A faixa carrega força primitiva, ritmo e conexão com a terra, refletindo a evolução sonora da banda.”


– “Hip Hop nas Escolas” (documentário) – O audiovisual tem um peso muito grande como registro histórico. É uma ferramenta possível para que o passado não seja esquecido, indicando, assim, alguma perspectiva de futuro. No documentário “Hip Hop nas Escolas”, é possível conferir a trajetória inspiradora de um artista negro na fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

O trabalho apresenta a saga de vida de Luciano Ordai, ou Mano Ordai, morador de Uruguaiana, divisa com a Argentina. Agente cultural da cidade e da região, desde jovem, o músico e educador repassa no vídeo sua relação com o skate, o hardcore e rap. No meio disso, tem superação, prisão, família, amigos e a criação do projeto que batiza o doc – iniciativa sensacional que leva a cultura do ritmo e poesia a instituições públicas de ensino.


– “Self Episode of Happy Accidents”, de VooDoo BoDies – Detratado por uns e adorado por outros, o new metal continua rendendo frutos. O estilo musical que despontou na segunda metade dos 1990 e consolidou-se na virada do século, misturando rock pesado, rap e elementos eletrônicas tem voltado aos holofotes – seja pelos trabalhos das bandas consagradas ou pelo revival que nos apresenta novos artistas. Na onda de expoentes contemporâneos do gênero está a VooDoo BoDies, de Santa Maria.

O quinteto lançou, no início deste ano, o primeiro EP, intitulado “Self Episode of Happy Accidents”. O registro tem quatro faixas que transitam, segundo os músicos, entre o estilo já mencionado, o metal alternativo e o metalcore. Ainda de acordo com o grupo, o trampo “é um trabalho autoral e independente, que retrata experiências e vivências pessoais traduzidas em sonoridades que representam o estilo da Voodoo Bodies”.


“No Silêncio do Olhar”, de Jimi Barba – Terceiro single do compositor, cantor e guitarrista da Serra Gaúcha. De acordo com material de divulgação: “A canção fala sobre o reencontro após a morte. A pessoa amada que a gente espera encontrar depois do fim de tudo para nos trazer a paz. Uma ilusão reconfortante. Um rock cortante e pungente. Uma força sonhadora”, define o compositor. A faixa tem Jimi Barba (guitarra e voz) acompanhado pelos músicos Alemão Ribeiro (baixo e teclado) e Helio Cordeiro (bateria e produção). O trabalho é o 14º lançamento do selo independente Rocha Dura.”


“Amores e Vícios da Geração Nostalgia (Deluxe)”, da Supervão – A Supervão colocou na rua nova versão do mais recente álbum, de 2024. Intitulado “Amores e Vícios da Geração Nostalgia (Deluxe)”, o novo registro foi pensado como um disco triplo. Essa edição especial retoma as composições a partir de novas leituras e colaborações, incluindo feats com OTTOPAPI e Carlinhos Carneiro, ampliando o universo das faixas sem descaracterizar o trabalho original.

O disco “AVGN” original gerou um retorno importante no Brasil e no Rio Grande do Sul, com quatro indicações ao Prêmio Açorianos de Música, a mais tradicional premiação da música gaúcha. O trabalho venceu as categorias Melhor Disco de Rock e Melhor Produtor, prêmio concedido a Mario Arruda, vocalista da banda e responsável pela produção do álbum.

A versão deluxe apresenta duas faixas do álbum em novas versões. Em “Nostalgia (Deluxe)”, a participação de OTTOPAPI traz um verso inédito escrito pelo cantor paulista. Já “Tudo Certo pra Dar Errado (Deluxe)” conta com a participação de Carlinhos Carneiro, figura central do rock gaúcho por sua trajetória à frente da Bidê ou Balde, estabelecendo um diálogo entre as duas gerações.

Além dos feats, Amores e Vícios da Geração Nostalgia (Deluxe) inclui a demo inédita “YOLO”, registrada ainda no embrião das composições do álbum, em um momento inicial do processo criativo. A faixa revela um lado mais suave e bem-humorado da banda, funcionando como contraponto às versões mais intensas presentes na edição. A edição deluxe também incorpora o EP ao vivo gravado na Rádio Agulha, reunindo a formação que levou o álbum aos palcos, funcionando como um documento do show que a banda vem apresentando a partir desse álbum.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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