texto de Davi Caro
Não importa o quão rápido, ou devagar, os anos e décadas se passem: o público em massa não parece sequer um pouco mais preparado para o impacto de “O Massacre da Serra Elétrica”. O filme de Tobe Hooper (lançado originalmente em 1974 com o título original “The Texas Chainsaw Massacre”) obviamente chocou audiências por onde passou em sua época. Desde então, no entanto, a influência do longa-metragem – que inclui o status de ícone pop conferido a seu principal antagonista, o grotesco Leatherface – vai muito, muito além do que se vê. Em grande parte, a celebração do filme, mesmo mais de quarenta anos desde seu lançamento, não se explica simplesmente pela riqueza de seu enredo, ou pelas inúmeras possibilidades que este abre. Remakes, reboots, videogames, quadrinhos, figuras colecionáveis e referências mil em outras obras podem, inclusive, ofuscar o fato de que todo este fascínio, na verdade, se deve ao fato de que nada, desde então, conseguiu sequer chegar perto do que Hooper almejou, e alcançou, em sua obra-prima.
O principal objetivo de “Chain Reactions”, então, é evidenciar não apenas o processo criativo de Hooper (que faleceu em 2017) como também as diferentes frentes nas quais os ecos de “O Massacre…” se fizeram, e se fazem, sentir mais. O documentário, dirigido por Alexandre O. Philips e exibido pela primeira vez quando do quadragésimo aniversário do longa, chega agora ao grande público via VOD, e apela não apenas àqueles já familiarizados com o material que se propõe a dissecar. Em grande parte, aliás, o doc faz jus ao espírito chocante – e surpreendente – do filme ao propor uma estratégia que desvia dos chavões de produções do gênero. Assim, ao invés de conciliar dezenas de entrevistas com personalidades que pouco, ou nada, podem adicionar à discussão, Philips centra o foco de suas lentes em cinco personalidades distintas, cada uma impactada a seu próprio modo pela macabra e incrível película. Patton Oswalt (ator, roteirista e comediante), Takashi Miike (roteirista e cineasta), Alexandra Heller-Nicholas (crítica de cinema), Stephen King (escritor), e Karyn Kusama (cineasta) explicam, cada um a seu modo, a maneira com a qual vivenciaram o filme, e o impacto que o mesmo teve em suas vidas pessoais, suas carreiras profissionais, e suas visões de mundo.

Ao longo dos depoimentos coletados com cada um dos entrevistados, alguns aspectos se sobressaem, e ajudam a aprofundar a percepção do filme original em retrospecto. Oswalt, por exemplo, faz questão de rememorar seu primeiro contato com o longa – via uma fita VHS – como sendo um componente fundamental para a impressão perturbadora, aflitiva e memorável de testemunhar as sangrentas desventuras de de Sally Hardesty (Marilyn Burns) e seus amigos. É possível, de certo modo, identificar as colocações de Patton como as mais condizentes com a reputação “mainstream” que “O Massacre…” conquistou – o ator acaba, talvez involuntariamente, representando o público em geral, que acabou ajudando a converter o longa em uma produção quase mítica em sua morbidez.
O depoimento de Takashi Miike, no entanto, talvez seja o mais iluminador de todos – em grande parte, talvez, por se relacionar com o material analisado de maneira menos “óbvia”. O diretor japonês, considerado um dos mais celebrados cineastas de horror de sua geração graças a produções chocantes como “Audition” (1999), proporciona uma correlação entre a crueza da violência de Leatherface e de sua família com a brutalidade gráfica que se tornou marca registrada de muito do cinema oriental desde os anos 1980. Sob esta ótica, projetos marcantes de horror, como “Evil Dead Trap” (de Toshiharu Ikeda, 1988), “Tetsuo” (de Shinya Tsukamoto, também de 1988) ou “Ju-On” (de Takashi Shimizu, 2002) acabam quase ressignificados. Além de ajudar a esclarecer as diferentes perspectivas pelas quais mesmo uma obra tão difundida pode ser absorvida sob a ótica de uma cultura diferente, o depoimento de Miike também serve como o atestado definitivo do porque grande parte das produções japonesas refeitas por diretores e estúdios orientais é fundamentalmente incapaz de fazer jus à inspiração original.
Embora explorem perspectivas muito diferentes, as impressões compartilhadas por Alexandra Heller-Nicholas e Stephen King acabam sendo complementares entre si, muito por lidarem com o mesmo conceito: o de ruptura com o conhecido, com o pré-estabelecido. A crítica de cinema australiana rememora com precisão a conexão sentida entre o sufocante calor do Texas representado na tela e a aridez dos desertos de seu país natal. Seu ponto mais interessante, entretanto, tem a ver com o estabelecimento de uma tendência que seria seguida a fundo no cinema de terror nos anos que se seguiriam. Por acaso ou por estratégia, Hooper acabaria fazendo da já citada personagem de Marilyn Burns a primeira “final girl” da história do cinema; o termo seria propriamente cunhado não muito tempo depois, se referindo à hoje difundida ideia de uma solitária sobrevivente de um brutal percalço. Se, nos anos e décadas subsequentes, a fórmula seria modificada com generosas (e bem-vindas) doses de empoderamento. Se Sigourney Weaver, Linda Hamilton e Neve Campbell puderam correr de seus algozes, porém, foi apenas porque Sally Hardesty um dia precisou cambalear.
O tipo de ruptura do qual Stephen King fala, entretanto, é muito mais relacionado à percepção popular do horror como algo mais mundano – e, consequentemente, mais perturbador. Até a virada da década de 1960 para os anos 70, o cinema de terror era mais relacionado às atmosféricas, apesar de caricatas, interpretações de Christopher Lee e Boris Karloff. Foi Roman Polanski, com seu “O Bebê de Rosemary” (1968) quem primeiro aproximou, de verdade, o horror cinematográfico do mundo real. Se “O Exorcista” (de William Friedkin, 1973) e “A Profecia” (de Richard Donner, 1976) assustaram espectadores ao mostrar impressões mais mundanas do terror e subverter conceitos estabelecidos de crença religiosa, foi “O Massacre…” que acabou pavimentando o território para o experimentalismo na sutil tradição do susto na sétima arte. Isso, vale dizer, respingou até mesmo nas adaptações de obras do próprio King: Tobe Hopper terminou dirigindo a minissérie “Salem’s Lot” em 1979.
O depoimento de Karyn Kusama, embora mais técnico, acaba conciliando todos os pontos de vista exibidos anteriormente – o que só faz com que seu posicionamento, por último, seja mais apropriado. Além de abordar o inovador uso de efeitos totalmente práticos no filme (sobretudo na tomada inicial, com o cadáver exibido no cemitério) e a superação de precariedades em favor da construção de uma atmosfera irresistível – tal qual as exibições de explosões solares, entrecortadas com breves flashes de restos mortais sendo fotografados, durante os créditos iniciais – a diretora fala com propriedade sobre os aspectos sociais do filme. Mais especificamente, sobre como o enredo aborda, quase secretamente, a derrocada do modelo de vida norte-americano que se sucedeu ao escândalo de Watergate e à humilhante derrota dos EUA no Vietnã, na mesma época. A marginalização de determinadas culturas de vida, principalmente em ambientes mais afastados e hostis, acabou resultando na brutalização de populações, desesperadas ao testemunhar a queda de uma estrutura dentro da qual viviam. A cineasta, de forma bastante perspicaz, acaba desvendando o mistério por trás do apelo longevo que o longa de Tobe Hooper tem: por mais implacável que possa ser, o filme força suas audiências a encararem uma realidade desconfortável, perturbadora, sangrenta, e (infelizmente) até hoje bastante atual.
A reafirmação da importância de “O Massacre da Serra Elétrica” não é um fenômeno recente. Afinal, entre continuações cada vez mais tenebrosas (falando de qualidade) e transposições para outras mídias (como os quadrinhos ou os videogames), a renovação dos conceitos que o longa trouxe à frente pela primeira vez é uma influência pra lá de importante no cinema de horror contemporâneo. É impossível não identificar traços da aridez sanguinária que Hooper conjurou em novos clássicos do gênero, como “X – A Marca da Morte” (2019). No entanto, a elaboração de um longa deste tipo, apresentado de maneira tão realista, granular e febril a ponto de chocar espectadores mesmo tantos anos depois, talvez diga tanto sobre o mundo no qual seus fãs habitam agora quanto sobre o que testemunhou suas primeiras exibições. A mensagem de “O Massacre…”, brutalizada e mórbida, bate fundo no seio de uma sociedade insensibilizada pela violência, e nos desafia a encarar demônios antigos que habitam a sociedade ocidental. “Chain Reactions” faz jus a tudo isso ao escolher a dedo seus cinco depoentes, tomando seu tempo para jogar luz sobre as muitas mudanças e construir uma espécie de tese conjunta, e definitiva sobre uma obra que incomoda e intriga. Quase como um espelho, que mostra ao público o lado mais bárbaro e grotesco de uma organização social que mutila seres humanos tal qual, por que não, uma serra-elétrica.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.