texto de Ismael Machado
Trinta anos depois de subir a um palco pela primeira vez, o Cravo Carbono permanece como um daqueles casos emblemáticos da música brasileira em que a história parece ainda não ter feito justiça completa. Não por falta de qualidade, ousadia ou impacto, mas por uma combinação persistente de centralismo cultural, preconceito estético e hierarquização regional que atravessa a formação do campo musical no Brasil. Se o Cravo Carbono tivesse surgido no eixo Rio–São Paulo, dificilmente seria tratado como uma banda “de nicho” ou “regional”: muito provavelmente estaria hoje consolidado no cânone do rock brasileiro como um dos grupos mais inventivos de sua geração.
Nos anos 1990, quando a banda emerge em Belém, o país vivia o impacto do manguebeat, movimento que, a partir de Recife, colocou em circulação a ideia de que tradição e futurismo não apenas podiam coexistir, como podiam se potencializar mutuamente. O Cravo Carbono absorve esse espírito, mas o desloca para um território próprio: a Amazônia urbana, atravessada por guitarradas, tecnobrega nascente, zouk, carimbó, ecos da música latina, do pop internacional e do rock alternativo. O que a banda realiza não é uma soma de gêneros, mas uma operação estética mais complexa, ou seja, uma tradução sonora de um espaço híbrido, contraditório, mestiço e em permanente mutação.
Essa escolha não era óbvia nem confortável. Durante décadas, a sonoridade popular paraense foi tratada, nos grandes centros e até mesmo internamente, como expressão “menor”, “cafona”, “excessiva” ou “brega” — rótulos que carregam não apenas juízos estéticos, mas também marcadores de classe, raça e território. Ao incorporar essas matrizes sem pedir licença, o Cravo Carbono faz um gesto político antes mesmo de ser lido como tal, pois afirma que aquilo que vinha sendo colocado à margem é, na verdade, matéria-prima legítima para experimentação, sofisticação e invenção.
Isso se deve, em grande parte, à excelente alquimia sonora engendrada por seus integrantes. A guitarra de Pio Lobato, o baixo potente de Bruno Rabelo (também um guitarrista de mão cheia), a bateria explosiva de Vovô e as letras e vozes de Lázaro Magalhães, sempre souberam dialogar em que pese as influências estéticas peculiares de cada um. Um diálogo muitas vezes ruidoso internamente, mas com um direcionamento claro aos ouvidos mais atentos. O Cravo soava e ainda soa instigante e contemporâneo no que de melhor essas palavras gastas ainda podem dizer.
Há, portanto, um paralelo possível entre o Cravo Carbono e bandas que, no Sudeste, foram consagradas exatamente por tensionar fronteiras entre gêneros: grupos que misturaram rock com samba, funk, música nordestina ou eletrônica e foram celebrados como visionários. A diferença fundamental está menos na natureza da proposta e mais no lugar de onde ela parte. No Brasil, inovação vinda do eixo é frequentemente lida como vanguarda; inovação vinda da Amazônia, como curiosidade exótica.

O Cravo Carbono antecipa discussões que só ganharam corpo muitos anos depois: a ideia de uma música brasileira não hierarquizada, em que o pop não é sinônimo de pasteurização, e em que a cultura periférica não precisa ser “traduzida” para se tornar aceitável. Ao flertar com estruturas pop sem abandonar a estranheza, ao cruzar guitarras ‘estranhas’ com grooves dançantes, ao assumir tanto o ruído quanto a melodia, a banda constrói uma estética que conversa diretamente com tendências globais, mas sem abdicar de um sotaque local forte.
Esse ponto é central. O Cravo Carbono não “representa” a Amazônia no sentido folclórico. Ele produz Amazônia como presente, como cidade, como circuito cultural ativo. Belém aparece, em sua música, não como paisagem parada no tempo, mas como metrópole sonora, atravessada por fluxos, tecnologias, desejos e conflitos. Trata-se de uma modernidade amazônica, conceito que ainda encontra resistência em parte da crítica e do imaginário nacional.
Se a banda tivesse surgido em São Paulo ou no Rio, provavelmente seria enquadrada em narrativas já consolidadas: “herdeiros do tropicalismo”, “nova psicodelia brasileira”, “rock experimental de vanguarda”. Teria ocupado capas de revistas, entrado em listas históricas, sido objeto de atenções atentas e diversas. O fato de ter nascido em Belém desloca essa trajetória para uma zona de quase invisibilidade, típica de artistas que, apesar de influenciarem toda uma geração na música feita no Pará, não recebem o mesmo aparato simbólico de consagração.
Ainda assim, o legado do Cravo Carbono é perceptível. A naturalidade com que hoje artistas paraenses transitam entre guitarrada, pop, eletrônico, rock e ritmos latinos deve muito a essa trilha aberta nos anos 1990. O que antes soava “errado” ou “excessivo” passou a ser entendido como assinatura estética. Nesse sentido, a banda não apenas produziu música. Ela ajudou a reconfigurar o campo de possibilidades para a criação na Amazônia.
A banda tem celebrado suas três décadas, conscientes do papel desempenhado até aqui. Sua obra-prima ‘Peixe Vivo’ (2001) ainda permanece como um álbum repleto de um frescor que não envelheceu, pelo contrário, tem ganhado mais relevância a quem o descobre exatamente agora. É só ouvir ‘Mercúrio’ e ‘Ver-o-Peso’ para se entender claramente o poder da diversidade da banda. Reouvir Cravo Carbono não é apenas revisitar uma discografia ou uma história de palco. É reconhecer um projeto artístico que desafiou hierarquias, expandiu horizontes e propôs outra ideia de Brasil musical — mais ampla, mais diversa, menos submissa a centros de validação. É também um exercício crítico. Precisamos perguntar por que certos nomes entram facilmente no panteão e outros permanecem orbitando suas bordas. Há tantos nomes incensados e hypados que não produzem realmente nada de relevante musicalmente, mas fazem parte de uma bolha centrista que raramente consegue olhar para além do próprio umbigo.
Talvez o maior sinal da importância do Cravo Carbono seja justamente este. Mesmo sem o reconhecimento proporcional à sua proposta criativa, sua música continua atual, pulsante e necessária. Como toda obra que realmente abriu caminhos, ela não envelhece; apenas aguarda que o país esteja, enfim, pronto para escutá-la sem filtros coloniais.
– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“