texto de Heberton Barreira
A mais pura e resiliente linhagem do rock independente raramente segue um caminho linear. Muitas vezes, ela brota de finais inesperados e floresce em solo fértil de convicção tranquila. A história dos The Bats, uma das formações mais consistentes e cativantes a emergir da Nova Zelândia, começa precisamente assim: com um colapso. Em meados de 1982, a dissolução do seminal The Clean deixou o baixista Robert Scott “sem uma banda e vivendo do auxílio-desemprego”, como documenta Matthew Goody no livro “Needles & Plastic: Flying Nun Records, 1981-1991” (2022). Mas, longe de se render, Scott, nunca parando de compor, começou a tocar com colegas músicos, um processo orgânico que, ainda em 1982, cristalizou-se no The Bats.
A formação que se estabeleceu – Scott nos vocais e guitarra, a parceira de jam e colega de casa Kaye Woodward na guitarra, Paul Kean (ex-Toy Love) no baixo e Malcolm Grant (dos Builders) na bateria – tornava viva desde o primeiro dia uma atitude anticomercial. A banda via seu projeto como um “hobby”, com o seu primeiro show a acontecer numa festa de aniversário. Não havia intenção nenhuma em fazer daquilo uma carreira em tempo integral, não havia uma pose despretensiosa, mas sim o prazer pela música acima da exposição. Este era o princípio orientador do grupo. Kaye Woodward admitiu ao tradicional jornal The Press, num trecho citado por Goody: “Recebemos muitas ofertas de shows, mas houve um momento em que estaríamos tocando com frequência demais e nós os recusamos”. Esta paciência, esta recusa em se esgotar, tornou-se a pedra angular de uma carreira que, agora em 2025, está atravessando cinco décadas.

A sonoridade, desde o EP de estreia “By Night” (1984), era imediatamente identificável. No livro “The Dunedin Sound: Some Disenchanted Evening” (2016), Ian Chapman traduz a sua essência de forma precisa: uma “arte melódica cativante com um toque cortante”. Eram canções folk-pop envoltas num manto de guitarras jangle, harmonizadas pelos vocais serenos e complementares de Scott e Woodward, mas com uma energia contida que mantinha a música sempre em evolução. Apesar do carácter rudimentar das primeiras sessões, como o próprio Scott admitiu, havia ali uma semente de autenticidade que prometia florescer.
A sua primeira obra-prima, “Daddy’s Highway” (1987), nasceu de forma quase acidental durante uma turnê europeia em 1986, gravada num estúdio caseiro de oito canais em Glasgow. O método, segundo o baixista Paul Kean, era um puro e singelo hobby: “Era apenas nós quatro, basicamente, tomando nosso tempo, curtindo”. Quando o álbum finalmente foi lançado, após uma série de atrasos logísticos que refletiam as lutas do selo neozelandês Flying Nun, foi aclamado como um ponto de virada.
A composição estava se tornando mais ambiciosa e personagens fictícios como Mr Earwig e Claudine estavam ficando pelo caminho em favor de um ponto de vista mais centrado em Scott. Nos EUA, a revista Forced Exposure saudou “Daddy’s Highway” com um “Wow and double wow!” de Jimmy Johnson, celebrando a sua qualidade “humilde, arrepiante e sem esforço”. Apesar deste reconhecimento crescente, a banda manteve o seu curso singular. Robert Scott e companhia desaceleraram o progresso da banda em vez de buscar sucesso comercial. O que poderia ter sido o fim para muitas bandas, tornou-se o início de uma lenda. Mesmo fazendo pausas para a família e outros trabalhos, eles continuaram a lançar discos notáveis – como “The Law of Things” (1990) e “Fear of God” (1991) – e a fazer turnês ocasionais, mantendo a música sempre como uma paixão, nunca uma obrigação.

A maturidade artística dos The Bats encontrou sua expressão plena em “Silverbeet” (1993) e “Couchmaster’ (1995). Enquanto o primeiro mostra a banda se reencontrando em um som mais caseiro após anos de turnê, o segundo consolida com composições mais robustas. Lançados quando o grunge dominava as rádios, esses discos foram um ato de resistência tranquila – a prova de que os The Bats haviam encontrado seu caminho único: fazer música atemporal, no seu próprio ritmo, longe de qualquer moda passageira. Uma rota que, não por acaso, viria a influenciar e ecoar no trabalho de bandas fundamentais do indie rock, como Pavement, Guided By Voices, Superchunk e Yo La Tengo, que carregam, seja declarada ou sutilmente estampada em suas guitarras, a herança sonora dos “morcegos” neozelandeses.
O seu regresso no novo milénio com uma trilogia de discos robustos – “At The National Grid” (2005), “The Guilty Office” (2008) e ‘Free All The Monsters” (2011) – demonstrou não um renascimento, mas uma simples continuação do seu diálogo musical. “The Deep Set” (2017) manteve sua fórmula clássica de melodias de guitarra e letras introspectivas, porém com uma uma sabedoria que só o passar dos anos traz. Faixas como “Rooftops” mostravam uma banda à vontade com seu próprio legado, provando que seu folk-rock atemporal não apenas resistia, mas seguia relevante. O disco confirmava, então, que a verdadeira inovação é simplesmente permanecer fiel à própria essência.
Em 2018, realizaram o notável projeto “Foothills”, em um ato de arqueologia criativa de Robert Scott, querendo reafirmar a sua própria história antes de escrever o próximo capítulo, que intitula-se “Corner Coming Up“, décimo primeiro álbum de estúdio da banda, lançado em 17 de outubro de 2025. Onze canções que soam ao mesmo tempo familiares e vitais, explorando diversas facetas da introspecção e da superação.

Da vulnerabilidade médica e existencial de “The Gown” ao otimismo teimoso de “Lucky Day”, da reflexão cósmica de “A Line to the Stars” ao apelo ecológico de “Nature’s Time”, passando pelos apoios cotidianos examinados em “A Crutch A Post”, o álbum é uma cartografia da experiência humana madura. Um riff incita a “levantar e saudar o dia” em “Song for the End” – onde se anseia por “paz e neutralidade”. Uma caminhada perseverante em “Smallest Falls” e uma melancolia impulsiva de “Tidal” – como se estivessem impelindo o ouvinte na subida de uma colina pedregosa.
Enquanto a banda explora essa negociação constante entre dúvida e esperança, a química rítmica de Kean e Grant fornece a fundação inabalável que sustenta até mesmo as faixas mais contemplativas, como ‘Eyes Down’ – uma peça de arranjo solene que evoca a atmosfera de uma marcha fúnebre no piano, repetindo hipnoticamente o refrão Eyes Down a partir de 1 min e meio de música. As guitarras de Scott e Woodward entrelaçam-se com uma cumplicidade que só quatro décadas de estrada podem forjar, criando o tecido sonoro que une a expectativa da faixa-título “Corner Coming Up” ao suspiro final de “Loline”.
A história dos The Bats é mais do que uma crônica de discos lançados; é um testemunho do poder da paciência e da integridade artística. De um fim abrupto do The Clean às promessas presentes no EP By Night, da maturidade de Daddy’s Highway à reflexão de Foothills e à afirmação plena de Corner Coming Up, a sua jornada é um mapa de uma estrada menos percorrida: a da constância. Num mundo musical de fogos de artifício efémeros, The Bats permanecem uma chama constante, provando que a verdadeira revolução, por vezes, é simplesmente não desistir e seguir em frente.
Ouça “Corner Coming Up” na integra abaixo e leia uma entrevista com eles aqui
– Heberton Barreira é estudante de jornalismo, bandolinista e animador stop-motion. Criador do @yayatedance