Três shows: Katacombs, Dave Hause, Frank Turner

texto de Marcelo Costa
fotos de Douglas Souza

De tempos em tempos, assim como dizem (a grande bobagem de) que o rock está morto, dizem também que ninguém mais faz canções de protesto “como se fazia antigamente”. É claro que quem pensa assim está com os olhos e ouvidos nos lugares errados, porém, no primeiro mês de 2026, uma canção de protesto voltou a ultrapassar as barreiras de estilos e chegou ao topo das paradas: “Streets of Minneapolis”, single de Bruce Springsteen que ataca Donald Trump e a ICE (o “descontrolado” Serviço de Controle de Imigração e Fiscalização dos EUA) alcançou o número 1 no iTunes em 19 países! O videoclipe já soma mais de 4 milhões de views (em dois dias… e contando). Canções e histórias.

Katacombs

Anunciada em novembro de 2025, a turnê conjunta de Katacombs, Dave Hause e Frank Turner pelo Brasil (além de São Paulo, o trio iria passar por Brasília e Curitiba) ganhou um peso simbólico especial nesta semana em que Bruce Springsteen compôs, gravou e lançou em quatro dias sua canção que pede para que Alex Pretti e Renée Good, assassinados pelos “capangas federais de Trump”, não sejam esquecidos, afinal, Katerina, Dave e Frank são três artistas com seus violões cantando letras que pedem atenção e reflexão em um momento conturbado da humanidade, e, claro, olham, cada um a sua maneira nesta noite no Fabrique, em São Paulo, para o que está acontecendo no mundo, em geral, e nos Estados Unidos, em particular.

Katacombs

Nascida em Miami, filha de mãe espanhola e pai grego, Katerina “Katacombs” Kiranos escolheu Austin como casa, montou uma marcenaria que administrou por oito anos e, em 2022, decidiu mergulhar na música. Seu primeiro álbum, “Fragments of the Underwater” (2025), é uma coleção de baladas emocionais, das quais Katerina, escalada para abrir a noite, exibe na capital paulista “Weeping Willow”, “Old Fashioned”, “Pin Pin” e, a mais interessante, “Fruta y Mar”. Ela, inclusive, sugere conversar em espanhol com o público, que decepciona e a pede para continuar falando em inglês. Para o final de um ótimo (e curto) show de abertura, Katerina diz como “tudo o que está acontecendo nos EUA, com um presidente babaca, homens metidos a machões e mulheres sem sentimentos” a fez olhar para a bela canção “You Will Not”, título de seu primeiro EP, de 2022, de uma maneira diferente: “Ela ganhou um novo significado para mim”.

Dave Hause

Na sequência, Dave Hause abriu seu set diante de uma pane do som sem se abalar: sem amplificação, tocou “Look Alive” de forma entregue, conquistando a plateia na garganta. Se Katacombs sugere delicadeza, Dave Hause – que ouviu falar no Brasil pela primeira vez porque se apaixonou por Sepultura na adolescência – se encaixa perfeitamente no esteriótipo do músico folk cujo violão pode matar fascistas: “Eu sei que vocês colocaram Bolsonaro na cadeia… good job! Consigo pensar em muitas pessoas que mereciam estar na cadeira também. A próxima música é sobre desabafar a raiva e, talvez, vocês queiram direcioná-la a alguém. Talvez Bolsonaro, sei lá, algum filho da puta. Ela se chama ‘Dirty Fucker’ e eu vou cantá-la para o Presidente dos Estados Unidos”, mandou para delírio do público, que reforçou o vocal no refrão grudento e ainda cantou “Hazard Lights”, “Cellmates”, “C’mon Kid”, “Saboteurs”, “Damn Personal” e a cover de “Jane”, de sua ex-banda The Loved Ones. Baita show.

Dave Hause

Frank Turner entrou em cena anunciando em bom português: “Bem-vindos ao meu show 3107 e, mais importante, o meu primeiro show no Brasil”. A intensa “If Ever I Stray”, dos versos “Forgive me someone for I have sinned / And I know not where I should begin”, abriu o set de maneira intensa. Nos primeiros segundos já era possível perceber que Frank Turner tinha o público nas mãos e que também estava realizando um sonho: “Tenho tentado vir ao Brasil há 20 anos e era para ter rolado em 2020, mas… algo aconteceu (risos dramáticos). Sinceramente, não foi minha culpa, eu estava longe de Wuhan na época, e aquilo partiu meu coração. Mas hoje vocês estão diante de um homem feliz”. As novas e ótimas “Girl From the Record Shop” e “No Thank You for the Music” deram sequencia ao show junto ao hit “Recovery” (música mais tocada dele no Spotify) e as “antigas” – e cantadas em coro pelos fãs – “Long Live the Queen” (2008) e “Road” (2009).

Frank Turner

Vestindo uma camiseta com o slogan “Make America Latina Again” (ganha de presente de um fã brasileiro), Frank contou a história (verdadeira) de como uma garota o ensinou a gostar de hardcore norte-americano quando ele tinha 12 anos e sua banda favorita era o… Korn (“Que se fodam os haters! Primeiro porque em 1995 o Korn só tinha um álbum e, segundo, porque aquele álbum ainda é foda pra caralho”, defendeu-se). Bem, a garota tirou sarro do moletom dele do Korn e, num tempo sem internet e sem celulares, eles trocaram endereços e ela o abasteceu com mixtapes com “Bad Religion, NoFX, Dead Kennedy’s Black Flag, Minor Threat, Operation Ivy” (lista Turner). “Isso rolou durante quatro anos e, do nada, as cartas pararam”, relembra Frank, que nunca mais teve notícias da garota. Então ele escreveu “Letters” em 2024, a música tocou na rádio, a garota ouviu e escreveu pra ele: “Ei, essa música é sobre mim?”. E ele: “Que bom ouvir falar de vocês após… 28 anos” (risos). “O que importa é que ela está bem, tem uma família e ainda ouve Minor Threat”, concluiu Frank, observando: “Só queria que vocês soubessem que essa história teve final feliz, apesar da canção triste”…

 

Outro grande momento (e discurso) da noite foi quando Frank Turner relembrou que o melhor conselho que recebeu na vida, “uns 15 anos atrás”, veio de um poema de um escritor chamado Clive James, que, com dias contados para morrer, escreveu que lamentava por não ter sido mais gentil com as pessoas: “Agora, 15 anos depois, o mundo ficou mais fodido. Há muito mais fascistas por aí que temos que combater e contra os quais temos que lutar. E, às vezes, a ideia de ser mais gentil parece muito fraca nessas circunstâncias. Mas percebi que ser gentil é uma ideia forte. E é forte porque é muito difícil manter a sua humanidade quando está enfrentando pessoas cuja essência é apagar a humanidade das pessoas a quem se opõem. Voltei a pensar nisso quando vi uma mulher inocente sendo baleada em seu carro em Minneapolis, Renee Good. Ela era uma pessoa gentil e engraçada, que usava o humor para proteger as pessoas ao seu redor (…). E acho que ela merece ser lembrada por quem ela era e pelo que ela lutou. Então, que se fodam os fascistas. Esta (próxima) música se chama “Be More Kind” (Seja Mais Gentil)”.

Frank Turner

Vieram então “I Knew Prufrock Before He Got Famous”, “Don’t Worry” e a cover de “Bob”, do NoFX, que gerou um momento hilário: Frank Turner estava ensinando o público como gritar na canção, e fez um teste: “1, 2, 3, gritem”, e o grito do povo saiu chocho, baixo, no que o britânico provocou: “Estamos na porra de Buenos Aires, caralho?” (risos). Provavelmente, ele não sabia o vespeiro em que estava se metendo, mas conseguiu sair muito bem da saia justa. Já em “Do One”, que recebeu uma estrofe em espanhol nos shows dessa turnê latina, ganhou “tradução” em português de Álvaro Dutra (que também traduziu “Na China com o Green Day”, livro de Aaron Cometbus lançado pela Editora Terreno Estranho em 2025), que, entre outras coisas, dizia (num português de sotaque carregado e divertido): “Eu não sei quanto tempo / Levei para aprender / Que para idiotas a melhor resposta / É mandar se foder”.

Frank Turner

A reta final foi um banho de hits nos pouco mais de 200 fãs presentes (em entrevista ao Scream & Yell em 2015, Frank observou: “Nós não tocamos em espaços enormes em todos os países que visitamos – longe disso. Passamos boa parte do nosso tempo tocando para 200 pessoas ainda em várias partes do mundo”) que começou com um aviso que desmontou o cirquinho do bis, que ele acredita ser uma maneira de “manipular emocionalmente” os fãs. “Acho isso antiético. Não vou trair vocês. Me recuso a fazer isso em 2026. Quando eu sair do palco, esse show acaba. Mas enquanto estou aqui, se vocês quiserem, vou tocar mais algumas músicas”. E vieram, então, “Four Simple Words”, “Photosynthesis”, “Get Better” e “I Still Believe”, fechando a noite de maneira empolgante: “Já falei bastante sobre isso, mas é sério: ser um garoto que começou a brincar com um violão há 25 anos no norte de Londres para, agora, fazer um show em São Paulo, para pessoas que entendem as letras e dão tudo de si pelo que faço, estou absolutamente impressionado! Meu coração está transbordando de alegria. Esta não será minha última turnê neste país”, prometeu. Que volte logo.

Frank Turner

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

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