Entrevista: Duo goianiense can sad lança “manifesto pós-streaming” com o álbum gratuito “Sprawl”

entrevista de Alexandre Lopes

Poucas bandas brasileiras têm transformado sua própria existência numa crítica tão clara ao estado atual da música quanto o can sad, duo goianiense que decidiu entrar na contramão do algoritmo. Enquanto a maior parte do mercado vive soterrada pelo produtivismo do streaming, a banda respondeu com “Sprawl” (2025), um pacote gratuito de músicas zipadas que reúne seis singles, demos, versões alternativas e um manifesto inteiro sobre atenção, ética e o direito básico de ouvir música fora da lógica de plataformas.

Não é exagero chamá-lo de “brutalismo instrumental” – termo que Luis Feitoza (bateria) e Gustavo Vazquez (baixo) abraçam em seu site. O grupo assume uma abordagem “pós-streaming” não como um truque de marketing, mas como uma recusa frontal à mediação corporativa: quando baixar o arquivo, guardar e revisitá-lo vira parte da obra – quase um gesto arcaico nos dias de hoje.

No meio desse labirinto que se espalha entre o experimental, o alternativo e o que não cabe em nenhum rótulo tradicional, a can sad também estica seus próprios limites ao vivo: samples improváveis, humor, política, ficção científica e um desejo assumido de transformar o palco em instalação. E mesmo quando o show é “apenas” Gustavo e Luis no palco, a dupla faz a apresentação valer muito a pena, como o Scream & Yell viu no palco do Goiânia Noise 2025.

Por e-mail, o Scream & Yell conversou com a banda sobre “Sprawl” (que sucedeu “escatologia”, fita cassete lançada pela Monstro Discos em 2024), a decisão de abandonar o streaming, o impacto da nova formação, o estado fragmentado da música instrumental no Brasil e os próximos passos desse projeto brutalista e imagética que estão construindo. A seguir, a conversa completa.

“Sprawl” é descrito como “pós-streaming” e também traz referências à trilogia de William Gibson. Mas afinal, vocês definem este lançamento como um álbum, uma coletânea de gravações ou algum tipo de manifesto sonoro?
Ele é tudo isso. Se a gente olhar pelo ponto de vista do mercado, “Sprawl” é um álbum daqueles deluxe com conteúdo extra: são seis faixas lançadas individualmente como singles ao longo do ano (“Seja Herói, Vá pra Capital”, “Carolina Reaper”, “Kr0n1k”, “Parallax”, “O Vazio que Ocupo” e “Tudo é efêmero. Ontem ouvia sua voz, hoje só o vento”). Cada uma tem sua história, mas ao final desse ciclo, decidimos reuni-las num conjunto. Só que não queríamos apenas “lançar um álbum”. Quando falamos em pós-streaming, é tanto sobre a forma de escutar música quanto sobre o que o streaming virou… sua receita, sua lógica produtivista, e o tipo de escuta que ele incentiva. No cenário independente, já existe uma discussão ética sobre isso: o que o Spotify está financiando, o quanto o modelo precariza artistas, o quanto limita o alcance e a relação entre quem faz e quem ouve. Então “Sprawl” é também uma manifestação sobre escutar atentamente e valorizar quem cria. Ao baixar o [arquivo] zip, a pessoa encontra não só as seis faixas, mas demos, versões e materiais extras que só existem ali. O ato de baixar, de ter o arquivo, é simbólico: é um convite pra se reconectar com a música como bem comum, direto do artista para quem ouve, sem mediações. Por isso ele é um álbum, uma coletânea e um manifesto sonoro; político, democrático e anti produtivista. Um gesto pra lembrar que a música pode voltar a ser acessível e compartilhável sem que alguém lucre em cima da gente.

Vocês escolheram lançar o álbum via download gratuito, recusando o modelo vigente da indústria via streaming. Qual é a importância dessa decisão para a banda e para a relação com o público?
Essa decisão é sobre conexão direta. Quem baixa o “Sprawl” tem algo exclusivo, que inclui imagens, demos e faixas para uso livre. A gente está cortando a ponte da mediação e essa ponte hoje é o streaming, que não paga os artistas [aquilo não é pagamento, é esmola] e ainda molda o que as pessoas escutam. Para nós, é uma escolha política. É sobre ética, sobre romper com a lógica do consumo automático e criar um espaço real de troca. Quem já acompanha a banda entende que isso valida o caminho que estamos trilhando. E quem chega agora percebe que existe um discurso por trás: um argumento, uma inquietação. No fundo, não estar no streaming é uma forma de dizer “não” ao produtivismo e “sim” à relação humana e direta. O público que entende isso, especialmente quem é músico ou ouvinte de música instrumental, reconhece que essa é uma posição consciente, não uma ausência.

A entrada de Gustavo Vazquez redefiniu o som da can sad. Mas como, exatamente?
O Gustavo trouxe uma densidade nova. O timbre dele é muito característico: Grave, escuro e distorcido e casou perfeitamente com o que a gente está chamando de brutalismo sonoro (termo que pegamos da arquitetura / design) Uma grande mudança é que Agahdez era o baixista clássico que procurava as técnicas do baixo para serem aplicadas (slap, tapping etc), e Gustavo é mais riffeiro. Antes, o baixo fazia uma base muito marcada, sincopada e alguns sinais de melodia. Agora será mais melódico e rítmico ao mesmo tempo, ocupando o espaço que muita gente espera de uma… guitarra? Isso mudou nossa forma de compor e tocar: o peso virou melodia, e a melodia carrega o peso. Na demos incluída no “Sprawl” (“Camelos também choram”) já dá pra ouvir esse novo diálogo. O som ficou mais curvo, mais melódico, mas ainda pesado. O próximo álbum vai ampliar isso… Manter a identidade que construímos, mas com essa camada nova de brutalismo e melodia.

Como a banda vê o cenário do rock instrumental e experimental no Brasil hoje?
É um cenário muito diverso e, ao mesmo tempo, difícil de mapear. Quando começamos a procurar nossos pares, achávamos que existiam umas 20 bandas. Hoje nossa playlist já passa de 70! O que mostra que o movimento é vivo, mas disperso. Playlist aqui ó (no Spotify, que hipocrisia…) O público, por outro lado, vive numa escuta saturada pelo algoritmo e pela canção pronta. O instrumental exige atenção, exige pausa e isso o mercado não incentiva. Quando se fala de instrumental, normalmente o público pensa em três eixos: o erudito, o jazz “comercial” (Já aceito, mapeado e mercantilizado) e o rock progressivo virtuoso. Nenhum deles é exatamente o que fazemos. O nosso lugar é no meio disso tudo: o experimental, o alternativo, o que não cabe nos maneirismos. E por isso, nosso desafio é nos colar a outras linguagens: audiovisual, literatura, artes visuais. A música instrumental precisa provocar imaginação, e por isso já escrevemos contos que dialogam com nossas faixas, como por exemplo “Carolina Reaper” e “Kr0n1k” que estão presentes no “Sprawl” como música e libreto No fim, o caminho é esse: colar com outras culturas, com outras cenas, e fazer parte do fluxo criativo que está acontecendo fora do eixo do algoritmo.

Olhando para o futuro, qual será o próximo passo da Can Sad em termos de direção artística e experiência ao vivo?
Já estamos na pré-produção do próximo álbum. Ele tem nome e conceito definidos e a ideia é amplificar o que descobrimos que são nossas grandes sacadas: a intersemiose cultural e o diálogo entre som, posicionamentos e pitadas de humor com cultura pop (lembra do sample do mamonas antes de começar “Seja Heroi, Vá pra capital”?) Queremos explorar concretismo, música concreta, gravações de fita, trechos de fala e fragmentos sonoros como parte da composição. Isso vai abrir espaço para que o show seja mais cenográfico, mais performático (?!) talvez até como uma instalação audiovisual, com projeções e colagens visuais que transformam o palco numa experiência expandida (Um sonho, show com telão).

Há planos para shows e turnês (passando por São Paulo ou não) em breve?
Por enquanto, o foco total é a produção do novo álbum. É ele que vai gerar o próximo ciclo de shows e turnês. Existem conversas e contatos abertos, mas ainda sem datas. A ideia é, assim que o novo trabalho estiver pronto, repetir a passagem por São Paulo e ampliar o circuito, incluindo mais cidades e experiências. Queremos voltar à estrada com algo que traduza essa nova fase da banda.

Luis: Existe um sonho de tocar no SESC Instrumental (era o programa preferido do meu pai na TV.)

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

 

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