texto de Leandro Luz
“Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”, como imortalizado por Fausto Fawcett e Fernanda Abreu. Em 2025, “Rio, 40 Graus” (1955) completou 70 anos. O primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos ao mesmo tempo consolida tendências estéticas e ideológicas, dialoga francamente com o momento político brasileiro e estabelece uma trilha para o que o cinema brasileiro viria a ser ou buscar pelos próximos 10 anos (no mínimo).

1955 foi um ano complicado. O Brasil chegou a ter três presidentes da república diferentes em uma mesma semana de novembro, a saber: Café Filho, de 24 de agosto de 1954 a 8 de novembro de 1955, Carlos Luz, de 8 a 11 de novembro de 1955 e Nereu Ramos, de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956. No ano anterior, os brasileiros testemunharam a morte de Getúlio Vargas; no posterior, viram a ascensão de Juscelino Kubitschek e de seu slogan de campanha, “50 anos em 5”.
Maravilha mutante – tal como o próprio Brasil – o Rio é uma cidade de cidades misturadas e camufladas, com os seus submundos: submundo oficial, submundo bandidaço, submundo classe média, submundo camelô, submáfia manicure, submáfia de boate, submundo de madame, submundo da TV. Assistir ao filme de 1955 e ouvir a canção de 1992 nos permite compreender como o tempo não é páreo para a união entre a beleza e o caos. A trama parte do “corre” de cinco crianças que descem o “morro” para vender amendoim na cidade. O objeto é comprar uma bola de futebol nova, mas um dos meninos sabe que precisa do dinheiro para comprar o remédio da mãe acamada. O verão é intenso, a cidade é violenta e segregada. Beleza e caos. Submundos e submáfias se chocam o tempo inteiro, como veremos a seguir.

A abertura com as curvas da paisagem do Rio de Janeiro e a música “A Voz do Morro”, de José Flores de Jesus, o nosso Zé Keti, sugerem uma postura que o próprio filme vai desconstruindo aos poucos. Nelson Pereira dos Santos não estava interessado em produzir mais um filme burguês para constar na filmografia brasileira. Pelo contrário, o cineasta usou de todo o seu arsenal de artesão do cinema para criar momentos assombrosos: toda a sequência aventuresca do menino fugindo do “rapa” é brilhante, com direito à perseguição no alto do bondinho do Pão de Açúcar; assim como também o é a sequência do político/coronel que chega ao Rio de Janeiro e é tratado como rei – “calma, o Brasil é nosso”, diz ele embevecido por toda a atenção recebida. Os movimentos de câmera, a maneira como os corpos se movimentam no quadro, o uso inteligente do contra-plongée para, simultaneamente, construir uma ameaça e rir do próprio mito criado, entre outros vários recursos, demonstram o quanto o filme tinha essa verve sedutora, sem jamais abdicar de um discurso político forte e direto, antecipando iniciativas como as de “Cinco Vezes Favela” (1962) e, como um todo, as do próprio Cinema Novo.
”Quem tem razão pra brigar, tem mais força pra vencer”. A frase, no filme, é dita quase como um manifesto, assim como a música de Zé Keti dá seu recado, rearranjada de diversas formas ao longo da narrativa, mas com uma letra pungente e contínua: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim, Senhor”. E foi justamente por dar a ver uma história protagonizada por uma realidade outra que não a burguesa para o cinema brasileiro que a fita teve problemas com a censura (de acordo com cineastas como Glauber Rocha e Eduardo Coutinho, como afirma Alex Viany no livro organizado por José Carlos Avellar, “O Processo do Cinema Novo”). Proibido pelo chefe de polícia da época, o filme foi ardorosamente defendido por todo o mundo intelectual brasileiro, transformando-se em, segundo Viany, “nosso mais celebrado “filme maldito””.
Para fechar, mais duas sequências marcantes e um depoimento de Glauber Rocha:
1) A sequência do Maracanã, um dos espaços mais democráticos da cidade do Rio de Janeiro, e a maneira como o cineasta filma todo mundo como igual nessa hora, além de toda a trama envolvendo o jogador de futebol que vai mal no primeiro tempo e que precisa mostrar o seu valor – ainda que revele todas as falcatruas do sistema que está muito acima dele;
2) A sequência final, responsável pelo filme terminar em festa, com a Escola de Samba da Portela chegando na sede da Cabuçu, mesmo que depois a câmera faça um voo pela favela e enquadre a mãe doente esperando o filho que não voltou (e nem irá voltar) para casa, terminando com o samba sendo ouvido em alto e bom som e com a vista aérea do Rio de Janeiro, do mesmo modo como tudo começou;
3) Glauber Rocha: “Nelson Pereira dos Santos realizou, em ‘Rio, 40 Graus’, o primeiro filme brasileiro verdadeiramente engajado. O adjetivo é valido e significa, há dez anos passados, uma tomada de posição corajosa, solitária, e consequente.” […] “despertei violentamente do ceticismo e me decidi a ser diretor de cinema brasileiro nos momentos que estava assistindo ‘Rio, 40 graus’, garanto que 80% dos novos cineastas brasileiros sentiram o mesmo impacto.”
“Rio, 40 Graus” está disponível atualmente na Globoplay e na Netflix (e no Youtube).

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.