Entrevista: Álvaro Andrade fala sobre “Politiktok”, filme que traz um recorte de vídeos nos dias das eleições de 2022

entrevista de João Paulo Barreto

Destaque da 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, dentro da Mostra Aurora, “Politiktok”, primeiro longa-metragem de Álvaro Andrade, traz um recorte dos vídeos da rede social em Tik Tok nos dias que precederam as eleições de 2022, bem como os após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Trata-se de um exercício curioso de análise comportamental que, através da sua montagem, cria uma narrativa que aborda diversos tópicos que balizaram as opiniões dos eleitores da direita e da esquerda na ocasião.

Com uma experiente carreira, Álvaro dirigiu os curtas-metragens “10-5-2012″ (2014), “A Nova Melancolia” (2017, ao lado de Marcus Curvelo) e “Mudança de Hábito” (2017), co-dirigido por ele ao lado de Thiago Rodrigues e Vinicius Andrade em 2017.

Nesse papo com o Scram & Yell, o diretor aprofunda o processo de criação do seu primeiro longa. Confira!

A proposta de utilizar os vídeos captados do Tik Tok para criar uma narrativa seguiu qual norte na montagem? Como foi a criação dos tópicos narrativos passando desde a votação de cada candidato aos aspectos religiosos, pelas questões homofóbicas e xenofóbicas abordadas nas diversas falas?
A montagem seguiu alguns pressupostos, como as “regras do jogo” que Eduardo Coutinho costumava estabelecer em seus filmes. Um deles era tentar manter ao máximo a ordem cronológica do que foi gravado, o que segui quase à risca. Como a narrativa é ancorada nessa cronologia geral que vai da sexta ao domingo de votação, marcando a passagem dos turnos e dias, isso permitiu que os tópicos pudessem aparecer mais livremente, dando um aspecto de maior aleatoriedade, como numa navegação real em que vamos saltando de uma live a outra e nossa permanência ali é o que dá a cola entre as partes. Estabeleci que a margem de liberdade cronológica seriam os turnos. Então as entradas nos tópicos obedecem à aparição interessante dos temas em determinado turno no material bruto, e às combinações possíveis entre personagens dentro daquela limitação. Nesse sentido, vale mencionar outra regra que também condicionou a montagem, que era não fazer jump cut. Isso forçou a montagem paralela, de modo que os tópicos surgem quase sempre como uma combinação de personagens e situações.

Para chegar a 113 minutos em seu corte final, qual foi a quantidade total de horas que você analisou nos vídeos oriundos do Tik Tok?
O material bruto tem em média 75h e foi gravado da sexta até a terça-feira logo após a eleição.

Houve algum momento em que você sentiu desconforto ou asco perante ideias retrógradas e pensamentos preconceituosos e repugnantes que não chegaram a entrar na versão final do filme?
Sim, muitos momentos do bolsonarismo mais asqueroso, de ódio a nordestinos etc, ficaram de fora. E foi uma opção não pesar a mão nesse aspecto, pois nos parecia que seria chover no molhado. A ideia sempre foi buscar uma imagem mais complexa, tentar nos esquivar desse todo muito 8 ou 80 que se tornou a política brasileira e sua imagem recorrente. Mas também houve situações mais delicadas, como relatos de violência sexual, por exemplo, que caberiam entrar e escolhemos deixar de fora para preservar as personagens, por conta do modo peculiar em que o filme foi gravado.

É curioso observar que esse seu primeiro longa se trata de um registro de uma plataforma on line que diante de uma montagem acaba por se transformar em outro tipo de plataforma, no caso, o cinema, e isso utilizando somente essa ferramenta: a montagem. Como foi trabalhar essa ideia na origem de seu roteiro? Como foi esse desenvolvimento?
A imagem produzida por amadores para a internet é um tema que me interessa há bastante tempo, desde os primeiros vídeos virais. No Brasil, pelo menos desde “Leona Assassina Vingativa” (2009), de Leona Vingativa e Paulo Colucci, que depois viriam a se profissionalizar. Inclusive fiz um mestrado sobre o trabalho desta artista. Então estou sempre com minha jangada metido nesse “infomar”, tentando pescar imagens que me pareçam importantes de serem guardadas pela institucionalidade do cinema. Na pandemia, assisti a muitas lives no TikTok e me dei conta de que o tema política começava a surgir em todas elas, independente da motivação de quem estava transmitindo. Apareciam comentários falando de Lula e Bolsonaro de modo muito insistente, o que chamou minha atenção. Isso pelo menos desde o final de 2021. A ideia de gravar este recorte, porém, só aconteceu dois dias antes de começar a gravar, o que fiz inclusive mais como pesquisa, ainda que suspeitasse que poderia render um filme. Já o roteiro mesmo só surgiu no processo de montagem. No caso, a ideia de uma narrativa simples, direta, em ordem cronológica, buscando dar ver de modo mais orgânico como a política ganhava forma no app.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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