Teago Oliveira: “Minha geração não atingiu o mainstream e isso machucou nosso ego”

entrevista de Bruno Capelas e Igor Müller, do Programa de Indie

Em conversas de bar ou análises sérias sobre a música brasileira nos últimos anos, o baiano Teago Oliveira costuma aparecer como um dos principais nomes da “nova geração”. Há certo engano corriqueiro, porém, em apontá-lo como um novato – algo que ele próprio deixa claro em “Minha Juventude Acabou”, faixa que abre seu mais recente trabalho, o álbum solo “Canções do Velho Mundo” (2025). “Estou com quase 40 anos, né? Não sou mais nem jovem, não preciso mais ficar tentando provar nada para os outros. Entendo quando me chamam de nova geração, mas não sou: eu sobrevivi até aqui para hoje ser chamado de nova geração”, diz o cantor.

Além da carreira solo, iniciada em 2019 com o álbum “Boa Sorte”, Teago já soma mais de 15 anos de estrada à frente da banda Maglore. Foi uma longa jornada, na qual o artista viu muitos colegas ficarem pelo caminho. “Boa parte da minha geração morreu. Essa é a verdade. Mas não tem que ficar reclamando, tem que ir lá e vencer, porra. Não é vencer profissionalmente, é vencer a vida – a grande mensagem do disco é essa”, explica.

Lançado em outubro de 2025, “Canções do Velho Mundo” foi feito de maneira independente, gravado num estúdio erguido na casa de Teago em São Paulo e bancado com os recursos do próprio músico. “Eu queria fazer tudo como gosto de fazer, do jeito antigo: fazendo testes, usando fita, gravando takes e mais takes. Bancar isso? Não recomendo não, sabe? (risos). Foi um fetiche pessoal”, diz. “O orçamento foi estourado na primeira semana, mas eu precisava ir fundo nessa tara que eu tinha.”

De um lado, o disco foi movido por uma vontade de experimentar novas formas de criação após tanto tempo ao lado da Maglore. Do outro, é o resultado de um período difícil na vida do cantor, que passou por um momento de luto durante a pandemia. “Fiquei muito tempo no sofá, mas estava compondo. A ferida estava ali e não ia sumir, mas o segredo foi fazer a vida ficar mais bonita em volta da ferida”, diz Teago em entrevista concedida em novembro ao Programa de Indie – e agora publicada em texto no Scream & Yell. “Por tudo que passei nos últimos anos, tem um DNA de sofrimento no disco, mas também tem um DNA de quem não tem mais tempo de ficar se recolhendo no quarto. Não tenho mais idade para isso, tenho que ganhar o jogo.”

Para o artista, fazer música é uma forma de intervir em uma realidade cada vez mais impiedosa. “O sistema em que a gente vive está massacrando a gente, estamos sendo tragados. Mas falar do que não está legal faz com que a coisa não fique mais ‘não legal’”, diz Teago, ao mesmo tempo em que defende que as canções têm vida própria face ao cotidiano. “Não faço disco pensando que é TCC. Não quero que minha teoria esteja certa, só estou escrevendo o que eu sinto.”

No papo a seguir, Teago fala mais sobre os bastidores do disco, disseca os desafios de fazer um disco solo e teoriza sobre o papel da música na sua vida. “A música é uma espécie de doença e terapia. Não consigo parar de fazer, porque se eu parar, eu vou morrer. Mas, ao mesmo tempo, tenho que fazer do jeito que me traz bem-estar”, afirma ele, que também reflete sobre a evolução de sua carreira ao longo dos anos. “Quando comecei, compor era a onda, mas não tinha ainda nenhuma linguagem própria no cantar. Vejo meu processo como uma grande curva de alguém que vai tendo acesso a estruturas, que não tive durante a adolescência.”

Além disso, ele também fala sobre os planos futuros da Maglore – spoiler: o grupo já está “no gatilho” para um disco novo, com lançamento possível ainda para este ano. “A curva criativa da banda é uma curva ascendente. É muito fácil fazer um grande disco e cair. Difícil é ter fôlego para seguir. O grande lance é saber até onde vai dar essa porra”, brinca.

Igor Muller: Teago, como nasce o “Canções do Velho Mundo”?
Teago Oliveira: Foram anos pensando sobre música, refletindo e escrevendo canções. Acabei juntando essas “musiquinhas” e fiz várias decisões românticas. Decidi bancar o próprio disco, decidi não assinar com nenhuma major, fazer tudo de forma caseira. Queria fazer tudo conforme eu acreditava, botar a criança pra fora. A Maglore é uma banda que me permite fazer muitas coisas, mas o som já é muito maturado. Sabemos para onde o som da Maglore vai daqui pra frente. Isso me dá a possibilidade de trabalhar outras válvulas de escape. Foi muito legal fazer esse disco, porque fiz sem expectativas muito grandes, junto com o [produtor] Otávio Bonazzi. Fomos nos surpreendendo com o próprio andar do disco, com a forma como fomos gravando, do som que foi sendo tirado. Esperávamos muito menos em termos de facilidade sonora, mas o negócio foi fluindo de um jeito… “caralho, galera, vamos continuar fazendo até onde der porque tá bom”.

Bruno Capelas: A vontade de experimentar é um fator que muitos artistas usam para justificar um trabalho solo. Mas as músicas desse disco não caberiam na Maglore? Por que gravá-las sozinho?
Teago: Acho que tem música desse disco que cabe demais na Maglore, assim como algumas músicas do primeiro [“Boa Sorte”, de 2019]. Mas tenho muita segurança sobre as músicas que a Maglore vai escolher para ela e que ela mesma vai gerar. Na Maglore, eu preciso ser extremamente honesto comigo e com a banda. [Preciso saber] que a música que eu apresentar para os caras pode ser completamente destrinchada e virar outra coisa. Esse é o grande barato de ter banda. Ter uma banda foi o meu grande sonho de criança. É um sonho que eu realizei. Mas é importante você deixar uma banda ser uma banda, senão ela vira apenas o trabalho de um compositor. O grande lance da Maglore é que ela tem uma vida própria. Escrevo a maior parte das canções, o Lucas [Gonçalves] também escreve – e, para mim, ele é um dos compositores de alto nível da nossa galera hoje. Individualmente, cada um de nós quatro tem sua personalidade. Mas quando a banda se une, nós atingimos uma unidade própria. Levou muito tempo, mas atingimos esse patamar. Tem música do meu disco que poderia ser tocada pela Maglore facilmente. Dá até vontade de chamar os caras [para tocar comigo] e abaixar o cachê, mas ia virar outra coisa. Esse disco é muito sobre isso também: sobre experimentar – e quanto à Maglore, vamos fazer o próximo disco ano que vem, mas por agora resolvi fazer isso aqui.

Capelas: Vamos voltar no tempo para entender a história do disco. O “Boa Sorte”, seu primeiro álbum solo, é de 2019. Logo depois veio a pandemia, e na saída da pandemia, a Maglore lançou o “V”. De quando são essas músicas novas? Como elas nascem?
Teago: Esse disco vem de uma fase muito difícil. Apesar de não parecer, tive uma crise depressiva nos últimos anos. Não falo muito sobre isso, mas perdi um tio em 2021. Foi um luto muito forte. Por muita sorte, as músicas do “V” já estavam compostas. Mas aquele foi um momento em que foi muito difícil de me encontrar, de ter vontade de fazer as coisas. Fiquei durante muito tempo no sofá, que é o que a gente faz quando a gente não tá bem.

Capelas: Sei bem.
Teago: Foram quase dois anos no sofá. E como tenho um problema de neurose e obsessão muito grande, eu estava no sofá, mas estava compondo. Muitas coisas ficavam girando na minha cabeça – inclusive uma frase que está em “Eu Nasci Pra Você”, que fala “que quando você sabe que alguém não vai voltar, tem que aprender a fazer algo novo”. A ferida vai ficar ali, mas o segredo é fazer a vida ficar mais bonita em volta da ferida, para que a ferida não fique no primeiro plano, porque a ferida não vai sumir. Foi aí que decidi agir. Foi quando comecei a comprar um monte de equipamento, decidi montar um estúdio em casa. Comprei um monte de coisa loucamente. Fui montando, o Bonazzi me ajudou a fazer o estúdio, e fui escrevendo as músicas. Em nenhum momento pensei que devia deixar as músicas pra Maglore. Pelo contrário! Falei assim: “bicho, se a Maglore quiser essa música aqui, foda-se os caras!”. O que é da Maglore ia ficar pra Maglore. Mas durante o processo, acabei chamando o Luquinhas pra tocar. Não dá pra se desvencilhar daquela porra, ele é muito foda. (risos). Hoje tive ensaio com ele, ele está tocando guitarra na banda do meu disco. Ele é paranormal! É muita loucura! Ele tocando guitarra tem outra linguagem, que ele não apresenta na banda, é o maior barato. Mas bem, fui escrevendo essas músicas, os anos foram passando e fui me entendendo. Aconteceu também um negócio que acho o maior barato: evolução. Mesmo que seja aos poucos, senti que estou operando em outro nível de composição – pode não ser nem melhor nem pior, mas acredito que seja melhor. Já é algo diferente do “V”, do último disco da Maglore. Sinto que houve fôlego para isso, mas ao mesmo tempo também houve muito questionamento. Eu me perguntava se já tinha feito muitos discos, se já estava começando a ficar repetitivo e a fazer canções mais “enchedoras de linguiça”, um pouco mais superficiais, só porque preciso pagar as contas. Falo sobre isso no disco também. Mas de certa forma, entendo que houve fôlego para fazer esse disco e, assim, ele aconteceu. Tô falando pra caralho, né?

Capelas: Vambora!
Teago: Foi muito massa a forma como tudo aconteceu, porque muita gente participou do processo. Amigos ouviram o disco e vieram me ajudar a gravar. A Maglore são quatro caras, então somos nós quatro dentro do estúdio. No meu disco, tem mais de 20 pessoas participando. Ele foi até mais coletivo, do ponto de vista de execução, que a própria banda. Ao mesmo tempo, um disco solo é muito solitário. Num disco solo, você não pode ficar perguntando muito para os outros, porque senão o outro toma conta, diz que tem que mudar verso, mexer ali. É um negócio que tem que ser você, ali. Quando terminei as músicas, treinei muito no violão e na voz para ver se fazia sentido antes de gravar. É um processo bem diferente da banda: às vezes, a Maglore faz as músicas enquanto está gravando. Uma banda precisa dessa coisa viva, mas meu processo foi diferente. É legal ter quase 40 anos de idade e ainda explorar coisas novas de novo. É um privilégio que a vida me deu.

Igor: É interessante isso que você comentou do processo de composição e de decisão. Você já é um compositor consolidado, mas há nesse disco algumas escolhas maduras nas construções das canções. Antes, talvez tais escolhas fossem intuitivas, mas agora elas parecem mais engendradas, pensadas. Faz sentido isso?
Teago: É parte da experiência também. Experiência de vida, experiência no ramo… e tem um lance que eu costumo pensar também. Nunca tive estrutura para ser músico. Se você me colocar em pé de igualdade com outros artistas hoje, muitos deles vão se reconhecer junto comigo porque não tiveram estrutura para exercer a música cedo, para se descobrir. Vejo meu processo como uma grande curva de alguém que vai tendo acesso a estruturas, que não tive durante a adolescência. Comecei a criar paixão por produção musical há muito tempo. Produzo os discos da Maglore junto com a Maglore, mas nunca assinei a produção, porque nunca tive tanta estrutura para isso. Quem produzia era o Léo Marques, o Rafa [Ramos] da Deck, mas sempre fui apaixonado por produção. Os anos foram passando, fui criando experiência para tomar decisões sozinho, até mesmo decisões mais individuais, além de criar uma linguagem própria. Quer dizer: a linguagem sempre foi própria, mas ela tem cada vez mais uma sofisticação própria. Não sei se estou sendo claro, mas acho que dá para entender.

Capelas: Faz sentido. (risos)
Teago: Gosto muito do “Boa Sorte” porque ele me abriu esse caminho. E agora, no “Canções”, consegui encontrar uma voz para mim. É uma voz maior, não sei julgar se é melhor ou pior. Mas acho que cheguei num lugar mais interessante. Enquanto compositor, também rola um lance da idade. Estou com quase 40, né, galera. Não sou mais nem jovem, né? Não preciso mais ficar tentando provar nada para os outros. É algo com o que a minha geração sofreu demais. Nós não atingimos o mainstream e isso machucou, de certa forma, o ego da minha geração. Nós tentamos nos provar o tempo todo, para todo mundo. Mas chegou num momento da minha vida que decidi que não tinha mais o que provar. E isso me deixou mais seguro para fazer música, para escrever sobre o que eu quero escrever. Por isso que digo que é um lance de experiência de vida, de colher as experiências e maturá-las. É tentar fazer com que a coisa tenha magia, sabe, sem endurecer ou virar um negócio hermético. É um caminho fácil endurecer a parada, fazer uma fórmula pronta, até por sacar que o público está ali e vai curtir o que você faz. Acho que o desafio é mudar, sacou? Pode não ser uma mudança radical para quem vem de fora, né? Mas há um deslocamento artístico que consegui fazer, pela experiência e pelo acesso. É por isso que, depois de lançar esse disco, estou começando a me preocupar com os artistas mais jovens, com a garotada de 20 anos que está fazendo banda, compondo, criando. Eles vão enfrentar um bagulho ainda mais pesado. O carro passou em cima da gente, está passando e vai passar ainda mais em cima deles. É preciso falar disso, fazer algo diferente, porque senão vai acabar tudo, bicho. Vamos combinar, né? Do jeito que as coisas estão, vai nichar tudo de vez, o mercado vai achatar. Tem quem diga que não tem mais para onde achatar, mas sempre tem. Sempre pode piorar. Uma vez, fiz um projeto com a Marisa Orth, e tinha um monte de artistas mais novos. Estávamos elogiando os artistas e ela comentou algo assim: “esse é muito bom, mas falta tomar um chifre…”. E não é um chifre real, mas um chifre metafórico.

Capelas: Tem a história clássica de que o Tim Maia teria dito isso sobre o Ed Motta, que era sobrinho dele.
Teago: Pois é! (risos). Tem coisa que só a experiência de vida faz. Pode vir aí com todo o talento do mundo, sapateando, brilhando, mostrando que você é o cara… mas não tenha dúvida: uma hora a vida vai te bater e você vai precisar de experiência para se defender dela.

Igor: Tive aula com o Vladimir Safatle e ele dizia que um artista não pode vender um quadro muito caro com 20 anos de idade, porque isso compromete o percurso artístico dele.
Teago: Concordo!

Capelas: É curioso você falar sobre essa questão geracional. Nos últimos tempos, perdemos vários artistas referência de uma geração da música brasileira – Jards Macalé, Ângela Ro Ro, Lô Borges. Mas como muitos dos nomes dessa geração seguem tocando, às vezes se tem a impressão que todo mundo que veio depois é “jovem”. Nessa conta, um Chico César acaba sendo jovem, um Zeca Baleiro acaba sendo jovem, mas já são artistas mais que veteranos. Tive esse choque quando dei play no disco e ouvi “Minha Juventude Acabou”. De fato, você não é mais um artista novo… mas como é lidar com isso?
Teago: É preciso lidar com o mundo moderno, com o mundo novo. É muito por isso que o disco se chama “Canções do Velho Mundo”. É uma contradição, né? (risos) Geralmente, quando alguém fala que eu sou da nova geração, aceito. De certa forma, a Maglore, o Terno, o Boogarins, o Terno Rei, está todo mundo no mesmo bolo. Sou um pouquinho mais velho que eles, mas não mais velho para chamar de garotos. São três, quatro anos de diferença.

Capelas: Mas agora é uma época em que essa diferença começa a parar de fazer diferença, né?
Teago: Sim, para de fazer essa diferença toda. Somos a geração que está aí fazendo o bagulho, mas o referencial de tudo mudou. É esquisito, né, bicho? Entendo quando chamam a gente de nova geração. Mas faço umas aspas nesse “nova”. Não sou da nova geração. Eu sobrevivi até aqui para ser chamado de nova geração. Essa é a diferença. A nova geração é a Marina Sena, é o Lagum, é a Sophia Chablau. Tem toda uma galera que precisa ser chamada de nova geração – e ainda não é nem vista como geração. Eu? Eu sobrevivi para estar do lado deles agora, para estar com o Zé Ibarra ou com a Jadsa. Boa parte da minha geração morreu. Essa é a verdade. A música é assim, vai ficando nesse lugar. Concordo, não tem que ficar reclamando. Tem que ir lá e vencer, porra. Não dá: o mundo vai mudando e é preciso fazer música. Ainda tem um monte de gente querendo descobrir som novo, que descobre diariamente a Maglore. A banda vai lá, vende um bocado de ingresso, atrapalha minha carreira solo… (risos).

Capelas: Queria falar de “Eu Nasci Pra Você”, que tem muito a ver com essa discussão – para mim, ela tem um refrão da Banda Eva preso numa canção folk. E ela usa justamente essa ideia para discutir o que é a canção. A canção já é, por si só, uma coisa do velho mundo. Por um lado, o título é uma contradição, mas do outro é uma redundância…
Teago: Eu tinha essa reflexão. “Eu Nasci Pra Você” começou como uma música romântica. Geralmente, gosto de deixar a música fluir. No caso dela, percebi que o refrão era romântico, mas tudo que eu queria falar não tinha nada a ver com o refrão. Durante a música, decidi deixar assim e fazer uma música sobre isso. Virou uma música sobre fazer música, sobre fazer uma canção romântica para poder fazer alguém ouvir o que quero falar. (risos). Ah, bicho, é muita loucura.

Capelas: No começo do papo, você disse que escolheu fazer tudo sozinho. Fazer o estúdio em casa, não assinar com nenhum selo. Sei que é chato explicar ironia, mas o que é verdade e o que é ironia nessas escolhas?
Teago: Sou muito romântico, confio muito nas minhas músicas e na liberdade criativa. E à medida que o tempo está passando, tenho que ser honesto, né? Decidi fazer tudo sozinho e bancando as coisas porque esse é um patrimônio que quero ter para mim. É claro que é mais difícil fazer o trabalho chegar nos lugares desse jeito, mas eu queria controle. Quero controlar meu próprio fonograma, quero decidir onde ele vai ser tocado, não quero assinar com nenhuma major que vai me colocar no último lugar do mundo para trabalhar. Eu não podia fazer um disco escrevendo o que eu estava a fim de escrever, mas chegar na hora de agir e agir igual um emocionado que vai lá e faz tudo diferente. Possivelmente colherei dificuldades dessa escolha? Sim. Mas preferi ter liberdade para isso nesse disco. Tem muitos artistas independentes que gravam com edital, com patrocínio. Mas não: banquei o disco completamente, comprei as coisas. É claro que muita gente fez muita coisa de graça, senão não ia ter como. É muito caro fazer um disco. Até dei uma entrevista falando sobre isso. Numa gravadora, ela dá o orçamento de X, você vai lá, gasta X e faz o disco. Eu não tive isso: fui simplesmente me desfazendo das minhas economias porque estava a fim. “Foda-se, vou comprar esse microfone agora”. O orçamento que eu tinha foi estourado na primeira semana! (risos). Chegou até num momento que meus amigos começaram a fazer as coisas de graça para mim, mas só pediam para eu parar. O Bruno Orsini, do [estúdio] Fleeting Media, tem um Hammond antigo e me ofereceu para gravar os pianos lá – até porque as coisas que ele tem eu não tenho como ter, precisaria de outra vida trabalhando. Ele falou para eu gravar lá senão eu ia enlouquecer. E é isso: eu queria fazer tudo como sempre gosto de fazer, do jeito antigo. Fazendo os testes, usando fita, fazer takes, gravar mais takes. Bancar isso… não recomendo não, sabe? (risos). Foi um fetiche pessoal. Dá para fazer a mesma coisa ou até melhor sem despender tanta energia dentro do processo. É que eu precisava ir fundo nessa tara que eu tinha. Eu sou meio nerd com coisa de equipamento, com som, com mixagem. Com essas coisas que na verdade, vamos combinar, na hora que a galera escuta, a galera não está nem aí para saber se o piano é alemão ou de 1900 e tal. E também não importa, né? O que importa é a canção, é a música, se está bem interpretado… mas esse disco está bem feito.

Capelas: É muito bom discutir isso porque tem muita gente que vai ouvir esse disco pelo próprio alto-falante do celular, num fone qualquer, a 128 kbps no Spotify…
Teago: É assim que a vida é, bicho. Tem que saber que você está fazendo um disco e no final das contas a galera vai ouvir numa JBL mono, perdendo fase, cagando o som todo. Mas a galera vai se emocionar, vai chorar, vai cantar, vai dançar, vai beber em casa e pronto! No final das contas, é isso aí.

Igor: Mas Teago, no longo prazo, esse tipo de decisão artística não é como o trabalho de uma toupeira, que constrói não pensando no presente, mas que no futuro tem todo um castelo subterrâneo construído? No futuro, alguém vai olhar e falar que o disco do Teago foi feito com esmero e que a obra se destaca, enquanto outras obras pensadas de maneira mais imediata talvez não sobrevivam…
Teago: Igão, não faço pensando nos outros. Faço pensando em mim. Sabe por quê? Porque quando escuto o primeiro disco da Maglore, tenho calafrios.

Capelas: O “Veroz”?
Teago: Sim. Sabe por quê? Porque ele foi gravado numa [interface de áudio] Firewire solo, no [software] Guitar Rig, com bateria programada. O público ama – e entendo que aquele disco é muito importante para o público e para a própria banda. Isso não importa. Mas o que importa é que não consigo voltar no tempo, escutar o meu som e falar “olha, que legal”. Sei que aquele som não é real para mim. Poderia ter sido com guitarra do século XII, mas aquele som não era eu. Não importa como eu gravei. “Bum Bum Tam Tam” foi gravada num iPhone, escuto hoje e falo que é do caralho. Mas não consigo enxergar o que eu fiz ali. Não é sobre equipamento nem dinheiro. Até porque você pode gravar num estúdio de US$ 50 milhões e ter a mesma sensação que tenho ouvindo o “Veroz”. Você pode ser tão plástico quanto, independente do equipamento que você usa. Equipamento não determina nada, no final das contas. Ele é um facilitador para você chegar no lugar onde você quer.

Capelas: É um proxy de esmero.
Teago: Exatamente. No meu primeiro disco, ou no “Vamos Para Rua” da Maglore, já enxergo mais coerência com aquele som, com o que eu realmente queria fazer naquela época. Mas o deitar da cabeça no travesseiro no futuro não é pensando no outro. É pensando em mim. O “Veroz” me abriu esse rádio de polícia, essa sirene que ficava na cabeça pensando “não faz”. “Se fizer, vai ficar ouvindo o resto da sua vida o fonograma que você não queria ouvir”. Aí é onde pega. É algo super pessoal. Tem gente que vira para mim e fala “pô, bicho, vocês só não viraram a grande banda porque vocês abandonaram o som do ‘Veroz’”. Já parei pra pensar que essa pessoa poderia estar certa, mas esse foi o preço que tive que pagar para fazer as minhas escolhas. Não queria falar aquilo mais, entendeu?

Igor: Ainda assim, acho as guitarras do “Veroz” melhores do que muitas das guitarras gravadas aqui no Brasil, mesmo do jeito que são. Outra coisa que eu ia perguntar sobre a mudança do som é a questão da voz. Conversando com o Rodrigo Fischmann, da Dingo, nós falamos muito sobre voz. Ele comentou que ela mudou ao longo da carreira. No “Veroz”, seu registro lembra um pouco o Amarante, enquanto agora você está com uma voz mais suave, com mais aberturas. É uma evolução ou uma decisão?
Teago: É óbvio que foi acontecendo. Sempre me enxerguei como um criador de canções. Enquanto músico, tecnicamente, nunca me vi como um cara muito bom. Hoje, acho que faço bem o meu trabalho, mas tenho modéstia para reconhecer que não sou um executor de alto nível. Ali, no “Veroz”, eu não sabia gravar voz. Cheguei tarde no processo. Já fazia as músicas, sempre gostei de compor. Compor era a onda, mas eu não tinha ainda nenhuma linguagem própria no cantar. Não cheguei pronto ali, entendeu? Eu estava descobrindo uma forma de cantar, uma forma de afinar. Eu tinha facilidade de afinar cantando assim, fechando a boca. Se você soltar a voz e cantar mais aberto, tem chance de desafinar. Quem canta sabe o que eu estou falando. No começo, eu tinha que fazer a coisa mais travada, até porque havia poucas horas para gravar a porra da música. E eu tinha que criar uma persona ali para fazer a coisa, para me sentir bem comigo mesmo. Era pura falta de experiência – e é por isso que me constrange hoje. Não era eu, eu estava ali ainda desenvolvendo o meu trabalho. No “Vamos Pra Rua”, eu já tinha enterrado aquilo, já tinha passado por turnê, já tinha virado outra coisa. Ao ponto de que, no “Vamos Pra Rua”, eu desafino. Música é o maior barato, cara, porque acho isso mais legal. Música não é sobre afinar, nunca foi. E eu estava preocupado com isso no primeiro disco, mudei minha voz para conseguir afinar. No final das contas, era melhor ter desafinado, ter sido mais natural. Música é apenas personalidade e emoção.

Capelas: No disco novo, além de você, tem outras duas pessoas cantando em participações especiais: a Silvia Machete (em “Vida de Casal”) e o Eric Slick, do Dr. Dog (em “Spaceships”). Como essas parcerias surgiram?
Teago: Já falei em uma entrevista que odeio feat. Odeio mesmo, não gosto, não curto fazer, não vejo sentido. Mas nesse disco tem dois feats! Não é um, são dois… mas foi porque eles foram necessários. No caso do Eric, me senti bem com a música depois dele escutar a letra. Ele pediu para participar da música, também. Não é bem isso. Um dia ele me mandou um “we should collaborate someday”. Pensei: “se um ídolo seu sugere que vocês deveriam fazer algo juntos, você não vai ser otário de dizer que não gosta de feats…”. Mandei “Spaceships” para ele, que eu tinha escrito em inglês antes mesmo de toda essa conversa. Não escrevi a música porque ele falou. Tenho muita vergonha de escrever em inglês, porque quando exerço o inglês, perco metade do meu vocabulário, me sinto burro. Mas decidi voltar a escrever em inglês para perder um pouco esse meu medo. Não pretendo fazer muitas coisas, meu negócio é a língua portuguesa mesmo, mas o que acontece é que a porra da música veio em inglês. Mandei pra ele, ele gostou, disse que ia cantar e só falei um “vamos nessa”.

Capelas: E a Silvia?
Teago: O Dudinha, que é baixista da Silvia, tinha vindo gravar “Pessoa Nefasta” aqui no estúdio, para esse projeto “Raça Humana Reloaded”, do Gilberto Gil. Ele veio com o Tiaguinho Silva gravar a bateria, e modéstia à parte, o som de bateria aqui está muito legal de tirar. Foi assim que eu chamei o Thiaguinho para fazer o meu disco – e foi o maior acerto do mundo. No meio da gravação, o Dudinha falou para eu cantar a segunda parte da música. Cantei, ficou legal, aceitaram que fosse um feat e ficou. Na mesma época, eu tinha uma música que tinha decidido não lançar porque estava esquizofrênica. Ela tinha uma parte em que eu cantava num tom super alto e outra num som mais grave. Até achava OK fazer isso ao vivo, porque estaria sozinho, mas no disco ia ser estranho. A música estava implorando para eu chamar alguém pra cantar, uma mulher. Como eu já tinha feito a do Gil com a Silvia, chamei ela para cantar. Acabou rolando por conta disso. Foi necessidade, não foi marketing. Até porque se fosse marketing, não tinha dado certo. Tudo que eu tento fazer para bombar dá errado.

Capelas: O que você tenta fazer pra bombar?
Teago: Esse tipo de coisa. “Ah, vamos fazer um feat com alguém”. Se eu chamo alguém, a pessoa passa anos dizendo “vamos fazer, vamos marcar”. É igual torcer para time de futebol. Se eu torcer para um time, o time perde. Um amigo meu virou pra mim um dia desses para eu não falar essas coisas, porque o mundo não gira em torno de mim. Aí fomos ver o jogo do Bahia. Resultado? O Bahia perdeu de 2 a 1. Por isso que não torço.

Igor: Só porque você tá falando, o Tottenham está ganhando enquanto a gente grava.
Teago: Ah, não zica não, velho. Vai zicar a porra do jogo! Champions League, não estou vendo para não zicar.

Capelas: Das coisas improváveis de Teago Oliveira, uma das principais é que você é um torcedor muito ferrenho do Tottenham.
Teago: Rapaz, isso é a coisa mais de otário do mundo, sabia? Eu me sinto muito otário por torcer de verdade pro Tottenham. Torço de verdade, de passar mal, de desligar a televisão porque me faz mal. O pior é que é um time ruim. Não é um time pouco ruim. É um time muito ruim, de playboy, de Londres! O Tottenham é um time rico e ruim! Eu poderia torcer pro Liverpool, pro Manchester City… eu poderia ser feliz, man! Mas nem isso. Simplesmente comecei a gostar do time porque ali por 2014, 2015, foi o início da carreira do Harry Kane. Era o Harry Kane e o Son, e o time só perdia… fiquei apaixonado, era a história da minha vida. Quando vi, o negócio começou a ficar sério. A galera pergunta se eu torço pra algum time brasileiro e eu digo que não tem condição. Vai dar muito ruim. Estou até parando de acompanhar, porque esse Tottenham de agora é um dos piores times que vi nos últimos dez anos. O Tottenham nem é o tema da conversa, mas está vendo como me deixou?

Igor: É bizarro isso! Voltando pro disco, é bacana você falar quem mais participou das gravações.
Teago: Vocês querem a ficha técnica completa? Vamos lá. Quem tocou as teclas foi o Maurício Orsolini. O André Ribeiro fez o Op1, um sintetizadorzinho portátil. Na bateria foi o Gabriel Bruce e o Thiaguinho Silva, cada um em quatro faixas, além do Rafael Lira em “Não Se Demore”. No baixo fomos eu e o Dudinha. Ele tocou as que têm baixo bem tocado, eu fiz as que têm o baixo mal tocado. Violões são meus, as guitarras dividi com o Luquinhas – até porque não tinha como não ser. O lapsteel é o Rubens da Silva, da Mustache e os Apaches. Violinos são todos do Thiago Melo, que faz todos os violinos dos meus discos desde 2019. Além da Silvia Machete, a minha mulher, a Ana Paula, está nos backing vocals. Não tinha como não ser: “amor, preciso de um backing vocal aqui, vem cá!”. Na percussão, tem o Filipe Castro, que toca com a Jadsa. Trombone é da Heloísa Alvino, o trompete é do Daniel Gralha, do Bixiga 70. O sax é do Cuca Ferreira, do Bixiga 70. E no trompete também temos o Bruno Orsini, que é um dos caras que me ajudou a gravar o disco. É uma espécie de produtor executivo. A mixagem foi minha e do Otávio Bonazzi. E a master é do Fili Filizzola lá em Los Angeles, que deu um tchan muito foda no disco. Ele tirou um pouco a visão que eu tinha de som. Eu e Bonazzi estávamos muito presos num som próprio. O Fili é um cara do hi-fi, já masterizou até o Justin Bieber, e trouxe uma visão para modernizar o som da master, deixar mais alto, mais competitivo. Tem mais gente que gravou, mas provavelmente vou esquecer.

Capelas: O seu gato, Maurício Pereira, não participa do disco, né?
Teago: Não. Mas o Maurício Pereira – o músico – eu gostaria que tivesse participado. Quem sabe no futuro a gente faz um feat. (risos)

Capelas: Acredito que todo disco é uma polaroide da sua época. Já falamos de “Eu Nasci Pra Você”, mas queria entender um pouco qual é o retrato da época que você queria passar. Fiquei com uma sensação muito ambígua ouvindo o disco: de um lado, estamos numa época terrível para a humanidade. Do outro, é não só necessário como possível viver bem. É isso?
Teago: Concordo com a sua visão, um pouco. É necessário falar do que não está legal. Falar do que não está legal faz com que a coisa não fique mais não legal. É uma tentativa de mudar as coisas que, ao meu ver, estão erradas. Não precisa descer até 1920, não precisa ficar com saudosismo. É um disco que fala sobre esses cinco, seis anos pós-pandemia, no qual ninguém consegue assistir um filme sem olhar 40% do tempo no celular. Um tempo em que as empresas estão massacrando o sistema. Não tem como não falar. O sistema em que a gente vive está massacrando a gente, estamos sendo tragados – e passivamente, aceitando mesmo. Voltando a falar de futebol: hoje você tem que assinar a versão premium de um aplicativo de uma empresa para assistir um jogo que ela decide não passar, mesmo que só ela tenha os direitos de transmissão. Em que época da humanidade isso aconteceu? Daqui a pouco, vão começar a vender ar para gente. Obviamente, esse tema não é algo explícito no disco, mas ele está ali, intrínseco, tentando dizer que a vida é bonita. As coisas estão uma merda, mas é bonito viver. Move só um pouquinho, tenta sair só um pouco da sujeira, e vamos nessa todo mundo. É uma mensagem esperançosa. Tem várias músicas deprê, mas não acho o disco deprê. Por tudo que passei nos últimos anos, tem um DNA de sofrimento ali. Mas também tem um DNA de quem não tem tempo de ficar se recolhendo no quarto e achando que tudo vai dar errado. Não tenho mais idade para isso. Agora, tenho que ganhar o jogo, entendeu? Tenho que sair das merdas da vida e vencer. Não estou falando sobre vencer profissionalmente. É um vencer abstrato, é vencer a vida mesmo. A vida vem e você vence. A grande mensagem do disco é que é possível vencer o mundo hoje, trazendo um pouquinho do antigo. Não precisa ir longe. Olha para trás, só uns dez anos atrás. Em 2013, 2014, a vida não era ruim assim. A vida era mais legal – e se você parar pra pensar, tem um monte de gente que parou naquele tempo. Aquele tempo é o tempo do conforto pra muita gente. Tem gente que parou de ouvir música e só escuta o que foi lançado até ali. Tem gente que está vivendo 2013 até agora – e só estamos sofrendo porque estamos vivendo em 2025, 2026. Temos até um pouco mais de coragem que as pessoas (risos). Dá para ser assim em 2025, em 2030, sacou? É uma mensagem romântica? Pode ser, mas é a minha forma de tentar fazer parte desse mundo, é minha forma de tentar contribuir para alguma coisa. Não faço disco pensando que é TCC, muita música vem porque ela tem que vir mesmo. Música não é teoria, escrevi porque quis escrever. Não quero que a minha teoria esteja certa, não estou buscando validação teórica sobre os meus temas. Só estou escrevendo o que eu sinto. Se fizer sentido pra você, massa. Se não fizer, segue em frente – ou escuta mesmo assim.

Capelas: É engraçado você falar isso, porque bate de frente com a sensação que tenho com “Eles”, da Maglore. Em cada época, ela me dá um sentimento diferente. Quando o “V” saiu, ela me dava medo da eleição. No Primavera Sound, uma semana depois do segundo turno, parecia que a vida ia ser linda. E nos últimos shows da Maglore, ela bateu estranho para mim. Não é culpa da banda, mas… acontece. E não é sobre a música, é sobre quem está ouvindo.
Teago: Até porque, em “Eles”, não escrevi sobre política. Até tem um clipe que tem cenas, que foi para ilustrar. “Eles” é sobre o ser humano. É mais aberto o negócio. Não tem a ver com o Bolsonaro, que está preso, não tem a ver com o Trump, mas é também sobre. É sobre a espécie humana. Viemos aqui para destruir o bagulho. Ela tinha um outro nome antes, que não lembro mais. O nome era mais fácil de entender a mensagem da música, mas os caras da banda falaram para mudar porque o nome ia dar uma interpretação fechada. Ficou “Eles” – e aí surgiu essa interpretação que você tem. Muda, né? Que bom que a música muda. Porque se não o tempo passa e a gente fica com vergonha das coisas que a gente escreve. É bom deixar tudo aberto, sabe? Ninguém sabe o dia de amanhã. Não quero me decepcionar com os meus heróis de hoje e tê-los como vilões daqui a dez anos.

Igor: Você pode não compor a música pensando num momento histórico, mas você tem uma linha de posicionamento como compositor. É uma espécie de integridade.
Teago: Concordo. Posso ter vários defeitos, mas não sou um artista mentiroso. Acho que não sou. Escrevo sobre o tempo que vivo, não estou fantasiando as coisas. A minha forma de escrita é muito simples, ela fala sobre o que observo. Faço isso porque acho que é no simples que a gente encontra o caminho. A letra da canção precisa ser simples. Toda vez que tento enrolar, me sinto um mentiroso, um safado. É por isso que faço o som que faço. Talvez eu estivesse muito melhor se eu fosse safado, mas não posso reclamar da minha vida. Não tenho como fugir de escrever o que sinto. Se eu fugir, vou ser fajuto – e lá no futuro todo mundo vai pegar. Na verdade, o pior é que eu vou pegar. O meu problema não é com os outros, o meu problema é comigo. (risos). E aí vou ter ódio de mim. A música é uma espécie de doença e terapia. Não consigo parar de fazer, porque se eu parar de fazer, vou morrer. Mas, ao mesmo tempo, tenho que fazer do jeito que me traz bem estar. Nunca é algo destrutivo.

Capelas: Quais são os planos para levar esse disco ao palco?
Teago: Estamos ensaiando já, uma big band, pro primeiro show [realizado no dia 14 de dezembro, na Casa Natura Musical – saiba como foi]. Mas é um show único. Não sei se repito essa formação, são sete pessoas no palco, até porque é mais fácil fazer uma banda do que ter carreira solo. É muita gente para lidar, é muita coisa, e do jeito que quero fazer é rojão. Mas, à primeira vista, rolou uma coisa massa. Sinto que não é só o tocar das músicas, sinto que tem um propósito do disco estar ao vivo com uma banda. Senão, poderia fazer sozinho com voz e guitarra, representar ele de outra forma no palco. Mas com a banda, ele ganha uma dimensão diferente do disco. Eu não esperava que os ensaios fossem legais, mas quando a gente tocou, todo mundo se olhou. Estou ainda estudando fazer em outras cidades. Mas como não vivo do meu trabalho solo, como vivo da Maglore, não tenho obrigação de fazer tanto show. Quero fazer dessa experiência algo novo e diferente do que é com a banda. Senão, porra, estou fazendo duas coisas iguais e não é esse o propósito. Gostaria de falar que tem uma agenda cheia, mas não tem não, viu? É só esse show e por vontade própria. Quero sacar onde mais quero fazer, da forma como quero fazer, em outros lugares.

Capelas: É legal essa visão porque passa pela ideia de integridade, de estar na íntegra mesmo. Hoje o artista tem que ir muito além de gravar, tocar, compor. Tem que divulgar show, tem que fazer redes sociais, dar entrevista pra dois barbudos chatos que nem nós dois… fazer gestão de negócios, de carreira. E ter integridade nisso tudo também é difícil.
Teago: É difícil, é romantismo também. Perdemos o romantismo um pouco com o tempo. Mas gosto de ser assim. Preciso fazer as coisas desse jeito porque eu quero. Preciso que o som saia de uma certa forma, porque acredito que vai ser melhor na cabeça de quem vai ouvir. E na minha cabeça também. É caro pra caramba? Não tem problema, vamos fazer. Se isso trouxer frutos no futuro, ótimo, se não me trouxer, tudo bem. Faço outro disco depois.

Capelas: E já que falamos de disco, tem Maglore em 2026?
Teago: Já está no gatilho!

Capelas: Tem gente que diz que o “V” é o grande disco da Maglore. Tem gente que olha para o “V” e fala que a Maglore ainda vai fazer seu grande disco.
Teago: Porra, acho que nós fizemos grandes discos. O “III” é um grande disco, foi um divisor de águas pra gente, trouxe uma projeção mais nacional. O “Todas as Bandeiras” é o favorito de muita gente. E o “V” é um disco que consolidou todas as fases da banda. Acredito que nós vamos lançar o próximo disco se ele tiver o calibre que a gente entende, sacou? Infelizmente, somos todos suscetíveis à crítica, mas só vamos lançar quando acharmos que está valendo à pena fazer. Espero que sejam discos cada vez melhores. Se tiver fôlego para isso, massa. Mas são cinco discos de estúdio em 15 anos de banda. É um disco a cada três anos, é um tempo relativamente razoável. Não foi com pressa, mas também não foi devagar.

Capelas: Fomos mal acostumados pela indústria fonográfica a achar que se faz um disco genial por ano. É loucura pensar que os Beatles fizeram 14 discos em oito anos.
Teago: Aí vou ter que decepcionar todo mundo, porque nesse nível ninguém chega não (risos). Pode ser o artista que mais tem música no mundo, não vai rolar: vai fazer disco ruim. Se fizer um por ano, pode ter certeza que, de três, pelo menos um vai ser ruim. Tem artista que não se incomoda, que só extravasa. Gosto de fazer disco com calma, velho. Gosto de sentir que o que estou fazendo é um disco. Cada um tem um processo. Do disco novo, não temos letras ainda. Estamos fechando algumas letras. Mas o que sinto é que sonoramente o que a Maglore tem soa já mais interessante do que o “V”. Tem um pouco a pegada do “V”, mas é mais sofisticado. O som é maior, não se preocupa tanto em seguir certas referências estéticas, é mais solto e mais maduro. Falo sem modéstia alguma, peço até desculpa pela falta de humildade, mas a curva criativa da Maglore é uma curva ascendente. É muito fácil fazer um grande disco e cair. Difícil é ter fôlego para seguir. Mas a vida foi transformando a banda numa coisa, que vai guiando a gente e a gente vai se surpreendendo. O grande lance é saber até onde vai dar essa porra.

Igor: “Tela Quente”, que vocês lançaram no “Acústico” em 2024, está mais para o “V” ou para a ideia nova?
Teago Oliveira: “Tela Quente” não está em nenhum lugar. É um single, um B-side mesmo que lançamos no “Acústico”. A questão é que ela não é uma música acústica. Ela era um outro lance. Talvez ela seja uma música mais “Veroz” do que qualquer outra coisa, mas com a linguagem que a gente sabe fazer hoje. Escuto e acho massa. Mas por ela ser mais “Veroz” é que não colocamos em plano nenhum. “Tela Quente” vai morrer como single.

Igor: E vocês vão gravar no seu estúdio?
Teago Oliveira: Vamos tentar gravar em vários lugares. Aqui no estúdio, vamos gravar com outra bateria. Senão é foda: eu faço as músicas, a voz é minha, vou gravar com os mesmos instrumentos? Vamos gravar com outra bateria, outro baixo, outras guitarras. Queremos passar por outros estúdios. Talvez lá no Fleeting Media façamos outras coisas. Mas acho que dá pra gravar aqui. Tenhos uns negocinhos decentes, porra, fui construindo com o tempo. Tem umas mesas top, instrumento pra caramba, é um processo. Tá longe de ter R$ 1 milhão nesse estúdio, bem longe. É um trabalho de curadoria, mas que tira o som que eu quero tirar, que eu quis tirar a vida toda.

Capelas: Para fechar, Teago, duas perguntas. Uma é a clássica do Programa de Indie: os cinco discos para a ilha deserta?
Teago: Porra, galera, pra ilha deserta? São os discos que vou levar o resto da minha vida. Vamos lá. “A Tábua de Esmeralda”, do Jorge Ben. “Mind Games”, do John Lennon. “Grace”, do Jeff Buckley. Ah, vou mudar, vai. “Refavela”, do Gil, o “Dark Side of the Moon” e o “Abbey Road”. Um Beatles para fechar, né? Os discos da ilha deserta são esses. Não necessariamente são os que mais curto hoje em dia, mas são os da ilha deserta.

Capelas: E o que você tá ouvindo hoje de bom?
Teago: Porra! Cara, o último disco do Dr. Dog, “Dr. Dog”, de 2024, acho bem legal. O “New Purple Dress”, do Scott McMillan, que é do Dr. Dog também. Os dois últimos, na real, são bem legais. Queria muito conhecer ele. Conheci o Eric, um grande baterista, mas o Scott, que é o compositor majoritário do Dr. Dog, tem um trabalho muito massa. Tem um disco de uma menina americana, a Steady Holiday, de 2024 também. [“Newfound Oxygen”] é um disco bom, ele é legal, ele é divertido, assim, popzinho na medida. Aí tem o da Adrienne Lenker [“Bright Future”]. O Fruit Bats lançou um disco agora chamado “Baby Man”, que é só ele no violão, piano e voz. Surpreendente, bom pra caralho. O novo do Big Thief também… de gringo, acho que é isso. E de música daqui, tem muita coisa, véi. Se eu falar de um, não vou falar o outro.

Capelas: Para você não arranjar briga no boteco depois.
Teago: Exatamente! Mas tem uma galera que é foda. Tem a Sophia [Chablau], o Pelados, o Exclusive os Cabides, que é divertido também. Tem muito artista foda, assim. O disco do Zé Ibarra [“Afim”] é bonito, mas todo mundo já ouve, todo mundo já sacou o Zé. Que mais? Jadsa, claro. Bom disco também. É muita gente, cara. A galera da música no Brasil é meio rancorosa, cuidado! Tem que falar para todo mundo sempre, a galera leva para o pessoal.

Igor: E tem previsão de lançar o “Canções do Velho Mundo” em formato físico? Ou é muita loucura?
Teago: Sabe que tem? O pior é que tem, bicho. Duas majors gigantescas entraram em contato comigo para prensar. E eu resolvi fazer lá no interior de São Paulo com a galera da Bilesky. Já está na pré-venda. Vamos nessa, véi. Vamos fazer, vamos ser bobão o resto da vida. (risos)

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie. 

2 thoughts on “Teago Oliveira: “Minha geração não atingiu o mainstream e isso machucou nosso ego”

  1. Ai, ui, machucou nosso ego, ui, ui, ai, aí… Ah, vá se foder! Por isso essa geração é uma merda! Só músicas chatas e bandas horríveis! Beatles parou de tocar ao vivo pq os gritos do público atrapalhou a música deles. Hoje eles preferem o grito do público e a música que fique em segundo plano, mas o ego inflado do sucesso é o que vale. Foda-se! Isso não é música, isso não é Rock’n’Roll, já diria o eterno jovem Lennon, que mataram aos 40.

  2. Gente a música brasileira anda uma merda mesmo… sinceramente. Só falam de amorzinho, dorzinha, depressãozinha de white peaople. Ou estão mimetizam uma banda gringa… sem a menor cara de pau… não passa uma! Por isso o hiphop e outras coisas bem piores capturaram essa geração retardada e estão aí. viva o manguebeat

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