Entrevista: Leon Sampaio fala sobre o curta-metragem “Curva Acentuada”

entrevista de João Paulo Barreto

Destaque na Mostra Panorama, o curta-metragem “Curva Acentuada”, do diretor Leon Sampaio, é um dos filmes que compõem a seleção 2026 da Mostra de Cinema de Tiradentes, que, este ano, chega à sua 29ª edição. No filme, uma atriz de sucesso vê-se em um estado de questionamento pessoal e decide abandonar aquela sua trajetória.

Diretor dos longas-metragens “Eu, empresa” (2021), co-dirigido ao lado o de Marcus Curvelo e “Gente Bonita” (2016); além dos curtas “Peito Vazio” (2017), co-dirigido ao lado de Yuri Lins); “Interdito” (2016); “O Cadeado” (2012); “Retomada” (2015) e “A Eternidade” (2009), Leon tem em “Curva Acentuada” é um projeto que teve seu início em 2014.

Neste breve papo com o Scream & Yell, Leon aborda um pouco do processo de criação do trabalho.

Jessica Barbosa em “Curva Acentuada”

Sua protagonista espelha muito esse processo de necessidade de uma superexposição que rege a realidade de hoje, com uma constante presença em redes sociais e um obrigatório e sufocante reconhecimento por curtidas. Ao tentar escapar desse mundo, ela literalmente foge. Queria te perguntar sobre essa reflexão da frivolidade da presença virtual de hoje em seu roteiro. Como foi esse desenvolvimento?
Primeiro, acho importante contextualizar que esse é um roteiro de mais de uma década e que as filmagens foram realizadas em 2014. Na época, já tínhamos uma percepção um tanto crítica dessa cultura narcísica e de alta performance estimulada pelas redes sociais, mas é evidente que hoje ela tomou outra proporção. No que consiste ao desenvolvimento do enredo propriamente, ele se deu em parceria com as atrizes e atores do filme, principalmente com Jéssica (Barbosa), que naquele momento tinha acabado de fazer novela. Essa experiência foi marcante pra ela, trouxe reconhecimento, mas também uma série de cobranças e incômodos. A ideia do filme veio daí, dessa experiência e de alguns desejos que compartilhávamos, sobretudo, de vivenciar situações não mediadas pela grana.

A ideia de refletir acerca dessa paz encontrada distante dos holofotes que todos parecem ter como meta foi uma proposta surgida desde a concepção do filme?
Sim. Desde o princípio pensávamos em estabelecer um contraponto a esse ideal de sucesso que se vislumbra no começo do filme.

Seguindo essa análise, o filme pode oferecer uma reflexão que vai no caminho inverso, que é o da crítica a alguém que alcançou o sucesso que muitos almejam, mas que o renega de maneira até, digamos, ingrata. Qual a sua opinião sobre essa possibilidade de análise crítica de sua história?
Acho plausível, uma das possibilidades de ler e se relacionar com o filme. Acho que o “Curva” é uma obra que solicita bastante do espectador, que deixa muitas lacunas para que o público monte sua própria história. Isso me interessa no cinema, e é também por isso que retomamos esse projeto depois de tantos anos parado.

O filme abre com ela recebendo as “ordens” do fotógrafo e as mesmas servem, inclusive, como esse gatilho de perceber-se sem o poder sobre o próprio destino. Trazer essa proposta de análise do corpo e da presença da atriz como um objeto a ser moldado (e por isso, gerando o incômodo na mesma) foi um ponto de reflexão do seu roteiro?
Sim, com certeza. O ator de televisão e publicidade vive pressões acerca do seu corpo há muito tempo e, no caso de Jéssica, não foi diferente. A cena inicial visa justamente mimetizar esse processo de incômodo da atriz/modelo com a relação que se vivencia no ambiente de trabalho da moda e da publicidade.

Uma rima visual curiosa é a das faixas contínuas no asfalto, imagem que encerra o filme. E isso acaba refletindo em um aspecto da vida da própria protagonista, que se vê presa naquele caminho constante. Houve essa percepção em sua montagem?
Sim, mas acho que as curvas dão outros sentidos também. Penso que a vida não é retilínea. Ao contrário, ela é repleta de momentos sinuosos. E aquele momento da vida da personagem é de uma enorme crise, por isso a tortuosidade das estradas e as paisagens cheias de linhas de fuga.

Cena de "Curva Acentuada"
Cena de “Curva Acentuada”

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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