Entrevista: O universo sem rosto da Polly Noise and The Cracks

entrevista de Alexandre Lopes

Entre camadas de distorção, reverb, máscaras sem rosto e uma recusa à padronização estética, a Polly Noise and the Cracks constrói um universo que desafia a ideia tradicional de identidade. Surgido em 2018 como um projeto solitário, impulsionado por uma vontade de experimentar sonoridades que não encontravam espaço em outros grupos da cena paulistana, o trio do ABC paulista começou a ganhar os palcos de forma mais consistente a partir de 2024. Desde então, cada apresentação vem se transformando em um misto de show de rock, performance incógnita e afirmação identitária.

Transitando entre o indie, o dreampop, o shoegaze e o pós-punk, a Polly Noise and the Cracks cria canções que falam de sentimentos de deslocamento, excessos, afeto rarefeito e relações vazias, com letras em inglês sempre abertas à interpretação do ouvinte. Na parte visual, a banda não se limita apenas a referências roqueiras. “Pegamos muita influência do Daft Punk, Lady Gaga em questões visuais, como a moda”, entrega a líder Polly Noise. “Filmes do David Lynch, filmes lado B influenciaram muito nossas escolhas”, aponta.

Após lançar cinco singles, a banda se prepara para apresentar seu primeiro álbum “It’s OK”. O disco traz dez faixas – entre elas o single “Kiss U” – que aprofundam a experimentação sonora e emocional do projeto.  Em entrevista por e-mail com o Scream & Yell, Polly Noise falou sobre a origem do projeto, suas influências sonoras e estéticas, o que esperar do primeiro disco que vem por aí e os motivos por trás da escolha pelo anonimato. “A intenção inicial de usar máscaras era porque não queria que soubessem quem eram as pessoas por trás, causar curiosidade. Mas fica meio difícil manter o sigilo”, conta a vocalista. Então se quiser algumas pistas sobre a real identidade do grupo, é só conferir o papo a seguir.

Como nasceu a Polly Noise and the Cracks? Vocês se definem como uma banda ou como um projeto artístico mais amplo?
A Polly é meu alter ego, meu projeto solo. Eu falo que ela surgiu na base do ódio! (risos) Quando comecei a compor as músicas, lá em 2018, foi uma necessidade de tirar algumas músicas que não encaixavam na minha outra banda, e de ter uma banda majoritariamente formada por mulheres, e ser anônima ao mesmo tempo. Mas, ela só foi sair do papel para os palcos em 2024. E, sim, defino a Polly como algo além de ser uma banda, e sim um projeto artístico que envolve teatro e performance.

A estética visual com as máscaras chama atenção logo de cara. O que elas protegem, escondem ou revelam? A decisão de usar máscaras também dialoga com expectativas sobre imagem e gênero no underground?
A intenção inicial de usar máscaras era porque eu não queria que soubessem quem eram as pessoas por trás, causar uma curiosidade. Mas devido aos meios de redes sociais, fica meio difícil manter o sigilo (mesmo assim, até hoje estou tentando manter o anonimato). Também vem de algo mais profundo; eu estava cansada da padronização de estética que é imposta para as mulheres: tem que analisar pra ver se a pessoa é jovem, bonita, se serve pro cenário musical. Essa pressão estética que as bandas carregam, ainda mais com mulheres, em que muitas vezes somos apenas sexualizadas e não enxergam o talento musical, apenas um corpo carregando um instrumento. E, também nesse estilo musical que fazemos sempre são bandas com um certo tipo de padrão e estética – queira ou não, é um padrão. Quisemos causar desconforto, estranheza, curiosidade… Senti que nos shows as pessoas prestam atenção no espetáculo em si e não só em nossas aparências. Caso fosse sem máscaras, eu tenho certeza que o impacto seria totalmente diferente. E o melhor: tem gente que entende o que queremos passar ali! Isso é o que importa no fim.

Vocês já fizeram/fazem parte de outras bandas. Sentem que o público reage de forma diferente quando a performance visual mascarada entra em cena?
Sim! Nossas outras bandas são mais clássicas no visual e tudo mais. Muita gente não sabe quem é (risos). A ideia era ninguém saber, mas é difícil. Sinto que as pessoas se desconectam da pessoa debaixo da máscara quando nos veem mascarados! Um exemplo: os integrantes do Daft Punk já mostraram seus rostos, mas a imagem que vem na nossa cabeça quando falamos neles é deles de máscaras! É nisso que focamos, somos outras personas no palco, outros alter egos, outros seres!

O som de vocês flerta com shoegaze, dreampop e post-punk. Dá para sacar algo de The Cure, Molchat Doma e Cannons entre os sons. Mas o que mais vocês acham que os influencia, além do som?
Influencia também a parte visual, pegamos muita influência do Daft Punk, Lady Gaga em questões visuais, como a moda. A baixista vem desse universo e trouxe ainda mais influência do high fashion. Queríamos um dia transformar o show em um desfile muito louco com pessoas usando máscaras sem rosto. Agregamos muito isso, além da parte teatral, que vem também do cinema, pois todos os integrantes trabalham com audiovisual. Filmes do David Lynch, filmes lado B influenciaram muito nossas escolhas.

As letras dos singles parecem lidar muito com sensações (deslocamento, excesso, afeto ou a falta dele). Elas partem de experiências pessoais? Existe uma preocupação em deixar as letras mais abertas à interpretação?
Sim, são marcadas por experiências pessoais. Acho que tudo tem abertura para interpretar, algumas pessoas vão se identificar e entender que são pessoais, ou vão se achar ali também. Quem nunca sentiu um vazio por falta de afeto e deslocamento no meio do caos, em que a sociedade atual costuma nos deixar doente?

Reparei que ao vivo vocês usam backing tracks para os synths. O que muda quando uma música vai do estúdio para o palco?
Temos esse costume de tocar com ponto, e como as músicas geralmente carregam muito synth, achamos melhor usar os back attacks pra preencher melhor o som! Acaba que tocamos igual ao cd (risos). O que muda é que temos a performance ao vivo, tudo tem que estar em perfeita sincronia, e quase nem sentimos que estamos usando metrônomo ao vivo.

Para o show de lançamento no Sesc Paulista, a banda está pensando em preparar algo diferente? O disco será apresentado na íntegra?
Sim! Nos shows já tocamos quatro músicas do disco; vamos agregar mais ao set e fazer um show diferente do que temos feito! Prometemos um cenário diferente, não vou dar muito spoiler pra que fiquem curiosos e vão lá assistir (risos). O que posso garantir é que não vai ser um show, e sim um espetáculo em forma de show. Esperamos que seja assim!

O que vocês estão explorando agora neste disco que ainda não apareceu nos lançamentos anteriores? Por que ele se chama “It’s OK”?
Estamos explorando muito estilos de composição, gravando muita coisa eletrônica, como também muita coisa orgânica! Vai ter instrumento de sopros em algumas e em outras é só synths e bateria eletrônica… Eu faço a música, se eu gosto, gravo e não ligo se muda mto de uma pra outra! Mas, sem fugir da minha identidade! O nome surgiu pelo jeito que eu me encontrava naquele momento. “It’s OK” literal é tudo bem ou tá tudo bem, e tudo bem ser assim, e tudo bem você dizer não às vezes, tudo bem não ser o que esperam de você, tudo bem ser do jeito que somos, é esse sentimento!

O que o público pode esperar após o lançamento do disco? Existe uma previsão de turnê ou shows por outras cidades fora de SP?
Sim! Estamos com planos de fazer uma tour no Sul lá para junho! E, por outras cidades que quiserem nosso show, estaremos prontos para isso! 🙂

O que vocês gostariam que uma pessoa sentisse ao ouvir Polly Noise and the Cracks pela primeira vez?
Humm, eu gostaria que ela se impactasse e se sentisse abraçada, pois se sentir “diferente” é normal e tá tudo bem. Estamos aqui pra isso 🙂

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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