Entrevista: Luisa Maciel fala sobre seu primeiro curta metragem, “Agulha”

entrevista de João Paulo Barreto

Primeiro curta metragem da diretora Luísa Maciel, “Agulha”, filme experimental destaque na Mostra Formação, parte da seleção de trabalhos exibidos na 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, transmite para sua audiência um aspecto sensorial de Salvador.

A partir dos sons urbanos do Centro da capital baiana, as imagens captadas pelo olhar de Luísa e estilizadas através de um tipo bem específico de animação conhecida como cianotipia, “Agulha”, criam para seu público uma sensação de “mergulho urbano” na Salvador que, aqui, pode representar diversas metrópoles, mas sendo alguém que vive diariamente aquelas ruas, fica perceptível esse discernir.

Luisa conversou com o Scream & Yell sobre essa sua primeira experiência como diretora, um mérito reconhecido com a seleção para a Mostra de Cinema de Tiradentes. Confira!

Com suas imagens estilizadas, “Agulha” traz uma Salvador que dialoga muito com um tipo de cinema que enxerga a metrópole por um prisma diferente, pelo olhar cinematográfico. Juntando com os sons urbanos, que se mantêm fiéis aos da realidade, como se deu essa busca por esse modo de transmitir à sua audiência essa sensação da cidade?
No próprio transitar a cidade, acredito. As ruas filmadas são ruas que frequento, já passei por elas em diferentes contextos, externos e internos. Fomos a essas ruas, com uma câmera e um boom, e andamos por elas. Nesse sentido, acho que o som faz muita diferença, e esse crédito é todo de Deno (João Denovaro), que captou e fez a mixagem, a imersão produzida a partir dos sons da rua é muito responsável por essa sensação de cidade, que para mim é muito soteropolitana, mas que se relaciona com grandes cidades no geral.

Como foi o seu processo de animação feito junto com Marcus Curvelo? De que modo a escolha do tipo de animação influenciou visualmente nesse aspecto sensorial do seu filme junto ao público?
Totalmente. A animação em cianotipia é, de certa forma, a essência do filme, foi o meu primeiro desejo, antes até de saber o que eu filmaria, sabia que o formato seria uma animação em cianotipia. Tenho uma fascinação com a poesia dessa técnica. A textura também é muito importante, amo ser impactada sensorialmente por texturas visuais, capazes de causar vontade de morder uma imagem ou passar a mão nela, então acho que intuitivamente priorizo a produção de imagens capazes de afetar sensorialmente quem assiste. Foram aproximadamente 3800 frames organizados em cerca de 120 páginas A3, que foram impressas em transparência, depois em cianotipia, depois digitalizadas, recortadas digitalmente e montadas outra vez. Marcus foi essencial para que fosse possível dar conta desse grande volume de trabalho.

Da mesma forma, na sua montagem do filme, como foi o processo de encontrar fio condutor narrativo na seleção das imagens captadas por você, Ramon Coutinho e Gustavo Araújo?
A montagem foi a parte mais difícil para mim. Mas diria que o fato de ter imagens captadas por três pessoas diferentes (eu, Gustavo e Ramon) ajudou no processo. Para mim era importante que houvesse diferença de pontos de vista, então ter essas três visões, cada uma com uma câmera diferente, acredito que ajuda a enfatizar isso. Ramon filmou exclusivamente as imagens sob o ponto de vista de quem anda de bicicleta, ele é um ciclista urbano, fez todo sentido que ficasse responsável por essa tarefa; Gusta já tem um projeto fotográfico que envolve fotografar pessoas andando na rua, e filmou exclusivamente a perspectiva de alguém que anda a pé. Eu captei imagens a partir do ônibus, do carro, da moto e algumas a pé também, sempre buscando diferenciar essas imagens, seja em altura, movimento ou textura. Na hora de montar, a geografia das ruas e os ritmos diferentes dessas imagens foi o que me conduziu.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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