entrevista de Guilherme Lage
Leon Michels é um gênio, defini-lo é fácil assim. Poucos artistas têm hoje o domínio de tantos instrumentos e a facilidade de transitar por gêneros musicais tão diversos e com tanta naturalidade. Como líder do El Michels Affair, projeto que iniciou aos 18 anos, em 2000, Leon lançou um dos melhores discos de 2025, o incrível e imperdível “24 Hr Sports”, álbum que traz uma miscelânea musical tão rica e tão inacreditavelmente bem organizada que só poderia mesmo sair da mente de um incansável como ele.
O disco traz jazz, funk, hip hop e o gênero que consagrou o El Michels, o soul, com participações de peso como Norah Jones, Clairo, o herói do rock psicodélico japonês Shintaro Sakamoto, a ganesa Florence Adooni e o brasuca Rogê. “24 Hr Sports” segue o igualmente ótimo “Glorious Game”, lançado em 2023, em colaboração com o rapper Black Thought, com raízes bem mais firmes no hip hop. A razão de explorar estilos que se desgarram do último álbum é simples: “Gosto de pensar em como todas essas coisas se traduziriam”, garante Michels.
Leon é um dos mais cobiçados produtores musicais da atualidade, tendo deixado sua assinatura em álbuns de artistas como Lady Wray, Chicano Batman, Mary J. Blige e Lizzo, que lhe garantiram duas indicações ao Grammy, com direito a uma vitória. Diferente da angústia que leva os jovens a berrarem em microfones em meio a guitarras distorcidas durante a adolescência, o músico passou a juventude como membro do The Mighty Imperials, banda que ajudou a dar respiro às cenas de funk e soul da Nova York do fim dos anos 90. “Sei que se tivesse crescido em uma cidade pequena curtir soul não ia ser visto como algo legal”, brinca nesta entrevista.
No papo com o Scream & Yell, Leon falou sobre a influência dos pais e como crescer em um ambiente artístico o empurrou direto para os braços do jazz ainda criança, Mais do que isso, conversou também sobre seu trabalho junto ao Wu-Tang Clan e de sua experiência no rock, com a banda The Arcs, que comanda ao lado de Dan Auerbach, do Black Keys.
Oi, Leon, obrigado por topar falar comigo. Já vou começar dizendo que amei o disco, é bem diferente do “Glorious Game”, que era muito mais alinhado ao hip hop. Esse disco novo tem mais uma pegada de música de várias partes do mundo, porque você trabalhou com colaboradores de diversos países. Qual era sua intenção com o álbum? Porque tem muita diversidade musical e é muito colaborativo por natureza.
Sim! Acho que – pensando no que queria com o álbum – eu tinha uma paleta musical muito ampla e que apareceu por todo o disco, sabe? Já a parte de ter cantores e artistas convidados de diversas partes do mundo, foi meio que porque eu gosto da ideia de como isso poderia se traduzir. Porque escuto muita música, especialmente hoje em dia, escuto discos, e também ouço playlists que eu monto ou encontro em plataformas de streaming. E essas playlists sempre têm todos os tipos de música, sabe? E eu acho que hoje em dia muita gente ouve música desse jeito, então meio que combina com o conceito do disco, de ter vários idiomas, porque é meio que um jeito que digerimos música hoje em dia, porque a música pode ser de qualquer lugar, então eu achei que seria uma forma mais interessante para o ouvinte.
Como brasileiro eu tenho que te perguntar: como surgiu a colaboração com o Rogê?
Meu grande amigo, Thomas Brenneck, produziu os dois últimos discos do Rogê. E o Thom está no El Michels Affair e eu toco no Menehan Street Band (banda liderada por Brenneck), e também participei bastante do disco que ele produziu para o Charles Bradley, somos amigos muito próximos. Pra falar a verdade, eu era um grande fã do Rogê e fiz aquela música antes sem a intenção de ter um cantor nela, mas depois que ela ficou pronta eu achei que soava meio como música brasileira, então só pensei que seria muito legal ter ele na música. E na verdade é a única música no disco que é sobre esportes, ainda que o disco se chame “24 Hr Sports”, a maior parte das músicas não é sobre esportes, mas o Rogê é o cara que participou de uma música especificamente sobre esportes.
E esse é um ponto interessante, porque, pelo menos pelo que percebo, você se foca mais nas partes instrumentais das músicas. Como você decide algo como “ok, essa música vai precisar de um cantor”, você compõe as linhas vocais ou é o cantor quem escreve essas partes?
Bom, pra esse disco, eu vinha produzindo tanta música pra tanta gente diferente e a maior parte é música com vocal, então de uns anos pra cá eu tenho feito discos e ouvido muita música com vocais, diferente de quando eu era mais jovem, que ouvia mais música instrumental. Ouvia muito jazz e muito funk e muito soul instrumentais.
Então acho que pra esse disco foi um pouco de preferência musical mesmo, eu queria ouvir vocais na minha música. Agora, sobre as letras, na maior parte do tempo eu tive algumas ideias sobre o refrão ou uma mudança em alguma letra, mas a maior parte foi escrita pelos próprios vocalistas.
Com exceção da Clairo e da Norah Jones, com quem eu gravei junto, todas as outras músicas eu só mandei para os cantores por e-mail e eles me mandavam ideias de volta. Então eu nem estava no mesmo estúdio com a maior parte deles quando gravaram os vocais.
Você foi criado no jazz, que é um tipo de música muito voltada para a performance, então eu fiquei me perguntando se ser um músico de jazz te ajudou de alguma forma a dominar produção analógica, porque acho que esse tipo de produção é o melhor jeito de tirar o suco de um artista, por assim dizer. De algum jeito você acha que te ajudou?
Sim, e nossa, que pergunta ótima, porque do jeito que eu enxergo produção e gravação, tudo que envolve fazer um disco, quando você está gravando uma banda ou fazendo a parte de engenharia de som ou mixando um disco, pra mim é tudo muito performático, no sentido de que sim, envolve uma performance.
Então quando eu faço música é muito rápido, sou o tipo de produtor que toma decisões bem rápido, e trabalho com meu primeiro instinto, porque acho que me traz a mesma inspiração que a performance. Você entra num estúdio, começa a fazer as coisas, faz tudo o que normalmente faz, e quando acaba, ali estão representadas todas as decisões que você tomou. Então ter crescido no jazz e tocar música como eu toco eu acho que se traduziu na forma que eu faço discos.
Estava lendo um pouco sobre você e vi que quando você era adolescente, você adorava soul music, o que me fascinou bastante. Porque você cresceu em Nova York e achou sua galera por lá, né? Você era um garoto que curtia soul e conseguiu achar uma turma que curtia a mesma música. Isso é muito diferente de quando você cresce numa cidade pequena, porque se você gosta de soul numa cidade de interior, cara, você está sozinho! Como foi essa experiência de ser um adolescente que não ouvia música adolescente, por assim dizer?
Numa cidade pequena você não é legal, né? (cool) (risos). Não sei, talvez existam algumas razões. Quando eu era mais jovem eu tinha uma professora de música incrível no ensino fundamental e foi ela quem me colocou pra ouvir jazz. Por algum motivo eu fiquei muito obcecado com jazz desde muito novo e eu sempre me interessei muito por música antiga, não sei necessariamente porquê, mas acho que quando tinha uns 12 anos eu já não estava mais prestando atenção à música que tocava no rádio.
E quando me mudei para Nova York, conheci o Gabe Roth e o Philip Lehman, quando tinha 16 anos. O Gabe Roth é parte da Daptone Records, ele começou a Daptone e o Dapkings. Esses caras eram mais velhos que eu, o Gabe era 10 anos mais velho que eu e o Philip era 20 anos mais velho que eu. Os conheci porque tinha a minha banda The Mighty Imperials, e nós tocávamos funk, mas meio que só conhecíamos James Brown, The Meters, essas coisas bem famosas. Então esses dois caras que conheci foram fundamentais no meu desenvolvimento musical, porque quando os conheci, eles amavam deep soul, funk, tinham muitos discos.
Então eles meio que abasteciam a gente com mixtapes, sabe? Eles foram meio que meus mentores, me apresentaram muita música soul incrível. E claro, eles também eram os caras mais velhos legais, né? Então eu meio que queria ser como eles, sabe? Tudo que eles me davam eu achava incrível (risos).
E falando um pouquinho sobre hip hop, pode me falar sobre a sua colaboração com o Wu-Tang? Eles são gigantes entre homens no estilo. Como você se interessou em hip hop e na música deles também? Como essa colaboração começou?
Quando estava no ensino médio, as coisas que eu curtia, claro, porque estava crescendo em Nova York, eram coisas como Wu-Tang e Biggie (The Notorious B.I.G), e aquele tipo de música também era uma porta para o soul, porque eu sempre ouvia aqueles discos e amavam os samples, e tentava descobrir quais discos eles usavam para aqueles samples.
Então, claro, ouvindo hip hop nos anos 90 você tinha toda essa porta aberta para explorar no soul. Mas o jeito que a colaboração com o Wu-Tang rolou foi mais ou menos assim: havia essa empresa de carros que estava meio que tentando gastar uma grana, eles faziam esses eventos em que colocavam bandas tocando ao vivo com artistas de hip hop. Um amigo meu trabalhava nessa empresa e ele ofereceu nosso nome e eles, aleatoriamente, nos colocaram com o Raekwon, do Wu-Tang. Nós tocamos alguns shows e eles foram incríveis, são até hoje alguns dos melhores shows que eu já toquei e o público estava louco.
Dai que com todos os arranjos que fizemos para esses shows, eu tive que realmente dissecar a música do Wu-Tang, e vou te falar, a partir do momento que você desmonta a música e tem de tocá-la ao vivo, ela se torna ainda mais interessante, pelo jeito que o RZA faz os samples em camadas. Tipo, algumas coisas estão em afinações diferentes, é muito interessante. Então quando começamos a tocar ao vivo era incrível, porque para mim, soava meio que como spiritual jazz dos anos 70, sabe? Porque era meio dissonante.
Por isso foi interessante o suficiente pra eu olhar para os shows e dizer: a gente deveria gravar umas versões dessas músicas, porque gosto demais de ouvi-las. Então acho que foi uma daquelas raras oportunidades que temos de nos juntar com pessoas tão interessantes e reinterpretar o hip hop daquela maneira, mesmo que hoje em dia isso seja feito com bastante frequência. Mas naquela época foi simplesmente incrível.
Você teve uma criação bastante artística, certo? Cresceu em uma casa cercada de arte, já que sua mãe é uma escritora e seu pai é pintor. Você se sentia inspirado por eles? Porque, claro, você é um músico, então é um artista. Você está interessado em outros tipos de arte? Algo em que seus pais influenciaram você? Eles apoiaram sua carreira?
Sim, 100%. Por exemplo, antes de me interessar por música eu queria ser um pintor, porque eu amava desenhar. Mas sim, meus pais são super artísticos e quando me interessei por música eles me incentivaram muito, ficaram super felizes, porque eles se identificavam com isso também. Se eu tivesse decidido ser um advogado, eles teriam me apoiado também, mas acho que não teriam muitos conselhos para me dar sobre esse meio (risos).
Mas eu, sem dúvidas, cresci em uma casa em que era constantemente estimulado e motivado. Como minha mãe era uma escritora, nós viajámos muito, porque ela escrevia matérias sobre viagens para revistas, sabe? Então viajávamos pelo mundo inteiro e íamos a museus de arte e coisas assim. Então, sim, minha criação foi muito artística e meus pais sempre me apoiaram muito no que eu queria fazer.
Ouvindo o disco eu tinha essas imagens mentais, às vezes pensava um pouco no MF Doom. Ele inspirou o disco de alguma forma? Você chegou a colaborar com ele enquanto estava vivo? Conhecê-lo de alguma forma?
Curioso isso, porque a semente do disco, o que deu o pontapé é literalmente o MF Doom, porque eu estava ouvindo bastante os “Special Herbs”, aquelas coleções instrumentais, e eu sempre fiquei fascinado por como os discos soavam, pela forma que ele decidia colocar os samples, e também de onde ele tirava os samples, que inclusive vinham de muitos discos brasileiros e discos de jazz fusion.
Isso me impactou bastante, então os beats do MF Doom foram meio que a semente que iniciou todo o disco. Quando o ouvia eu pensava “quero achar um jeito de, pelo menos no som, trazer um pouco disso, porque é muito legal tudo que está aqui”.
Mas nunca cheguei a conhecê-lo, tenho amigos próximos que trabalharam com ele e o conheciam, mas ele era bem elusivo. Também, quando ele estava trabalhando mesmo, eu era bem jovem. Assim, não tão jovem, tinha meus 20 e poucos anos, mas não tinha acesso nenhum a ele. Eu queria muito ter conhecido ele.
Como é para você trabalhar com tantos artistas? Porque você também está no The Arcs, você faz música que é tão diferente entre vários projetos, de um artista para o outro. Como você se adapta de um artista para o outro quando está produzindo e compondo?
Eu acho que essa é a beleza de fazer música, de um jeito esse meio que se conecta ao novo álbum, porque um dos motivos de eu nomeá-lo como “24 Hr Sports” é porque existem semelhanças entre música e esportes. Fazer música e estar em uma equipe esportiva são coisas que dividem muito do mesmo DNA, porque é meio que esse esporte em equipe em que todo mundo está trabalhando em prol de um mesmo objetivo.
Quando faço discos com outras pessoas, a beleza da coisa é que você conhece essas pessoas, torce para se tornar amigo dela, e aí você se adapta. Se você tiver sorte, quando realmente funciona, é quando você e a outra pessoa têm meio que vêm de lugares diferentes e têm referências diferentes, mas quando vocês juntam essas coisas, se torna algo que eu não faria sozinho ou a outra pessoa não faria sozinha.
Acho que esse é o motivo de as pessoas quererem fazer discos comigo e também eu querer fazer discos com outras pessoas, as pessoas que escolho, porque você quer aprender com as pessoas e fazer algo que não faria sozinho. Assim, eu não quero que as pessoas simplesmente usem minha música,o divertido é colaborar e tentar criar algo novo.
Você não faz tantas turnês com o El Michels Affair, mas estava pensando, existe alguma chance de você trazer um show desse disco para o Brasil? Fazer um show por aqui?
Eu já toquei uma vez em São Paulo e foi uma experiência inacreditavelmente memorável, eu amei e o público era incrível. E eu não viajo muito com bandas, mas as únicas vezes que faço shows é em lugares que eu quero ir. Então se o Brasil ligar e o Japão ligar, eu vou! (risos).
Que demais! Muito obrigado, Leon, espero te ver por aqui em breve então.
Eu também! Muito, muito obrigado, essas foram perguntas ótimas!
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele! A foto que abre o texto é de Francis Dalacroix.