Entrevista: Ramon Coutinho fala sobre o curta-metragem “A Praga do Resíduo Verde”

entrevista de João Paulo Barreto

Exibido dentro da programação da Mostra Foco, “A Praga do Resíduo Verde”, novo trabalho do diretor Ramon Coutinho, é um dos destaques da 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Inventivo em sua proposta cômica, este novo curta do diretor de “Jamex e o Fim do Medo” (2024) volta a abordar situações nonsenses trazidas pelo seu projeto Gelo na Chapa.

Diretor de filmes marcantes como “Ritual Pam Pam Pam” (2014), “Viagem a Caiataia” (2018), “O terceiro que o fantasma deu” (2021) e “Gaivotas ou O Que Fazer com os Braços” (2015), realizados pelo Coletivo Urgente de Audiovisual – CUAL, Ramon tem em seu cinema um símbolo que representa bem o audiovisual feito na Bahia por uma nova geração de realizadores desde a década passada.

Neste papo com o Scream & Yell, Ramon aprofunda o processo de criação deste novo trabalho: “Me interessa esse flerte entre acontecimentos banais com o assombro e a estranheza”, avisa o realizador. Confira!

O aspecto cômico do filme, em sua situação nonsense envolvendo o achado de uma suposta substância tóxica em uma lata de lixo de condomínio, trouxe, ao menos para mim, uma reflexão sobre aspectos relacionados à paranoia diante do desconhecido, diante do que é estranho, beirando muito na ideia do medo do estrangeiro, algo tão em evidência em tempos xenófobos. Na escrita do roteiro, houve essa ideia sua, também? De trazer essa análise por parte de seu público? Ou é piração minha?
É uma boa pira. Acho importante produzir nos filmes gestos e símbolos que a espectadora possa criar interpretações própias. Esses cinemas que celebram algum mistério esquisito sempre me cativaram. Acho que há no filme muitas margens pra interpretações, mas tem algo de muito direto ali: o trabalho, nossas relações sociais, o lixo de cada dia. Me interessa esse flerte entre acontecimentos banais com o assombro e a estranheza. Esse desconhecido vira uma possibilidade de redescoberta para quem vê e pra quem faz. Eu quero saber o que o filme pode significar e não entregar um siginificado fechado. O filme em si talvez seja esse estrangeiro que fala em língua estranha, que tenciona fronteiras…

Outro ponto que reforçou em mim essa a análise é o fato de seus personagens falarem uma língua desconhecida para o público, mas perfeitamente compreensível entre eles. Essa ideia de refletir sobre uma barreira comunicacional foi intencional?
Parte do jogo do filme é justamente esse (des)encontro da linguagem. A dublagem é algo muito comum na experiência cinéfila e mais ainda a legenda. Queria que esses elementos integrados fossem parte da estética do filme. A ideia era inventar um espaço a partir de um outro idioma… O cinema vive a partir das novas linguagens e porque não inventar uma própria que só existe ali naquele filme? O desejo de radicalidade na “Praga do resíduo verde” partiu dessa experimentação sonora junto com o roteiro. A imagem só precisou florar em torno desses elementos… Importante lembrar que o filme faz parte da trilogia das “Pragas”, sendo o primeiro filme feito em 2011 chamado “A praga do desaprecimento imperfeito”, também produzido pelo CUAL.

Cena de “A Praga do Resíduo Verde”

Após “Jamex e o Fim do Medo”, você volta a abordar uma ideia de uma Salvador acometida por um cenário radioativo, mas dessa vez em uma abordagem mais local. Poderia falar um pouco sobre essa rima narrativa e temática? Foi proposital ou coincidência?
Fabulações especulativas fazem parte dos meus roteiros quase sempre. Sinto que só estou expandido formas de falar sobre certos temas. A cidade certamente é das coisas mais cinematográficas que existem, e nesse filme tentei recortar de Salvadolores (cidade inventada para Jamex e o Fim do Medo) um edifício classe média, um microcosmo dessa cidade maluca. O tema sobre radioatividade como simbologia apocaliptíca é uma rima sim. Em “Jamex e o Fim do Medo” esse elemento tencionou a cidade, cortada pelo passo e a invenção do artista. Aqui a contaminação está bem ao lado…

É sempre surpreendente ver Carlos Baumgarten atuando em seus vários curtas e percebê-lo como um talento natural nessa área. Como a amizade de tanto tempo ajuda nessa sintonia diretor/ator? Da mesma forma, o trabalho com Marcus Curvelo, Luisa Maciel e Álvaro Andrade, também atores  no seu filme, é facilitado por essa cumplicidade?
O cinema que a gente faz só é possível pelo encontro afetivo e criativo… Não me interessa muito fazer um cinema que organiza uma equipe a partir das mesmas funções. No filme todos atuaram e filmaram, todos produziram autoria. A regra era inventar um espaço de invenção e brincadeira. Quando convidei essas pessoas amigas sabia que algo potente podia nascer… A espontaneidade como recurso para o novo. Carlos Baumgarten é cinema nas ideias e na cara, o modo particular da atuação dele se expande em cada nova atuação. Ele sempre estará nos meus filmes e ele já atuou em vários outros que nós fazemos, mas é o primeiro que está como protagonista. Marcus Curvelo, Luisa Maciel, Luma Santana e Álvaro Andrade tornaram também esse filme possível por conta dessa sintonia ator/autor. Fiquei meses e meses escrevendo esse roteiro solitariamente, mas quando a gente foi fazer juntos a ideia rearranjou sua forma, dilatou, derreteu.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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