texto de Luciano Ferreira
Para o seu quarto álbum, o R.E.M. queria tentar algo diferente do que já haviam feito até ali nos iniciais “Murmur” (1983) e “Reckoning” (1984). Era uma pretensão que não se concretizou da forma esperada em “Fables of Reconstruction” ( 1985), mas que de várias formas deu início à primeira transição sonora do grupo, que viria a se concretizar em “Lifes Rich Pageant” (1986).
A logística errática de gravar em Londres, o clima chuvoso da cidade e as tensões com o produtor Joe Boyd, responsável por trabalhos de artistas Folk, contribuíram para o tom sombrio e sonoridade desfocada percebidos em “Fables of Reconstruction”, algo que o grupo pretendia evitar que acontecesse em seu próximo trabalho.
Por aquela época, o R.E.M. e sua música, impulsionada por riffs de guitarra e sonoridade crua e direta, fazia sucesso no meio alternativo norte-americano. Sediados no pequeno selo IRS Records, o quarteto formado por Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bil Berry era uma das bandas mais incensadas do chamado College Rock – termo usado para designar bandas de rock que tinham alta rotação e público nas rádios universitárias.

O produtor americano Don Gehman foi o escolhido para levar “Lifes Rich Pageant” e o R.E.M. a um outro patamar na cena musical oitentista. Com renome no meio de artistas de AOR (“adult oriented rock” / “rock direcionado para adultos”), Gehman havia produzido John Cougar Mellencamp, alcançado resultados exitosos. A escolha deixava clara a intenção do grupo: “Queríamos um som mais claro e poderoso… Isso significava alcançar vocais em primeiro plano e um som de bateria mais encorpado”, afirmou Mike Mills anos depois. Já Peter Buck ansiava por uma melhor qualidade sonora e pegada rock. Deve-se também a ele que, passados 40 anos de seu lançamento, o álbum não soe datado.
Gehman se juntou à banda pela primeira vez em março de 1986. No estúdio de John Keane, em Athens, fizeram uma extensa sessão gravação de demos, de onde saíram a maioria das faixas presentes na versão final no álbum.
Essas gravações seriam posteriormente compiladas com o nome de “Athens Demos” e lançadas na versão comemorativa de 25 anos do lançamento de “Lifes Rich Pageant”, em 2011. Dentre elas estão canções como “Rotary Ten”, lançada como b-side, e a versão inaugural de “Bad Day”, que seria lançada oficialmente em 2003 na compilação “In Time: The Best of R.E.M. 1988-2003”.

“Lifes Rich Pageant” foi gravado entre abril e maio de 1986 no Bellmont Mall (indiana) e lançado no dia 28 de julho de 1986. A ausência do apóstrofo no título foi algo que chamou a atenção (a forma correta seria “Life’s Rich Pageant”), mas Peter Buck justifica a escolha: “Nunca houve um bom álbum de rock com um apóstrofo no título”. A sequencia incorreta do nome das faixas na contracapa é outro ponto curioso do álbum, bem como a imagem da capa: uma foto da parte superior do rosto do baterista Bill Berry e abaixo uma imagem de dois búfalos em uma tonalidade opaca.
“O rico espetáculo da vida”, o título escolhido, é uma frase de um antigo ditado inglês e foi usada pelo personagem de Peter Sellers no filme “Um Tiro no Escuro” (“A Shot in the Dark”, 1964), respondendo à possibilidade de pegar pneumonia por estar com as roupas molhadas: “Sim, provavelmente vou. Mas faz parte do rico espetáculo da vida, sabe?”.
O álbum foi bem recebido por crítica e público que perceberam e aprovaram a evolução sonora do R.E.M., em especial dos vocais de Stipe, que assim como a bateria de Berry, ganhou atenção especial na mixagem, soando mais presente e destacada do que os outros elementos. Já na abertura com “Begin the Begin” é possível perceber as mudanças, inclusive na pujança dos riffs de guitarra de Buck.
A maior presença vocal de Michael, um ponto bastante citado como uma evolução e ganho de confiança, não é exatamente motivo de felicidade para o vocalista. Em várias ocasiões, Stipe comentou sobre a pressão de Gehman para ele cantar “de verdade”, o que foi algo traumático. “É um disco com um som ótimo, mas eu realmente odiava o Don Gehman na época”.
Se o R.E.M. queria algo diferente, “um disco de rock” como afirmou Mills, a produção de Gehman contribuiu para um álbum vigoroso, mas mantendo intactas as características que tornavam a música da banda atraente. A abertura com a poderosa e política “Begin the Begin” (“Vamos recomeçar, recomeçar o começo”), a pegada enérgica de “These Days” (também encontrada em “Hyaena”) e seus versos reconfortantes: “We are young despite the years / We are hope despite the times”. Na sequência, a belíssima “Fall on Me” (com os indispensáveis vocais de apoio de Mills) e o lamento ecológico de “Cuyahoga” (sobre a depredação do rio de mesmo nome), ambas trazendo alertas sobre problemas climáticos provocados pelo homem. Juntas, essas quatro canções permitem afirmar que “Lifes Rich Pageant” tem uma das sequências iniciais mais emblemáticas na discografia do grupo de Athens.
“Underneath the Bunker” mostra o quarteto se aventurando por outros territórios, adentrando a sonoridade latina, a faixa é uma espécie de salsa, com os vocais de Stipe sob um efeito que a tornam quase irreconhecível e distinguível. Já a melodiosa “The Flowers of Guatemala” traz de volta aquela sonoridade dos primeiros álbuns. Inicia com sons de xilofone soando como uma canção de ninar, para no final ganhar corpo, novas camadas sonoras com piano Hammond e distorções, numa guinada inesperada, mas muito bem vinda, possibilitando um paralelo de transição entre canção e álbum.
A mudança de abordagem é um dos pontos chave para a mudança sonora percebida em “Lifes Rich Pageant” e capitaneada por Don Gehman. “Acho que eles ficaram surpresos com o processo que eu utilizava. Eu não apenas gravava as coisas — eu gostava de dedicar tempo ao arranjo, adicionar overdubs e compilar os vocais”, afirmou o produtor ao comentar sobre o resultado conseguido no álbum.
Os dedilhados vibrantes de “I Believe”, marca registrada do grupo, são precedidos por riffs de banjo na introdução e sons de acordeão e violino no meio do arranjo. É uma faixa vibrante em que Stipe canta primordialmente sobre a crença em mudanças. Já “Just a Touch” é puro rock’n’roll repleto de vibração, com direito a muitos pianos ao melhor estilo Jerry Lee Lewis.
“Lifes Rich Pageant” fecha com a única música do disco totalmente cantada pelo baixista Mike Mills, “Superman”, uma versão para uma canção da obscura banda sessentista The Clique, lançada originalmente como um lado B do single de maior sucesso do grupo, “Sugar On Sunday”. Mas antes disso há a belíssima balada acústica folk/country “Swan Swan H”, um dos grandes momentos emocionais do disco, apesar de sua letra indecifrável.
Em 1986, o R.E.M. sabia o que queria quando fez a correção de rota que gerou “Fables”… . Para mudar, é preciso coragem, e eles tiveram (sempre tiveram!). Mudaram (e acertaram) o produtor, estúdio de gravação (bem maior que os anteriores), mudou o enfoque de sua música, e até as letras de Michael Stipe, apesar de ainda indecifráveis em muitos aspectos, também mudaram, e é possível perceber sua voz de forma nítida com nunca antes. Estar numa pequena gravadora e ter convicção de suas ideias foi o que permitiu que o grupo desse vida a “Lifes Rich Pageant”, um dos melhores álbuns na discografia do R.E.M. e um primeiro passo em direção a um futuro brilhante e uma discografia respeitosa.

– Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge : A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.