texto de João Paulo Barreto
“’O que você acha que vem a seguir no universo de Breaking Bad?’, os executivos me perguntaram. E eu respondi: ‘Talvez devêssemos fazer uma pausa nisso por um tempo. Talvez seja hora de seguir em frente…’ Eu queria ver se tinha outras histórias em mim que as pessoas gostariam. E era assustador. É assustador. Continua sendo assustador.”
O relato acima é de Vince Gilligan, roteirista, diretor, produtor e criador de uma das mais inventivas e inteligentes séries de TV que o mundo do entretenimento já viu, “Better Call Saul“, exibida entre 2015 e 2022, demonstrando um sopro de criatividade e inteligência dentro da dramaturgia televisiva. Fazendo-se valer de um desenvolvimento paulatino de personagens, criando uma ambientação na qual o silêncio em cena era valorizado como uma peça de dramaturgia (mas sabendo fazer barulho na hora certa) e, claro, contando com um elenco afiado, a série derivada de “Breaking Bad” criada por Gilligan e Peter Gould, em certos momentos, gerava em seu espectador a possibilidade concreta de superar o seu produto original.
Após tamanho sucesso com as duas produções (sem contar o ótimo filme derivado de 2019, “El Camino“), executivos de TV ativaram o modo “ganância e aposta fácil no sucesso em detrimento de um desgaste de ideias” e buscaram uma nova ordenha da premissa original. A negativa, dita de modo cavalheiro, veio não somente com a justificativa acima, mas com uma nova aposta alta na pergunta que Vince Gilligan fez a si mesmo sobre se possuía outras histórias que as pessoas viriam a gostar.

Três anos depois do final de “Better Call Saul” e repetindo a parceria com sua protagonista, a deslumbrante e talentosa Rhea Seehorn, o criador de “Breaking Bad” seguiu por um caminho totalmente oposto de narrativa: a ficção científica. E no melhor estilo clássico de “Além da Imaginação”. Na série “Pluribus”, ele imagina a chegada de alienígenas à Terra, mas não da forma que o cinema nos acostumou a ver. Nada de naves, explosões ou criaturas gosmentas. Nada na linha do clássico do horror “Invasores de Corpos” (1978). A invasão, aqui, é literalmente mental. Pacíficas, as entidades cerebrais dominam quase todos os seres humanos, com exceção de um punhado de pessoas localizadas em variadas partes do mundo.
Uma dessas pessoas é Carol Sturka, a escritora de pavio curto, desbocada e quase alcoólatra vivida por Seehorn. Diante da morte de sua esposa, que parece ter um derrame no momento da invasão mental alienígena, Carol passa a refutar todas as tentativas de aproximação daqueles supostos humanos que ainda possuem todos os traços individuais e físicos terráqueos, mas compartilham de um mesmo “cérebro”. No caso, de uma mesma consciência geral que abrange os bilhões de seres humanos. Recebendo toda forma de conforto e gentilezas por parte daqueles novos “seres humanos”, Carol responde sempre com agressividade, mas aos poucos vai cedendo a algumas daquelas benesses, mas sem nunca perder o foco da sua investigação sobre quais são as reais intenções daquela raça que dominou a Terra.

A palavra Pluribus tem sua origem no latim e significa “muitos” ou “vindo de muitos”. Também conhecido por constar em notas da moeda estadunidense na expressão “E Pluribus Unum” (Um entre muitos), o termo define bem a proposta de unicidade trazida pela narrativa da série. E visualmente, a direção de Gilligan, que divide tal função entre os nove capítulos com outros diretores que também comandaram episódios das suas duas séries anteriores, traduz de maneira imageticamente absurda a ideia de uma entidade mental que transforma toda a humanidade em um único ser racional.
O momento em que o alienígena decide abandonar a cidade de Albuquerque (sim, a mesma onde se passam as séries predecessoras de Gilligan) e todas as pessoas dominadas mentalmente evacuam a metrópole de uma só vez, cria justamente essa ideia de unicidade, com todos se movimentando como um cardume de peixes ou uma revoada de pássaros. Trata-se de uma das cenas de maior inventividade da série em sua proposta narrativa e visual envolvendo o domínio mental que o ser alienígena tem sobre todos os seres humanos.
Mas quando essa sensação de curiosidade é sanada perante às respostas para as muitas perguntas que a série traz, o espectador atento passa a perceber-se diante de um tipo de narrativa diferenciada. Ao abordar as variadas maneiras como os humanos remanescentes e não dominados lidam com a situação, sendo alguns percebendo as mordomias e outros (apenas dois, na verdade) recusando-serem beneficiados com qualquer tipo de vantagem que aquela situação possa lhes trazer, a série se torna um estudo contundente sobre o comportamento humano diante do caos. Claro que a partir dessa ideia, “Pluribus” faz valer todo o seu apelo cômico, criando as situações nonsenses em momentos que envolvem desde o uso do Força Aérea 1, avião presidencial dos Estados Unidos, até a possibilidade de alguém se hospedar na suíte onde morou Elvis Presley (e fazer dela um harém, diga-se de passagem).
Carregando nos ombros o peso de uma atuação calcada muito em silêncios, Rhea Seehorn traz para a sua Carol Sturka um desespero latente. E suas expressões entregam justamente essa sensação. Sem apelar para a narração em voz over para guiar seu espectador, Gilligan foca nas ações de sua protagonista, que as desenvolve em silêncio, uma vez que não tem com quem conversar. A confiança no intelecto de seu público para seguir um fio condutor narrativo bem específico é palpável.
Em sua declaração sobre querer seguir outro rumo criativo após seus dois ápices de escrita com “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, o roteirista e diretor falou sobre tal ação ser assustadora no sentido de tentar provar-se capaz de criar outra atração que atraia a atenção das pessoas. Sim, necessitar dessa aprovação pode ser algo assustador, de fato. Mas, ainda bem, Vince Gilligan já não precisa há muito tempo desse selo.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.