Crítica: “A Única Saída”, de Park Chan-wook, carrega traços de “Depois de Horas” e “Odds Against Tomorrow”

texto de Filipe Quintans

Em “A Única Saída” (“No Other Choice”, 2025), a nem-tão-violenta-assim anti-comédia do diretor sul-coreano Park Chan-wook (“Oldboy“, “Lady Vingança”, “Decisão de Partir”), o dilema é, ou parece ser, simples. É lícito, moralmente aceitável, até mesmo compreensível, um homem eliminar seus concorrentes a um emprego na automatizada e decadente indústria do papel apenas e tão somente para manter o padrão de vida – casa, carros, assinatura de serviço de streaming -, conquistado durante vinte e cinco anos de trabalho duro no popular ‘chão de fábrica’?

Sim, é.

Então é isso? Avançamos, se avanço for, como sociedade, para isso? Chan-wook, dá o cavalo por morto. O mundo é esse. O que é demais nunca é o bastante, para citar o bardo do DF.

Nos cercamos de luxo e conforto para viver uma vida imaginada, por vezes imaginária, sem fricções, de emoções fabricadas, reações ‘potentes’, onde tudo se intersecciona e nada se encontra. Não resistimos às tentações do maligno digital, afastados cada vez mais uns dos outros, usando como anteparo todas as telas às quais seja possível ter alcance. E coitado de quem ouse ser analógico, que é o novo ludita: tem seu charme, mas é atrasado, quando não proibitivo.

O protagonista inventa um processo seletivo para atrair suas vítimas/concorrentes. Atraí-los significa entrar em suas vidas e testemunhar seus dramas, como o alcoolismo (funcional e galopante na sociedade sul-coreana), o flerte com o suicídio, o subemprego, o adultério, e colocá-los contra os seus próprios, como o enteado delinquente que rouba celulares, a filha prodígio musical e não-verbal, e a mulher insatisfeita que talvez esteja buscando conforto nos braços do professor de tênis. Ele sente a dor e a angústia de seus pares, até mesmo se compadece deles, mas para por aí. Ninguém sente a sua dor, ninguém está atento ao seu drama. Não há dúvida quanto a escolher entre a piedade (talvez a empatia) e o egoísmo.

Esse egoísmo paira sobre o filme, – o espectro de um ‘novo’ capitalismo (same as the old one), com a automação de processos produtivos (e conseguinte eliminação completa do ‘dado humano’) e o inescapável bode coletivo que se instala enquanto somos empurrados para as margens por Groks, Perplexitys e quejandos. Sobrevivência é questão de luta corporal. Literalmente.

Além de pontos de contato com a adaptação anterior do livro de Donald Westlake, feita há vinte anos pelo diretor greco-francês Costa-Gavras, a quem o filme é dedicado, “A Única Saída” carrega em seu código genético traços de “Depois de Horas” (1985, Martin Scorsese) e “Odds Against Tomorrow” (1959, Robert Wise).

No primeiro, o mundo, com tudo de maluco e degenerado que tem, mastiga o protagonista e, prestes a degluti-lo, engasga com um osso, que é o próprio protagonista tentando voltar, em ritmo alucinado, ao banal, embora confortável, da existência, arrependido de ceder aos próprios desejos. No segundo, o cantor de cabaré viciado em jogo e endividado (Harry Belafonte) e o ex-presidiário racista, cansado de ser sustentado pela amante (Robert Ryan), apostam num assalto fadado ao fracasso, planejado por um ex-policial corrupto (Ed Begley) buscando compensação por ter sido chutado da força.

A tese em “A Única Saída”, se há uma, e sempre haverá alguém para enxergar uma, é que lograr êxito financeiro e acumular bens materiais, sim, é caso de morte no mundo dito moderno. Boa sorte aos envolvidos.

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– Filipe Quintans é roteirista.

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