entrevista de Alexandre Lopes
Quase três décadas depois do hit “Save Tonight” transformar Eagle-Eye Cherry em um nome onipresente nas rádios do mundo todo, o cantor e compositor sueco retorna com mais um disco, o sétimo da carreira. “Become A Light”, lançado em setembro de 2025, é um trabalho de reconexão com a energia crua de uma banda ao vivo após anos de estrada e com as histórias pessoais que sempre atravessaram sua música – mesmo que nem sempre de forma tão explícita.
Filho do trompetista de jazz Don Cherry e da artista e designer Moki Cherry, e irmão mais novo de Neneh Cherry, Eagle-Eye cresceu em meio a turnês, países e cenas culturais distintas. Após morar em Nova York na adolescência, virou meio nômade, alternando entre temporadas nos EUA e na Suécia. E essa formação híbrida volta a ser central em “Become A Light”, um álbum de origem literalmente dividida: metade escrita e gravada em Los Angeles, com o compositor e produtor Jamie Hartman e Mark Stoermer, baixista do The Killers; a outra metade desenvolvida na Suécia, ao lado do colaborador de longa data Peter Kvint.
O resultado é um disco que privilegia canções pensadas para o palco e arranjos menos polidos do que os que dominaram parte de sua produção. Em faixas como “Just Because”, Cherry revisita temas recorrentes de sua obra (fuga, estrada, movimento) agora filtrados por uma maturidade menos impulsiva e mais consciente. Já a faixa-título, “Become A Light”, nasce de um momento íntimo e doloroso: o dia em que o músico se despediu da mãe, figura fundamental tanto na vida familiar quanto na construção estética do trabalho de seu pai.
Nesta entrevista ao Scream & Yell, Eagle-Eye Cherry fala sobre o desejo de preservar a energia dos shows dentro do estúdio, o impacto das turnês em sua forma de compor, a herança artística dos pais, a longevidade inesperada de “Save Tonight” e os desafios de existir na indústria musical em tempos de redes sociais. Também comenta sua relação com o Brasil, país que visitou em novembro para um show privado em São Paulo, e reflete sobre envelhecer na música sem perder o prazer de seguir na estrada. Confira a seguir.
O novo álbum, “Become a Light”, soa como um retorno a uma energia mais crua, de banda tocando ao vivo. Quando você percebeu que queria voltar a esse lugar depois de fazer discos mais polidos?
Acho que foi algo meio natural, porque eu tenho feito muitas turnês nos últimos anos. Basicamente, a ideia era levar a banda para o estúdio o mais rápido possível depois de voltarmos da estrada, porque eu realmente queria manter aquela energia que a gente tem no palco. Acho que esse é o ponto principal: tentar manter tudo orgânico. Eu também estava escrevendo músicas que eu precisava para o setlist. Quando você está em turnê, pensa: “Cara, eu preciso de mais uma música assim, ou assado”, e eu tenho escrito pensando nisso. Tudo tem sido muito focado no ao vivo. E também, quando você liga o rádio hoje, tanta música é incrivelmente polida. Havia uma necessidade de contra-atacar isso.
Metade do álbum foi feita em Los Angeles e a outra metade na Suécia. Como esses dois ambientes ajudaram a moldar o clima geral do disco?
Eu acho que preciso fazer isso. Já fiz isso várias vezes, e é porque eu sou meio americano, meio sueco. Eu preciso ir para os Estados Unidos para conseguir aquela energia e inspiração. Nesse sentido, o álbum reflete muito quem eu sou, e fazer dessa forma é algo totalmente natural para mim. Uma diferença desta vez é que fiz algumas músicas com o Jamie Hartman, e ele trabalha mais a partir do piano, enquanto eu estou mais acostumado a compor com guitarras. Isso definitivamente acabou influenciando o som. “Chasing Down a Dream” é um bom exemplo de um som diferente: é uma música que acabou ficando mais guiada pelo piano por causa desse processo. Também escrevi com o Mark Stormer, [baixista] do The Killers, e ali dá para ouvir uma influência mais rock. Essa é uma das coisas legais de trabalhar com pessoas diferentes: coisas diferentes acontecem.
“Just Because” conta uma história sobre escapar de uma vida suburbana entediante. De onde veio essa imagem? É algo pessoal para você?
Eu definitivamente me identifico com isso. Quando não estávamos em Nova York, minha irmã e eu dividimos uma casa no meio da floresta, no sul da Suécia, e eu me identifico muito com essa vontade de sair de um lugar pequeno e ir para algo mais empolgante. Gosto desse conceito. Já escrevi várias músicas sobre fugir juntos. Às vezes é mais uma história de amor, mas amo essa ideia de cair na estrada. Amo filmes de estrada, livros sobre estar na estrada, e amo fazer turnê. Moro em Estocolmo, que é uma cidade relativamente pequena, e eu não conseguiria viver lá se não tivesse o trabalho que tenho, porque de vez em quando eu posso entrar no ônibus de turnê e pegar a estrada. Essa música é muito sobre isso: ir para a cidade grande e encontrar aventura junto da melhor pessoa do mundo.
Seu pai, Don Cherry, era um músico de jazz que viajava muito, e frequentemente você o acompanhava em turnê. Como foi essa experiência ao crescer?
É mais tarde na vida que você percebe o quão especial aquilo foi. Quando eu era criança, antes de começar a escola, viajávamos muito e esse era simplesmente o mundo em que eu nasci. Na época, parecia normal para mim. Éramos como ciganos, entrando no ônibus. Não era o tipo de ônibus luxuoso em que eu faço turnê hoje, era uma Kombi, e meu pai dirigia muito. Mas mais tarde na vida você realmente começa a entender o quão única e especial foi aquela criação. Quando eu converso com a minha irmã, Neneh, a gente percebe que lembra muito claramente de muita coisa da nossa infância. Havia tanta coisa acontecendo o tempo todo. Eu lembro dessas viagens incrivelmente bem. Para mim, essa é uma das razões pelas quais eu amo tanto fazer turnê hoje. É minha segunda casa. Quando saí em turnê com meu primeiro álbum, lembro de pensar: “Ah, sim, isso é familiar, essa é minha segunda casa, algo que eu conheço”.
Seu pai claramente te influenciou muito, mas e a sua mãe, Monika Cherry? A faixa-título do disco foi inspirada nela, certo?
Sim, a faixa-título é sobre o dia em que enterramos minha mãe. Ela é um espírito muito grande nas nossas vidas. Quando viajávamos e fazíamos turnês, meus pais trabalhavam juntos; ela fazia toda a cenografia, todas as roupas e muitas das capas dos discos do meu pai. Ao mesmo tempo, ela cozinhava toda a comida e cuidava de mim e da minha irmã. Ela era o alicerce! Meu pai estava mais nas nuvens, e sem ela ele nunca teria conseguido viver da forma como viveu, sabe. No ano passado, minha irmã lançou um livro sobre a vida dela [“A Thousand Threads: A Memoir“, ainda sem lançamento no Brasil] e se você ler, você realmente entende que mulher e espírito forte ela era.
Eu não sabia do livro, vou procurar então!
Ainda bem que você não o leu antes desta entrevista, porque teria muito mais perguntas sobre ele (risos).

Você começou como baterista. Como aconteceu a transição para a guitarra e para a composição?
Eu era baterista, meu pai queria que eu tocasse bateria, então toquei bastante quando era criança. No ensino médio, eu estava no departamento de teatro, atuando, mas comecei a andar com músicos e tocar em bandas em Nova York como baterista. Mas uma frustração que eu tinha era que eu tinha todas essas ideias criativas, mas ninguém escuta o baterista (risos). Eu ficava tipo: “Tenho uma ideia ótima para a música”, e eles diziam: “Não, não, não”. Eu sentia que não pertencia ali atrás, queria estar pelo menos mais envolvido no processo de composição. Então eu trabalhava como ator e tinha muito tempo ocioso entre um trabalho e outro, e comecei a comprar equipamentos e mexer neles no meu apartamento. Foi ali que a composição realmente começou e eu descobri o quão incrível e inspirador esse tipo de coisa é. Comecei a montar uma banda, mas era uma garota cantando, e eu tocava teclados e fazia backing vocals. Mais tarde, me mudei para Estocolmo e peguei emprestado um apartamento que tinha um violão que eu nunca tinha tocado, e tudo fez sentido. Eu encontrei onde minha voz soava certa. “Ahá, agora sim”. Essa foi a chave que abriu a porta.
“Save Tonight” foi uma das primeiras músicas que você escreveu e se tornou um grande sucesso. Olhando para trás, você sente que ela abriu mais portas ou também criou pressão?
“Save Tonight” definitivamente abriu todas as portas. Eu tinha assinado com um pequeno selo independente em Estocolmo e planejava construir minha carreira aos poucos. Claro que eu sonhava em viajar o mundo, mas não esperava que isso acontecesse tão rápido. Aí “Save Tonight” apareceu e disse: “Não, vamos com tudo agora”. Se ter um hit desses é um problema, é um bom problema de se ter (risos). Sou incrivelmente grato pelo que essa música fez e por todas as oportunidades que abriu. E acho que é uma ótima música. Especialmente hoje, com a forma como a indústria da música está, quando você vê como é difícil se destacar com tanta música por aí, fico ainda mais grato por ter conseguido escrever uma canção que ainda tem vida e longevidade. As pessoas ainda a descobrem.
A indústria da música mudou muito desde então. O que você teve que reaprender para continuar fazendo música de um jeito que fosse verdadeiro para você?
Redes sociais! (risos) Eu preciso melhorar meu jogo! É engraçado porque tenho muito respeito por artistas jovens novos, mas também me pergunto como isso vai funcionar a longo prazo. Sempre mantive minha vida privada bem separada, e esse equilíbrio funcionou bem para mim; sair em turnê, fazer o papel de rockstar e dar entrevistas, e depois voltar para casa e ter privacidade. Isso me mantém com os pés no chão e me dá energia para continuar. Hoje, é quase o oposto. Quanto mais os artistas compartilham suas vidas privadas, mais os fãs querem e adoram isso. Artistas novos estão constantemente alimentando esse monstro das redes sociais, sem parar. Sou muito grato por não ser um artista estreante hoje em dia, porque isso parece uma vida bem difícil.
Notei que você tem tocado mais músicas de “Living in the Present Future” ultimamente. É um álbum favorito seu para tocar ao vivo?
Pergunta interessante. Acho que também há várias músicas de “Desireless”, e tocamos várias de “Back on Track” na última turnê. Mas “Living in the Present Future” tem algumas músicas muito fortes. “Are You Still Having Fun?” é uma das minhas favoritas. Eu a gravei com o Rick Rubin, o que foi uma experiência incrível. Um daqueles momentos da vida em que você não acredita que aquilo está acontecendo. Ao longo dos anos, tentei misturar músicas de álbuns diferentes e evitar tocar exatamente o mesmo set em toda turnê. De vez em quando, a gente redescobre uma música legal para tocar que tinha esquecido. Mas escolher o setlist é, na verdade, uma das partes mais difíceis de fazer turnê; depois que você encontra a mistura certa, tudo começa a fluir. Mas “Living in the Present Future” é um álbum muito bom de tocar.
Você também tem tocado “Atlantic City”, do Bruce Springsteen. Por quê?
É engraçado. Começou com um show tributo ao Bruce Springsteen na Suécia, e havia muitos artistas tocando músicas dele. Não lembro por que escolhi “Atlantic City”, mas já tinha visto ele tocando essa música e eu adoro a versão ao vivo do Bruce. Toquei essa música nesse concerto, e foi tão bom cantá-la que acabei mantendo no repertório. Isso foi há bastante tempo, mas anos depois ela se tornou um momento muito forte no show. Eu não sou aquele fã hardcore do Springsteen, mas também comecei a ouvi-lo mais tarde na vida. Ver como ele está envelhecendo na música e ainda mandando ver é muito inspirador. Me faz sentir que ainda tenho alguns bons anos pela frente. Da geração dele, eu acho que ele é um dos que ainda está fazendo muita coisa boa.
Uma das coisas que o Bruce Springsteen faz quando está em turnê é escolher uma música de um artista local para tocar com a banda no show. Da última vez que ele veio aqui, ele tocou uma faixa do Raul Seixas, “Sociedade Alternativa”. Sei que você conhece e gosta de Jorge Ben e Gilberto Gil e conviveu com Naná Vasconcelos. Você pensaria em fazer algo assim aqui no Brasil?
Hmm… (sorrindo) Venha para o próximo show e vamos ver o que consigo escolher! (risos).
Você teve uma carreira inicial como ator e segundo o Internet Movie Database chegou a aparecer em “The Doors”(1991), do Oliver Stone. Isso é verdade?
Sim, eu tinha uma cena nos bastidores, mas o Oliver Stone filma muito mais do que usa, então acabou sendo cortada. Espero que não tenha sido porque eu era péssimo — nunca vou saber (risos). Na verdade, dá para me ver bem rapidamente como roadie no palco em uma cena, quando eles estão tocando na Filadélfia, acho, e eu sou um dos roadies no palco, usando um chapéu grande. Mas foi legal. Mesmo que eu tenha aparecido só em uma cena, fiquei lá a semana inteira com um monte de gente incrível. Também fiz “Nascido em Quatro de Julho” (de 1989, também dirigido por Oliver Stone) com o Tom Cruise e foi quase a mesma coisa. E ali eu tenho uma fala, mas você só vê a parte de trás da minha cabeça (risos). Mas ambas as experiências foram fantásticas. Mesmo não entrando no corte final, eu estava lá e ainda fui pago, então não posso reclamar! (risos)
Você tem planos de voltar ao Brasil em breve?
Nada confirmado ainda… Estamos trabalhando nisso, mas até agora nada confirmado!
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.