texto de Guss de Lucca
O Roxette surgiu da gana do músico sueco Per Gessle em triunfar no cenário internacional. No período em que a dupla lançou seu primeiro álbum, o obscuro “Pearls of Passion” (1986), ele já havia experimentado o sucesso (e o declínio) como vocalista do grupo pop Gyllene Tider e como artista solo – sempre limitado às nações escandinavas.
A vontade de ser reconhecido fora do seu país fez com que ele convencesse a amiga Marie Fredriksson, cuja carreira como cantora despontava na Suécia, a embarcar na aventura que conquistaria as paradas internacionais com sucessos como “It Must Have Been Love”, “The Look” e “Listen to Your Heart”.
Ciente de sua limitação como cantor, Per assumiu desde sempre o papel de mentor intelectual da dupla, cuidando de 90% das composições e arranjos, enquanto Marie tornou-se a voz que fez do Roxette uma potência do pop mundial. Juntos, os músicos lançaram dez álbuns de estúdio em 33 anos de carreira – interrompida pela morte precoce da artista, aos 61 anos, após lutar contra um câncer por 17 anos, desde um diagnóstico de tumor cerebral em 2002.
Subsequente ao falecimento de Marie, Per lançou o álbum triplo “Bag of Trix”, onde reuniu 47 músicas entre demos, mixagens alternativas, faixas bônus, gravações ao vivo e versões em espanhol. Uma despedida aos fãs, marcada pela canção “Let Your Heart Dance with Me” (acima), sobra do último trabalho da dupla, “Good Karma”, de 2016. Era o fim do Roxette – ao menos, foi o que todos pensaram.
Mas quem acompanha a carreira de Per Gessle sabe que ele é um realizador incansável. Entre as pausas da dupla, o músico nunca deixou de gravar álbuns solo e projetos paralelos. Alguns exemplos são “The Lonely Boys” (1995), trabalho inspirado no livro de mesmo nome do autor Mats Olsson, sobre uma banda dos anos 1960; “Son of a Plumber” (2005), disco duplo com pitadas de folk rock e pop psicodélico; “Small Apartments” (2013), trilha sonora do filme do cineasta sueco Jonas Åkerlund, diretor de diversos clipes do Roxette; e “Mind Control” (2019), trabalho do grupo de música eletrônica Mono Mind, em que Per assina como Dr. Robot – isso citando apenas parte de sua produção em inglês e deixando de lado os discos solo em sueco.

Apesar da versatilidade, nenhum dos projetos chegou perto do alcance do Roxette. Talvez por isso, Per tenha lançado em 2022 o disco “Pop-Up Dynamo!” sob a alcunha de PG Roxette. Sua principal música de trabalho, “The Loneliest Girl in the World”, remete às batidas e ao espírito das gravações de “Look Sharp”, álbum que colocou a dupla no mapa em 1988. Mas ainda assim, faltava um ingrediente. E é quase certo que Per sabia qual era.
Sempre salientando que Marie Fredriksson é insubstituível, Per anunciou em 2024 o retorno do Roxette aos palcos com a cantora sueca Lena Philipsson assumindo o vocal feminino das canções. Contemporânea da banda – o primeiro disco de Lena, “Kärleken är Evig”, foi lançado em 1986 -, ela foi uma escolha relativamente segura para um trabalho impossível. E obviamente, entre os fãs houve quem discordasse dessa nova formação.
Em sua defesa, Per disse que sentiu que havia um público que ainda queria ouvir os sucessos do Roxette tanto quanto ele gostaria de tocá-los no palco – e afirmou que a turnê é uma celebração e não uma tentativa de substituir Marie, permitindo que antigas e novas gerações curtam as canções atemporais de seu projeto mais famoso.
Quem pensa que a motivação do artista é econômica certamente está enganado. Per é um dos proprietários do Hotel Tylösand, na Suécia, onde exibe sua coleção de Ferraris na mostra permanente “Joyride Car Collection“. Ele tampouco precisa provar seu sucesso como músico e compositor. Em 2025, o hit “It Must Have Been Love” recebeu um prêmio no BMI London Awards por ultrapassar 7 milhões de execuções em rádios nos Estados Unidos – uma amostra de que seu trabalho continua vivo e relevante.
Se aos 67 anos Per quer subir no palco e tocar os sucessos do Roxette para os fãs, ele tem o direito de fazê-lo ao lado de outra cantora. Quem discordar, não precisa ir aos shows da turnê “Roxette: Live – Back Again” – que passa pelo Brasil nos dias 12 de abril (Vivo Rio, no Rio de Janeiro) e 14 de abril (Espaço Unimed, em São Paulo).
– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell.
Quando vi a foto de relance achei que fosse Sandy e Júnior.
Marie é insubstituível, mas a Lena está fazendo um ótimo trabalho. Mas é sempre isso, Rio ou SP. 1k pra ver um show.