Três Perguntas: Thiago Pethit fala sobre “Ato Noturno”, sua primeira trilha sonora original para cinema

entrevista de Renan Guerra

Uma geração inteira foi marcada pelo som jazzístico lânguido e misterioso que iniciava todas as sessões do “Supercine”, da Rede Globo. A vinheta instrumental de jazz composta por Roger Henri ficou marcada na mente das pessoas como sinônimo de nostalgia e de suspense – muitas pessoas até relatam alguma sensação de estranheza e incômodo com a tal vinheta. Há uma relação quase intrínseca entre suspense, desejo e som. Música é parte essencial de gêneros como o suspense, o terror ou o noir e por isso mesmo os diretores gaúchos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher sabiam que seu filme mais recente, “Ato Noturno”, precisaria ter uma trilha sonora especial e com um protagonismo maior.

“Até então a gente nunca tinha trabalhado com um filme com tanta trilha. Músicas sempre foram muito importantes nos nossos filmes anteriores, mas eram músicas normalmente diegéticas e era uma cena em que o filme quase parava pra gente ter esse momento musical, mas que eram também pontuais”, explica Matzembacher em entrevista ao Scream & Yell; “ou quando tinha trilha composta ela entrava quase com uma lógica de uma trilha concreta, ela nunca era tão presente assim. E nesse filme tem cenas que ela entra assim, lutando pelo protagonismo da cena”, completa Reolon. Para ajudar a criar essa ambiência de “Ato Noturno”, os diretores convidaram o músico paulistano Thiago Pethit, que acabou se unindo aos músicos Arthur Decloedt e Charles Tixier, criando assim o trio que deu vida aos sons deste thriller erótico com sotaque gaúcho.

“Ato Noturno” conta a historia de Matias (Gabriel Faryas), um jovem ator de teatro, e Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão que saiu candidato à prefeitura da capital gaúcha. Os dois se conhecem via um aplicativo de encontros e acabam envoltos em uma química sexual explosiva, que inclui um intenso desejo por sexo em lugares cada vez mais improváveis e arriscados. Dos espaços abertos no quintal de casa aos espaços públicos da cidade de Porto Alegre, o que se desenrola é uma narrativa tensa e cheia de tesão em que poder, desejo e culpa se misturam com a violência e a insegurança, criando uma trama emaranhada e complexa, cheia de dubiedade e nuances.

Todo esse jogo entre sexo e poder é construído a partir de uma mise-en-scène detalhada, com planos, cores e jogos de luz extremamente bem estabelecidos, que dão uma plasticidade única ao filme de Reolon e Matzembacher; e tudo isso ganha ainda mais vida quando dialoga com a trilha construída por Thiago Pethit. Cada composição é mais um rico elemento nesse quebra-cabeça que mescla cinema noir, thriller erótico anos 90 e a ebulição incontrolável do desejo queer, em um resultado que soa vibrante e pulsante na tela do cinema.

Thiago Pethit atua aqui pela primeira vez como compositor de uma trilha para cinema, em um processo de trabalho que ele revela como desafiador e extremamente rico criativamente. Para entender mais sobre esse trabalho e sobre os meandros da trilha de “Ato Noturno”, Pethit respondeu a três perguntas do Scream & Yell e você pode conferir as respostas na íntegra abaixo:

Você já havia trabalhado com os diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon no clipe de “Me Destrói”. Como surgiu essa parceria profissional entre vocês três? E como surgiu o convite para a trilha sonora de “Ato Noturno”?
Nos conhecemos em 2018 por conta do filme “Tinta Bruta”. A banda NoPorn fazia parte da trilha sonora com a música “Leite”, em que eu faço uma participação especial, e por isso ficamos em contato. Nessa época, eu estava prestes a lançar o meu disco “Mal dos Trópicos”, e quando assisti “Tinta Bruta” senti que aquele clima melancólico e febril do longa tinha muito a ver com minhas músicas novas.

A gente foi tomar um café juntos durante a Mostra de Cinema de SP, para nos conhecermos pessoalmente, e eu aproveitei para fazer o convite de criarmos um videoclipe juntos. O clipe saiu do papel alguns meses depois, mas o que ficou de mais importante desse primeiro encontro, foi a certeza imediata de que ali estavam dois grandes novos amigos e almas criativas de uma mesma natureza que a minha.

Eu acompanhei boa parte do processo de criação do “Ato Noturno”. Li o roteiro anterior às filmagens, acompanhei alguns dias de gravação em Porto Alegre, até participei de algumas cenas como figurante. Nesses intervalos, conversamos muito sobre a atmosfera noir do meu trabalho e do disco “Mal dos Trópicos” e isso era algo que eles já imaginavam para a trilha sonora original do longa. Até que no fim de 2023, com o filme em processo de edição, eles me fizeram esse convite.

Para esse processo da trilha sonora do “Ato Noturno” você contou com a parceria de Arthur Decloedt e Charles Tixier. Como foi essa troca para trabalhar em trio nesse projeto? E quais foram os desafios enfrentados por você para a construção de sua primeira trilha sonora?
Eu sempre fui cinéfilo. Aliás, bem antes da música, o cinema foi minha primeira paixão nas artes. Sinto que passei quase 20 anos de carreira escrevendo músicas inspirado por filmes. E de fato já tive muitas composições minhas usadas em longas e projetos audiovisuais. Mas eu nunca tinha feito música PARA cinema. Então, quando surgiu o convite, essa era uma insegurança: será que eu sozinho saberia como pensar isso? Além do fato de não ser um produtor/arranjador.

Chamei o Arthur e o Charles para fazerem parte do meu time e entrarem como colaboradores nessa troca. Além de serem excelentes produtores, foram parceiros criativos que já tinham mais experiência com audiovisual. Foi um trabalho muito interessante para desenvolver a seis mãos e que certamente se enriqueceu muito com a expertise deles. O fato de serem músicos com vertentes distintas, possibilitou também que a trilha explorasse ideias e referências sonoras que fossem de clássicos à contemporaneidade e pudessem se misturar nisso.

Meu processo de pesquisa e criação da trilha durou quase 6 meses bem intensos. Trocando com os diretores, pesquisando referências, pensando sobre as cenas e organizando os temas por narrativas e personagens, criando frases melódicas e composições, e conduzindo o trabalho de direção musical. Contar com a inteligência e sensibilidade dos diretores Marcio e Filipe foi absolutamente essencial. Eles sabiam desde o princípio o que estavam buscando. E cada conversa, cada chance de ouvi-los e de elaborar as cenas e soluções em conjunto, fez com que o papel da música no filme fosse tomando proporções cada vez mais especiais. Ela está muito presente ao longo da narrativa. Quase como um personagem. E cumpre, dentro dessa perspectiva de filme de gênero, um papel importantíssimo. É um trabalho de muita responsabilidade. E ao longo desse processo descobri uma paixão por isso. Descobri também que esse tipo de criação era muito mais natural pra mim do que eu imaginava.

Thiago Pethit em Berlim com a equipe do filme

O filme de Matzembacher e Reolon trabalha com o sexo de uma forma muito particular, bebendo das fontes mais diversas, indo dos thrillers eróticos ao universo do cruising urbano. Nesse sentido, quais foram as referências que vocês pesquisaram e mergulharam? E além disso, como foi o processo de também fugir dessas referências para se criar algo único?
Acredito que a trilha, assim como o próprio filme, tinha esse desafio de reimaginar os códigos do cinema de gênero sob uma perspectiva contemporânea e sobretudo queer.

Por um lado, trabalhar com essa perspectiva foi como estar num parque de diversões. Poder referenciar a obra de grandes compositores como Bernard Herrmann, Pino Donaggio e Miklós Rózsa foi uma grande oportunidade para ‘brincar de fazer cinema’. Afinal, são filmes e artistas que fizeram parte da minha formação e grandes responsáveis pelo meu amor ao cinema e às trilhas sonoras.

Mas nesse processo, foi o próprio filme e seus personagens que conduziram as nuances narrativas da trilha. Existe uma unidade conceitual, mas cada cena dizia se o caminho seria mais clássico ou mais experimental. Mais onírico ou paranóico, sexual ou romântico e melodramático.

Não acredito que exista uma música que por definição possa ser queer ou gay. Não pra além de quem a fez ou compôs. Mas também acredito que essa é uma trilha sonora sinuosa e que seu poder se manifesta pelas frases melódicas. Elas são o cerne. E essas frases, são frases mesmo, como personagens que dizem coisas. Não são trilhas ambientes ou “invisíveis”. São melodias que se repetem, se torcem e retorcem de forma viscosa ao longo do filme. E nessa viscosidade, criam ambivalências o tempo todo. Tesão e medo. Desejo e repressão. Liberdade e estranheza. Não são sentimentos puros. Não são binários. E acredito que isso diga muito sobre a natureza de uma trilha sonora queer.

Leia também: Os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon falam sobre “Ato Noturno”

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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