entrevista de Renan Guerra
Um ator em busca de um papel importante que pode ser o ponto de virada de sua carreira. Um jovem político construindo sua imagem visando ascender na capital gaúcha. Dois personagens que se conhecem através de um aplicativo de encontros. A química sexual acaba bagunçando – para o bem e para o mal – os planos de ambos, em um jogo em que tesão e poder se mesclam com violência, medo e tensão. Esse é o ponto de partida de “Ato Noturno” (2025), o mais novo filme dos diretores gaúchos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. Conforme adiantado em texto no Scream & Yell, “Ato Noturno” bagunça os valores morais em um thriller erótico pela noite de Porto Alegre, trazendo um olhar queer e moderno para os thrillers clássicos dos anos 90 – aqueles que eram sucessos nos fins de noite na televisão.
Conhecidos por seus trabalhos em “Beira-mar” (2015) e “Tinta Bruta” (2018) – filmes que já falavam de forma direta sobre sexo e relacionamentos gays -, Marcio Reolon e Filipe Matzembacher assumem em seu novo filme uma postura que expande seu universo estético: tudo em “Ato Noturno” é muito bem encenado, detalhado, com cores, luzes e jogos de câmera que ajudam a criar essa amálgama entre tesão e tensão. Protagonizado por Gabriel Faryas e Cirillo Luna, o filme tem uma outra personagem interessante: a própria cidade de Porto Alegre, que é filmada sob um olhar noturno, em que vielas, escadas e praças ganham novos tons – para quem conhece a cidade, é possível identificar pontos como o Parque da Redenção, o Theatro São Pedro e a Praça da Matriz.
Lançado em 2025 no Festival de Berlim, “Ato Noturno” estreia comercialmente depois de uma ampla carreira por festivais e mostras do mundo todo, incluindo uma passagem premiada pelo Festival do Rio, onde o filme saiu com os prêmios de Melhor Ator para Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Reolon e Matzembacher, Melhor Fotografia para Luciana Baseggio e o Prêmio Félix de Melhor Filme – premiação dedicada a produções LGBQTIAPN+. O filme chega agora aos cinemas brasileiros através da Sessão Vitrine Petrobras, projeto pioneiro de distribuição coletiva de filmes brasileiros em salas de cinema comerciais, realizado pela distribuidora Vitrine Filmes e que conta com ingressos a preços reduzidos.
Para entender mais sobre a produção de “Ato Noturno”, batemos um papo longo com Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, diretores que vivem entre a Alemanha e o Brasil. Em uma conversa on-line, falamos sobre o processo criativo do filme, suas referências e as trocas com o elenco do filme e com outros artistas, como os músicos Thiago Pethit e Liana Padilha. Leia a entrevista na íntegra abaixo:
Como foi esse processo de nascimento do filme? Porque a gente vê que há um intervalo de tempo entre “Tinta Bruta” e “Ato Noturno”, passamos por uma pandemia, todas essas coisas… qual foi o processo até o filme começar a ganhar vida?
Filipe: “Ato Noturno” surgiu acho que na sequência da pesquisa que a gente fez ali no “Tinta Bruta”, um estudo nosso sobre a ideia do olhar, sobre o quanto o olhar do outro pode interferir em determinados corpos e na ideia de performance também; “Tinta Bruta” já tem um personagem que performa de determinada forma na frente da câmera da webcam e ele é um outro personagem fora da câmera. E essa foi uma dinâmica que a gente se interessou bastante quando a gente estava realizando o filme. Aliado a isso teve um momento no processo de “Tinta Bruta” que a gente percebeu um caminho que a gente poderia seguir, que é o momento da sequência da escada…
Marcio: A gente foi percebendo uma vontade grande de trabalhar com cinema de gênero e começamos a desenvolver essa ideia. Pensamos em trazer isso pra dentro da performance, pensamos na ideia desse personagem ser um ator como protagonista, já que no “Tinta Bruta”, de certa forma, a gente tinha um ator também, era um performer erótico, mas claro, a gente usava de outra maneira a performance em cena, mas a gente quis dessa vez trazê-lo para os palcos, porque eu e o Felipe éramos atores antes de nos tornarmos diretores, e sigo atuando até hoje, então a gente quis trabalhar com a profissão da atuação de uma maneira mais concreta. Daí a gente pensou nessa ideia de um ator e um político, pensando o político como uma forma de ator, alguém que também tem que performar profissionalmente em frente às câmeras, tem que se comunicar com um público específico. De início a gente imaginou que esse filme poderia flertar com uma ideia de noir ou mesmo de um neo-noir, e a gente começou a fazer uma imersão nesse gênero, mas daí a gente sentiu que tinha algo faltando. E quando a gente direcionou o nosso olhar mais para o suspense erótico as coisas começaram a se encaixar e fazer mais sentido para nós. E, bom, eu e o Felipe, a gente cresceu assistindo esses suspenses eróticos na TV, “Supercine”, tudo isso e a gente quis fazer um filme que, de alguma forma, dialogasse com esse tipo de cinema, mas, claro, atualizando-o para a nossa realidade, trazendo esse gênero para uma lógica brasileira, queer, de 2025, algo que fizesse sentido para a gente.
Filipe: Houve um momento no set do “Tinta Bruta” em que nós estávamos gravando a sequência perto do clímax do filme, quando ele acaba batendo com a cabeça de um outro personagem contra uma grade, uma cena bem importante, e foi muito divertido de gravar aquelas cenas. E me lembro da sensação da gente se olhando assim “nossa, foi tão legal essa diária; nos nossos próximos filmes, a gente tem que começar a brincar com essa tensão, com essa construção do ‘será que algo vai acontecer ou não’”. Então acho que a gente já começou a plantar ali essa ideia do que viria a ser o “Ato Noturno”. A ideia (mesmo) do “Ato Noturno” surgiu naqueles dois anos seguintes, um ano seguinte, né?
Marcio: Você mencionou esse hiato entre os dois, Renan, e realmente aconteceu por diferentes motivos. A gente teve o governo Bolsonaro, que acho que foi o principal dos motivos, na verdade, pois congelou praticamente os fundos de cultura por anos, e aliado a isso também a pandemia, então essas duas coisas, uma se somando à outra, culminaram nessa pausa. Mas a gente tentou usar isso da maneira mais positiva possível, não só para esse filme, pra gente poder trabalhar muito nele, mas já pra conseguir desenvolver futuros projetos, tanto que agora a gente já está começando a trabalhar neles, já alinhando eles, para justamente não repetir uma pausa tão prolongada.
Vocês falaram um pouco dessa perspectiva do cinema de gênero e dessas coisas que foram influências. Eu queria entender como foi esse trabalho de construir um filme em que se enxerga esses símbolos do cinema de gênero e muito dessa coisa meio filme de thriller erótico anos 90, mas ele ainda tem uma cara muito atual, muito moderna. Como foi esse processo? Imagino que seja um desafio também fugir dos caminhos fáceis que o gênero pode entregar.
Filipe: Acho que existe uma diferença entre beber um pouco do gênero, de algum tipo de cinema, ou só reproduzir ele, tentar reproduzir ele. A gente focou muito em tentar ser honesto ao máximo aos nossos desejos quando a gente estava realizando. Esse filme é o tipo de cinema que a gente ama, mas também a gente ama coisas específicas dentro do cinema de forma geral, então acho que a gente tem um olhar bastante humanizado para os personagens, que é uma coisa que, talvez, parte daquele cinema não faça também. Então em relação a roteiro, por exemplo, esse é um aspecto e eu acho que esse espaço do ator, do personagem em destaque dentro do filme é um elemento que a gente sempre pôs muito, muito, como essencial na nossa trajetória.
Marcio: É, acho que esse suspense erótico desse período, pelo menos os filmes que acabaram ganhando mais projeção, mais destaque, também tendem a colocar o desejo heterossexual como praticamente o único caminho possível. E aqui a gente coloca justamente a lógica, o padrão heterossexual, essas estruturas heterossexuais normativas como forças antagonistas. E uma coisa desse cinema que a gente foi percebendo durante a nossa pesquisa era como ele, muitas vezes, punia o desejo no final. Os personagens acabavam, a ruína deles acabava sendo justamente por causa do desejo. E a gente queria o contrário, a gente queria que o nosso filme fosse o triunfo do desejo. Que fosse uma celebração disso tudo. Que no final os personagens justamente pudessem se empoderar e se afirmar através dele.
Filipe: E negar todo o resto. Com um movimento drástico. Mas acho que foi um processo muito legal, foi um processo realmente de… meses antes da filmagem, quando a gente estava escrevendo, revisitar esse cinema desde Hitchcock até o noir dos anos 30 e 40, passando por [Brian] De Palma, Paul Verhoeven, passando por cinema brasileiro também, que também tem um pouco disso, mesmo “República de Assassinos” (1979), do Miguel Faria Jr., mas voltando para esses olhares nossos que acho que são caros pra gente. Esse carinho que a gente tem com os personagens e eu acho que é esse destaque para a ideia de atuação de personagem mesmo.

Vocês falaram um pouco dessa questão do desejo e da construção dos personagens. É interessante que em “Ato Noturno” esses personagens são dúbios e são complexos. Acho que às vezes as pessoas vão assistir ao filme esperando ter uma leitura como se fosse o ator bonzinho de esquerda e o político mal de direita. E esses personagens se bagunçam e os desejos deles estão acima dessas outras personagens que eles constroem para fora desse padrão dos dois. Como foi desenhar esses personagens para que eles se amarrassem de uma forma tão complexa que as pessoas saiam da sala de cinema ainda confusas tentando entender. Isso é uma das graças do filme…
Filipe: Acho que você coloca um ponto que era um caminho possível cair nessa binaridade mesmo, nessa simplificação, só que não é o tipo de cinema que nos interessa e acho que o contraditório e o complexo são sempre mais recompensadores para o espectador. Talvez parte dos espectadores até saiam um pouco frustrados porque muitas vezes o cinema contemporâneo siga reforçando cada vez mais isso. Inclusive, vou dizer que o cinema de décadas atrás era mais desafiador.
Marcio: Controverso, talvez, né?
Filipe: Controverso, essa é a perspectiva. Hoje o cinema tem sido cada vez mais limitador, apaziguador, no sentido…
Marcio: E em lógicas muito estruturadas, de bem versus mal, de correto e errado, de uma busca por ter heróis ali representados e que tudo bem, eu acho que são buscas válidas, mas que a gente não se interessa muito. Às vezes a gente acaba achando até um porre. Quando a gente sente que o nosso olhar é muito direcionado pra algo, é muito…
Filipe: Didático.
Marcio: Didático, exatamente!
Filipe: E eu acho que “Ato Noturno” é um filme tanto sobre desejo quanto sobre não tentar controlar o desejo. A gente ter uma visão, assim, limitadora seria contraditório no sentido negativo. Então o que a gente fez foi tentar realmente, ao estar construindo esses dois personagens, principalmente, mas eu diria que até se aplica para os personagens coadjuvantes também, para o Camilo e para o Fábio, tentar pensar também de onde esses personagens vêm, por que eles estão daquela forma, de que eles estão sendo colocados a performar aquele personagem específico para atingir esse sucesso. E eu acho que é daí que também veio um pouco da graça. Claro, é muito legal ver que os atores abraçam isso. Era muito legal, por exemplo, ver o Henrique Barreira defendendo o Fábio de um jeito muito apaixonado. E sendo que o Fábio é um personagem com bilhões de defeitos, faz um monte de coisas absurdas durante o filme, mas ele estava ali defendendo de um jeito muito apaixonado. Isso é muito legal. Pra gente, foi uma parte principal da escrita de roteiro, criar esses personagens que fossem complexos, contraditórios.
Marcio: Sim, eu, pessoalmente, acho sempre muito legal quando escuto discussões sobre o filme, de pessoas dizendo “ah, eu acho que tal personagem estava com razão naquela situação”, “eu acho que o outro completamente e tal”, e para mim isso é uma das coisas mais bacanas, de cada espectador poder fazer sua leitura e também traçar suas afinidades, que tem a ver com o filme, mas tem a ver também consigo mesmo. Para mim, parte da graça surge na conexão que cada um faz e a leitura que cada um faz sobre o filme e sobre cada personagem. Ao invés da gente estabelecer algo que a gente espera necessariamente, que as pessoas correspondam.

Sim, vocês falaram um pouco disso, acho que tem uma perspectiva de que, nos últimos anos, parece que o cinema precisa sempre ter uma mensagem muito clara e o pior é que, muitas vezes, essa mensagem é um tanto quanto moralizante. E “Ato Noturno” é completamente ao contrário disso, ele cria esse cenário que é completamente complexo e dúbio. Como foi o trabalho com os atores? Como vocês conseguirem chegar nesse ponto em que as atuações também fazem esse jogo com o espectador, porque eu acho que os personagens, em alguns momentos, eles nos seduzem, em outros eles nos repelem.
Filipe: Lembro de comentarmos quando estávamos chegando perto de um tratamento mais avançado do roteiro, que a gente estava fazendo dois grandes pecados com esse filme: o primeiro era os personagens mergulhando no desejo para o cinema contemporâneo, isso já é um elemento de choque; e o segundo é que eles mergulham no desejo rejeitando a ideia de sucesso. A ideia de conquista neoliberal e tal, que também, mesmo no cinema progressista, parece que é a resposta. E daí, a gente falou, são dois pecados que a gente vai abraçar e sabe que as pessoas vão se incomodar.
Marcio: E estão se incomodando e eu acho maravilhoso!
Filipe: Mas é muito engraçado. Quando a gente olhou um desses tratamentos mais avançados, a gente olhou e falou: “Tá, a gente está indo para essa batalha e será bem curioso ver como as pessoas vão receber”.
Marcio: Mas o processo com o elenco é um dos elementos centrais do nosso cinema, acho que desde sempre. Desde que a gente estava na faculdade de cinema, a gente sempre tinha o olhar muito atento a isso, pelo nosso passado na atuação. E o que a gente fez aqui foi usar os atores centrais, eles têm passados, trajetórias bastante distintas: o Gabi, que faz o Matias, ele estava se formando na faculdade de teatro na Federal do Rio Grande do Sul, mas ele praticamente não tinha experiência com câmera, então a gente fez, eu, ele e o Filipe, um período razoavelmente longo de ensaios, de encontros semanais, mais de quatro meses, mais ou menos, para fazer um treinamento, trazer ele também para dentro, já que ele é protagonista praticamente em todas as cenas. Ele conseguia absorver muito a linguagem que a gente estava pensando para esse filme, já que os outros atores ali centrais não são do Rio Grande do Sul, então eles chegariam mais tarde no processo. Para que eles, ao chegarem, conseguissem já ter ali uma referência para onde mirar, para onde se direcionar e aí, enfim, eles chegaram acho que uns 10 dias antes da gente começar a gravar e a gente fez um período bastante intenso de ensaios. E a gente busca sempre ter um processo de muita horizontalidade com os nossos atores, a gente sabe muito bem o que a gente quer, o que a gente está buscando para o filme, mas como chegar nisso. Acho que essa é uma parte de um processo colaborativo com o elenco, de muita conversa, muita discussão, cada um propondo coisas, a gente vai tentando juntos, desenhando o trajeto…
É interessante isso que você falou do processo com o Gabriel, porque pra uma das coisas mais interessantes do filme é como ele interage com a câmera. Lembro daquela cena específica em que ele entra no ônibus e a câmera está nele de uma forma que remete aquilo que eu falei antes, de que o personagem nos seduz pra dentro do filme. Então é interessante descobrir esse processo que está por trás também da produção porque no final isso é muito bonito de se ver. Enfim, falando de beleza plástica, eu queria falar um pouco sobre a fotografia e as cores do filme, que eu acho que são algo importante pra setar também um pouco esse clima que a gente está falando aqui, de tensão. Como foi esse trabalho ao lado da Luciana Baseggio? Como funcionou esse processo de troca para chegar nessa estrutura estética?
Filipe: Acho que tem um elemento misturando o roteiro e fotografia que foi bem importante. Num dos tratamentos antigos do roteiro, o filme começava já com uma morte, já começava assim, bem mais clássico nesse sentido desse gênero relacionado à suspense. E a gente decidiu abrir mão disso, não fazia muito sentido para a narrativa, era melhor uma questão gradual, mas a gente sabia que a gente tinha que contar o gênero através da imagem do filme – da imagem e do som, porque a trilha ajuda muito nesse sentido também. Então, a gente fez realmente uma conversa bem profunda com a Lu pra pensar sobre essa noite que seduz e também soa perigosa. Acho que esse é um dos grandes conceitos que a gente pensava sobre essa imagem. Da Lu e da Manu. Manu [Manuela Falcão] é diretora de arte também. E pensar também no filme como um todo, como um eterno palco de teatro. Então, mesmo na rua, as luzes dos postes pareceriam holofotes em cima de um palco de teatro, porque é um personagem que quer estar no centro, ele quer estar sendo olhado, ou quase sendo olhado, e o filme dialoga com essa ideia do voyeur, do desejo de estar ali no centro ou não. Então, isso foi um elemento muito importante na construção. Então a luz que a Lu trazia brincava com esse escuro, com esse mistério, mas com essa luz também um pouco mais dura que ia mostrar alguém chegando no centro, buscando esse destaque enquanto a Manu, com a direção de arte, trazia texturas, como a da cortina de teatro para o apartamento deles ou para vários outros momentos do filme, que talvez não fosse tão óbvio, mas a gente ficou brincando com esse aspecto o tempo todo
Marcio: A palavra ‘brincadeira’ resume muito a forma como a gente pensou esse filme. Na verdade, com certeza nesses dois núcleos; mas acho que em todo ele, desde o roteiro, a direção, a própria atuação que a gente falou agora há pouco, de tudo ser muito performático. Eu acho que nos nossos filmes anteriores, talvez a gente fosse um pouco mais apegado a uma ideia de realismo e agora com esse filme a gente quis se distanciar disso e a gente quis realmente fazer esse cinema que é mais performático, que brinca com referências, com tudo isso.
Filipe: Brinca um pouco mais com os elementos cinematográficos, nesse sentido. Esse era um tesão do set, sabe? Quando a gente, por exemplo, ia realizar um zoom, a gente se olhava assim: “Cara, que incrível isso”! Cada take que rolava o zoom, a gente se olhava e era uma felicidade muito grande pra toda equipe, era muito engraçado. Tu vê que isso afeta as pessoas de um jeito muito curioso.
Marcio: Sim! Nada ali era uma vontade nossa de emular uma realidade, mas sim construir o nosso universo, a nossa realidade, pra falar de temas reais. Isso pra gente era algo importante, que as pessoas se divertissem assistindo ao filme, mas saíssem da sala de cinema com aqueles temas, aqueles tópicos reverberando na cabeça para poder falar de coisas sérias através de uma perspectiva de leveza e acho que essa era a nossa meta.

Engraçado vocês falarem isso porque assisti ao filme na Mostra de São Paulo junto com outros amigos e quando o crédito subiu a primeira coisa que o meu amigo virou e falou foi “que coisa boa assistir cinema com cara de cinema, sem medo das cores, do zoom e da estética” e eu acho que essa estética é muito forte, e acho que ela também dialoga com um histórico do cinema queer, de criar coisas diferentes, de criar uma coisa que te seduz também por esse jogo de beleza. E vocês falaram também da trilha sonora, e ela é algo importante também para criar esse clima de tensão e de tesão também dentro do filme. Falem um pouco como foi esse processo junto com o Thiago Pethit, o Charles Tixier e o Arthur Decloedt.
Filipe: Foi muito legal, foi um dos momentos também, eu acho, mais recompensadores de todo esse processo, porque até então a gente nunca tinha trabalhado com um filme com tanta trilha. Músicas sempre foram muito importantes nos nossos filmes anteriores, mas eram músicas normalmente diegéticas e era uma cena em que o filme quase parava pra gente ter esse momento musical, mas que eram também pontuais.
Marcio: Ou quando tinha trilha composta ela entrava quase com uma lógica de uma trilha concreta ou, às vezes, não chegava a ser invisível, mas, enfim, ela nunca era tão presente assim. E nesse filme tem cenas que ela entra assim, lutando pelo protagonismo da cena.
Filipe: Acho que isso é muito legal e é uma coisa muito fantástica, o Thiago (Pethit), ele é muito cinéfilo, e ele compartilha uma cinefilia muito próxima da nossa, então…
Marcio: A gente é amigos há muitos anos.
Filipe: Nós dirigimos um videoclipe do último álbum dele e ali a troca para aquele videoclipe que a gente gravou em 2018, 2019.
Marcio: Início de 2019.
Filipe: É verdade, Carnaval de 2019. E as referências eram basicamente só filmes noir, filmes de suspense, tinha um monte de Hitchcock. Lembro de a gente discutindo um monte de referências nesse sentido. Então, quando a gente viu o corte, a gente discutiu sobre o filme, ele já começou a pensar um pouco nessa perspectiva de brincar com esse gênero, mas também trazer elementos que são de uma sonoridade brasileira. Então, eu acho que a gente conseguiu realmente ter um escopo de trilhas que são bem presentes e elas são bem variadas também. O filme tem seus temas fortes, que ficam um pouco na cabeça depois que você sai da sessão, mas tem momentos muito distintos. Tem o momento que ele vai para a pegação na praça pela primeira vez e parece que você está entrando num parque, numa floresta grega, tem umas flautas, uma harpa e daqui a pouco também tem um momento que eles estão indo para o parque à noite próximo ao final, com a narração final, que tem uma melancolia e quase que vai para o irônico, mas não vai. Foi um exercício muito interessante, acho que nos mudou um pouco como realizador, acho que a gente não quer mais voltar para aquele cinema que a gente fazia antes, especialmente nessa questão também da trilha, foi um elemento que a gente adorou brincar com isso
Vocês citaram o clipe do Thiago Pethit – “Me Destrói” – e ele tem participação da Liana Padilha. E nos créditos finais de “Ato Noturno”, vocês dedicam o filme à memória dela. Queria que vocês falassem um pouco sobre a importância que ela teve pra vocês, eu sempre falo que todo mundo que de algum modo foi tocado pela Liana Padilha tem alguma história boa pra contar sobre ela, então queria que vocês falassem um pouco a importância que ela teve no trabalho de vocês e na amizade de vocês.
Marcio: A Liana é uma pessoa importantíssima na nossa vida, assim, a gente se conheceu há muitos anos… Acho que tu tem uma história mais antiga ainda…
Filipe: Lembro que quando eu estava com o meu primeiro namorado, fui contar pra umas amigas “tô namorando um cara e tal”, super com medo, combinei assim “vamos nessa balada juntos, eu vou contar e meu namorado vai chegar logo depois”. Então foi aquele momento, super nervoso, super novinho e estava tendo um show do NoPorn. Eu conhecia um pouco, acho que eu conhecia só “Baile de Peruas” na época. E eu vi o show e fiquei hipnotizado. Eles terminaram logo depois, entraram num hiato do NoPorn, mas aquilo me marcou muito, então acho que faz parte realmente da minha identidade, de quem eu sou, de uma maneira muito forte. E quando a gente estava escrevendo “Beira-Mar”, a gente sabia que a música ali no meio do filme, quando os meninos dançam, seria “Xingu”. E daí a gente conversou com a Liana e com o Luca [Lauri] e eles falaram: “Podem usar”. E daí a gente teve uma relação muito engraçada, porque o “Beira-Mar” fez um público bem legal, as pessoas iam muito ao cinema e depois quando o filme ficou online, as pessoas viam muito. E daí as pessoas começaram a mandar muita mensagem pra eles querendo que eles voltassem a fazer shows. Mais tarde a Liana falou: “Eu voltei com o NoPorn por causa do ‘Beira-Mar’”! E a gente começou a falar que a gente voltou com o No Porn!
Marcio: E desde esse momento da feitura do “Beira-Mar” a gente começou a se aproximar muito e a ficar muito amigos. Lembro na primeira sessão do filme em São Paulo, eles fizeram um show na festa do filme e a gente começou a sempre se encontrar e criar realmente um laço muito, muito forte. Depois quando a gente fez o “Tinta Bruta”, a gente queria usar “Cavalo” e eles inclusive mudaram algumas coisas na batida da música, que eles não tinham lançado ainda, pra fazer mais sentido com a cena no filme. Enfim, eles mandavam pra gente sempre o álbum deles antes de estar finalizado, pra gente dar opinião. A gente realmente criou uma troca, uma parceria, uma amizade artística e afetiva muito grande. E a gente foi muito abalado pela partida super prematura dela e eu acho que nesse filme, nosso primeiro filme em muito tempo, que não teve participação deles, mas a Liana está presente na gente, em quem a gente é, e ela segue presente no nosso trabalho. A gente sempre falava um pro outro como a arte que a gente faz e a arte que ela fazia dialogavam muito e eram muito conectadas. Acho que tinha essa coisa da melancolia, mas da euforia, dessas pulsões de vida e morte, tudo isso, e a gente acho que se via muito um no outro.
Filipe: Tem o último álbum dela que começa falando “o oposto da morte é o sexo”, e eu acho isso fantástico – acho que é a segunda música do álbum [faixa “Contra Dança”, do disco homônimo, de 2022].
Marcio: É basicamente como o nosso filme acaba: “o oposto da morte é o sexo”.

Voltando a falar do “Ato Noturno”, vocês fizeram uma boa carreira com ele em festivais e o filme está chegando aos cinemas em janeiro. Qual é a sensação de poder ter circulado bastante com o filme? Como a gente falou aqui antes, é um filme ousado que tensiona várias coisas e que coloca o sexo de uma forma que não é culpabilizada na tela. Qual a expectativa de vocês para o filme chegar ao público? Como está essa ansiedade?
Marcio: Então, o filme estreou no Festival de Berlim, mundialmente, em fevereiro. E daí a gente percorreu muitos países apresentando ele. A gente chegou no Brasil em outubro, no Festival do Rio. Foi uma experiência super legal. O filme saiu com quatro prêmios do festival. A gente estava muito ansioso para como seria a recepção do público no Brasil. Porque, enfim, a gente faz cinema brasileiro e pra gente, esse diálogo com o público brasileiro no final é o que mais importa. E foi muito bonito, mesmo, a recepção das pessoas e depois na Mostra de São Paulo também, a gente teve trocas muito legais. E é interessante exibir esse filme em tantos países, a gente vê como ele é um filme que eu acho que afeta as pessoas e que não quer dizer que todo mundo consiga digerir bem, eu acho que tem pessoas que justamente se incomodam, com o desejo, com o sexo, com essas coisas na tela, ou às vezes mesmo com uma proposta de cinema que não se adéque tanto à expectativa de um cinema realista. E eu acho que tudo bem, acho legal isso, eu acho que quando o filme gera esse tipo de debate, esse tipo de reação, é uma qualidade. Mas a gente viu que no Brasil tem uma adesão muito grande às ideias que a gente está propondo ali, ao debate que a gente está fazendo. O público brasileiro conseguiu, em uma boa parte, absorver muito bem, compreender muito bem o humor do filme, o tempo do filme, as questões políticas do filme, essa lógica um pouco mais brincando de cinema, como você colocou, falando de cinema, eu acho que isso tudo está ali e está de uma maneira que eu acho que dialoga com o Brasil. A gente fez esse filme olhando pro nosso país, sobre o nosso país. Então, é muito legal quando a gente vê o retorno das pessoas do nosso país sendo positivas. Ou, se não forem positivas também, mas não sendo indiferentes, eu acho que isso é a chave para nós.
Filipe: Eu acho que isso é um ponto que foi muito legal com essa circulação tão intensa em festivais, o filme foi para públicos muito distintos. Lembro que há três meses, quatro meses atrás, ele foi selecionado para o Fantastic Fest, que é o maior festival de cinema fantástico e de gênero do continente americano inteiro. E daí eu pensei, “nossa, mas o filme, que curioso” – no Texas ainda, em Austin. E daí eu cheguei curioso, “como é que esse filme vai bater para essas pessoas lá? Porque não é um festival queer, é um festival em que as pessoas estão vendo, sei lá, o novo filme de terror da A24” E do nada vem o “Ato Noturno”. E a recepção foi muito legal. Parece que é um filme que, também por estar dialogando com diversos universos diferentes, parece que ele também oferece isso para públicos diferentes nesse sentido. Tem gente que se comunica melhor com essa questão política, com essa questão estética, com esse referencial cinematográfico.
Pra fechar, vocês falaram no início que já estão pensando e trabalhando em outros projetos, d eu queria saber se vocês podem adiantar alguma coisa, o que a gente pode esperar depois?
Marcio: Podemos! A gente está desenvolvendo dois projetos em paralelo. Um deles a gente espera filmar em breve, provavelmente no Rio Grande do Sul, um faroeste, mas também é uma lógica semelhante ao que a gente fez agora no “Ato Noturno”, a gente traz para a nossa realidade esse gênero e contemporaniza ele, enfim, para poder debater questões que são caras para nós. E o outro é um filme de horror, um filme de vampiros e que daí eu acho que talvez ele seria logo na sequência. Pode ser que o horror passe na frente antes, vamos ver! Mas por enquanto acho que o planejamento é esse, mas a gente quer muito poder filmar e ter os dois finalizados em um prazo de quatro anos, se tudo der certo.
Thiago Pethit fala sobre “Ato Noturno”, sua primeira trilha sonora original para cinema

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.