Conde Favela Sexteto traz experimentações, jazz e improvisos diretamente do território de fuligem

entrevista de Elsa Villon

Ainda fazia frio no ABC Paulista quando essa entrevista foi gravada, às vésperas do lançamento do EP “Audacioso” (2025), do Conde Favela Sexteto, dando sequência aos lançamentos em vinil. Definir o estilo do som do grupo é uma tarefa árdua, pois eles miram no jazz, mas passam até por referências de maracatu. A base, porém, se inspira em movimentos inovadores do gênero: free jazz, bebop, postbop e hardbop.

Formado em 2009 com o nome vindo de um estudo gráfico para um rótulo de vinho, e os integrantes, Alex Dias (baixo acústico), Edson Ikê (trompete e flugelhorn), Harleyburu (sax tenor e flauta), Luiz Eduardo “Ticha” Galvão (guitarra), Mabu Reis (trombone) e Rafael Cab (bateria), de diferentes partes do ABC Paulista, o Conde Favela vem ganhando espaço fora do circuito do Grande ABC e segue na tendência de lançamentos de discos em vinil, ampliando os sons para além de playlists de players pagos de música.

A materialidade da mídia física é uma marca desde o princípio da história discográfica do sexteto, com o lançamento em vinil de “Temas Para Tempos de Guerra” (2020), um disco inspirado pela mitologia egípcia, gravado, mixado e masterizado por Luís Lopes no Estúdio C4, em 2019. A edição limitada a 300 cópias está esgotada e quem quiser uma, vai ter que comprar usada por algumas centenas de reais. “ABCguetojazz”, segundo vinil da banda, foi lançado em 2024. A ode ao território de fuligem, vulgo ABC Paulista, conta com captação e mixagem de Magí Batalla, no Estúdio U e masterização de Fernando Sobreira.

O final de 2025 contou com um compacto especial: “Audacioso”, EP com duas faixas que marcam a parceria dos selos Made in Quebrada Discos, Pindorama Discos e Lado 2 Discos. A faixa “Nublado”, do segundo álbum, ganha sua versão em jazztrap, com novos arranjos, texturas e scratches no remix de DJ B8. Já a segunda faixa, “Esù/Zé Trocado, Zé”, é uma suíte gravada ao vivo em duas partes, mixada e masterizada no estúdio Giraffa Neon, de Alex Dias. O tema foi composto por Luiz Eduardo Galvão com desenvolvimento coletivo. As duas faixas permanecem inéditas em streaming, ao menos por enquanto.

Novamente limitada a 300 cópias, quem quiser garantir sua cópia com as duas faixas inéditas precisa correr. Abaixo, Edson Ikê fala sobre o disco.

O Conde Favela Sexteto surgiu em 2009, são 16 anos de estrada aí. O que mudou de lá para cá?
A ideia que deu origem ao Conde Favela surgiu bem antes, eu participei do coletivo Afro, em que sempre tivemos esse desejo de aprofundar mais as linguagens, principalmente na música instrumental e na linguagem do jazz. Começamos com uma banda e ela acabou se dissolvendo, mas decidimos continuar, acompanhando MCs e começamos a tocar temas, na verdade, standards que nós gostávamos. Passamos a tocar como um laboratório na primeira formação, também com samba jazz e J.T. Meireles.

Nosso som tinha a ver com esse resgate, essa música que tem endereço aqui no Brasil, principalmente nas vertentes que gostamos, uma relação muito forte com a música brasileira, principalmente essa bossa-nova turbinada, já um pós bossa-nova, várias produções de música brasileira que extrapolaram os gêneros: funk, soul. Começamos daí, mas depois decidimos parar de tocar temas e criar as nossas próprias composições. Até gostamos, mas o projeto nasceu desse laboratório.

E de onde veio o nome?
Eu cruzo linguagens e trabalho com artes visuais, além da música. Tinha feito um estudo para um rótulo de vinho e batizado de “Conde Favela”. O Raphão Alaafin, que é rapper, achou o nome legal e acabamos adotando-o, porque ficou interessante. Mas isso foi pensando também para relacionar como um personagem, um sambista antigo, um jazzista antigo, elegante, de uma elegância que não é mediada pelo dinheiro, mas de espírito. E é uma relação com a nossa história, venho de origem periférica em São Bernardo do Campo, no Areião, ABC, os outros músicos também vêm do ABC.

Algum marco específico ao longo dessa trajetória?
Uma coisa que foi chave é a gravação do nosso primeiro disco! Foi uma grande mudança, pensando na banda como estética, ainda mais nesse contexto de música instrumental, que é muito segmentada. Acaba sendo uma coisa nichada, tem a ver com um certo tipo de elitismo que tentamos ao máximo desconstruir com esse tipo de som, contextualizando-o em uma perspectiva nossa. Foi algo que acabamos fazendo na brincadeira e foi uma virada de chave, mas que foi importante para firmar algum tipo de identidade e entender a improvisação como algo central, importante, decisivo, com teor estético e político, pensando em uma música negra dentro do contexto comercial. Daí veio a gravação de “Temas para tempos de guerra”.

Tivemos sorte em encontrar o Edivaldo, fomos tocar em uma feira do vinil e o Edivaldo tinha uma loja, vendia vinis e nos chamou para fazer uma parceria com o selo Made in Quebrada. Foi uma coisa meio anacrônica, gravar um primeiro disco antes de lançar. Tivemos um zelo, foi gravado em estúdio profissional, com equipamentos vintage, como que ao vivo, como coisas do hard bop, free jazz, gêneros que gostamos. Foram lançadas 300 cópias e está esgotado, foi algo quase artesanal, lá em 2020.

Jogaram no modo hard, né?
É, e na pandemia o Festival Novos Motores, deu um edital e envolveu muita produção, um material bem legal das bandas, artistas aqui da região, e isso é bem significativo, pela forma como transitamos e fazer um diálogo global com a música instrumental. É um tipo de produção que não está tão conectada assim, então essas ações meio globais no contexto do jazz criam uma identidade local. Estamos surfando um pouco nessa onda agora, porque nós nos sedimentamos também nessa produção do grande ABC que vem despontando. Acredito que precisa chamar mais atenção, talvez ser mais valorizada. Porque se espera, acho que ainda mais no ABC que tem essa característica mais de cidade dormitório, mas produz coisas e que circula, muitas vezes não no local de onde somos nativos, mas tem um puta potencial para ser polo cultural. A região merece, tanto do ponto de vista de incentivos, como de um olhar dos poderes públicos e privados também.

A bio no site oficial diz o seguinte: “Para resgatar temas de jazz e samba jazz inspirados por movimentos inovadores do gênero: free jazz, bebop, postbop e hardbop”. Falando para o povo, quais influências e artistas vocês destacariam?
É um tipo de questão difícil, porque existe uma disputa de audiência. Penso que para fruir a arte, tem uma frase que acho mais simples e é muito legal, que é o seguinte: “Saber é sabor”. Às vezes as pessoas não têm acesso a esse tipo de coisa, acho difícil ouvirem o Conde Favela e se identificarem logo de cara se não têm acesso às referências. Não estou dizendo que a pessoa precisa ser iniciada, mas é preciso que ela tenha a sensibilidade de entender a diferença de uma flauta para um violino. Isso passa pela educação básica e por coisas que estão longe das nossas possibilidades. Isso vai depender do contexto da pessoa, do repertório dela. Mas se é um perfil mais popular assim, acho que vai ser difícil, até pela disputa mesmo que vemos, o gênero no Brasil é o sertanejo universitário e é só isso. Mas acho que, no geral, temos um povo bem musical, sem especializar a audiência.

Outro trecho mencionado é “do som áspero ao espiritual”. Quais você considera o som mais áspero e qual você considera o mais espiritual?
Essa é uma pergunta da hora. O áspero, por exemplo, no nosso primeiro disco, (já está no) próprio título, “Temas Para Tempos de Guerra”. Tem coisas que reunimos no nosso som que transcendem. Participei há algum tempo, não só eu, mas o Buruga, o próprio Ticha, de improvisação livre. Então essa aspereza, talvez, sejaé dos sons não domesticados, de um tipo de sonoridade que não segue sempre as mesmas progressões, as mesmas harmonias. Buscamos sermos livres e fazer aquilo que o presente e que a circunstância com as energias e com o momento nos proporcionam. É desde um som límpido mais bonito e angelical ou mais ou mais estridente, talvez considerado feio, mais livre. Acho que talvez essa coisa agressiva, esse som áspero, é nesse lugar da liberdade e de romper padrões.

Você não falou do som mais angelical, mencionaria algum? Cadê os sons mais espirituais?
Temos nossas referências, muito a ver com o spiritual jazz. Por exemplo, tem coisas de arranjos que levam para esse lugar. É sempre um trampo, um trabalho de contraste, da truculência com suavidade, da suavidade com aspereza e às vezes dá certo, às vezes não, porque estamos improvisando. É nesse sentido espiritual, de entender que continua, ainda mais com nós sempre nos cobrando tanto. Assim de: “Ai, caramba, errei”, mas cheguei à conclusão de que eu vou errar para caramba, porque se erro bastante, tenho mais margem de acertar também. Se eu não fizer nada, nem vou errar e nem vou acertar, então prefiro estar no erro.

Vocês já tocaram em inúmeros lugares. Algum ou alguns vocês destacariam nessa trajetória aí? Algum show que você falou: “Nossa, é esse”. Ou alguns, né? Pode ser mais de um.
Difícil falar assim, mas acho que tocar no (Centro Cultural) Dona Leonor, no Festival Jazz às Margens, (em Mauá), foi significativo. Estávamos falando dessa coisa de elitizar. Então sempre foi uma tentativa nossa de fazer circular pelo menos essa linguagem de forma mais popular. Agora, é da hora tocar no Sesc, com estrutura, aparelhagem, é bom. Mas às vezes tocar é meio hardcore assim também, contato direto é importante também com o público.

Quais foram as principais diferenças entre “Temas Para Tempos De Guerra” para “ABCGuetoJazz”. Fala um pouquinho sobre cada um.
Vou responder por mim, porque isso é muito pessoal. Cada um vai dizer alguma coisa. Como a minha experiência também é de produzir o disco, tem coisas que eu gostei e os caras não gostaram e isso é uma negociação coletiva. Então existe sempre essa diferença. Agora quanto a uma evolução, eu pessoalmente acho que rolaram vários aprendizados. Desde tocar desafinado no “ABC Gueto Jazz” e experimentando o trompete que eu tinha acabado de comprar e já botei para gravar. Essas maluquices que a gente faz. E, para mim, isso soou como um aprendizado, no próximo disco talvez eu não faça desse mesmo jeito. Por outro lado, aprendi sobre mixagem e edição. Então nós tivemos que editar o vinil por conta do limite de tempo, acho que são entre 18 e 21 minutos por lado, passou de 20 já começa a ficar ruim (a qualidade).

Na edição eu não iria cortar o solo do meu amigo, então cortei o meu, já que ia ter que sacrificar. Não que eu adorasse o meu solo, mas é o tipo de coisa que tive de fazer. Até hoje fico sentido com as coisas que tive que fazer, opções para as coisas acontecerem. Toda a arte tem isso, dores e delícias. Comparado ao primeiro disco, tivemos uma mudança: gravamos na mesma sala, mas estávamos separados. Então teve o trabalho do engenheiro de som, dos volumes, coisa que no primeiro disco, gravamos tudo em uma sala só, tudo junto, ao vivo. Ali não tinha como dar retoques, mas nesse também não fizemos retoques, só mesmo a edição. A introdução precisava caber no vinil, então existiu um trampo de edição que, para mim, foi um aprendizado.

O Alex fala do timbre de baixo que ficou muito bom. O Magí Batalla é um produtor espanhol que entende a linguagem do jazz, ele também é guitarrista. Isso faz muita diferença, pelo olhar que ele teve com a banda. Foi muito legal. O primeiro estúdio também, mas acho que o Magi teve mais ouvido de músico, porque o repertório também vem daí, das pessoas que trabalham para sair o disco, não só dos músicos em si, mas todo mundo que fica pensando… são vários detalhes, muita coisa.

Foi um aprendizado, mas não vou dizer que evoluiu: registramos um momento, esse disco é uma fotografia do momento. Às vezes essa fotografia pode ficar meio torta porque é uma fotografia. Acredito que, hoje, estou tocando melhor do que no disco. A passo que às vezes tem coisas que eu faço no disco e já não consigo fazer mais. Ali foi o calor daquele momento, eu também já não sou mais aquele cara que gravou lá. Eu já morri, já ressuscitei, já sou outra pessoa. Essa é a parte da beleza.

Falando de política agora, tá? Quais pautas vocês pensam em defender por meio da arte? Visto que ABC, Periferia.
Ando pensando muito nisso. No início, tinha uma história no movimento social, que buscava isso mais ativamente, minha militância na arte é assim. Acredito no legado que a gente vem construindo. A liberdade de fazer, do Mabu fazer o solo que ele quiser, do jeito que ele quiser, da forma que ele quiser. Existe esse respeito das individualidades, até porque o papel de um músico é isso, cada um tem a sua voz. O Cab na sua forma peculiar de tocar, o próprio Alex e sua história, existe uma diferença que compõem esse mosaico de seis pessoas, assim como suas referências individuais. O Buruga, por exemplo, não escuta jazz como eu escuto, embora ele escute e goste, mas o lance dele era maracatu, música popular.

Nós já somos totalmente urbanos. Eu não me sinto à vontade, por exemplo, de ficar tocando maracatu, não que eu não goste, é porque acho que eu estou tão quadrado e tão urbano que prefiro ser desterritorializado ou o território ser essa da fuligem mesmo que é o nosso, território da fuligem.

Politicamente é a arte em si, fazer uma música instrumental no contexto no qual vivemos, um deserto estético. Para mim,é uma forma de militância, de certa forma não tão direta como um partido político, mas é como uma reafirmação de um espírito livre, de fazer as coisas de que gosta. Acho que isso já é político, de resistir, de se encontrar, de fazer, ainda mais nesse contexto do gosto sendo forjado a todo momento, da coisa dos estilos musicais. Acho que isso tem tudo a ver com o capital, nem é o estilo em si. Não é problema nenhum o sertanejo, não existe problema nenhum nisso. O problema é a arte capturada pelo capital. Acho que esse é o problema. Aí perde o sentido, às vezes da própria relação que você tem com a própria arte que você faz.

Acho que a nossa existência por si só é uma reafirmação política, de fazer arte em contexto desfavorável. Já foi mais desfavorável, as coisas mudaram, depois dos lançamentos e de ter as coisas materializadas, acho que consolida também um certo tipo de maturidade. Mas ainda assim acho que precisa avançar muito, isso é mais processo do que final. Acredito que esse disco ou qualquer outra coisa que nós lancemos é só uma fotografia, porque senão fica muito penoso ficar pensando como um negócio meio acabado. Sei lá, a gente ainda tá vivo ainda.

Vocês lançaram um EPzinho (em dezembro). Conte-me mais sobre isso.
Esse compacto foi uma ideia do Edivaldo, do Made in Quebrada, porque tinha um tema que lançamos e um remix que chama “Nublado”, de um tema que fizemos no primeiro dia, está no “ABC Gueto Jazz”, uma música mais melancólica. Peguei a faixa, ela aberta e pedi pro B8 fazer o remix e ele topou, assim, por diversão. Mas não foi pensado para que fosse lançada em um compacto. Então o compacto acaba sendo assim especial, cria um verniz assim especial, mas são duas faixas. Tem a primeira, que é essa, e a segunda, uma faixa inédita.

Qual foi o estúdio?
Girafa neon. Adorei esse nome comuna.

Pense rápido: Conde Favela Sexteto em uma palavra.
Putz, que difícil. Uma palavra só? Para mim, então, liberdade. (Nota: O Ticha acrescenta: “Encardido”)

Momento freestyle, diga o que quiser.
Acho que foi contemplado assim e que isso é um desafio. Continuamos a produzir esse tipo de som porque acreditamos no que estamos fazendo.

E onde achar os vinis? Faz propaganda.
Na Lado 2 Discos (Rua Santo André, 331, Vila Assunção – Santo André) e na Pindorama (Rua Clélia, 353, São Paulo).]

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.

 

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