Faixa a faixa: o trio amazonense D’água Negra apresenta “Sinal Vermelho Vidro Preto”, seu disco de estreia

texto de introdução de Renan Guerra

O D’água Negra mostrou seu som ao mundo ainda no meio da pandemia: em meio ao distanciamento social veio ao mundo “Erógena”, o excelente EP de estreia da banda, que já apontava todo o calor e toda a sedução do trio formado por Bruno Belchior, Clariana Arruda e Melka Franco. Com referências que mesclam jazz, soul e pop, o D’água Negra chega agora ao seu primeiro disco, “Sinal Vermelho Vidro Preto” (2025), trabalho lançado pela dobra discos, com distribuição pela Altafonte Brasil.

A banda define o trabalho como “um rito de passagem entre o que fomos e o que seguimos sendo: corpos amazônicos inventando mundos possíveis dentro do som”. E isso fica latente na própria construção do disco, que começou a nascer em 2024, em trabalho conjunto com o produtor paulista Daniel Brita. As extremidades geográficas significaram ponte, marcada pela afinidade com o seu som jazzy, rock, mas também eletrônico. “Era exatamente a expansão que a gente buscava”, a banda lembra. Com Brita em Manaus e o mergulho na atmosfera própria da cidade, já íntima dos artistas, o solo tornou-se propício para o surgimento do disco. Dessas unicidades locais nasceu um disco universal.

“Sinal Vermelho Vidro Preto” se constroi em dualidades: desejo e a falta, a raiva e gozo, pulsões de vida e morte. “O sinal vermelho impõe um limite; o vidro preto, reflete e distorce a imagem, há uma tensão constante entre o ver e o ser visto, entre o desejo e o medo de se entregar”, explicam. Disso nasce um disco de poética bastante única, que nos convida a navegar pelas nuances e dúvidas de seus narradores. Os amores ganham metáforas líquidas, sejam as águas do Rio Negro ou as garrafas de vinho e outras bebidas alcoólicas; o desejo e o tesão confundem os sentimentos e os jogos de vozes do grupo apenas ajudam a criar narrativas mais complexas – coros vocais e sopros dão esse tom de fim de noite, madrugada quente, garrafas vazias e corpos entregues. Jazz, soul e eletronices como base das paixões.

Para mergulharmos ainda mais fundo nesse universo de “Sinal Vermelho Vidro Preto”, o trio amazonense preparou um faixa a faixa especial para o Scream & Yell em que conta detalhes poéticos e práticos de cada canção. Aproveitem:

Faixa a faixa, por D’água Negra!

01. “A Falta” – É a poética do corpo em trânsito. Essa música nasceu em Belo Horizonte, onde um ensaio com o produtor Dudu Amendoeira acabou virando uma jam embalada pela viola de Thiago Caldas, em algumas horas virou música, e dois anos depois se tornou o ponto inicial do álbum. A canção fala sobre o tempo que pesa dentro da ausência, e sobre o desejo que continua mesmo quando já não há ninguém.


02. “Escárnio’ – É o nosso ato mais passivo-agressivo do álbum. Existe sarcasmo, existe raiva transvestida, existe desabafo pra quem quer ouvir. E tudo bem ali exposto, mas só quando o amor já apodreceu. E há boatos de que a poesia veio cuspida de uma história amorosa frustrada de um dos integrantes. Ela é sensual, política e quase polida, uma implosão interna vestida de ritmo e elegância.


03. “Not in Luv” – É um convite ao diálogo, assim como Anelis Assumpção canta “eu tô aqui pra jogar conversa dentro” e sobre as epifanias que nascem dessas conversas íntimas a dois. “Not in Luv” atravessa o inglês e o português para falar sobre amizade e amor, mas principalmente sobre as cenas que nascem de quando deixamos alguém entrar e chega o momento dela ir embora. Um ato de autoafirmação com sabor de solidão e libertação.


04. “Sinal Vermelho Vidro Preto (interlúdio)” – Aqui o tempo se suspende. “Sinal Vermelho Vidro Preto” é o eixo que nomeia o álbum, uma travessia entre a culpa e o reflexo, entre a ancestralidade e o presente. Vinda de um poema
da Clarina e Belch, é sobre os limites figurativos que traçamos e as inúmeras repetições que ecoam como mantra na própria existência.


05. “Vinho Tinto” – É amor embriagado que já perdeu a doçura, mas que continua sendo vício. É sobre a mulher que se recusa a ser um objeto apequenado de alguém, percebe que sua poética não caberá no backstage, e leva para o palco a sua potência, decadência e ironia, sob o poder de transformar isso em uma cena digna de cabaret. Essa composição surgiu de poemas de uma vida “passada”, mas que brinca com a possibilidade de ser atual.


06. “Garganta” – Em “Garganta” a poesia vira campo de batalha. Essa surgiu em uma fase obscura da banda, onde brotaram incertezas, distância e conflito. É sobre palavras engolidas, silêncio acumulado, esgotamento e a tentativa de continuar cantando mesmo quando a voz falha. A sensualidade aqui é pura ferida e resistência, é um tempo de espera e um desejo de ser outro.


07. “Rua Sem Saída” – É o nosso delírio urbano. Um monólogo sobre o desejo de perder-se para existir, escolhendo a loucura como refúgio e dançando no limite do colapso quase consciente. Quando qualquer um pode encontrar a liberdade dentro da própria vertigem. E por que não?


08. “Corpo Quente” – É a combustão do álbum, quando a Melka tava adequando o corpo as CNTPs do destino e de uma nova cidade, e esse corpo finalmente se acendeu. “Corpo Quente” foi guiada pela ruidez chique de Daniel Brita, co-produtor do álbum, e assim como em “Rua Sem Saída”, vaporiza certeza e desejo após o caos. Um manifesto pelo prazer como sobrevivência, e do sonho como fim do túnel. Um grito pela cidade como nossa pista de dança e o próprio inferno particular.


09. “Underwater Love” – É uma música que nasceu das mãos da Nina Miranda e nos encontrou lá no início de tudo. Uma releitura afetiva e íntima, onde o amor se dissolve como d’água. Uma canção que está no repertório desde o primeiro show e aos poucos foi introjetada no nosso universo. Quando o diálogo com a Nina aconteceu, tudo pareceu um grande banho de sincronicidade, e a Amazônia do imaginário dela criou forma nas vozes. Nela, a gente mergulha na sensação de entrega total, no amor que afoga e salva. Uma canção de fluxo, de onda, de rendição.


10. “Cangote” – Quando o amor não precisa ser possessão, e o corpo transborda no afeto. “Cangote” encerra o álbum no suspiro de quem só quer aconchego pós-tormenta. Aqui a gente finaliza o percurso do álbum criando sonoramente um santuário de dengo. Uma canção de descanso, de reencontro com o leve. Quando saímos da travessia do não lugar e
encontramos o calor do pertencimento no colo do outro.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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