Gilberto Gil ao vivo em Fortaleza: Um tratado sobre o tempo

texto e fotos de Chris Machado

“…não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido, transcorrendo, transformando…”

É dia 16 de novembro do ano de 2025 em Fortaleza, mais precisamente o aniversário de quem vos escreve, estou na situação de fotógrafo, resenhista e fã. Essa tripla missão exige de mim uma maior atenção, e, conscientíssimo da minha sorte de estar presenciando esse evento histórico da música brasileira.

16 de novembro do ano de 2025 em Fortaleza. Uma noite antes, no CFO (Centro de Formação Olímpica), um público de 11 mil pessoas se fez presente para o show “Tempo Rei”, despedida de Gil das grandes turnês, tornando necessária uma data extra para que os fãs cearenses se sentissem contemplados.

Um vórtice gigantesco é projetado no centro do palco, uma imagética que hipnotiza, uma boa sensação de estar sendo levado para o passado e futuro ao mesmo tempo. A imagem parecia traduzir aquilo que sempre sentimos, mas raramente nomeamos: a fluidez do tempo que moldou Gilberto Gil e, de algum modo, moldou também cada um de nós. Ali, frente àquele espiral hipnótico, entendíamos que a vida é esse movimento contínuo que transforma, devolve, retira e reinventa.

  

O vórtice projetado ao fundo do palco não era mero elemento cênico. Era um lembrete visual de que seguimos girando com Gil, atravessando décadas, dores, alegrias e recomeços. Enquanto aquela espiral permanecia presente, tornava-se evidente que todos estávamos conectados pelo mesmo fluxo: o da música que nos conduz, do tempo que nos move e das memórias que insistem em permanecer.

Ser fotógrafo ali era tentar segurar o vento. Ser resenhista, admitir que o vento não se segura, apenas se testemunha. Entre um clique e outro, percebe-se que Gil não canta apenas sobre o tempo: ele o domestica, o acaricia, o provoca. Faz do tempo um companheiro de palco. E assim, quase duas horas de show ininterrupto já haviam passado, Gil em pé, pulsante, até que, em “Punk da Periferia”, ele surpreende e arranca sorrisos ao fazer o gesto mais clássico de quem ama o rock. O tempo, ali, também se permitia brincar.

E logo após essa canção, num momento durante um problema técnico na guitarra, Gil começou a cantarolar uma canção “Vai me ver noutra cidade, no norte da saudade, que vou ver meu bem, meu bem, meu bem”. Logo depois disse: “Que saudades dos Eusébio, fiz essa canção lá, no sítio da família Gadelha”. Ele sabe como nenhum outro, deixar o público como se estivéssemos sentando no sofá dele ouvindo suas histórias.

Quando Gil pisou no palco, o tempo, de fato, se curvou. “A Paz”, “Aquele Abraço”, “Drão”, “Refazenda”, “Vamos Fugir” … cada canção parecia dilatar a noite, arrancando do público não apenas coros afinados, mas histórias inteiras guardadas no peito de cada um. O repertório não passava; ele se assentava, como quem pede licença para ficar.

À medida que o show avançava, o público já não cantava para o palco, mas para si mesmo. Cada verso funcionava como um espelho íntimo, refletindo vidas que cresceram ao som daquela voz, agora ainda mais serena, ainda mais sábia. Em “Andar com Fé”, o coro coletivo se transformou quase em oração; em “Expresso 2222”, o chão vibrava como se lembrasse que alegria também é forma de resistência.

O encerramento chegou como chegam os finais inevitáveis, mas sem amargura. Gil acenou, sorriu, e deixou que o silêncio dissesse aquilo que as palavras já não alcançavam. Ali, todos haviam vivido algo maior que uma apresentação musical: tinham atravessado uma passagem. Uma pausa no mundo para reconhecer que a vida, como ele canta, transcorre e se transforma.

No fim, ficou a certeza de que a voz de Gil não pertence a um tempo específico. Ela atravessa gerações, acompanha cicatrizes, acalenta memórias. Naquela noite em Fortaleza, tornou-se exatamente isso: memória viva. Uma memória que, como toda grande canção, insiste em permanecer mesmo depois que as luzes se apagam.

E quando o palco finalmente escureceu, o que restou não foi o eco de um show, mas a prova de que algumas vozes não se perdem no tempo — elas o atravessam. Gil saiu de cena, mas deixou em nós algo duradouro: a certeza de que, enquanto houver tempo, haverá encanto. E enquanto houver encanto, Gil continuará nos ensinando a atravessá-lo com música, afeto e eternidade.

Mais sobre a turnê “Tempo Rei” no Scream & Yell

Chris Machado é fotógrafo e, diante da ausência de Daniel Tavares, jornalista colaborador do Scream & Yell, adoentado no dia do show, assumiu também a função de resenhista.

2 thoughts on “Gilberto Gil ao vivo em Fortaleza: Um tratado sobre o tempo

  1. Fotos e texto lindos!
    Eu pude me sentir imersa no momento só de ler essas palavras, sou fã de Gil e de você Chris Machado.

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