texto de Alexandre Biciati
Se 1994 foi o ano em que o rock brasileiro redescobriu suas raízes regionais com o estouro de Chico Science e a consolidação do Skank, 1995 foi o momento em que a cena provou que havia espaço para o laboratório, para o humor agridoce e, acima de tudo, para a “estranheza pop”. Foi nesse cenário efervescente, sob a onipresença da MTV Brasil ditando as regras estéticas e o consumo jovem, que o Pato Fu lançou seu segundo álbum e a verdadeira pedra fundamental de sua carreira: “Gol de Quem?”.
Lançado pelo selo Plug (da BMG), o disco aconteceu num momento crucial. A indústria fonográfica brasileira, finalmente recuperada da ressaca do início dos anos 90, apostava alto em novas bandas. Enquanto Raimundos trazia o peso e a malícia, e o Skank já dominava as rádios com “Calango” (1994), o Pato Fu, vindo do cenário independente, oferecia algo que desafiava classificações fáceis. Não era regionalismo, não era punk, não era reggae. Era uma fusão de Mutantes, new wave e trilhas sonoras de desenho animado (!).

O disco chegou às prateleiras impactando visualmente antes mesmo de ser ouvido. A capa de “Gol de Quem?” é uma peça curiosa que reflete a dualidade da banda. Uma imagem em preto e branco traz dois querubins pensativos, debruçados, olhando para o alto como se questionassem algo. A pitada de melancolia e o grafismo divertido do logo da banda já adiantava o conteúdo: uma fusão de referências antigas com uma roupagem nova e ligeiramente deslocada, como se a banda estivesse, assim como os anjos, observando o mundo (e a música pop) de uma perspectiva diferente.
A sonoridade de “Gol de Quem?” é um salto em relação à estreia independente com “Rotomusic de Liquidificapum” (1993). A produção, mais limpa e assertiva, conseguiu domar a criatividade caótica do Pato Fu sem castrá-la. A banda, na época da gravação, ainda operava como um trio essencialmente eletrônico em sua base rítmica: Fernanda Takai (voz e guitarra), John Ulhoa (guitarra, voz e programação) e Ricardo Koctus (baixo e voz). É importante notar que, embora a bateria eletrônica e os sequenciadores fossem a espinha dorsal do som em estúdio, foi exatamente na turnê deste disco que a banda ganhou o reforço de Xande Tamietti nas baquetas. Sua entrada foi decisiva para traduzir a complexidade dos arranjos de estúdio para a energia visceral necessária nos palcos de festivais como o Hollywood Rock.

“Gol de Quem?” é, acima de tudo, um disco de guitar-pop inteligente. Ele provou que era possível fazer música radiofônica sem subestimar a inteligência do ouvinte, utilizando ironia fina e referências à cultura pop que iam de Jornada nas Estrelas a clássicos da disco music. Em 2012, a banda revisitou o disco tocando-o na íntegra em um show no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Em 2025, nos 30 anos de aniversário do álbum, os Fus anunciaram uma turnê comemorativa do “Gol de Quem?” com shows em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo (capital e interior). Neste janeiro de 2026, o Pato Fu retorna à São Paulo com “Gol de Quem?” em show (esgotado) no Cine Joia, sexta, 9. E a capital mineira irá celebrar o álbum no próximo 31 de janeiro.
Abaixo, um mergulho, faixa a faixa, em “Gol de Quem?” Aumente o volume e confira a análise de cada faixa do álbum.
01. And Now – O disco começa com um manifesto de humor. “And Now” é uma vinheta rápida, uma colagem sonora ao estilo do seriado Monty Python’s Flying Circus (“And now for something completely different”). Ao iniciar o álbum assim, o Pato Fu avisa ao ouvinte: esqueça a lógica convencional, você está entrando em um universo onde o nonsense é a regra.
02. Mamãe Ama é o Meu Revólver – A primeira música propriamente dita é um petardo melódico. Composta pelo lendário Rubinho Troll — figura central do underground mineiro e líder do Sexo Explícito —, a canção traz um título que é uma “pegadinha” semântica deliciosa com o disco dos Beatles de 1966. A letra carrega o surrealismo dadaísta típico das composições de Troll, enquanto o instrumental entrega um pop rock no capricho com refrão pra lá de funcional.
03. Vida Imbecil – Aqui o Pato Fu reforça predicados antropofágicos e recorre ao regionalismo em um rock carregado de sotaque e temperado com música italiana (“Io che amo solo te” / “Amore, scusami”). Cantada pela dupla caipira Fernanda e John, “Vida Imbecil” é uma crítica à perspectiva de uma vida regrada. O som diverte, mas a letra destila um veneno ácido. A viola somada à programação da bateria (ainda tocada por 128 japoneses) conectam dois universos dando um tom caipira-cosmopolita que reforça a ironia do texto.
04. Gol de Quem? – Um verdadeiro cartão de visitas da guitarra distorcida de John Ulhoa. A faixa-título acelera o ritmo e abre com um manifesto bem-humorado à simplicidade: “o mundo é um grande pão com manteiga, café e com leite”. Indispensável em show do Pato Fu, “Gol de Quem?” referencia uma super influência: a banda norte-americana Devo. Temos aqui ainda a letra mais desafiadora de cantar junto. Boa sorte aos aventureiros!
05. Sertões – Talvez a faixa mais poética do disco em termos temáticos. A música de Ricardo Koctus evoca a aridez e a tragédia sertaneja. O arranjo é arrastado, quase marcial, com transições que lembram o Raulzito do velho testamento (“Let me sing, Let me sing”). Mostra que o Pato Fu não era apenas uma “banda engraçadinha”, mas um grupo capaz de digerir temas espinhentos e transformá-los em música pop.
06. Onofle – Voltamos à galeria de personagens estranhos da banda. “Onofle” é uma narrativa sobre um sujeito peculiar, construída sobre uma base rítmica quebrada e cheia de recortes. A música destaca o trabalho de baixo de Ricardo Koctus, que conduz a melodia torta enquanto Fernanda e John narram a história angustiante. É o exemplo perfeito do storytelling do Pato Fu: contar histórias absurdas com melodias que desafiam o padrão radiofônico.
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07. Sobre o Tempo – O grande clássico. Indiscutivelmente a música que furou a bolha e colocou o Pato Fu no mapa nacional. “Sobre o Tempo” sintetiza a fórmula perfeita da banda: melodia assobiável, letra existencialista (mas acessível) e a voz doce de Fernanda Takai harmonizando com uma guitarra rítmica pulsante. O clipe, exaustivamente rodado na MTV, consolidou a imagem do grupo. A reflexão sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade das mudanças tocou uma geração inteira e permanece atual.
08. A Volta do Boêmio – Em 1995, regravar a canção de Adelino Moreira (consagrada na voz de Nelson Gonçalves) em um disco de rock era um ato de ousadia e ironia. O Pato Fu pegou o maior clássico da “dor de cotovelo” e o revestiu com uma roupagem eletrônica, lo-fi e minimalista. A interpretação de John, despida do dramatismo operístico do original, deu à canção uma melancolia moderna e cool. Foi a prova definitiva de que a banda não tinha preconceitos musicais e sabia transitar entre o experimentalismo e o rádio AM com maestria.
09. Qualquer Bobagem – Se havia dúvida sobre a influência dos Mutantes no DNA do Pato Fu, esta faixa sanou a questão. “Qualquer Bobagem” é uma ode ao nonsense tropicalista. O Pato Fu transformou uma das músicas mais derretidas da banda de Rita e Arnaldo em um pop saltitante que ressignificou a obra. Esta é outra faixa que ganhou um videoclipe divertido e despretensioso. Traz um trompete no refrão que é mais uma camada de sofisticação ao arranjo. Recentemente, o Pato Fu interpretou a música no palco ao lado do próprio Tom Zé, parceiro dos Mutantes na canção. Épico!
10. Ring My Bell – A desconstrução de um clássico da disco music. A banda pega o hit de Anita Ward e o transforma em um rock alternativo recheado por uma guitarra swingada. O vocal dobrado de Fernanda é um deleite à parte. É a prova da capacidade do Pato Fu de recontextualizar o pop massivo. A versão ficou tão boa e tão “Pato Fu” que muita gente daquela geração conheceu a música através da banda mineira antes de ouvir a original das pistas de dança dos anos 70.
11. Ok! All Right! – Uma explosão de energia caótica. “Ok! All Right!” é uma faixa curta, acelerada, quase um hardcore tocado por personagens de desenho animado. A letra é fragmentada, misturando idiomas e frases de efeito, funcionando como uma descarga de adrenalina antes do encerramento do álbum. É a banda exercitando seu lado Devo e B-52’s, bandas que sempre foram norte para a estética sonora do grupo.
12. Vida de Operário – O disco encerra com uma nota política e social. A regravação de “Vida de Operário”, da banda punk Excomungados, traz a crítica à exploração do trabalho para o universo do Pato Fu. A música é cantada com uma frieza mecânica que torna a letra ainda mais cortante. O disco fecha com a mensagem de que, por trás da diversão, havia uma banda consciente de seu entorno. Quem disse que pop não pode ser afiado.
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Tanto “Spoc” quanto “Ob-La-Di-Ob-La-Da” já constavam da lendaria “Pato Fu Demo” (ops!) e, rearranjadas, entraram na versão digital como faixas adicionais.

13. Spoc – Aqui temos uma das preferidas dos fãs que funciona muito bem ao vivo. Levada no violão, “Spoc” é uma balada vibrante que se apropria do universo de Star Trek como metáfora para a disciplina. Musicalmente, destaca-se novamente a voz doce de Fernanda Takai cantando também em francês. John Ulhoa aparece na segunda parte subindo o tom da letra que questiona as expectativas e a valorização do labor. “Spoc” é pra cantar junto!
14. Ob-La-Di-Ob-La-Da – O CD termina com uma versão instrumental cartoonizada do clássico dos Beatles. Mais uma vez o Pato Fu toca o sagrado e entrega uma interpretação que transpira a identidade da banda. O fechamento em compasso galopante se amarra perfeitamente com a primeira faixa do disco seguinte.

“Gol de Quem?” envelheceu com dignidade ímpar, capturando o espírito de uma época em que o rock brasileiro se permitiu ser experimental. Não obstante, figura em várias listas de melhores da música brasileira como nos livros “300 Discos Importantes da Música Brasileira”, de Charles Gavin, no “Os 500 Maiores Álbuns Brasileiros de Todos os Tempos”, do Podcast Discoteca Básica, apresentado por Ricardo Alexandre, e no Top 20 da votação dos Melhores Discos dos Anos 90 aqui do Scream & Yell.
Para amarrar essa obra, a ficha técnica revela o peso dos bastidores, fundamental para o resultado final. A produção limpa e vigorosa ficou a cargo de Carlos Savalla (conhecido por seu trabalho refinado com os Paralamas do Sucesso), enquanto a direção artística foi assinada por Sérgio de Carvalho. Para completar o time, a coordenação artística teve o dedo de Maurício Valladares, o “MauVal”, lenda viva do rádio rock brasileiro e curador de bom gosto inquestionável.
Com esse suporte técnico e criativo, o Pato Fu não apenas fez um gol; ganhou o campeonato e garantiu seu lugar na história.

– Alexandre Biciati é fotógrafo e editor da Phono: https://www.phono.com.br/
Um dos discos que embalaram meu período de primeira separação conjugal. Memória afetiva forte.