Crítica: “Família de Aluguel”, com Brendan Fraser esbanjando ternura, é tragicômico na medida certa

texto de João Paulo Barreto

Em um mundo plástico no qual as pessoas pintam falsas aparências em redes sociais e estão sempre em busca de likes oriundos da aprovação alheia no sentido de balizar sua própria felicidade, “Família de Aluguel” (“Rental Family”, 2025), filme da diretora japonesa Mitsuyo Miyazaki, mais conhecida como Hikari, permite ao seu espectador uma reflexão pertinente acerca da solidão e da depressão que aflige milhares, principalmente após a pandemia de 2020. Na história de um ator estadunidense vivendo há sete anos no Japão e lutando para tentar se manter dentro de sua profissão, tal análise do comportamento humano em constante busca por afeto ganha contornos mais profundos.

Na pele de um carismático Brendan Fraser que esbanja ternura e simpatia em olhares e sorrisos tímidos, o ator em questão é Phillip Vanderploeg, estrangeiro cuja rotina em Tóquio se resume a passar por sucessivos e falhos testes de elenco, mas sempre tendo que se contentar com papéis em publicidades de gosto duvidoso para poder sobreviver na terra do sol nascente. Foi uma dessas publicidades, inclusive, que o levou ao Japão anos antes, quando ainda possuía um prestigio que lhe permitia aceitar convites de trabalhos bem pagos que requisitavam sua presença do outro lado do mundo. Ao decidir permanecer por lá para aproveitar as oportunidades que iriam minguar, acabou tendo que se adaptar àquele lugar definido por seus formigueiros humanos e vida em alta velocidade, cujo ritmo não permite a muitos a ideia de uma rotina repleta de companhia.

Visualmente, a diretora Hikari cria essa sensação de solidão de maneira eficaz ao colocar o homem de meia idade comendo sua refeição noturna em frente à sua janela enquanto observa diversas outras janelas alheias nas quais outras vidas e outras realidades acontecem. Realidades essas que podem parecer mais calorosas que a sua própria. Pode até parecer uma fórmula batida a ideia de janelas vizinhas a representar tal sentimento de vazio em quem observa aquelas vitrines de vidas de outros, mas, aqui, tal formato funciona de modo exemplar.

Ao ser abordado pela proposta de trabalho que batiza o filme, o ator desiludido conhece um tipo de negócio que condiz com a realidade solitária que se viu obrigado a viver. Em um país estrangeiro, cuja barreira da linguagem ele até conseguiu superar, a ideia de vender sentimentos e companhia a pessoas que lhe contratam com esse fim, inicialmente até lhe parece absurda, mas logo se revela desafiadora e recompensadora.

De modo curioso, ao colocá-lo em uma relação afetiva rotineira com uma mesma prostituta que, aparentemente, se torna algo próximo de sua amiga, o longa traz o próprio homem em um mundo no qual ele mesmo precisa comprar suas emoções, optando, assim, por não adentrar em um relacionamento no qual necessite ser autêntico em todas as suas fases. Incapaz até mesmo de criar um laço afetivo real, tal relação denota bem seu estado comportamental deslocado e identificável com o trabalho que ele decide fazer como parte da equipe da agência que o escala como ator em diversos papéis ditos “reais”. E é interessante como ele mesmo, enquanto precisa fingir em relações afetivas para os contatos de trabalho aos quais é enviado para vender emoções e companhia, parece agir com sinceridade em uma relação “amorosa” e carnal pela qual pagou para ter.

Mesmo buscando por rimas visuais com o Japão moderno desenhando a velocidade dos tempos atuais a afetar seu protagonista e ilustrando, assim, como uma populosa cidade como Tóquio (com seu aspecto super populoso) se movimenta em sua rotina, “Família de Aluguel” encontra sua melhor paridade de ritmo ao trazer a parcimônia dos aspectos culturais e religiosos milenares do oriente. E apesar de, assim, a história se basear no clichê do estrangeiro que gradativamente (mesmo já vivendo lá há sete anos!) reconhece e é captado por tais costumes, o filme eficientemente cria uma empatia, a partir desse arco, junto a seu espectador.

Tragicômico na medida certa, o roteiro assinado pela própria diretora e por Stephen Blahut se apoia com graça na estranheza das situações absurdas que esse tipo de negócio (que realmente existe no Japão, friso) pode causar. A cena envolvendo um velório logo em sua abertura é de uma acidez cômica que lembrou os esquetes do Monty Python. Do mesmo modo, o momento em que desculpas são proferidas por uma falsa amante à uma mulher traída pelo marido. São cenas que definem bem como uma situação tão absurda e real podem ser levadas com graça e sagacidade para um roteiro de cinema.

Excetuando a solução um tanto irreal apresentada em seu desfecho, quando um problema perante a lei é resolvido de maneira inconcebível e convenientemente falsa, “Família de Aluguel” consegue, com a presença de Fraser e seu cativante carisma, um história redondinha e que brinca com sua premissa absurda. Tudo isso a partir de uma abordagem leve de um tema tão pesado quanto a solidão e as consequências de uma ausência de calor humano podem trazer à vida das pessoas.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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