Três shows: Teago Oliveira, Superguidis, Carlinhos Carneiro

texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas

Teago Oliveira na Casa Natura Musical, São Paulo – 14/12

Muitas podem ser as motivações quando o líder de uma banda de sucesso decide enveredar por uma carreira solo paralela – inclusive o ego, ímpeto de nove entre dez estrelas do pop. No palco da Casa Natura Musical, ao apagar das luzes da temporada de shows da casa noturna de Pinheiros, Teago Oliveira pôde provar que este não é o seu caso. Vocalista da Maglore, grupo de róque responsável por um dos shows mais intensos do Brasil pós-pandêmico, o cantor e compositor baiano fez, na noite do dia 14 de dezembro, sua primeira apresentação após o lançamento de “Canções do Velho Mundo” (2025), seu segundo trabalho solo. Gravado num estúdio no apartamento do artista em São Paulo, o registro faz jus ao nome. É algo que Teago, mais interessado em belos refrões do que em virais, deixa claro já no começo do show, ao apresentar belos temas como “Minha Juventude Acabou”, “Desencontros e Despedidas” e “Vida de Bicho”. Ok, não é algo que surpreenda quem acompanha a Maglore ou mesmo quem o ouça revisitar algumas de suas principais composições – caso de “Motor”, gravada por Gal Costa e cantada em uníssono pelo público, ou a delicada releitura de “Não Existe Saudade no Cosmos”, inicialmente registrada por Erasmo Carlos. Mas, agora, sobretudo, Teago parece especialmente interessado em provar duas coisas. A primeira é que ele já não é mais um novato ou revelação da MPB. A segunda é que, longe de ser só compositor, ele é um dos artistas mais completos de sua geração. Primeiro, a demonstração aparece explicitamente: quando o baiano convida Silvia Machete ao palco, ela elogia o parceiro dizendo que ele é um grande compositor. “Eu sou intérprete também”, diz Teago, antes de exibir belos agudos em “Pessoa Nefasta”, composição de Gilberto Gil que os dois gravaram recentemente para um tributo. Depois, a prova surge implícita, quando Teago aproveita a bela balada “Vou Morrer Tentando” para uma releitura emocionante de “Mind Games”, de John Lennon, com destaque para boa participação de Maurício Orsolini (piano) e o fiel escudeiro Lucas Gonçalves, desta vez na guitarra. Nem todas as evidências, porém, têm a mesma força: depois de tanta intensidade, o trecho em que o baiano mostra músicas mais balançadas (“Bora”, “Coisa Boa”) parece um nível abaixo do que foi exibido anteriormente. Ainda assim, é um reparo menor num excelente show. Ainda mais com o grand finale que teve, com o público cantando e bailando ao som de uma das mais espertas e cativantes canções do ano: “Eu Nasci Pra Você”. Entre a metalinguagem e o refrão que paga as contas, ficou claro ali que Teago Oliveira não precisa escolher entre nenhum dos dois. Só falta espalhar a notícia por aí.


Superguidis no Bar Alto, São Paulo – 17/12

Em 2010, uma delicada faixa acústica abria o terceiro (e último) disco da Superguidis: “Roger Waters”. Em um de seus versos finais, a canção dizia de maneira quase profética “que as coisas quase sempre acabam” – um ano depois, o quarteto gaúcho diria adeus aos palcos após uma mal-sucedida vinda a São Paulo. Mas como diria Bruce Springsteen, “talvez as coisas que morrem um dia voltam”. E em 2025, após o relançamento de seu primeiro trabalho em vinil pela Balaclava Records, a Superguidis retornou como um trio para uma turnê de dez datas, encerrada numa quarta-feira de dezembro, 17, no Bar Alto. Composta apenas por Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Diogo Machado (baixo e vocais) e Marco Pecker (bateria), a banda começou o show justamente pela faixa de abertura de seu álbum temporão, sem abrir mão da picardia – no setlist, a canção recebeu o codinome futebolístico de “Roger Machado”. O que veio a seguir, ao longo de 90 minutos com direito a prorrogação, foi um pouco do melhor que os Guidis fizeram ao longo de sua carreira: grandes riffs de guitarra (“Discos Arranhados”), solos que não deixam nada a dever ao melhor do rock alternativo dos anos 1990 (“O Véio Máximo”), letras espertas (“Spiral Arco Íris”, “Malevolosidade”, que apareceu num medley com “Bromélias”, da Bidê ou Balde, “O Manual de Instruções”) e muito carisma. É fato que ao longo da noite, algumas canções ecoam a falta de uma segunda guitarra, originalmente tocada por Lucas Pocamacha. Por outro lado, a crueza dos arranjos atuais parece combinar muito bem com o espírito adolescente e garageiro que sempre fez parte do universo dos Guidis – e se Andrio já ostenta alguns fios grisalhos entre a bela cabeleira, isso é apenas mero detalhe, enquanto Marco Pecker esmurra a bateria de maneira charmosa. Do repertório mostrado no Cine Joia em março, foram poucas alterações, sendo o principal destaque a inclusão de “A Saudade e o All Star”, da época em que os Guidis pareciam mais com Mutantes que com o Guided By Voices. Outro grande momento foi “Cartas na Manga”, raridade que merecia um registro oficial para marcar esse retorno, talvez junto a “Zefini” – faixa do grupo paraense Turbo que deveria ter sido a última do show. Deveria, não fosse o bom humor do público, que demandou mais dois bis – um com “Riffs”, outro com “O Raio Que O Parta”, como se tudo voltasse ao início de novo. Nas redes sociais, a banda anunciou que este seria seu último show. Do ano? Da vida? Pra quem virou uma exclamação de tanto responder perguntas, fica a interrogação. Fato é que, se 2025 puder ser considerado um bom ano, boa parte se deve à Superguidis.


Carlinhos Carneiro e os Excelents Animais no Picles, São Paulo – 19/12

Crooner de rock, portador de cabelo excêntrico e eterno vocalista da Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro passou a última década se aventurando por uma série de projetos após o hiato de sua banda – caso dos grupos Bife Simples e Império da Lã ou na parceria com Flu, do Defalla, no álbum “Flulinhoneiro”. Faltava só um disco solo pra chamar de seu… e ele chegou em 2025, sob o codinome de “Hotel Ritz” (hits?). Na noite do dia 19 de dezembro, durante a entrega do Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira, o público paulistano teve a chance de conhecer o novo repertório, com Carlinhos escudado por sua fiel banda de apoio – os Excelents Animais, hoje com Maurício Chaise e Andrio Maquenzi (dos Superguidis) nas guitarras, F_ck the Zeitgeist nos teclados e a charmosa Iandra Cattani nos backing vocals, além de dois ex-integrantes da Bidê, Guilherme Schwertner (bateria) e Lucas Juswiak (baixo). Na primeira metade do show, frescor de hortelã: a energia de Carlinhos e a potência de canções como “Música Pop”, “Curso Online”, “Boletos / Burnout” e “Delícia Total” empolgaram os presentes, sem deixar nada devendo aos melhores momentos da banda de “Melissa”. Destaque ainda para as sacanas “Teu Sorriso” e “Metaleiro É Que Sabe Viver”, além do hino “Tony Ramos”, uma composição da era da Bidê que ganhou delicioso sabor setentista em sua versão atual. Na segunda metade, o calor, a onipresente fumaça dos cigarros e o aspecto infernal do Picles só contribuíram para o clima de viagem no tempo. Também pudera: o clima deu uma enorme deixa para Carlinhos visitar não só os standards de sua antiga banda (“Microondas”, “Me Deixa Desafinar”, “Melissa”), como também fazer um passeio pelo rock gaúcho – com direito a um medley de “Bromélias” com “Malevolosidade”, dos Guidis, e uma versão irrepreensível de “(Vo) C”, da Video Hits. Com pouco mais de uma hora, o show estava programado para ser encerrado com uma das melhores baladas do século XXI, “Mesmo Que Mude” – a ponto de Carlinhos tirar terno, camisa e gravata no final da canção. Sedento, o público (incentivado pelo anfitrião Gabriel Thomaz) não arredou pé e exigiu por minutos o retorno do frontman ao palco. Pedido mais que atendido: com todo o charme que lhe é cabível, o vocalista retornou para uma sequência irresistível da Bidê: “Cores Bonitas”, “Gerson, “A-há!” e “Back to Quinze” encerraram um dos shows mais divertidos (e suados) do ano. Ou, como diria o próprio Carlinhos, há tempos imemoriais: “do piru a festinha, hein?”.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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