Limp Bizkit mostra em São Paulo que o nu metal não vive um revival, mas sim um momento de renovação

texto de Paulo Pontes
fotos de Fernando Yokota 

A palavra “revival” costuma ser usada para definir movimentos que ressurgem: uma moda, um estilo, um estado de espírito que volta à tona depois de um período de hibernação. Mas, quando o assunto é nu metal, talvez ela já não dê mais conta sozinha – ou, no mínimo, precise ser usada com algum cuidado.

Pra quem acompanha o cenário da música pesada nos últimos dois anos – no mínimo – fica claro que o que está acontecendo vai além de um simples retorno nostálgico. Existe, sim, um revival. Mas existe também renovação. E, principalmente, renovação de público.

Basta ter o Brasil como parâmetro. De 2023 pra cá, bandas como Slipknot, Linkin Park, System of a Down, Mudvayne e P.O.D. voltaram a ocupar palcos gigantes, com shows em estádios lotados (direta – no caso dos headliners – ou indiretamente, como bandas convidadas). Agora foi a vez do Limp Bizkit (e, logo logo, será a vez do Korn).

O mais interessante, porém, não está apenas nos números, mas sim no público. Não é só a geração que viveu a febre do nu metal no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 que comparece. Pelo contrário: há uma presença massiva – às vezes até majoritária – de gente mais jovem, acompanhando essas bandas e seus shows com uma energia absurda (gigantesca e visceral, diga-se de passagem).

Ou seja: o nu metal não vive “apenas” um revival. Ele renovou seu público. Um feito louvável, que mostra como diferentes gerações ainda precisam do caos que o estilo evoca – seja pra extravasar, seja pra se sentir representadas.

Foi exatamente esse cenário que se viu no Allianz Parque, no último dia 20 de dezembro, em um sábado quente na capital paulista, quando a cidade recebeu a Loserville Gringo Papi Tour. Uma espécie de mini-festival encabeçado pelo Limp Bizkit, acompanhado de outros cinco nomes: Slay Squad, Riff Raff, Ecca Vandal, 311 e Bullet For My Valentine (escalado às pressas após o cancelamento de Yungblud – por problemas de saúde).

Do lado de fora do estádio, antes mesmo de os portões se abrirem, o que se viu foi a maior concentração de bonés vermelhos por metro quadrado já registrada em São Paulo. É curioso como certos elementos estéticos acabam se tornando símbolos imediatos de artistas ou bandas. Nesse caso, o responsável por esse fenômeno atende pelo nome de Fred Durst, vocalista da atração principal. Bastava olhar ao redor pra entender que, independentemente da idade, todo mundo ali sabia exatamente onde estava pisando.

Slay Squad

Do lado de dentro do Allianz, quem abriu os trabalhos foi o Slay Squad. Representantes do que eles próprios definem como ghetto metal (uma mistura de hip-hop, hardcore, industrial e death metal), os caras encontraram um público ainda reduzido – especialmente na pista premium, ocupada por pouco menos de um quarto da sua capacidade naquele momento. A apresentação começou morna, mas não demorou muito pra engrenar.

A banda subiu com vontade, entregou intensidade e rapidamente conseguiu algo raro pra um horário tão ingrato: abrir as primeiras rodas de mosh do dia. O público respondeu à altura da energia que vinha do palco, e o Slay Squad saiu com a clara sensação de missão cumprida (além de alguns fãs recém-convertidos pelo caminho).

Riff Raff

Depois do peso e da entrega do Slay Squad, veio um dos momentos mais estranhos da noite: Riff Raff. Grande parte do público, seja nas cadeiras ou nas pistas, permaneceu sentada durante praticamente todo o show. Alguns ainda se esforçaram pra interagir com o rapper; outros aproveitaram o momento como um intervalo informal pra ir ao banheiro ou ao bar.

O set, apesar de curto, pareceu interminável. Um amontoado de trechos de músicas emendados sem muito critério, execução cansativa, pouco carisma e uma sensação constante de playback. A reação mais efusiva da plateia veio quando integrantes do Slay Squad surgiram ao fundo do palco tentando animar a galera. Depois do impacto da banda de abertura, ficou difícil segurar o público. Sofrível (sem exagero).

Ecca Vandal

A energia voltou a subir com Ecca Vandal. Vestindo uma camiseta do Sepultura (mais especificamente com a capa do álbum “Roots”), a cantora apresentou um show baseado em uma formação enxuta, alternando guitarra e baixo, apoiada por samplers e uma construção sonora que foge do óbvio. Há complexidade, há peso, há groove – e, acima de tudo, há presença de palco.

Carismática, intensa e completamente à vontade, Ecca conseguiu capturar a atenção do Allianz e se tornar, até aquele momento, a atração mais interessante da noite. Um daqueles shows em que muita gente entra curiosa e sai fã (mesmo sem perceber).

311

Na sequência, o 311 mostrou por que é uma banda difícil de rotular – e justamente por isso tão relevante em um evento desse porte. O grupo entregou um show redondo, misturando rap, rock, punk, ska e reggae com uma naturalidade que só quem tem décadas de estrada consegue sustentar. Foi, até então, o melhor show da noite. Mesmo sem músicas amplamente conhecidas do público brasileiro, a banda manteve o Allianz envolvido do começo ao fim.

Bullet For My Valentine

Chamado de última hora pra tour, após o cancelamento de Yungblud, o Bullet For My Valentine entrou em cena com o público completamente entregue. Execução impecável, banda afiada e som pesado. A celebração dos 20 anos do álbum “The Poison” funcionou bem ao vivo, ainda que a previsibilidade do set tirasse um pouco do fator surpresa. Ainda assim, foi durante a apresentação dos galeses que surgiram os primeiros sinalizadores da noite (um aviso claro do que ainda estava por vir).

Antes da explosão final, veio um dos momentos mais emotivos do evento. O Limp Bizkit iniciou sua apresentação com uma homenagem ao baixista Sam Rivers, falecido em outubro. Um tributo simples, respeitoso e sincero, que lembrou a todos que, por trás da zoeira, do deboche e da estética caricata, existe história, amizade e perda.

Limp Bizkit

A partir dali, meu amigo e minha amiga… O Allianz Parque virou um verdadeiro caldeirão. Sinalizadores por todos os lados, rodas de mosh se formando simultaneamente em diferentes pontos da pista, Fred Durst completamente confortável em sua versão atual (meio tiozão, meio moleque), Wes Borland desfilando com seu figurino de caveira colorida e uma banda tocando com precisão e confiança.

O Limp Bizkit entrega exatamente o que seus fãs querem: caos, bom humor e um hit atrás do outro. Sem firula, sem tentar provar nada pra ninguém (e com trechos de músicas de outros artistas aqui e ali pra dar um respiro). É entretenimento puro, direto ao ponto.

Limp Bizkit

Abrir e fechar o show com “Break Stuff” é o tipo de decisão que só funciona em dois casos: se o Limp Bizkit for a banda e “Break Stuff” for a música. Em qualquer outro cenário, seria indefensável. Aqui, foi simplesmente perfeito. Na segunda execução, com as luzes acesas e o público iluminando o estádio com sinalizadores, a sensação era de catarse coletiva total. Um estádio inteiro cantando, pulando, gritando e se empurrando como se ainda estivesse em 1999 (ou como se tivesse acabado de descobrir o que aquela música significa em 2025). Rolou até rojão (isso mesmo, rojão) vindo do meio da pista.

No fim das contas, a Loserville Tour mostrou que o nu metal não está apenas revivendo. Ele se reinventou (mesmo que algumas das bandas clássicas não lancem nada novo), encontrou um público renovado e segue funcionando como uma válvula de escape coletiva. O show do Limp Bizkit no Allianz Parque entra fácil na minha lista de melhores do ano (já pode colocar aí, editor) – e, se você esteve lá, sabe muito bem que provavelmente entra na sua também.

E o fã de nu metal já pode se preparar pra outra catarse em 2026, pois dia 16 de maio será a vez do Korn incendiar o Allianz Parque.

 

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/ 

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