texto de João Paulo Barreto
Autor de sucessos já com dois bestsellers no currículo, Stephen King tinha apenas 29 anos de idade quando lançou um dos seus mais populares livros, “O Iluminado” (“The Shining”, 1977). De narrativa longa e descritiva, a escrita de King destacava a história de Jack Torrance, um escritor fracassado e desempregado que vê no trabalho de zelador durante três meses de isolamento em um hotel fechado para um longo inverno, a chance de concentração para voltar à sua estagnada labuta diante da máquina de escrever.
Na sua história, o então consagrado autor de “Carrie” (1974) e “A Hora do Vampiro” (1975) inseriu os elementos de terror que viriam a se tornar marcas reconhecíveis e sempre surpreendentes de uma escrita constante que se expandiria pelo próximo meio século em dezenas de livros. Lá estava o drama familiar; o trauma oriundo da violência; a quebra de confiança perante tais traumas; a figura infantil a encontrar de forma forçada sua maturidade e, claro, o elemento sobrenatural que se firmaria com algo presente em diversos trabalhos do residente do Maine, Estados Unidos.
Diante de um reconhecimento tão precoce em uma época na qual a saga para a publicação de um livro só se equiparava a das várias tentativas de se escrever um sucesso que caísse no gosto do público, Stephen King foi um mestre não somente por seu texto instigante, mas por conseguir unir um gosto literário apurado a um forte apelo popular. Tal ponto, inclusive, gera até hoje certo preconceito entre intelectuais que não se arriscam a dar o braço a torcer em reconhecimento ao talento do homem.

Junto com tal sucesso, claro, dinheiro e drogas acompanharam o jovem escritor que, durante a década seguinte, precisou de muita força para superar o alcoolismo e o vício em cocaína. O autor de “Cão Raivoso” (1981) já afirmou em depoimentos que aquela sua fase, há 45 anos, era tão problemática em relação aos excessos que ele não se recorda do processo de escrita desse livro sobre uma mãe e filho presos em um carro sob o julgo de um cachorro vitimado pela raiva. Cabe pontuar ter sido esse mais um de seus bestsellers escrito sob o julgo de um vício errático. E em tais vícios atrelados ao reconhecimento artístico oriundo de uma genialidade latente, reside, claro, muito ego. E foi com esse ego inflado por tamanho prestígio e reconhecimento midiático que o jovem King viu o já veterano Stanley Kubrick adaptar de modo muito mais conciso e aterrorizante suas páginas.
Stephen King já afirmou em diversas entrevistas que não viu com bons olhos o modo como o roteiro de Kubrick supostamente não abordou a luta de seu personagem central, vivido com uma assombrosa entrega por Jack Nicholson, contra alcoolismo, algo que o autor baseou em sua própria luta. Além disso, para o escritor, a personagem feminina vivida por Shelley Duvall foi reduzida de uma mulher forte e decidida a apenas uma histérica chorona. Em uma das definições mais marcantes do autor acerca do trabalho de Kubrick, a adaptação do diretor de “Spartacus” (1960) lhe pareceu “fria e intelectualizada”. Lembra que o termo “ego” foi citado anteriormente? Não por acaso.
Diante de um trabalho de escrita conciso emocionalmente e que espelha a maneira matemática e pragmática como a direção de Kubrick é colocada em tela, apenas o ego da juventude perante uma releitura perfeita (e, convenhamos, até mais eficiente) de sua própria obra justifica o modo como Stephen King despreza a adaptação de seu texto para o cinema, mesmo já tendo reconhecido a beleza visual do seu resultado final.

E que beleza! O que os espectadores podem testemunhar nas salas de cinema atualmente traz já nos seus segundos iniciais um modo de construção do horror que poucos filmes conseguem. Advindo da apropriação de uma melodia musical que data dos funerais da idade média, o tema de abertura de “O Iluminado” é assinado por Wendy Carlos e Rachel Elkind, que utilizam o cântico “Dies irae” (do latin, “dias da ira”) como um modo de construção contínua da loucura que seus personagens centrais vão se ver diante.
As vozes fantasmagóricas que são apresentadas desde o começo, com a icônica vista aérea da rodovia que leva o fusca de Jack Torrance ao local de sua entrevista de emprego, terminam por rimar com os sons (ou com a voz) do próprio Hotel Overlook. Isso ocorre no momento de seu ápice de cacofonia e de turbilhão imagético a representar o caos mental de seus personagens diante do choque de violência em seu desfecho.
E se a direção de Kubrick foi definida aqui como matemática e pragmática, isso se justifica a partir de um mergulho mais aprofundado e de olhar atento em seu opus advindo do horror. A partir do labirinto de corredores do próprio hotel, com tomadas, inclusive, notoriamente filmadas por Garret Brown, responsável pela criação da Steadicam, revolucionário equipamento de captação capaz de manter a imagem em um equilíbrio mesmo com um constante movimento, vemos o garotinho iluminado Danny Torrance pedalando seu velotrol em esquinas que se aprofundam em paralelo aos crescentes tormentos da mente de seu pai, um ex-alcoólatra em constante tentação.

Na metáfora de seus caminhos labirínticos da loucura de Jack Torrance, “O Iluminado” encontra um espelho, também, no próprio labirinto existente no hotel, local onde o louco de machado em punho adentra e encontra seu final trágico. Nada mais apropriado visualmente, uma vez que sua loucura aprofundada pelos corredores do Overlook simbolizou a construção desse momento fatal e derradeiro.
Aqui, Stanley Kubrick cria um caminho da loucura se apropriando de aspectos da dualidade que sua obra traz. A começar pela própria dualidade de bem e mal representada na pureza de Danny vs. a maldade opulenta encontrada no hotel. Junto a isso, a mesma inocência do garotinho colapsando com o crescente terror advindo de seu próprio pai. E no personagem de Jack Torrance, a mesma dualidade é vista na luta entre o seu próprio bem e mal internos – uma luta que já vinha sendo travada há muito tempo, bem antes de seu desfecho trágico. Tragicidade cuja evolução de seu declínio, Kubrick desenha com sua lente ao utilizar o notório ângulo holandês (dutch angle), um tipo de artifício de câmera a denotar justamente a instabilidade mental dos personagens. No caso de Jack Torrance, o modo como ele sucumbe ao Hotel Overlook e sua malignidade.
Ainda sobre o tema da dualidade de seus personagens sendo refletida em artifícios narrativos, Kubrick entende e estende essa questão, a levando para os aspectos visuais de seu filme e a evidenciando em um ponto de maior escala ao usar vários instrumentos narrativos para tanto. Cita-se, por exemplo, a simetria de espelhos do hotel a refletir em diversos momentos seus protagonistas e elementos imagéticos marcantes, sendo um dos mais chocantes, claro, a da palavra “Murder” (assassinato) escrita e proferida ao contrário após refletida por um espelho. Além deste, a presença, ainda em aspectos de dualidade, dos fantasmas das crianças gêmeas que foram mortas no local, cuja aparição em cena ecoa como um dos momentos mais aterrorizantes já vistos no cinema.
Nesta análise da dualidade em “O Iluminado”, importante citar, também, a figura psicológica de Tony, o amigo imaginário de Danny a representar o garoto na mesma dualidade e que assume sua voz ao ser invocado e, claro, as duas diferentes mulheres do quarto 237 apresentadas inicialmente de forma sedutora e sensual para, depois, cadavérica e putrefata.
Stanley Kubrick já vinha de uma carreira consolidada ao se propor a dirigir um filme de terror (“O Exorcista“, filme de 1973, chegou a lhe ser oferecido pela Warner Bros., inclusive). Diretor de obras como “Dr. Fantástico” (1964), uma brilhante e tragicômica crítica à cultura belicosa no século XX; “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), o mais sagaz e enigmático filme a buscar por respostas acerca de quem somos como seres humanos; “Laranja Mecânica” (1971), uma violenta e mordaz crítica ao Estado e à Igreja em suas formas de escravizar sociedades, e “Barry Lyndon” (1975), um gigantesco épico de guerra filmado a luz de velas, para citar apenas alguns poucos medalhões, o britânico enxadrista e fotógrafo só viria a trabalhar novamente em mais dois projetos: “Nascido para Matar” (1987) e “De Olhos Bem Fechados” (1999).
O perfeccionista cineasta viria a falecer durante seu sono pouco antes do lançamento do filme com Tom Cruise e Nicole Kidman naquele mesmo ano de 1999. Seu projeto seguinte seria “A.I. – Inteligência Artificial“, cujo direitos do livro havia sido adquiridos por Kubrick ainda na década de 1970. O admirador Steven Spielberg foi o responsável por filmar o legado que Kubrick esperou anos para concretizar (mas cuja tecnologia ainda não existia) e conseguiu honrar o amigo com seu filme lançado em 2001. E curiosamente, o tema de tal filme é uma das discussões mais acaloradas em relação ao que seria o futuro da humanidade nessa nossa quase distópica atualidade. Kubrick. Precursor como sempre.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.


