entrevista de Fabio Machado
A ideia de ter artistas tocando suas músicas enquanto são filmados está longe de ser nova. Ao longo do século passado, esse formato se consolidou nos programas de TV, indo dos talk shows de Ed Sullivan e David Letterman até formatos de nicho, como Top of the Pops, Midnight Special e Soul Train. No século XXI, esse modelo foi repensado com a dinâmica de novas redes sociais e novas formas de consumir conteúdo: às vezes mais minimalista, outras vezes num ambiente mais inusitado, mas mantendo o foco na performance e conexão com o artista. Diante desse histórico, como trazer algo de novo dentro desse universo audiovisual?
Para os responsáveis pelo projeto Som no Sebo, o caminho para a inovação veio por meio da literatura – mais precisamente, pelas dependências do Mercadinho Simples, um casarão abarrotado de livros e charme localizado no coração da Bela Vista, em São Paulo. Ali, surgiu o estalo de unir música e literatura, com artistas de diferentes vertentes mostrando seu trabalho de forma única: a ideia é também fazer algo diferente do habitual para ser registrado no canal. Assim, vemos o trapper Duuz (dono do vídeo mais assistido no canal, com mais de 360 mil visualizações – e contando) se apresentar pela primeira vez com uma banda. Ou então, uma banda naturalmente elétrica como Far From Alaska em versão mais despojada com violões, em meio aos (muitos) livros que compõem o cenário (assista abaixo).
Esse é o diferencial do canal surgido em outubro de 2024 no YouTube e que já ultrapassou 20 mil assinantes – meta que acreditariam ultrapassar apenas no fim do ano, segundo Ivan Staicov, um dos sócios responsáveis pelo Som no Sebo. Em entrevista ao Scream & Yell realizada por chamada de vídeo com ele e o restante da equipe que atua no programa, eles falam mais sobre as conexões entre música e literatura, os desafios e os diferenciais em relação a outros modelos de live session mais conhecidos, a exemplo do Tiny Desk criado dentro da norte-americana NPR em 2008, mas que ganhou sua versão brasileira em 2025 por meio da Anonymous Content Brasil e do próprio escritório brasileiro do YouTube. O burburinho em torno no “primo” mais famoso acabou rendendo mais visibilidade ao próprio Som no Sebo, que é lembrado com recorrência em comentários de internautas que buscam alternativas fora do mainstream. É por isso que, para Ivan, “a chegada do Tiny Desk Brasil não nos assusta, só corrobora nosso formato”. Confira a íntegra da entrevista a seguir.
Primeiro de tudo, acho que seria interessante falar sobre o início: como surgiu a ideia? Sei que vocês têm agora 24,5 mil assinantes no YouTube e 15,5 mil no Instagram. (Mas) Nem todo mundo que está chegando agora sabe como foi esse primeiro espaço, então seria legal saber de vocês. E também falar um pouco, não só como comparação, mas saber a opinião de vocês sobre outro projeto mais recente nessa área, no caso o Tiny Desk Brasil.
Daniela Kawanaka: (Pra começar, me deixa) apresentar o Diego (Octávio), nosso diretor artístico – toda a parte de curadoria é feita por ele. O Fabi (Fabiano Battaglin) é nosso diretor de fotografia, então aquele enquadramento maravilhoso, a magia, é ele junto com o Fernando (Dumitriu), que é sócio-fundador do Som no Sebo. E aí temos a Cris (Cristiane Kawanaka), que cuida da parte de produção e administração, e o Ivan (Staicov), que faz a parte de RP da gente…
Diego Octávio: E nossa editora Dani! Nossa montadora (risos).
Daniela: Faço a parte da edição dos vídeos e estou cuidando das redes sociais, meio quebra galho, porque é uma coisa que nós também queremos começar (a movimentar). Acho que temos esse vácuo nas redes sociais, de ter uma pessoa que seja mais desse meio… É que tudo aconteceu muito rápido, Fabio. O projeto está fazendo um ano. Foi 6 de outubro de 2024, se não me engano, o primeiro lançamento. E é inevitável a gente falar que a nossa inspiração é o Tiny Desk, porque nós todos somos consumidores (do programa da NPR).
Aqui temos dois sócios músicos, mas para além disso, somos todos amantes de música. Então, era um produto que a gente já consumia, mas tínhamos algumas questões. Por exemplo: Fabi, Fernando, Di, todos são do audiovisual. Então a questão estética pegava um pouquinho, de fazer uma coisa mais elaborada, uma fotografia mais bonita – o que não é o foco do Tiny Desk, que a gente super entende, mas pensamos: “E se a gente fizer?” Alguma coisa de música, mas que trouxesse também algo mais ligado à cultura, por isso a ideia do sebo. E aí fizemos um piloto, foi na brincadeira, porque o Som no Sebo não é a atividade principal de todo mundo, na verdade é o projeto de coração de todo mundo. Mas falamos: “Vamos fazer!”, fizemos e ficou lindo. Modéstia à parte, ficamos apaixonados.
[O piloto] não foi para o ar, porque o artista acabou indo para os Estados Unidos e fechou com uma gravadora, mas aquilo ficou na nossa cabeça. Correria, todo mundo lá com as suas funções. Um dia a Cris, que é uma das sócias, falou: “Gente, vamos tirar esse projeto da gaveta?” Enfim, voltamos a fazer com essa equipe, com esses seis sócios. O fundador, na verdade, foi o Fernando, que não pôde estar aqui hoje. E começamos a fazer como um projeto, mesmo. Só que a coisa foi ganhando uma proporção de envolvimento… E hoje em dia as nossas funções são divididas. Todo mundo divide seu tempo 50/50.
O Tiny Desk… olha o ato falho (risos). O Som no Sebo hoje não é mais só um projeto. Ele faz parte das nossas atividades diárias. Então, dividimos muito bem a nossa rotina e ele virou um trabalho. De forma independente, não remunerada. Os sócios ainda têm que investir nessa parte, mas a gente acredita que pouco a pouco… [pausa para o Ivan também entrar na conversa on-line]. Mas é o que eu te falei: tudo aconteceu muito rápido. Se pararmos para pensar em prazo, em um ano, ninguém sonhava de ter estourado. E aí, aproveitando o gancho, acho que já contextualizando esse início, quando você pergunta sobre o Tiny Desk, as percepções foram muito diferentes, mas sempre teve aquela coisa: “Ah, é mais um canal que só vem a somar”, sabe? Eu acho que é óbvio. A gente está começando, eles já vêm com essa bagagem, né? Vindo lá de fora, mas fazendo a versão brasileira.
Mas assim, para a gente, todo projeto que comece ou que já venha com nome, envolvido com cultura, de uma certa forma, também vai ser importante. Porque, como eu te falei, é da nossa inspiração. Hoje, ao olhar o Tiny Desk Brasil, a gente fala: “Ah, que legal!” Eu acho que todo mundo sai ganhando. Mas foi uma surpresa o quanto de coisa boa ele trouxe. Então, as pessoas começaram a ter isso, de um canal desse peso, e começaram a buscar. Começamos a ter muitos comentários em matérias do Tiny Desk, citando o Som no Sebo. Então, eu, pelo menos, vejo como positivo. Acho que todo mundo aqui acompanha, assiste, consome, assim como o Tiny Desk lá de fora, a gente também acompanha o daqui…
Diego Octávio: De certa maneira, nós somos frequentadores ou moradores do bairro da Bela Vista. Então, já conhecíamos esse espaço, tanto a Livraria Simples, quanto o Mercadinho (Simples). Então, lembro quando o Fernando me levou lá a primeira vez e falou: “Cara, olha essa locação, isso aqui é incrível para a gente gravar qualquer projeto”. E aí, ele me contou um pouco do que ele tinha imaginado: “Cara, imagino aqui uma banda tocando, as câmeras e tal. E eu falei: “Cara, isso é genial”. Então, o local também contribuiu muito para ter esse insight criativo.
Daniela: Virou uma marca registrada, na verdade. O nome, tudo foi concebido em cima do espaço.
Ivan: Vou complementar percepções: dos sócios, eu sou o sócio que atuou no music business nos últimos anos. Então, eu tive banda, mas também sou produtor e tudo mais, e fiquei no meu último setênio, basicamente, mergulhado no mundo da música. E aí, eu falo isso com o conforto que eu tenho da percepção visual e audiovisual dos meus outros sócios, dos outros cinco (nós somos em seis), que foi um pouco do que o Diego falou agora: esse olhar que eles têm que é poderoso sobre a locação, poderoso sobre a estética, poderoso sobre a luz. A gente tem uma soma muito legal em relação à estrutura societária de quem está dentro do projeto.
Mas em relação ao mercado, foi muito legal porque quando cheguei, eu cheguei como artista, então eu cheguei para gravar com a minha banda – que foi uma das primeiras – a primeira leva de pilotos. Eu sou investidor por definição, por gostar de projeto, de risco, de empreitadas e tal, e eu saí falando: “Cara, isso aqui é muito mágico e especial, quem que está fazendo, quem são os donos de quem está fazendo, foi muito mágico!” E aí ouvi de um monte de gente no set: “Cara, é um piloto, a gente não sabe exatamente quem é dono, foi muito foda, a ideia é dele e dela, foi meio isso, ou então o Fernando e a Dani”.
E o barato disso é que, com certeza, a inspiração era – e pegando o gancho do que já foi dito aqui sobre o Tiny Desk – [o modelo original do Tiny Desk], mas a gente não pode esquecer que ele é como um mote do nosso tempo, né? Eu acho que ele representa uma estrutura, um modelo de pocket show e session do nosso tempo. Só que estamos falando de uma estrutura, de um modelo que se faz desde que a TV é TV. Ou seja, eu lembro de ter as minhas primeiras referências desse tipo de session de quando eu era moleque e eu assistia alguma coisa da década de 50 que minha mãe gostava muito, do Peter, Paul & Mary em talk shows assim, ou depois, sei lá, o David Letterman e outras, e até o Jô (Soares) mesmo, fez isso bastante, que era no final do programa, tinha eventualmente a session lá com a banda, que era a banda convidada. A gente não tem a entrevista antes, a gente não é o talk show, a gente é só a session show. Então, eu falo isso no sentido de eu acho que [o formato] é um modelo consagrado, um modelo muito bem definido já, há pelo menos 70 anos, do ponto de vista audiovisual. Mas também acho que alguns canais ou algumas mídias validaram ele e falaram assim: “Ó, é isso aqui agora, na era da internet, é isso aqui que a gente vai propor” Depois a gente tem uma lista de referências, de benchmark, tudo mais. O Colors é um benchmark, o Tiny Desk é um benchmark, o Session in Event é um benchmark também, e por aí vai.
Então, aqui, acho que a grande parada é como conseguimos fazer isso com a nossa estética corroborada, ou seja, não fomos lá e inventamos um cenário, pegamos um cenário e falamos assim: “Cara, isso aqui tem uma parada, né?”. Com a nossa estética sonora, que é a gente descobrindo também a potencialidade de fazer daquilo a estética sonora da onde queríamos levar. E isso tudo em cima da nossa curadoria. Acho que a grande mágica do que eu posso dizer hoje do Som no Sebo é a nossa curadoria, que é onde olhamos e falamos assim: “Peraí, se a gente for pelo óbvio, que é botar o mainstream…” E temos muito cuidado pra falar do mainstream, porque a gente também gosta e também consome. Mas se a gente for só por ele, a gente vai pelo óbvio, o que já estaria tocando no Faustão, sendo que não tem mais Faustão, sabe. Mas é o cuidado da curadoria, de saber qual é o diamante que está perdido por aí. Ou se não está perdido e não está no mainstream, mas sabemos que é um diamante. Como vamos lapidar e trazer aqui para dentro.
Você até antecipou uma pergunta minha, que era justamente querer saber um pouco mais sobre a curadoria, no sentido de como funciona e quais os critérios aí que vocês devem ter para conseguir fazer essa seleção?
Daniela: Para nós, é muito importante o número de pessoas também que nos procuram pelas redes sociais. É uma coisa muito importante para o projeto, e quando você começa a crescer, não é nem questão de atenção ou não, às vezes é muita gente pra responder, muita coisa pra lidar, mas temos esse cuidado de não deixar as pessoas sem resposta. Então, acho que o primeiro canal é sempre ouvir as bandas que nos procuram pela internet, e um feedback muito importante que recebemos é que o tratamento que temos aqui é bem difícil de achar. Só que, por outro lado, a gente tem uma pérola, que é o Diego, que transita por aí, caçando talentos, e aí ele pode falar um pouquinho mais dessa parte dele também, que é muito importante.
Diego: Acho que tem um pouco dos dois caminhos. A gente recebe, de fato, muitos materiais diariamente, de todos os caminhos. E eu amo sair, pesquisar artistas novos, coisas novas. Então, lá no começo, estabelecemos alguns critérios de seleção para ser o filtro inicial e depois isso é dividido com todos os sócios, essas decisões de: “Putz, esse artista faz sentido nesse momento?” ou: “Isso aqui segura pra outro momento”. A gente toma [as decisões] coletivamente.
Mas uma preocupação, entre algumas das preocupações que temos, é a diversidade musical, (ter) estilos diferentes. É muito fácil cair numa determinada bolha e permanecer ali, porque um artista acaba puxando o outro, enfim, então tem esse cuidado de tentar a cada session trazer um ritmo diferente, garantir que estamos tocando em todos os ritmos e estilos. E aí, a diversidade étnica, social e até geográfica – dessas todas, a geográfica ainda é a mais difícil. Para muitos artistas, vir pra São Paulo gravar é uma questão, então tem todo um exercício de cruzar agendas, que é o meu trabalho diário de: “Ó, você tem um show aqui em São Paulo, então vamos tentar casar com o dia de gravação, você aproveita a sua vinda pra cá e tal”. Tem dado certo com artistas do Norte, do Sul, enfim, tem rolado.
Outro critério que a gente avalia também é o da performance artística, visual. Às vezes, musicalmente, os EPs, os álbuns do artista ou banda são incríveis, mas ele não tem uma performance legal ao vivo, não tem um cuidado estético com direção de arte, não tem um show pensado. Então, são esses fatores básicos que a gente conversa bastante e usa de filtro de seleção.
E falando sobre essa diversidade geográfica, vocês tem alguma noção de como está essa divisão por região até o momento? Se está ali ainda mais concentrado no Sudeste…
Ivan: Cara, legal, falar disso. Foi bem interessante, porque teve uma leva de artistas do Norte que nós gravamos. Isso foi bem salutar, inclusive ouvindo muito deles – acho que há exemplos do Alaíde Negão (AM), Felipe Cordeiro (PA) – falando assim: “Nossa, que legal, um projeto de São Paulo gravando bandas e artistas do Norte”. Ouvimos isso com uma ênfase bem interessante, (mas) a gente, inevitavelmente, até pelo começo do projeto, de estarmos investindo, foi no eixo clássico Rio-São Paulo – a gente não tem estrutura para trazer (artistas especialmente pra gravar). Todavia, tem muitos artistas de fora desse eixo que já moram em São Paulo, porque tem como um centro de captação e de estrutura mesmo, de fusão artística.
Então foi legal, porque mesmo no começo também conseguimos artistas com bastante diversidade regional para conseguir trazer. Tem uma representação legal de Minas, uma representação muito legal hoje do Norte do país, Nordeste, Rio Grande do Sul também tem uma cena bastante salutar, principalmente a cena de rock progressivo, rock 70 e tudo mais. Há exemplos, né, Picanha de Chernobil, Hurricanes… O Eixo Rio-São Paulo com muita coisa, mas aí com muita diversidade étnica e muita diversidade musical, isso foi bem legal. Vai do samba ao trap, de pesquisa musical até música xamânica. E aí acho que um artista que traz uma representação bem interessante também disso que estamos falando, que é o Adriano Grineberg, um baita pianista da escola de piano blues, mas que no Som No Sebo foi apresentar um trabalho de world music e música xamânica. Então ele trouxe estética de regionalidade em relação à pesquisa musical dele, estética visual completamente diferente, essa é uma session bastante diferente que a gente fez até do ponto de vista da direção fotográfica, e muita, muita, muita pesquisa, efetivamente. Acabou sendo um highlight de um tanto de tudo. Eu estou chamando de temporada, mas a gente ainda não chama o Som No Sebo de temporada. A gente é uma grande temporada, na verdade.
Eu ia perguntar justamente isso. O Tiny Desk Brasil fez esse modelo de temporada, mas o Som no Sebo me parece um fluxo constante. E, nesse período, o que vocês consideram que foram os principais desafios para estabelecer o formato? Não só do ponto de vista técnico, porque tem toda uma questão de captação de som, e aí eu vejo que tem bandas que você precisa pensar como vai captar a percussão ou bandas com uma formação totalmente diferente, mas também outros desafios que, de repente, o público não vê na hora que está assistindo, mas que nos bastidores é mais latente.
Daniela: Para mim, o desafio foi colocar uma Nômade Orquestra num espaço super pequeno, e conseguimos.
Diego: Vou elencar alguns dos desafios aqui, e vocês me complementam. Vou trazer um pouco, primeiro, para o meu lado técnico, acho que tem essa dificuldade mesmo do tipo entender uma Nômade Orquestra, a quantidade de vias e microfones e tudo mais para isso soar legal. Tem uma questão prática de equipe mesmo. Então, a gente precisa de um pouco mais de uma dezena de pessoas no set, são muitos equipamentos, câmeras, lentes, é uma quantidade de luz bem grande. Reunir isso é um desafio, e também parar nossas agendas pessoais, no sentido de que todo mundo bloqueia a agenda no dia de gravação, deixa de pegar trabalhos do nosso dia a dia para tocar isso.
E eu acho que outro desafio também, da parte artística, é traduzir o show de determinado artista para o Som no Sebo, porque ele não pode simplesmente pegar o showzinho formatado que ele tem e executar igual no Som no Sebo. É importante que o artista entenda a proposta e traga uma releitura mesmo das músicas, da interpretação. Acaba sendo um laboratório de experimentação para os artistas também, falar: “Nossa, nunca usei piano acústico nas minhas gravações, mas vamos usar um”, ou então: “Nunca usei tal coisa, nunca fiz dessa maneira”. Termina sendo um desafio, mas ao mesmo tempo super interessante nesse aspecto.
Fabiano Battaglin: Só complementando, pegando essa parte das releituras, você tem como exemplo o Duuz, que é o vídeo com o maior número de views do nosso canal, é um trapper que nunca tinha feito nada com banda. Então, eles montaram uma banda, ensaiaram especificamente para o Som no Sebo, e não é à toa – óbvio que não é o único fator do sucesso, mas você vê o sucesso que é porque é uma coisa diferente, é inesperada, que os fãs gostam de ver uma versão diferente num lugar diferente. Acho que isso também, como o Di falou, é um desafio para as bandas embarcarem também, porque às vezes é muito mais fácil você chegar com um projeto já pronto, já ensaiado, só montar e tocar. Mas a gente percebe que é muito mais interessante quando traz essa proposta nova para o Som no Sebo, a gente tenta cada vez mais fazer com que os artistas embarquem com a gente nessa ideia para ter essa movimentada.
Daniela: O legal é como um acaba topando, porque talvez para uma banda seja um problema: “Pô, já tem o show, eu queria apresentar assim”. Mas eu acho que eles começam, toda vez que alguém é convidado, eles vão lá e vasculham o material para além do dance, teve o Far From Alaska, que tem músicas que são mais eletrônicas, e eles fizeram um acústico, e a repercussão dessa mudança é muito positiva. A gente vê o pessoal: “Poxa, grava um CD assim, ou então faz um show acústico”… Acho que as bandas também curtem muito esse processo, porque afinal de contas é artista, tudo que é criativo eu acho que é interessante, e eles embarcam super bem nisso, nunca tivemos nenhuma objeção de ter que adaptar alguma coisa assim.
Eu queria falar também de outro diferencial, que é essa conexão com a literatura. Não só por estar dentro do Mercadinho Simples, mas vejo que em alguns vídeos, às vezes, um artista vai e lê um trecho de algum livro ali, antes de começar o show. Queria que vocês falassem sobre a importância de ter essa conexão entre essas artes.
Daniela: É o que eu te falei, a grande maioria aqui é apaixonado por música. Eu gosto, mas sou muito da literatura, sou uma apaixonada por livros. Essa locação é de um grande amigo nosso, que eu já era frequentadora e eu fiz um documentário sobre a livraria deles, então assim, a primeira ideia, o Fernando teve essa visão: “Gente, vai ser incrível gravar ali, vamos lá”. E para mim é a palavra: para além da palavra, das músicas que realmente têm uma letra, as instrumentais, elas te despertam alguma coisa que, na minha opinião, um livro desperta. A cultura – seja um livro, uma música, uma peça de teatro, um filme – tudo desperta emoção, tudo está no mesmo caldeirão, e a gente começou a pirar nisso: “Poxa, a gente tem uma locação que é num sebo”. Para mim vinha muito forte essa coisa da letra, poesia, então começamos a trabalhar em cima disso.
E quando a gente estabeleceu: beleza, vamos de Som no Sebo. Pensamos o nome, marca, tudo, quando começamos a levar isso para os artistas, aí vinha: “Não, mas essa música eu fiz inspirada em tal livro”, “Essa música é até linkada com tal poesia”. Lógico, tem alguns que transitam mais por esse meio, outros não, mas quando eles se sentem à vontade, é uma coisa muito rica de se trazer. Então, com o Samba de Dandara, praticamente todo intervalo de música, ela lia um trecho. Valmir Lins, ele escreve muito para além de ser músico, então ele também traz alguma coisa disso. E aí a gente vai mesclando, como as pessoas – tanto que o nosso slogan é “Música é Literatura” -, e aí as pessoas que se sentem à vontade podem trazer isso. Francisco & El Hombre, por exemplo, eles não trouxeram nada, mas eles são grandes consumidores de livros, então eles foram gravar, fizeram compras lá, e falaram do que eles compraram, da importância disso tudo. No fundo, para mim é um grande caldeirão, eu acho que cultura é uma coisa ligada na outra, e se a gente puder amarrar mais coisas, fica super interessante.
Diego: E a gente tenta fazer isso da maneira mais orgânica, sem combinar com o artista: “Faça isso, fale aquilo”. Deixamos eles se inspirarem. Por exemplo, Samba de Dandara foi uma surpresa, porque ela conseguiu amarrar basicamente a linha narrativa do show todo, com trechos de livro, e foi muito legal, muito legal. Tem uma session que é da Coral, que no meio da música ela lê uma poesia, e encaixou perfeitamente na música. Enfim, então eu acho que ser orgânico também torna isso muito especial.
Esse lance do orgânico eu achei interessante, porque quando estava assistindo aos vídeos, estava achando que era algo mais roteirizado. Agora, vocês me deram outra visão. Vocês não sabem muito bem o que vai acontecer até a hora que termina a gravação, é isso?
Fabiano: A gente sugere, né? Se tiver alguma coisa que tenha a ver com o universo da literatura, porque, pô, não é nada melhor do que você estar dentro de um sebo, ali, rodeado de livro, se a pessoa tiver afinidade com o tema. Óbvio que a gente não vai chegar e falar assim: “Ô, indica um livro”, ou para ler alguma coisa que a pessoa não curte. Então, acho que tem coisas que nós não sabemos exatamente o que a pessoa vai trazer. Por exemplo, Pé de Manacá leu uma poesia antes de tocar, já Samba de Dandara, a cada intervalo pegava um (trecho literário), a Coral também no meio (da sessão), pega o papel e faz meio que uma performance com o papel. É super livre e bem-vindo, mas é uma coisa que acontece de acordo com a vontade, com a inspiração dos artistas.
Daniela: É que essa questão orgânica, Fabio, você vai sentir isso quando você nos visitar. A primeira recepção que a gente faz, acho que com todo artista, é: “Sejam vocês, vocês estão em um show”. Porque o pessoal já fica: “O que eu faço?” De dar as coordenadas, de câmera, mas é uma coisa à parte. Eu acho que o orgânico é como flui tudo lá, sabe? A banda tem liberdade de brincar, de falar o que quiser. Então, eu acho que o orgânico é mais assim. Não é impositivo você trazer, mas, às vezes, a pessoa está lá no show e começa a comentar dos livros, do nada, porque eu acho que é um ambiente que inspira e acaba fluindo muito bem. Então, é muito natural mesmo.
Diego: Essa questão orgânica, acho que também permeia a apresentação como um todo, no sentido de que, primeiro, eu tento dar o mínimo de direcionamento possível. Então, eu explico só como vai ser a dinâmica e dou o “valendo” e deixo eles à vontade. E, segundo, porque a gente prioriza para que seja one take. Às vezes, acaba a session, o artista fala: “Nossa, eu errei o solo tal, vamos refazer’. E aí, é um trabalho nosso de falar: “Olha, se você quiser refazer, óbvio, seu trabalho artístico, a gente refaz. Mas, para a gente, tem muito valor essa coisa orgânica, essa vulnerabilidade”. Porque eu acho que, talvez, seja por isso que as pessoas gostam tanto de consumir esse tipo de conteúdo, porque mostra o artista mais próximo, mas também mais vulnerável. Está ali, sem autotune, sem nada, sem grandes edições, sem VS. Então, também tentamos priorizar essa questão orgânica na session em si.
Para finalizar: neste momento de Som no Sebo, que acabou tendo essa visibilidade maior por conta do Tiny Desk, com as pessoas mencionando e trazendo aí uma visibilidade orgânica, quais são os planos para o futuro? O que vocês veem pela frente? E também queria saber se vocês têm algum artista do coração que vocês gostariam que estivesse aí na curadoria muito em breve?
Daniela: (Risos) Está todo mundo rindo, porque já sabem qual que eu vou falar. Meu sonho é trazer o “Boogie Naipe” com o Mano Brown. Acho que super combina. E, assim, Mano Brown mora no meu coração.
Ivan: É muito legal, muito convidativo a gente pensar para onde a gente está levando o projeto. Por isso que eu falei, nesta temporada, estou colocando, a “temporada atual” de Som no Sebo, entre aspas, porque, sim, o Som No Sebo deve ser um projeto onde a gente não deve dividir, pelo menos não no horizonte curto prazo, em temporadas. Mas no planejamento, na estratégia, pensamos em temporadas em relação a como fazemos, como gravamos, quais são os blocos de trabalho e onde queremos chegar.
O que consigo te dizer é que a gente tem metas muito audaciosas e foi muito legal, porque batemos uma meta antecipada do final desse ano: A gente queria bater 20 mil inscritos até o final do ano, e a gente bateu em outubro. E, cara, isso é uma meta em números. A gente sabe que a internet é esse território, número é número, assim, e está tudo certo. Bater ali, bater aqui, investir mais, investir menos, você chega em alguns lugares e tudo mais.
Mas também sabemos o que estamos fazendo, que é tudo na unha, cara. Como somos nossos próprios investidores, alguns números são bem salutares, bem importantes. Mas o mais importante para a gente agora, em relação ao que vem sendo pensado em 2026, é como continuaremos fazendo e mantendo a qualidade da nossa captação, tanto de áudio quanto de vídeo, quanto da nossa captação artística, em relação às possibilidades que a gente tem de investimento indireto e direto. Então, tanto buscando apoiadores, marcas, patrocínios, quanto entendendo que agora estamos transitando num mundo que tem uma chancela muito legal, tem artistas bastante salutares, temos uma marca em evidência e sabemos que somos referência de muito canal hoje, de muito artista hoje também. Artista grande que chega falando assim: “E aí, como é que faz pro programa aí?” Então, acho que em relação à estratégia, planejamento, estamos nesse lugar.
(Sobre os artistas desejados no programa) Tem mais nomes, óbvio que dá pra gente citar. Daniela Mercury, sem dúvida, é um namoro antigo, já nosso e tudo mais. O Brown que a Dani falou. A galera do Braza, que também é For Fun, eles também já tinham dado esse início de namoro com a gente. Tem só um comentário a mais: a presença de outros canais como o nosso, inclusive a chegada do Tiny Desk no Brasil, não só não nos assusta, como nos corrobora como modelo. Tem uma vantagem muito maravilhosa da internet ser um campo vasto, porque é um campo que você pode explorar de maneira inesgotável.
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.