texto de Matteo Maioli
Quando se fala da história do rock ‘n’ roll, sempre se dá como certo diversos pontos cardeais e músicos ou vocalistas únicos. De Lou Reed a Iggy Pop, passando por Jim Morrison e David Bowie. Esquecemos que tudo (que amamos) deriva de algo anterior, como os Beatles derivam de Buddy Holly, ou os Sex Pistols de The Stooges e The Who. Muitos artistas e bandas não alcançaram o sucesso e o reconhecimento merecido, e esse texto pretende destacar um desses nomes que influenciaram muita gente que veio depois: ele é Sky Saxon, e eles são The Seeds.
A história começa em Los Angeles, 1965. O cantor Richard Elvern Marsh (aka Sky Saxon), nascido em Salt Lake City, junta-se ao baterista Rick Andridge, ao guitarrista Jan Savage e ao tecladista Daryl Hooper. O nome da banda: The Seeds. Eles gravam dois singles entre junho e novembro, “Can’t Seem to Make You Mine” e “You’re Pushin’ Too Hard”, que só entraram nas paradas (alcançando a posição 36 e 41 da Billboard, respectivamente_ após o lançamento de seu álbum de estreia, “The Seeds”, em abril de 1966. Sua música misturava o surf rock e a distorção característicos de Savage com a paleta vibrante criada pelas notas de Hooper, além de um ritmo poderoso e obsessivo e os vocais — segundo Lester Bangs, um Mick Jagger menos talentoso — de Sky Saxon, compositor e líder de fato do quarteto.
Eles lançariam um segundo disco ainda em 1966 (“A Web of Sound”) e um terceiro, “Future”, em agosto de 1967, alternando o garage rock acelerado com baladas tingidas de psicodelia e esperança para as novas gerações, que os reconhecem como campeões do flower power e da liberdade social e individual. Os dois discos testemunham a grandeza visionária do The Seeds em músicas como “Mr. Farmer” e “A Thousand Shadows”, mas Richard decide dar um arriscado passo atrás ao gravar (ao mesmo tempo) um disco paralelo a “Future”, juntando integrantes da banda de Muddy Waters com a formação original do The Seeds.
“Full Spoon of Seedy Blues” foi lançado em novembro de 1967 pela rebatizada Sky Saxon Blues Band, com Richard Elvern Marsh abandonando a psicodelia e adotando um estilo com raízes no blues – o próprio Muddy Waters assina o texto do encarte. Crítica e público não entenderam a alteração de rota, e mudanças dentro do grupo prejudicam a carreira de Sky Saxon, cada vez mais viciado em álcool e drogas, consumo excessivo que acabaria atrapalhando ainda mais a sua relação com outros músicos. Um homem de extremos, com groupies de um lado e vegetarianismo estrito do outro, em certo momento Sky diz a um horrorizado Hooper: “Não coma ovos ou você vai acabar no inferno.” O futuro da banda parecia incerto.
O canto de cisne do The Seeds é “Raw & Alive – The Seeds In Concert”, um álbum ao vivo “falso” de 1968, que tinha como objetivo explorar o poder de canções proto-punk como “No Escape” e “Satisfy You”, bem como a intimidade coletiva de “900 Million People Daily (All Making Love)”, tentando alcançar o sucesso nas paradas musicais. Os aplausos foram editados somente após a gravação, sem o conhecimento do comprador. A estratégia não funcionou.

Rebatizada como “Pushin’ Too Hard”, o (segundo) single (do primeiro álbum) alcançou o status de clássico graças à sua inclusão na compilação “Nuggets: Original Artyfacts from the First Psychedelic Era”, lançada em vinil duplo em outubro de 1972 e organizada por Lenny Kaye, fiel escudeiro de Patti Smith (daquela época até os dias de hoje), ao lado de “You’re Gonna Miss Me” (13th Floor Elevators) e “Psychotic Reaction” (Count Five). Iggy Pop iria admitir que era obcecado por “Pushin’ Too Hard” muito antes de formar os Stooges: “A batida e o talento deles abriram caminho para todos os jovens músicos”, diria o Iguana. Já o outro single, “Can’t Seem To Make You Mine”, foi regravada pelos Ramones, pot Alex Chilton e por Yo La Tengo.
O tecladista Daryl Hooper teve a ideia de tocar linhas de baixo no teclado um ano antes de Ray Manzarek, do The Doors, e uma coincidência curiosa surge ao ouvir “Up In Her Room” (do segundo álbum do The Seeds, “A Web of Sound”, lançado em outubro de 1966) e “Sister Ray”, do álbum “White Light White Heat”, que Velvet Underground só colocaria nas lojas em janeiro de 1968. Ambas são duas canções longas, ruidosas e semelhantes em algumas passagens. E influenciaram o revival do garage rock dos anos 80 com bandas como Fuzztones, The Tell-Tale Hearts e Lyres.

Uma das maiores conquistas do grupo californiano continua sendo sua apresentação no Hollywood Bowl com as Supremes e o Buffalo Springfield para um público de 18 mil pessoas. Eles também contam com participações especiais no cinema — no filme “Psych-Out”, estrelado por Jack Nicholson e Susan Strasberg — e na televisão, na sitcom “The Mothers In Law”. Eles narram os eventos de um mágico ano de 1967, quando, em toda a sua devida proporção, eles eram para a mídia americana o que os Beatles e o Pink Floyd eram para a Inglaterra. Kim Fowley produziu seu último single significativo, “Fallin’ Off the Edge of My Mind”, em 1969. Sky Saxon se juntou ao movimento religioso Yahovah, depois retornou à música, sozinho ou com os Seeds, antigos e novos, até 2009, quando faleceu de um ataque cardíaco.
Em 2011, a Ace Records remasterizou e relançou os quatro álbuns principais do The Seeds com uma quantidade considerável de material adicional, em sua maioria inédito. “Raw & Alive” seria relançado em CD duplo em 2014 com os “dois shows”: o disco 1 apresenta o álbum original de 1968, gravado ao vivo em estúdio em abril de 1968, mas com gritos da plateia adicionados posteriormente. O disco 2 contém a performance completa anterior, sem overdubs, gravada ao vivo em estúdio em fevereiro de 1968 para o fã-clube, como originalmente planejado para o lançamento do álbum. Esta versão crua apresenta arranjos diferentes, músicas inéditas como “Hubbly Bubbly Love” e sem ruídos de plateia adicionados (ainda que lançada em vinil e CD, essa versão sem aplausos não está disponível em streaming).
De alguma forma, Sky Saxon e o The Seeds permanecem vivos graças aos fãs e músicos que perpetuaram seu legado.
Texto publicado originalmente no site italiano Kalporz, parceiro de conteúdo do Scream & Yell.