texto de Davi Caro
Por mais de seis décadas, cada geração teve sua própria “introdução” aos Beatles – esse mito moderno que representa o tipo de marco civilizatório que poucas vezes se viu ao longo da história. Para aqueles nascidos durante os anos 60, e que não chegaram a necessariamente testemunhar os grandes feitos de John, Paul, George, e Ringo em tempo real, houveram as coletâneas “1962-1966” e “1967-1970”, lançadas em 1973. Para a geração dos anos 1970, a reedição da discografia dos garotos de Liverpool em CD, em 1987, contrastava com a tristeza em torno da morte de Lennon, no início da década. De forma parecida, os fãs dos Beatles nascidos nos anos 1990 foram diretamente impactados por “1” (2000), que compilava os singles que alcançaram o topo das paradas dos dois lados do Atlântico.
Foram aqueles nascidos nos anos 80, no entanto, que presenciaram o que talvez seja, até hoje, o momento de maior ubiquidade dos Beatles desde seu auge. “Anthology”, projeto multimídia que incorporava uma série documental em oito episódios, mais um livro em capa dura, mais três coletâneas de material raro e trechos de entrevistas, não foi apenas um mero novo lançamento. Foi um verdadeiro acontecimento: ao unir material de arquivo e novas entrevistas com McCartney, Harrison, e Starr (além de outros participantes decisivos na jornada do quarteto), “Anthology” capitalizou no revival sessentista que tinha ecos na ascensão do Oasis, e, nos álbuns atrelados ao projeto, foi além – incluindo duas canções, “Free As a Bird” e “Real Love”, originalmente registradas como demos por John Lennon durante sua aposentadoria doméstica dos anos 1970, e, com a bênção de Yoko Ono, trabalhadas pelos três remanescentes como novas faixas dos Beatles. Megalomaníaco, reflexivo, e fruto de anos de discussões e tentativas abortadas, “Anthology” serviu como uma viagem nostálgica para os já iniciados. E também foi o ponto de entrada de milhares de novos fãs, que viram e (talvez mais importante) ouviram pela primeira vez todos os passos do maior épico da história da cultura pop.
A remasterização, expansão e relançamento de “Anthology”, que chega agora ao Disney+ (com o título traduzido diretamente como “Antologia”), pode parecer apenas mais uma em uma série de iniciativas que visam reafirmar a importância e relevância contínua dos Beatles, em um mundo onde a maioria das inovações criadas pelos quatro já se tornou lugar comum. Houveram, afinal, a série documental “Get Back” (2021), levada à cabo por Peter Jackson; a subsequente restauração do filme original “Let It Be”; o bonito, ainda que pouco consequencial, “Beatles ‘64”, com produção de Martin Scorsese; e, talvez mais crucialmente, a tão falada “última canção dos Beatles”, “Now And Then”. Esse fluxo de material “novo” relacionado ao quarteto poderia muito bem causar certa saturação no público, ao invés de arregimentar novos fanáticos. No entanto, é cabível o argumento de que “Anthology” talvez seja, juntamente à “Get Back”, o mais interessante e fascinante (re)lançamento atrelado à banda – por uma série de motivos.
O primeiro deles diz respeito ao conceito por trás da série documental: enquanto o inovador e brilhante projeto de Peter Jackson explorou e desmistificou uma época pivotal já conhecida (embora não substancialmente) da carreira dos Beatles, a série trafega os cerca de dez anos nos quais os quatro permaneceram juntos, contando com os testemunhos dos próprios Beatles. Já o segundo tem a ver com a impressionante qualidade audiovisual do projeto: aqueles familiarizados com as versões anteriores, em VHS ou em DVD, devem ficar de queixo caído com o primor da restauração dos registros, tanto as filmagens de época – que incluem extensos trechos de “A Hard Day’s Night”, “Help!” e “Magical Mystery Tour”, os três longa metragens protagonizados pelos quatro – quanto os depoimentos, que começaram a ser coletados no início da década de 90.
Como qualquer iniciativa de relatar um épico desta proporção, “Anthology” se ampara em uma abordagem enciclopédica da jornada dos Beatles, principalmente nos primeiros oito episódios. Qualquer um já familiarizado com cada capítulo desta novela pode julgar como pouco substancial (re)ver uma produção tão extensa em 2025. No entanto, os mais dispostos a se aventurarem (pela primeira vez, ou não) através das mais de 11 horas de material são agraciados com testemunhos surpreendentemente transparentes e francos, que se debruçam sobre as glórias – o encontro com o “professor” George Martin, o estouro nos EUA, as expansões da consciência e da linguagem musical da banda, ambas em parte decorrentes das experimentações com substâncias, a materialização de ambições estéticas na tela do cinema – e os infortúnios – a acidentada turnê que percorreu Japão e Filipinas, e contribuiu para a aposentadoria dos palcos; a perda de Brian Epstein; a hecatombe empresarial na qual a Apple eventualmente se converteu; e os desgastes pessoais e profissionais que corroeram as relações entre Paul e John, alienaram George, e acabaram por facilitar a aproximação do picareta Allen Klein – com igual dedicação.
É preciso falar também do nono episódio, alardeado como uma expansão do conteúdo anteriormente disponibilizado no lançamento em DVD. Tomadas inéditas de entrevistas com Paul, George e Ringo datadas de 1995, que contam com gravações divertidas em Abbey Road, bem como interações com George Martin, dividem espaço com registros das gravações de “Free As A Bird” e “Real Love”, além de uma breve menção a “Now And Then”. É bonito, e bastante melancólico, ver os três remanescentes tocando juntos (e, apesar da estranheza, transparecendo bastante entusiasmo) sem que a ausência de Lennon se faça notar – como não poderia, aliás, deixar de ser, mesmo com a colaboração explícita, e devidamente citada, de Yoko Ono, que forneceu as gravações originais de John usadas nas novas canções.
Talvez não seja possível afirmar que “Anthology”, modelo 2025, vá se tornar a porta de entrada de uma nova geração de devotos dos Beatles. E não é por falta de vocação: “Tantas pessoas já contaram nossa história, mas agora achamos que é a hora de contá-la nós mesmos”, diz Starr em determinado momento. Não será a última vez que os cerca de dez anos de atividade da banda serão explorados em um pedestal. Sam Mendes está desenvolvendo o que promete ser um ambicioso projeto de quatro cinebiografias dedicadas ao período, com previsão de lançamento para 2028. Mas, verdade seja dita: nunca é demais ter a oportunidade de rememorar as muitas vezes nas quais os quatro rapazes transformaram a música, a cultura, e a sociedade como um todo, mesmo quando suas maiores contribuições já ficavam mais distantes no retrovisor. “Anthology” é uma minuciosa, dedicada e inspiradora epopéia de quatro pessoas convertidas em profetas pop, responsáveis por alguns dos mais sublimes momentos já registrados na história da civilização contemporânea, tendo saltado da efeméride fervorosa para o fenômeno inegável, do estrelato inescapável para a genialidade pioneira, e ao fim, à estatura de lenda.
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.