entrevista de Alexandre Lopes
“Blink” é uma palavra pequena demais para o tamanho da virada que o duo Bob Moses dá em seu quarto álbum de estúdio. Mas é justamente nesse intervalo mínimo (o piscar de olhos em que uma lembrança se forma e já começa a desaparecer) que Tom Howie e Jimmy Vallance parecem mais à vontade. Desde que surgiram em Nova York em 2012, o duo de Vancouver aprendeu a transitar entre o rock e a pista de dança, a luz e a escuridão, o desejo de movimento e a vontade de olhar para dentro.
Lançado em outubro e descrito pelos dois músicos como uma espécie de tentativa de conciliar passado e presente, “Blink” (2025) soa como um álbum bem consciente e maduro. São 10 faixas que funcionam como fotografias emocionais: a sensação de algo que escapa o tempo todo atravessa não só as letras como o próprio processo de criação do disco.
Grande parte do álbum foi feita à distância, com Tom e Jimmy trocando ideias via Dropbox e Discord antes de ambos consolidarem o trabalho em estúdios em Nova York, Los Angeles, Vancouver e Toronto, na casa do colaborador e produtor Shaun Frank. O resultado é um disco que soa ao mesmo tempo mais aberto, variado e íntimo.
Em entrevista ao Scream & Yell, Howie reconhece que “Blink” pode ser o trabalho mais vulnerável da dupla até aqui. Não porque antes faltasse honestidade, mas porque agora eles parecem mais confortáveis em se expor – talvez uma influência direta da nova fase de vida dos dois, em que ambos viraram pais. Essa vulnerabilidade aparece tanto nas faixas introspectivas quanto nas canções mais com cara de pista de dança. Confira o papo com o Bob Moses a seguir.
Vocês estão lançando o quarto álbum, “Blink”. Como vocês veem a evolução da dupla desde os primeiros EPs e o primeiro álbum “Days Gone By” (2015) até agora?
Tom Howie: Sinto que nós meio que sempre tivemos o mesmo objetivo e fomos ajustando, aprendendo e crescendo de acordo com as circunstâncias. Então, eu acho que o nosso objetivo quando começamos o Bob Moses era combinar as melhores composições que conseguíssemos com a melhor produção de música eletrônica possível. E a gente não tinha certeza de como isso seria. No começo, estávamos tentando produzir músicas de todos os tipos. E então encontramos uma cena em Nova York de que gostamos muito e da qual queríamos fazer parte. Aí passamos a focar o nosso som nisso, o que estávamos produzindo, e tentamos escrever as melhores músicas que se encaixassem naquele som. E então, no nosso primeiro álbum, a gente queria tocar mais com banda e talvez tentar tocar em teatros, então adicionamos mais guitarra e nos permitimos trazer mais das nossas raízes de rock e das nossas influências. E aí, no segundo álbum, nós já tínhamos tocado muito com a banda, então nos jogamos de vez nessa pegada mais rock. No terceiro álbum, a gente meio que aprendeu com o que estava funcionando e deixou isso influenciar o que fazíamos. E neste álbum, acho que simplesmente continuamos esse processo. Então, acho que estamos sempre muito inspirados pelo aspecto da performance ao vivo do que fazemos. A gente faz muitos DJ sets enquanto está produzindo os discos, então estamos muito conectados, de forma consciente e inconsciente, ao que está funcionando nos nossos sets. E também, por sermos DJs, ouvimos muita música. Então estamos muito ligados aos sons atuais que estão nos empolgando. E tudo isso acaba se infiltrando naturalmente na nossa música. Não acho que a gente realmente tenta; quando fazemos os discos, não pensamos muito nisso. Não tentamos fazer uma coisa específica. A gente tenta mesmo é se deixar livre. Mas acho que, através desses processos de estar conectado com a experiência ao vivo, discotecar bastante e ouvir muita música, naturalmente tudo isso vai se infiltrando no nosso subconsciente e a música sai do jeito que sai, entende?
Entendi. Ouvi o álbum e sei que ele é bem equilibrado entre faixas dançantes e outras mais introspectivas. Como vocês encontraram o tom certo para cada faixa funcionar tanto na pista quanto para uma escuta mais contemplativa?
Jimmy Vallance: Olha, a gente trabalha em muita música quando está compondo para um álbum. Então escrevemos várias faixas, várias músicas, para este aqui. E eu acho que, no fim das contas, é uma questão de encontrar esse equilíbrio certo do que soa adequado. Tipo, a gente faz muitos DJ sets e também toca com a banda. Então precisamos que a música tenha energia para sustentar uma pista de dança e segurar um festival, e isso é algo que a gente gosta de qualquer jeito, mas também somos uma banda muito introspectiva, densa, meio soturna. Então ter esse equilíbrio sempre foi essencial para nós como banda, e é algo que fazemos de forma natural. E eu também sinto que esse é justamente o tipo de disco que queremos fazer: discos dinâmicos, que te levem numa jornada. Em que existam momentos mais baixos e mais altos, e não seja tudo um sabor só o tempo todo, sabe? E isso meio que sempre foi o nosso intuito, mesmo sem talvez expressar isso em voz alta, é o que a gente faz, e este álbum é só mais uma evolução disso.
Acho que esse disco parece mais pessoal ou vulnerável do que os anteriores. Você acha que isso está correto?
Tom Howie: Sim, acho que é justo dizer isso. Acho que a gente está sempre fazendo o possível para ser honesto quando faz música. E acho que talvez agora, com um pouco mais de maturidade e um pouco mais de experiência, a gente esteja mais confortável em ser vulnerável. E também acho que, com sorte, estamos ficando melhores em comunicar a pureza da emoção sem confundi-la ou complicá-la. Espero que a percepção das pessoas sobre esse disco é de que ele é mais vulnerável ou mais honesto. Embora talvez não tenha sido algo intencional, não foi tipo “ah, antes a gente não estava sendo honesto e agora vamos ser honestos”; a gente sempre tentou ser honesto. Mas, se essa é a leitura das pessoas, então isso significa para mim que, com sorte, é um bom sinal de que estamos simplesmente ficando melhores em comunicar as emoções nas músicas.
Eu sei que vocês dois se tornaram pais. Você acha que isso tem alguma relação com esse lado mais sensível do novo disco?
Jimmy Vallance: Eu acho que a questão é que ser pai te afeta de tantas maneiras que você nem percebe. Então acho que é impossível isso não ter se infiltrado no disco. Não é algo que a gente sente e conversa abertamente ou algo assim, mas a gente é muito impactado pelo que acontece à nossa volta, e isso sempre acaba entrando nas letras e nos temas das músicas. E o nosso subconsciente é o que realmente ajuda a criar esses discos, sabe? Então você não tem como não ser inspirado e afetado pelo que está acontecendo na sua vida pessoal. Então acho, sem dúvida nenhuma, que ser pais inspirou parte dos temas, seja de forma indireta ou direta e acho que quanto mais combustível você tem para a criatividade, melhor. E ser pai fornece muito combustível.
Agora vocês vivem em cidades diferentes. Como você acha que essa dinâmica de trocar ideias e demos online evoluiu enquanto vocês estavam criando o álbum?
Tom Howie: Sim, isso foi uma experiência interessante. E, na verdade, foi bem positiva, eu diria. A gente ainda reservou períodos para trabalhar juntos, porque isso é essencial, obviamente. Fui para Nova York, trabalhamos um tempo lá, passamos um tempo em Los Angeles, um tempo em Vancouver, de onde nós dois somos originalmente, e também em Toronto, porque um dos nossos colaboradores, o Shaun Frank, mora lá e tem um estúdio ótimo. Então fomos para lá algumas vezes. Acho que isso foi interessante de duas maneiras principais. Primeiro, nos deu espaço para focar de forma mais intensa, de um jeito que talvez não tivéssemos se estivéssemos sempre na mesma sala. Eu e o Jimmy somos muito próximos. Acho que nós dois somos muito bons em sermos honestos e vulneráveis um com o outro quando estamos fazendo música porque quando você está em uma sessão, você precisa estar ok em soltar ideias mesmo que elas sejam ruins ou que a outra pessoa não vá gostar. Parte de ser um bom colaborador é simplesmente colocar tudo na mesa e não se segurar. Então a gente já faz isso de qualquer forma. Mas, mesmo assim, existe uma coisa que todo mundo reconhece: a vibe é sempre diferente quando você está sozinho numa sala, em comparação com estar ali com um dos seus melhores amigos ou alguém que você conhece melhor que todo mundo. Ainda existe uma diferença. Então acho que estar sozinho numa sala deu para nós dois uma perspectiva diferente, para olhar mais para dentro e ser mais intencional a partir de um lugar muito pessoal, mas ao mesmo tempo sabendo que o nosso amigo estava ali, do outro lado, e que enviaríamos essas ideias de um para o outro. E também é interessante poder ouvir e digerir certas coisas sozinho. Então ter esse equilíbrio de estar juntos boa parte do tempo, mas também separados boa parte do tempo, e ter essa relação muito pessoal, um a um, com a música, foi algo único e diferente. E acho que a outra coisa é: quando você está sozinho numa sessão, se você não estiver no clima ou inspirado, você meio que pode deixar a outra pessoa assumir a dianteira ou se inspirar no que a outra pessoa está fazendo. Se você quiser dar uma “folgada” naquele dia, dá, porque a outra pessoa vai fazer o trabalho (risos). A gente não tinha esse luxo. Então isso também trouxe não só foco e intensidade para encontrar a própria criatividade, mas também uma perspectiva diferente sobre os demônios que vêm junto disso, e se você não está a fim, você precisa lidar com aquela voz na sua cabeça, em vez de ter a ajuda de outra voz na sala, entende?
Vocês têm uma participação do CRi em “Keep Love Waiting”. Eu sei que ele já tinha feito um remix de uma música antes, mas queria saber como surgiu essa colaboração agora.
Jimmy Vallance: O CRi é alguém de quem a gente já é fã há alguns anos. Como você mencionou, ele fez um remix da nossa música “Hanging On” no último disco. A gente vem tocando várias faixas dele nos últimos anos e ele entrou em contato, mandou uma ideia para essa música que virou “Keep Love Waiting”. Ele é um produtor muito talentoso. Ele tem um som de synth orgânico muito legal, que eu e o Tom gostamos bastante. Ele mandou a ideia e a gente ficou trocando o arquivo de um lado para o outro. E acho que a coisa é que eu e o Tom gostamos de testar muita coisa, e às vezes a gente tenta algo e não funciona. A gente chama isso de “escrever para a lixeira”. Não tem problema nenhum em tentar fazer algo criativo – você nunca sabe no que isso vai dar. Às vezes rende grandes ideias, e foi esse o caso da colaboração com o CRi. Foi ótimo trabalhar com ele e estamos muito empolgados para essa música sair. A gente já vem tocando ela ao vivo com a banda e também nos DJ sets e, se as pessoas não conhecem a música quando ela começa, no final já estão cantando o último refrão, então parece que ela tem uma energia muito boa, sabe?
Vocês já tocaram no Brasil algumas vezes. Existem planos de voltar em breve? O que vocês lembram desses shows?
Tom Howie: Sim, nós já tocamos no Brasil várias vezes. A gente ama (o país). É um dos melhores lugares fora dos Estados Unidos, é um dos melhores lugares do mundo para tocar. As pessoas são incríveis. A gente ama os lugares. Estivemos aí recentemente e tocamos no Warung Beach Club e foi um show incrível. Era para a gente tocar, acho, três horas e acabamos tocando bem mais porque a vibe estava muito boa.
Jimmy Vallance: Sim, talvez tipo top 2 shows do ano. Top 3 com certeza. Foi um show excelente.
Tom Howie: Sabe, tem uma energia incrível no público e a gente ama as pessoas daí. Então acho que com certeza vamos voltar. Temos planos de voltar no ano que vem. Não sei se já está 100% confirmado, mas com certeza vamos voltar no ano que vem. E, sabe, é um dos nossos lugares favoritos para tocar no mundo todo. Temos uma base de fãs ótima aí, e o público é muito apaixonado, e a gente ama tocar para o povo do Brasil.
Então, vocês preferem tocar em clubes menores e intimistas ou em grandes palcos de festival? Qual é a preferência de vocês?
Jimmy Vallance: Os dois são divertidos. Tipo, por exemplo, outro dia a gente tocou para uma porrada de gente em um festival chamado Portola, em São Francisco, com a banda, e foi incrível estar num palco enorme, com um sistema de som gigante e muita gente. Mas, ao mesmo tempo, tocar em clubes como o Warung ou o Space, em Miami, que são menores, te dá a chance de explorar coisas que você talvez não consiga num palco grande. Num palco grande, você realmente precisa ter o set bem amarrado, saber o que vai funcionar e ter os momentos certos. Já num público intimista, você pode se permitir mais liberdades criativas que, curiosamente, acabam inspirando o que você faz nos shows maiores. Então eu sinto que ter os dois é essencial, pelo menos para a gente. Os dois são muito legais. A gente já fez shows grandes e saiu com aquela sensação de “ah, não sei, foi meio estranho”. E a mesma coisa com shows pequenos; ambos podem ter seus desafios e momentos incríveis. Então é difícil escolher.
Minha última pergunta: queria saber o que vocês estão ouvindo, quais artistas ou bandas estão inspirando vocês no momento.
Tom Howie: Ah, essa é boa! Bom, a gente está sempre ouvindo muita música. Eu estou muito ligado no álbum que o Kina Tada acabou de lançar. Estou gostando bastante. Tripolism é um projeto de que a gente tem gostado muito. Notre Dame é um produtor que a gente ama e que está lançando várias coisas muito boas agora. Não sei se você quer acrescentar algo, Jimmy.
Jimmy Vallance: Sim, tem um projeto legal lá da Inglaterra. O nome dela é Got You Mustard. É meio uma parada de guitarra com pegada shoegaze. Tem bastante coisa ali. Tem uma banda chamada Weevil que a gente sempre curtiu — eles lançaram um disco este ano que é muito bom. Eu sinto que está saindo muita música boa, sabe.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.