entrevistas de Heloísa Lisboa
White Lies lançou, no início de novembro, seu sétimo álbum de estúdio, “Night Light”. A sonoridade inconfundível da banda não denuncia a maior novidade do disco: Harry McVeigh (vocal e guitarra), Charles Cave (baixo e backing vocal) e Jack Lawrence-Brown (bateria) o gravaram ao vivo. Em entrevista ao Scream & Yell, o vocalista do grupo inglês conversou sobre o processo de produção do projeto, suas influências, uma possível vinda ao Brasil e mais.
“Foi um pouco intimidador”, admitiu Harry sobre as faixas registradas com todos os integrantes tocando ao mesmo tempo. O trio contou com duas semanas de ensaios e outras duas semanas dentro do estúdio, o que, para o músico, “é bastante tempo” em comparação aos “dois ou três dias” de preparação que normalmente possuem antes de shows. “Sinto que estávamos totalmente afiados quando entramos no estúdio”, lembrou. “Quando você tem a chance de praticar por bastante tempo, tudo fica internalizado. Você simplesmente sabe como deveria soar, eu acho. E aí você não precisa mais se preocupar em lembrar o que tocar, mas sim como está tocando, com a sonoridade em si”.

Gravar os próximos discos ao vivo — dessa vez “indo além”, sem adicionar “partes extras” por cima das faixas originais — está nos planos do White Lies, mas vir ao Brasil ainda é um sonho distante. A banda esteve no país em duas ocasiões: em 2010, durante o evento beneficente Design for Humanity em São Paulo, e em 2011, com apresentação no festival Planeta Terra, no extinto Playcenter, também na capital paulista. “Parece uma desculpa ruim”, lamentou Harry ao dizer que o White Lies “não é uma banda grande” e, por isso, é difícil reunir recursos financeiros para visitar a América do Sul.
“Dito isso, se recebermos uma oferta que funcione para a gente, definitivamente vamos voltar”, confirmou, quase como um pedido para que as produtoras que atuam no Brasil não se esqueçam do White Lies e de seus fãs. Harry continuou: “Faz tanto tempo, acho que só estivemos no Brasil uma vez, há uns 14 anos. É doido. Eu me lembro tão bem, porque nós ainda éramos jovens naquela época, e é um grande choque conhecer o mundo nessa idade”, refletiu, logo antes de dizer que viveu “bons momentos” por aqui e que “adoraria retornar”.
Quando chegaram a São Paulo, com seus 20 e poucos anos, os ingleses já haviam acompanhado o Coldplay na turnê “Viva la Vida” e composto o line-up de festivais como Glastonbury e Reading Festival, entre 2008 e 2009. A banda, porém, parece não ter vivido um crescimento exponencial de sucesso mesmo após o boom verificado principalmente na Inglaterra.
Para mergulhar no clima de “Night Light”, Harry, Charles e Jack assistiram a muitos episódios de “The Midnight Special”, um programa da TV americana que foi ao ar entre 1972 e 1981. A série exibia números musicais entremeados por esquetes de comédia.
Foi justamente o modo de fazer música nos anos 1970 que inspirou o grupo: “Não havia backing tracks ou grandes produções para gravar bandas ao vivo. Era muito cru — é apenas a banda tocando junta e nada mais. E isso me anima muito. Quando a banda é muito boa, soa como uma única pessoa. Achei isso muito inspirador e quis repetir em nosso álbum, capturar a sensação de ter todos na mesma frequência”, explicou Harry.
O trio também costumava ouvir música de outros artistas antes de compor suas próprias faixas. “Geralmente passávamos uma ou duas horas de manhã ouvindo música antes de começarmos a escrever”, revelou o vocalista. “Escolhíamos as coisas das quais gostávamos e pensávamos: ‘Ok, vamos começar com esse tempo e ver que tipo de canção escrevemos.’” Harry, então, mencionou a influência direta de Steve Hillage sobre a faixa que abre “Night Light”, “Nothing On Me”. Ele reforçou: “É [uma música] bem rápida e tem essa linha de baixo maluca, que faz tudo parecer fora de tempo. É muito rápida e intensa”.
Johann Sebastian Bach, popularmente conhecido somente como Bach, também figura entre as influências do cantor. O nome do famoso compositor alemão acabou sendo emprestado ao cachorro de estimação de Harry. Johann, o cão, participou da videochamada com o tutor, que contou: “Minha esposa queria um cachorro, e eu concordei, contanto que eu pudesse escolher seu nome”.
Ainda que o vocalista tenha descrito “Nothing On Me” como uma canção frenética, já faz um tempo que o White Lies não reproduz a inquietação que faixas como “Time To Give”, incluída em “Five” (2019), provocam. “Foi um grande passo para a gente na época, nunca tínhamos feito algo do tipo”, comentou Harry.
“Em ‘Night Light’, falamos muito sobre as influências dos anos 1970, o que inclui muito rock progressivo, e também ouvimos muito disso enquanto fazíamos o ‘Five’. Essa música é bem rock progressivo — e um pouco boba até —, mas é ótima”, acrescentou, apontando que também há faixas que ultrapassam os seis minutos no novo disco da banda.
A composição mais extensa de “Night Light” é “In The Middle”, que ganhou um videoclipe dirigido pelo sueco Andreas Nilsson. Ele também esteve por trás das câmeras nos clipes de “Farewell To The Fairground”, “Death” e a faixa título do álbum de estreia do White Lies, “To Lose My Life…” (2009). Apesar de ter gostado do resultado para “In The Middle”, Harry confessou que odeia fazer videoclipes, “porque é muito entediante”: “E quando você precisa fazer algo, leva, tipo, 15 minutos, mas você precisa ficar lá o tempo todo”.
“Tivemos muita sorte por trabalhar com um diretor que já havia trabalhado com a gente no nosso primeiro álbum”, ponderou. “Ele fez três grandes vídeos que acabaram ficando icônicos para as pessoas que ouvem White Lies. Gostamos muito de trabalhar com ele naquela época, mas só tivemos a oportunidade de retomar a parceria agora.”
Harry prosseguiu: “Entramos em contato com ele do nada e perguntamos se ele queria se juntar a nós. Dissemos que a grana era curta, mas que veríamos o que fazer, e ele aceitou, disse que faria funcionar, o que é incrível. Ele estava viajando pela Tailândia, fazendo outro trabalho, e falou: ‘Vou estender minha viagem e fazer isso’. Eu amo esse videoclipe, é bem chamativo e estranho, sabe?”
Se “In The Middle” encontrou seu lugar na obra do White Lies cerca de uma década após seus versos serem escritos, conforme o site de notícias DJ Sound, “Time To Give” quase não chegou ao “Five”, o mesmo que aconteceu com outras duas faixas que seriam incluídas no “Night Light”.
“O álbum original tinha 11 faixas. Quando fizemos as demos, provavelmente tínhamos umas 20 músicas ou mais”, esclareceu Harry. “Queríamos que o disco tivesse todas essas 11 músicas que escolhemos, mas você não consegue colocá-las em um vinil, que tem cerca de 40 minutos de duração — 45 se tiver sorte.”
Duas canções, portanto, foram sacrificadas para que os discos de vinil chegassem às prateleiras. Segundo Harry, porém, essas faixas “dariam ótimos singles ou até grandes hits — se é que o White Lies consegue produzir esse tipo de coisa”, já que podem se comportar como “clássicos” do grupo inglês.
Os fãs devem esperar por essas composições, intituladas como “My Lover” e “I Love(d) New York”, nos serviços de streaming em breve. Para alguns dos mais atentos, as faixas não devem surpreender, pois foram disponibilizadas por cerca de dois dias na semana do lançamento do “Night Light” no iTunes.
Outra parceria que veio para ficar é a com Seth Evans, tecladista que colaborou criativamente com o White Lies no estúdio para o mais recente disco da banda. Harry o caracterizou como “um músico e produtor fantástico que fez álbuns incríveis”.
Em seguida, o vocalista citou os trabalhos de Seth ao lado do black midi e Geordie Greep, em sua carreira solo, e justificou o convite feito ao tecladista: “Acho que ele ajuda bastante a moldar as partes de teclado — o som, a textura, até a sensação que você vai ter ao tocar ao vivo — mas dentro do contexto do estúdio de gravação”.
Tommy Bowen, que colabora ao vivo com o White Lies desde seus primeiros shows, deve continuar acompanhando o grupo em turnês. “Eles são bem diferentes”, comparou Harry quando perguntado sobre a diferença entre trabalhar com Seth e Tommy. “O forte de Tommy não é criar composições do zero, mas se você der qualquer coisa para ele tocar, de qualquer estilo, ele será capaz, quase imediatamente. Ele é muito bom em ouvir e reproduzir algo sem precisar treinar muito. Então, isso é ótimo, porque você quer que ele aprenda a tocar as músicas ao vivo rápido.”
Falando sobre as letras que embalam “Night Light”, Harry indicou que a faixa que dá nome ao disco é uma de suas favoritas — o que explica o motivo pelo qual a composição garantiu destaque como título do projeto. “Nunca pensei que poderia ser um single”, admitiu, antes de adicionar: “Mas eu queria que ela se sobressaísse. E falando sobre toda essa influência da música dos anos 1970, eu consigo imaginar o título desse álbum lado a lado de muitos discos da década, como se naturalmente pertencesse àquela prateleira. Sinto que combina com essa estética”.
Para o vocalista, “Night Light” lembra “luzes de neon e um bar esfumaçado”. Para quem o ouve, o clima sombrio das letras sobre amadurecimento, amor e nostalgia podem representar a noite em meio à luminosidade dos sons setentistas. “É muito difícil explicar por que você escolhe o título de um álbum. No fim, só parece certo, entende? Aquelas palavras soam legais juntas, têm um ar descolado, e parecem combinar com o disco. E a verdade é que a gente nunca tem 100% de certeza de que acertou”, expressou o artista.
Além de “Night Light”, “All The Best” é outra queridinha de Harry, que, apesar de não escrever as letras, acredita que as faixas da obra do White Lies “são todas bem pessoais”. “Charles escreve as letras e frequentemente comenta sobre o que seria o lado mais leve desse álbum, momentos em que as letras soam meio surreais, ou até ridículas. Acho que há trechos no disco que trazem esse tipo de imagem: uma estética surreal, quase onírica”, enfatizou.
Quando toma as palavras de Charles para si, Harry pensa sobre elas de outra maneira: “Quando canto essas músicas, sinto que Charles estava deixando algo para trás — talvez cantando também sobre essa nossa fase de vida. É estranho quando você vive, desde muito jovem, uma rotina em que… De certa forma, parte de você nunca realmente cresce. Porque o nosso trabalho é meio bobo, meio fora do padrão convencional. Mas, ao mesmo tempo, hoje todos nós temos outros compromissos, outras responsabilidades nas nossas vidas. E quando eu canto essas letras, eu meio que digo adeus a essa vida antiga. Você tem que crescer, talvez seguir em frente”.

A nova fase a que Harry se refere inclui filhos e tudo mais que a vida adulta pode reservar. Conforme o vocalista, o espaço temporal entre “As I Try Not To Fall Apart” (2022) e “Night Light” é o maior desde que iniciaram o White Lies — e isso se deve justamente ao compromisso que assumiram com suas respectivas famílias. “Acho que precisávamos desse tempo, porque Jack e eu acabamos de formar famílias, temos filhos e precisamos cuidar das nossas casas, ser pais”, assumiu.
Os períodos longe das questões profissionais oferecem um “bom equilíbrio” para os membros do grupo, de acordo com Harry. Ele ainda lembrou que Charles, Jack e ele são como irmãos e, portanto, também fazem parte da mesma família: “Sempre fomos muito próximos, somos bons amigos, assim como bons parceiros de banda. É uma relação estranha, porque vivemos a maior parte das nossas vidas juntos e fizemos todo o nosso trabalho juntos”.
“Eu pensei nisso hoje mais cedo: quando nos reunimos para fazer o álbum, nós ficamos tipo, ‘Devemos mesmo fazer isso?’ Sabe, nos questionamos se realmente era isso que queríamos continuar fazendo e garantimos que isso nos deixa felizes, que estamos trabalhando em algo que realmente amamos e que vamos dar o nosso melhor”, descreveu Harry.
Talvez, por estarem sempre na mesma página, o White Lies consiga manter sua sonoridade quase intocável. Harry, no entanto, disse que era “uma pergunta difícil de responder” quando questionado sobre o que mantém o DNA da banda.
“Para mim, os discos do White Lies soam bem diferentes uns dos outros. Mas você está certa, há um quê de White Lies em todos eles — e acho que são detalhes que causam isso”, examinou. “Acho que o mais óbvio é a minha voz. Sempre estou cantando, e acho que minha voz é bem distinta. Sinto que também há coisas relacionadas à produção, à forma como você toca ou os instrumentos que você escolhe ao longo dos anos — você meio que os adiciona à sua coleção.”
Ele completou: “E você tem todas essas experiências das quais pode puxar referências. Quando você empaca escrevendo uma música ou em alguma seção específica, dá para voltar mentalmente a coisas que já tentamos antes e, quem sabe, testar isso novamente como solução. Mas, sim, eu concordo com você. Acho que existe, de fato, um som característico da banda. É difícil explicar exatamente o motivo, mas acredito que toda banda tem sua própria identidade sonora. Cada uma soa única, à sua maneira”.
Para 2026, o White Lies planeja uma turnê pela Europa entre janeiro e junho, na qual promove “Night Light” e pode voltar a incluir “Time To Give” na setlist — “Acho que deveríamos voltar a tocá-la no ano que vem, porque é muito boa”, rendeu-se Harry. Ao final da conversa com o Scream & Yell, o artista convidou Johann para uma captura de tela e deixou a chamada para retornar ao conforto de sua casa no oeste de Londres, na Inglaterra, onde ele afirmou estar fazendo muito frio: “São 16h30 aqui e já está anoitecendo, o que é uma loucura. É meio depressivo no inverno”.
– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil