texto de Alexandre Lopes
fotos de Fernando Yokota
Pela primeira vez no Brasil, o Boris – trio japonês que há três décadas molda e deforma drone metal, noise rock, shoegaze e psicodelia – finalmente desembarcou em São Paulo para celebrar os 20 anos de “Pink” (2005), seu álbum mais aclamado pela crítica. O show único no País, realizado no domingo (30/11) no Fabrique Club, veio cercado de expectativa e praticamente esgotado antes mesmo de anunciarem a sueca Siena Root como banda de abertura. A produção, dividida entre Powerline, Abraxas e Maraty, prometia uma noite histórica. E foi, ainda que sob uma espera exaustiva que desgastou o público.
Na porta, o panorama da fila de entrada já chamava atenção: adolescentes e jovens adultos de preto, maquiagens carregadas e, entre eles, fãs mais velhos na casa dos 30 e 40. Uma plateia mais plural do que muitos imaginariam para um show de drone metal e, pela quantidade de rostos joviais, um sinal do fascínio que o Boris exerce em novas gerações.

A casa deveria abrir às 19h, mas só liberou a entrada perto de 20h. O motivo: um infeliz atraso logístico gigantesco. Depois de tocar em Córdoba (Argentina) no sábado, o Boris voou para Buenos Aires no domingo de manhã e só então seguiu para Guarulhos (SP), chegando no meio da tarde. A liberação alfandegária – emperrada pela enorme quantidade de equipamento do grupo – travou tudo. Sem tempo sequer para ir ao hotel, músicos e equipe seguiram direto para o Fabrique, mas chegaram quase duas horas depois do planejado e isso atrapalhou toda a montagem e passagens de som. Assim, quando o público entrou, a Siena Root ainda tentava resolver problemas atrás da cortina no palco e a frase “nothing in the monitors” (“não ouço nada nos retornos”) falada no microfone durante os ajustes virou um mantra insuportável durante a hora seguinte.
Formada em 1997 em Estocolmo, a Siena Root se apoia fortemente no espírito do rock dos anos 70. Com Sam Riffer (baixo), Love Forsberg (percussão), Zubaida Solid (vocais/teclado) e Johan Borgström (guitarra), o grupo entregou em São Paulo um set reduzido: oito músicas, em vez das catorze tocadas no Rio de Janeiro na noite anterior. O show começou às 21h – uma hora após o previsto. E, por mais competente que seja o quarteto – com solos e jams à la Deep Purple, grooves bem construídos e instrumentistas experientes – a sensação geral era de descompasso com o som mais avant garde dos headliners. A estética, a atmosfera e o clima mais convencional realmente destoavam da densidade que o público aguardava do Boris.
A banda bem que tentou animar a plateia, mas Zubaida parecia ainda assolada por problemas técnicos: teclado baixo durante “Tales of Independence”, microfone insuficiente ou às vezes alto demais nas faixas seguintes. Nem o carisma de Sam Riffer, esforçando-se para quebrar o gelo, adiantou muito. Apesar de fazerem o possível para se divertirem no palco, a Siena Root definitivamente caberia melhor em outra noite, talvez num Manifesto Bar lotado de fãs de hard rock setentista. No Fabrique, naquele domingo, foram recebidos com certa frieza pelo público, principalmente na longa “Keeper of the Flame”. O set terminou às 21h36, com “Root Rock Pioneers”. Um pouco antes, um fã chegou a passar mal – seja pelo calor ou por pura exaustão de esperar a atração principal.
A essa altura, parte do público demonstrava impaciência crescente, soltando algumas vaias em resposta a cada nova faixa da discotecagem da casa. Na parede, um aviso pedia “fotos sem flash, sem vídeos longos. Aproveite o momento!” e ele foi solenemente ignorado durante o show do Boris:,os celulares erguidos no fundo do salão formaram fileiras de gravações intermináveis.

O trio japonês só foi começar 1h20 além do horário anunciado. Às 22h35, a cortina abriu e revelou a banda mergulhada numa espessa névoa de gelo seco que parecia prolongar o peso arrastado de “Blackout”, colocando os fãs instantaneamente em transe. Com um grande gongo atrás da bateria, Atsuo – de casaco e calça com estampa de zebra – o golpeava como se convocasse o público a urrar a cada batida. À direita, Takeshi dedilhava lentamente seu híbrido de baixo e guitarra, soltando gritos que soavam como alguém despencando por um poço sem fundo; à esquerda, Wata sustentava notas agudas na guitarra com precisão hipnótica.
Ao final da primeira música, Atsuo tirou o casaco e rodou no ar antes de descartá-lo, em um pequeno maneirismo teatral que introduziu o riff acelerado de “Pink”. O palco se tingiu de uma luz rosa e puxou o público para fora do transe inicial: o som bruto incentivou o pogo e saltos, como se os fãs enfim pudessem descontar a frustração da longa espera. O frenesi continuou com “Woman on the Screen”, “Nothing Special”, “Ibitsu” e “Electric”, com Atsuo regendo a experiência e soltando gritos em um microfone headset que lembrava um fone de telemarketing, enquanto levantava os braços e apontava para o público.

“A Bao a Qu” retomou o clima contemplativo, com microfonias instaurando um certo clima lúgubre antes da descarga de distorção, fuzz e vocais que mais pareciam lamentos de almas torturadas. Uma mulher precisou ser retirada da casa passando mal – talvez um sintoma da intensidade física que o Boris pode induzir com seu paredão sonoro quase progressivo calcado em afinações graves de “The Evilone Which Sobs”. Em “Akuma no Uta”, o Fabrique se tornou um lodaçal de guitarras e baterias pesadas em marcha lenta até desaguar no stoner rock do trecho final. Depois das 23h, muita gente precisou ir embora – inclusive um casal jovem que dividiu o vagão do trem com este repórter na ida ao show. Os sucessivos atrasos, o limite de horário do transporte público e a segunda-feira batendo à porta cobraram seu preço.
Em “Just Abandoned Myself”, Atsuo usou um microfone de contato distorcido para uma sequência de noises grotescos e quase ritualísticos, encerrando com um “Oh yeah amigos!” em português que pegou o público de surpresa. Wata também agradeceu, discreta, antes de anunciarem a bela “Farewell” e fundirem guitarras melódicas com delay e peso monolítico viajante, sendo o momento mais transcendental da apresentação. No fim, novamente o microfone de contato de Atsuo devolveu uma cacofonia extrema, seguida de um “obrigado” lacônico de Takeshi em português. Após uma saída breve do palco, o trio retornou com “Flood”, num encerramento que começou melancólico, mas logo voltou a ser tão ensurdecedor quanto hipnótico, finalizando o show após a meia noite.

Ver o Boris ao vivo em São Paulo foi quase inacreditável; um espetáculo de intensidade e estranheza raras, com toques ritualísticos que oscilavam entre o performático e o absurdo. Poucas bandas no mundo conseguem soar tão graves, tão lentas e tão devastadoras sem perder o magnetismo. Mas infelizmente o atraso foi quase tão colossal quanto a própria experiência. Uma espera que drenou os ânimos do público (e provavelmente dos músicos também), tornando a noite menos fluida do que poderia ter sido. Ainda assim, quando finalmente subiu ao palco, o Boris entregou exatamente aquilo que seus seguidores esperavam: um monumento sonoro belo, brutal e arrebatador. Que eles possam retornar em uma data mais propícia e nos deixar surdos novamente.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br