entrevista de Danilo Souza
Há dez anos, quando “Maravilhas da Vida Moderna” (2015) foi lançado, até dava para fazer piadas natalinas com a Dingo Bells. Uma década depois (e mais dois bons álbuns no currículo) muita coisa mudou: a começar pelo nome, que virou só DINGO: “Passamos 15 anos dizendo que Dingo Bells era um nome seríssimo pra poder trocar e dizer que era sempre uma piada interna (risos)”, relembra Rodrigo Fischmann (bateria e voz). “O pessoal sempre falava ‘Dingo’ pra cá e pra lá e nós decidimos assumir até para trazer algo mais íntimo e carinhoso com quem estava ali junto e que torceu por nós…”, completa o baterista.
Se em 2015 eles já falavam sobre as maravilhas da vida moderna, em 2025, com um mundo cada vez mais hiperconectado, esse disco parece ter ficado mais atual do que antigo. “O ‘Maravilhas da Vida Moderna’, tanto na letra como no conceito, sempre teve um tom agridoce de crítica e de uma ironia”, analisa o guitarrista Diogo Brochmann. “Depois de uma década e com as facilidades que a tecnologia nos dá, já entendemos que é muito difícil resistir a elas, mas, ao mesmo tempo também vimos coisas horrorosas que aconteceram em função dessas grandes ‘maravilhas da vida moderna’. Não mudou muito o discurso de lá pra cá”, acredita Diogo.
Em comemoração aos seus 10 anos, “Maravilhas da Vida Moderna” ganhou relançamento em vinil (já esgotado) e uma versão deluxe em streaming com nove faixas (demos) bônus, estendendo o tracking list original de 11 para 20 faixas. “É um álbum virtual recheado para quem é fã da banda e quer saber como é que aquela música era antes e tudo mais. Tem toda essa parte legal no digital”, observa o vocalista Rodrigo – além dele e de Diogo, completam a DINGO Felipe Kautz, no baixo, e Fabrício Gambogi, guitarrista e compositor, que já acompanhava a banda como músico de apoio.
Nesta conversa, Felipe, Rodrigo e Diogo relembram histórias das composições e tudo o que cerca o disco.
Ouça abaixo a versão deluxe do álbum “Maravilhas da Vida Moderna”
A pergunta que vocês mais devem escutar é por qual motivo a banda se chamava Dingo Bells (risos), mas uns anos atrás teve uma mudança e agora é só DINGO. Então, pra ser um pouco diferente, quero entender… o que mudou desde que Dingo Bells virou DINGO?
Rodrigo Fischmann: DINGO vem acompanhada com essas coisas chamadas “rugas” na testa (risos).
Felipe Kautz: É muito engraçado, né, cara? Antes, em toda entrevista, tínhamos que responder porque era Dingo Bells, e agora temos que responder porque se tornou só DINGO… (mas) foi uma coisa que acabou surgindo ali durante a pandemia. Nós gravamos [o disco] “A Vida é Uma Granada” (2022) e foi durante o processo desse disco e o lançamento dele que voltou à superfície a discussão sobre o nome Dingo Bells, que era uma coisa que, na verdade, já tinha surgido em outros momentos e em diferentes fases da nossa carreira. Foi uma necessidade meio de adequação com a gente mesmo, porque Dingo Bells surgiu quase como uma piada interna nossa e aos poucos fomos construindo a nossa carreira, lançando discos e tendo uma trajetória maior. Além disso, fomos ficando velhos barbados de cabelo branco e com filho, então… acho que o nome acabou acompanhando um pouco desse processo de maturação da banda, de certa forma.
Rodrigo: Passamos 15 anos dizendo que Dingo Bells era um nome seríssimo pra poder trocar e dizer que era sempre uma piada interna (risos), mas é que todo mundo já nos chamava [só de DINGO] e a gente só assumiu isso, assim como é com Os Paralamas do Sucesso, por exemplo. Você fala “vou no show do Paralamas” e não “vou ao show dos Paralamas do Sucesso”, e até aqui também no Sul também, você não fala “vou no show da Bidê ou Balde”, e sim só “vou no show da Bidê”. O pessoal sempre falava “Dingo” pra cá e pra lá e nós decidimos assumir até para trazer algo mais íntimo e carinhoso com quem estava ali junto e que torceu por nós… foi quase que em homenagem aos fãs mesmo.
Quando penso no que são essas “maravilhas da vida moderna”, há muitos conceitos e eles foram mudando ao longo dessa uma década de lançamento, pelo menos para mim. Como vocês enxergavam o disco naquele momento, em 2015, e como olham para ele agora, em 2025?
Diogo Brochmann: Esse mote é um dos que a gente conversou em relação aos 10 anos do disco. Parece pouco tempo para algumas coisas, mas isso é muito, né? Certamente mudou muita coisa. No meio dessa trajetória, por exemplo, chegamos a prensar CDs pro segundo disco [“Todo Mundo Vai Mudar”, de 2018] e que não foram vendidos porque essa tecnologia já estava obsoleta e a gente não se deu conta. O “Maravilhas da Vida Moderna”, tanto na letra como no conceito, sempre teve um tom agridoce de crítica e de uma ironia, e, depois de uma década e com as facilidades que a tecnologia nos dá, já entendemos que é muito difícil resistir a elas, mas, ao mesmo tempo também vimos coisas horrorosas que aconteceram em função dessas grandes “maravilhas da vida moderna”. Não mudou muito o discurso de lá pra cá. E olhando agora, pensando em 10 anos atrás, é um grande disco de estreia e fico muito orgulhoso e feliz por isso! Talvez esse seja o grande predicado do disco: ele não perdeu a atualidade, só está mais evidente tudo que as maravilhas da vida moderna nos trouxeram de bom e de ruim, sabe?
Rodrigo: Outra coisa interessante é que esse disco pegou um momento, e tem até uma música, a “Mistério dos 30”, que é de onde a gente tirou essa frase maravilhosa que dá nome ao álbum, de falar sobre a nossa visão a respeito dessa mudança de vida em que estávamos terminando a fase dos 20 anos de idade e estávamos ali com 26, 27, projetando o que seria essa mudança pros 30 anos de idade. Agora, 10 anos depois, estamos nos encaminhando pros 40 e também tem uma nova mudança de paradigma e é muito interessante ver como muitas reflexões seguem presentes de alguma forma. A gente foi muito bem sucedido em conseguir trazer algo que se enquadra em diversos momentos da vida e que não é algo pontual e específico. Temos essa característica na escrita, na composição e na nossa proposta artística de tirar um pouco da questão incisiva e pontual e trazer para coisas mais filosóficas e grandiosas da existência e da humanidade de uma forma geral.
Essa faixa tem um verso que eu gosto bastante: “Não tenha medo / Largue o emprego / Vivendo à vista / Pagando em prestação”. Gosto dessas metáforas sobre a vida. Como vocês pensam nisso?
Rodrigo: Ah, ela é uma boa isca, né? E ela começa assim: “Não espero acabar tão sério”, além de terminar com a mesma frase. Já esse refrão foi bem polêmico… lembro da gente gravando na fazenda com o nosso produtor e existia uma resistência em trazer algo no imperativo, que é isso do “não tenha medo! largue o emprego!”, pensávamos se não existia um desconforto em propor algo imperativamente, mas, ao mesmo tempo, pensamos “cara, mas é poesia, então vamos nos permitir isso”. O tema dessa música é algo que nós questionamos o tempo todo, que é: o quanto que eu tenho que viver no agora? Na verdade, ela retomava essa ideia de um agora com uma maturidade para viver tudo plenamente do jeito que quero, só que daí já vem atrelado a “ok, você vai viver tudo agora, mas o pagamento vem parcelado…”. São provocações, ironias e reflexões que fazem despertar o mínimo interesse e de questionamento, e com isso, como criador, conseguimos alcançar nosso objetivo artístico com a música, até porque não tem receita pronta já que cada situação é diferente de pessoa para pessoa, né?
Diogo: E já aconteceu de algumas pessoas virem nos relatar depois do show que se demitiram após ouvir a música e que iam nos processar (risos).
Então, esse ano eu estava trabalhando numa rádio e na semana que eu pedi meu desligamento ouvi “Mistério dos 30”… (risos)
Diogo: Foi a última música que tu botou lá na rádio, né? (risos)
Rodrigo: Fizemos essa música baseado num relato do Diogo de que um parente dele foi numa palestra sobre “os 40 serem os novos 30” e essa coisa de você não precisar mais ter as mesmas responsabilidades que os seus pais tinham com 30 anos. A música tem um tom ácido e crítico em relação a essa geração que deixa tudo para depois, porque dá para esperar e que não precisa resolver a vida agora. Daí veio essa ideia de “viver à vista, pagar em prestação”. Falar “ largue o emprego!” é quase que sedutor, parece que é muito fácil, mas não é.
Diogo: As redes sociais te seduzem também. São inúmeros perfis contando trajetórias e coisas do tipo “larguei as coisas do nada e fui seguir meu sonho”. Passados esses 10 anos, a música acaba dialogando um pouco com esse cenário de ter a vida dos outros muito exposta pra ti nas redes e como você vai sendo seduzido pelas dicas de como lidar com o teu próprio caminho e essas coisas…
E falando em metáfora… tem outra na primeira faixa do disco, “Eu Vim Passear”, que é assim: “Tanta gente buzinando / e esqueceu de andar / Veio ao mundo por engano / Eu vim passear”. Se em 2015 as pessoas “já andavam buzinando” com pressa, hoje em dia então… são diversos estímulos e sentimentos de uma vez só, como se a gente estivesse que estar em vários lugares e fazendo várias coisas ao mesmo tempo. A tecnologia e as redes influenciam muito nisso. Para vocês, como artistas, de que forma a internet, que na teoria é uma “maravilha da vida moderna”, impacta a forma de se conectar com o público?
Felipe: Cara, é louco! Eu, de certa forma, sinto que a gente pegou uma transição disso. Quando começamos a tocar na noite em Porto Alegre, lá em 2008, a coisa era muito mais “old school”, tinha divulgação em rádio, a gente imprimia nossos cartazes e colava na cidade, trocava ideia com a galera muito no boca a boca e tal… inclusive, lá por 2012 ou 2013, sei lá, antes do primeiro disco, nos primórdios do YouTube, nós fazíamos vídeos de divulgação de shows em Porto Alegre.
Rodrigo: Nós já éramos “tiktokers” antes de existir o TikTok (risos).
Felipe: Quando chegou essa necessidade diária do Instagram e de ter que fazer stories tipo “vou comer banana com aveia agora” a gente não se encaixou totalmente nesse novo perfil.
Rodrigo: Nós sempre pensamos assim: “vamos fazer isso para tal coisa”. E daí quando nos deparamos que virou só um “a gente faz isso” e não tem mais o “para tal coisa”, pensamos: “assim não nos serve…”
Felipe: A gente acabou pegando a virada para essa relação mais ilusoriamente íntima que as redes dão, né? Porque você está ali vendo o café da manhã da Lady Gaga, mas isso não tem nada a ver com o que é a Lady Gaga de fato, isso é algo que ela está escolhendo mostrar ou não mostrar por determinadas razões. Nós nunca entramos muito dentro dessa comunicação mais dia a dia, porque é algo que não é original da nossa geração e é um tipo de conteúdo que nós também não pensamos em consumir, entendeu? Não quero ver o que o Thom Yorke fez na sessão de pilates dele, quero que ele lance uma música ou um disco!
Diogo: E a gente sempre achou mais interessante mil pessoas vendo nosso show do que mil pessoas nos vendo falar alguma coisa nas redes e não ir no nosso show, sabe?! O “mundo real” pesa mais e vamos seguir pensando assim, porque o virtual acaba. Tanto é que a galera comenta que os nossos números refletem, enquanto tem banda que tem grandes números nas redes, mas o show é muito fraco de público…
Dez anos depois, com o disco consolidado, dá pra apontar alguns hits sem medo de errar. O principal deles, “Dinossauros”, nos leva a uma reflexão para imaginar como seria uma “segunda extinção”, agora da raça humana ao invés dos dinossauros… cara, de onde veio essa ideia e essa letra? Me deu crise existencial… (risos)
Rodrigo: Não foi uma coisa premeditada, tipo, “vou fazer uma música sobre dinossauros e astronautas”. Ela surgiu de uma sensação de finitude. Me veio na cabeça como deve ter sido um dinossauro vendo um meteoro vindo e sem saber que a extinção vai acontecer… ao mesmo tempo que tem essa coisa do futuro e do astronauta que vê a tragédia de fora da Terra. Depois existe um terceiro momento da música, que foi um estímulo de um amigo nosso que ouviu e disse “sinto falta de uma terceira parte…”, aí a gente condensou essas ideias do passado, do futuro e trouxemos a ideia do eu lírico, que conta a história e como ele se sente nisso tudo. No final das contas, depois de fazer essa música, eu me dei conta que ela tem muitas camadas para serem analisadas. Para mim, a música fala sobre a maturidade e a dificuldade de abandonar algo que não necessariamente estamos abandonando no sentido ruim, mas se apropriando e se encaminhando para um outro momento da vida, e ela também brinca um pouco com isso de não perder a ideia da imaginação, porque fala sobre um universo extremamente lúdico e infantil, que são dinossauros e astronautas, que é o que está na cabeça de toda criança quando vai brincar. Ela veio de uma vontade de se colocar no lugar de um dinossauro, depois no lugar de astronauta, que foram coisas que eu sempre achei legal… e daí vem a ideia da imaginação e dos problemas reais.
Lá pra segunda metade do disco, aparece uma das minhas favoritas, a faixa “Bahia”. É engraçado, porque vocês são do Sul e, na letra, trazem essa coisa da Bahia ser meio que um lugar onde se encontra a paz. Como pensaram nisso? Foi fruto de alguma viagem por aqui no estado?
Felipe: Cara, é muita cara de pau, porque a gente fez esse som antes de qualquer um de nós ter botado os pés na Bahia (risos). Mas nós já acompanhamos muita coisa da cultura e da música e acho que a Bahia talvez seja o maior berço disso. Nós acabamos usando a figura da Bahia quase como a Pasárgada, sabe? É onde eu sou rei, onde problemas não há, é um lugar mágico onde não vai ter ninguém pra te enganar e todas aquelas coisas que a gente cita na letra… foi uma figura de linguagem para falar de um lugar de escape, onde você pode curtir esse tropicalismo e essa vida boa.
No fim das contas, o disco é um retrato de uma geração tentando entender o mundo adulto. Como vocês acham que esse disco envelheceu e como ele será visto por outras gerações?
Diogo: Tem dois eixos que me tocam nessa pergunta. Primeiro, tenho encontrado aqui em Porto Alegre pessoas que ouviram o disco com uns 15 anos de idade e que agora estão saindo na noite e comentando que ele teve um papel legal na adolescência delas. A partir disso, me questiono o que fazer para alcançar uma outra geração, que é a que não pegou a adolescência com o lançamento do álbum, e como que a gente pode se manter relevante para essa galera mais nova. E o outro é que se depender da temática do disco ele sempre vai ser atual, porque a relação da humanidade com a tecnologia e com questionamentos existenciais nunca deixa de existir. Espero que ele siga relevante. Se depender hermeticamente só do disco em si, acho que ele sempre vai ser, mas vai depender de quantas pessoas vão seguir descobrindo ele… o futuro é incerto e não nos pertence. A gente tem dados interessantes aí que até dão um calorzinho no coração com a Geração Z ouvindo mais MPB, focando mais na música brasileira, conhecendo discos do Tim Maia… acho que o tempo coloca à prova as coisas e o que é de verdade não cai com o vento, sabe? As coisas que são feitas com qualidade e com verdade e que são feitas não só para o agora ficam.
Agora vocês estão relançando o álbum em vinil. Hoje tem tudo isso dos artistas estarem sempre presentes nos streamings e tal, mas muita gente ainda prefere ter a obra física em casa… como é o gosto pessoal de vocês nesse sentido? São “time vitrola” ou o Spotify virou uma “maravilha da vida moderna” por aí?
Diogo: Dá para caber um pouco de tudo. Tenho amigos aqui em Porto Alegre que estão cancelando a assinatura do Spotify e eu quase fiz isso também. O lance é que faz parte da maneira como o cara consome música, já que tem tanta praticidade em ter esse tipo de serviço. Pessoalmente, também assino o Tidal em função de qualidade de som, porque eu trampo com estúdio, mas se não fosse por isso, para mim seria essa dobradinha vinil e Spotify numa boa assim. Tô longe de ser um purista daqueles do tipo “só vou escutar no vinil”, mas adoro a ideia por trás do disco de vinil e tento ter um momento que eu considero um lazer, onde paro tudo, sento, coloco um disco, olho a capa, pego o encarte e tenho uma relação física e tátil ali.
Rodrigo: Ninguém é obrigado a escutar só vinil, mas podemos pensar em ter um consumo um pouco mais consciente em relação à cultura, porque talvez a gente se canse aos poucos de um mundo cômodo. Tenho tudo à disposição e posso escolher como é que eu quero fazer as coisas, como quero escutar a música, como quero ver um filme e quando eu quiser… e às vezes quero o ritual, quero a experiência, porque acho que escutar música tem muito disso. Por comodidade, abro uma playlist tipo “músicas perfeitas para você porque o algoritmo já entendeu o seu gosto” e é isso, beleza, mas também é legal a gente descobrir coisas propositalmente, ir a fundo pesquisar para chegar num som e dizer “cara, descobri isso, olha que doideira”, daí você ouve aquele disco até não poder mais no Spotify e cria uma relação tão forte a ponto de querer ter ele em vinil na coleção. Esse híbrido é o que faz parte da nossa vida em 2025.

E pode ter alguma coisa de diferente, como se fosse um deluxe, nesse relançamento? Faixas bônus, novas versões de faixas que já fazem parte da setlist original…
Rodrigo: Ele tem a capa diferente. Quando a gente lançou o LP, lá em 2016, a capa era colorida e a desta nova edição é igual a que foi lançada em CD na época. Ela é em preto e branco e tem fotos bem bonitas dentro, com encarte super cuidadoso, é realmente um material deluxe e que faz jus à importância do disco na nossa carreira e aos 10 anos essa comemoração. Já no digital, para ver como é interessante exatamente isso que estávamos falando agora, da obra física e do saudosismo, vamos lançar ele numa versão com mais faixas, com coisas bônus, com bootlegs, demos e coisas assim. Vai ser um álbum virtual recheado para quem é fã da banda e quer saber como é que aquela música era antes e tudo mais. Vai ter toda essa parte legal no digital.
Foi bom você falar disso da capa, porque, enquanto eu estava lendo reviews sobre o disco aqui na internet, cheguei até um site que definiu ela como “praticamente uma capa de álbum punk”. E, bom, realmente, ela não passa batido… o que essa capa representa?
Rodrigo: Lembro de alguém comentar também que diria que é um disco de black metal por conta da capa (risos). Na época, conversamos bastante sobre a questão de uma balança para equilibrar essa coisa mais despojada e mais engraçada de quando o nome da banda ainda era Dingo Bells e tivemos essa intenção de passar uma certa seriedade na nossa comunicação visual. É um trabalho que a gente fez com o Rodrigo Marroni. Também fizemos algumas gravações do disco no sítio dele, além de sessões de composição. A imagem da capa é uma foto analógica de um dinossauro de madeira, que devia ter uns quatro metros, feito por ele e que ele botou fogo e fez uma sessão de fotos para gerar o material. A própria capa passa a ser uma alegoria das coisas que a gente passa a dar importância na sociedade contemporânea… se nós olhássemos para aquela capa hoje, diriam que ela foi feita por inteligência artificial a partir de um prompt de um dinossauro pegando fogo no meio do mato. Quando a gente conta que aquilo é uma escultura de quatro metros de altura construída pela mão do próprio artista que fotografou aquela foto e que foi incendiada de verdade, naquele momento perfeito onde o fogo ainda não tinha consumido completamente a obra de arte e ela estava prestes a virar cinzas, assim como o conteúdo do disco também fala sobre o passado que agora está pegando fogo, tudo isso ganha uma história e se torna algo muito mais precioso.
O “Maravilhas da Vida Moderna” foi o primeiro disco de vocês e foi lançado de forma independente. O que ficou de aprendizado de lá para cá?
Rodrigo: Quando a gente fez os discos seguintes, o “Todo Mundo Vai Mudar” (2018), que foi coletivo na composição, e “A Vida É Uma Granada” (2022), que é mais individualizado, percebemos que é sempre um recorte de um momento da vida de cada um, das coisas que estão querendo ser ditas e que estão querendo ser refletidas, então é muito comum elas terem uma linha que conecta isso. Nós começamos a juntar repertório pela característica subjetiva de enxergar que há um potencial naquela música, e aqui a gente pode elencar uma série de subjetividades, cada um vai ter as suas, mas pegamos uma subjetividade em comum e que achamos que pode ser legal para um disco, daí aquilo começa a ser uma linha narrativa, digamos assim. O “Maravilhas” não nasceu um disco chamado “Maravilhas da Vida Moderna”, esse nome veio porque a gente buscava um nome para um conjunto de umas quatro ou cinco músicas, na época, e em “Mistério dos 30” tinha essa frase maravilhosas que agradou a todo mundo. A frase foi um disparador para vir uma ou outra música que ainda não tinha sido composta já com essa temática e assim rechear esse universo que o disco estava falando. Isso se aplicou e vai continuar se aplicando para os outros discos. Tentamos trazer um nome que faça jus ao que está sendo escutado ali e não nos vemos na obrigação de sempre fazer um disco conceitual e que tem um só assunto, nós podemos falar sobre várias coisas. É legal tentar juntar esses pontos e fazer algo que não seja nem tanto “Sgt. Peppers” e nem tanto “Álbum Branco”.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/.