Em São Paulo, Marisa Monte arrisca pouco com orquestra em exibição de ‘museu’ de sucessos

texto de Bruno Capelas
fotos de Fernando Yokota

Flores na cabeça, um belo vestido rosa e uma pose lânguida. É assim, em figurino de prima donna, que Marisa Monte se apresenta ao público em sua mais recente turnê. Iniciada em Belo Horizonte, a gira “Phonica” consiste em uma sequência de espetáculos ao ar livre, em que a cantora carioca revisita sua carreira acompanhada de uma orquestra de 50 músicos comandada pelo maestro André Bachur – além de sua luxuosa banda de apoio, com Dadi (guitarra), Alberto Continentino (baixo), Pupillo (bateria) e Pedrinho da Serrinha (percussão). Mais do que apenas repassar sucessos, porém, a turnê oferece uma dupla oportunidade para o público: ver a cantora a preços mais acessíveis que em espaços fechados, bem como avaliar seu papel dentro da canção brasileira, sem se prender à conjuntura de um ou outro disco.

Marisa Monte, é bom que se diga, não é a primeira figura da MPB tradicional a trocar teatros e casas de shows por espaços abertos nos últimos anos. A tendência parece ter sido inaugurada pelo paulistano Coala Festival, que trouxe – de volta ou pela primeira vez – ao ar livre figuras como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Mas aqui há um detalhe salutar: Marisa passou anos sendo sonho de consumo para liderar uma noite do festival realizado no Memorial da América Latina, mas sempre negou os convites, enquanto participava de outros eventos pelo País, como o Coolritiba (SP) e o Rock The Mountain (RJ).

Em São Paulo, ela decidiu fazer diferente: criou sua própria festa, oferecendo ao público por duas noites no início de novembro o atrativo de vê-la tocar no Parque do Ibirapuera ao lado de uma orquestra sinfônica – algo que seria inviável na logística de quase qualquer festival. Não era um formato inédito: a ideia de criar a turnê surgiu após Marisa fazer um concerto ao lado da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo, comemorando os 90 anos da USP, completados em 2024. “Junto com minha banda, unimos o popular ao erudito para interpretar clássicos, criando mais uma experiência transcendental”, prometeu a cantora no texto de anúncio de Phonica.

Quem compareceu ao Ibirapuera no sábado do dia 8 de novembro, porém, tinha outra expectativa, menos espiritual e mais receosa: o medo de uma forte tempestade atrapalhar ou até mesmo cancelar o espetáculo. Quando Marisa Monte subiu ao palco, por volta das 19h30, ventava muito no parque. Felizmente, uma garoa só foi aparecer de maneira leve lá pelo meio do espetáculo – ironicamente, bem na hora em que a cantora entoava o verso “molha eu, seca eu” em “Beija Eu”. Chuva, chuva mesmo, só depois dos últimos aplausos, para a tranquilidade geral dos presentes (e alegria dos motoristas de aplicativo, que puderam faturar mais com a tarifa dinâmica na saída do show).

Se o mal-estar não veio por causas naturais, ele acabou surgindo logo no início do espetáculo, com Marisa abrindo o show cantando “Vilarejo”. Lançada originalmente no álbum “Infinito Particular”, de 2006, a canção propõe a busca de uma paisagem idílica, uma Pasárgada real, equilibrando “Palestina e Shangri-lá”. Em sua época, a composição podia soar utópica. Hoje, talvez no afã de não tomar partido, Marisa a executa despida de qualquer conotação política, o que faz a canção soar alienada aos horrores que se cometem no Oriente Médio.

Não que Marisa tenha obrigação de ter uma opinião determinada ou militar por uma causa. Mas é preciso ter coerência estética quando certos temas, palavras ou imagens são utilizados dentro de uma obra e de um contexto. Preocupada mais com o infinito particular do que com o universo ao seu redor, a cantora já passou tal impressão em ocasiões anteriores – como ao lançar singles como “Calma” e “Feliz, Alegre e Forte” às vésperas da eleição de 2022, em que o clima do País era digno de muitos adjetivos, mas certamente não daqueles que davam nome às músicas.

Na sequência, ao cantar apenas uma sequência de canções mais ou menos iluminadas de sol, como “O Que Você Quer Saber de Verdade?”, “Infinito Particular” ou “Carnavália”, Marisa acaba se parecendo com mais uma das pessoas da sala de jantar, apenas preocupada em nascer, morrer e… amar. Não é que haja nada de errado em privilegiar um repertório romântico – algo que dará o tom da noite, de “Amor I Love You” a “Ainda Bem”, da nova “Sua Onda” à robertiana “Depois”. A escolha, porém, parece trazer pouco risco para uma cantora de tamanho porte – seja pela popularidade, pela longevidade discográfica ou, claro, pelo talento vocal.

Essa percepção se adensa especialmente quando ela traz flashes de um início de carreira mais provocativo. É algo que acontecia quando juntava Império Serrano (“Lenda das Sereias, Rainha do Mar”) com Arto Lindsay (co-autor da já citada “Beija Eu”). Ou, ainda, quando Marisa misturava boas baladas românticas (“Ainda Lembro”) a interessantes crônicas sociais – caso de “Segue o Seco” ou “Maria de Verdade”, ambas pinçadas de um disco que até hoje parece servir de trilha para ilustrar certo otimismo do Brasil noventista frente ao Plano Real. Ao longo da noite, tais momentos acabam mais por gerar saudade do que inspirar.

À falta de ousadia do repertório recente, também se somam os poucos arroubos presentes nos arranjos exibidos na turnê, a despeito da presença da orquestra e da tarimba da banda de apoio. Na maior parte da noite, pouco ou quase nada do que é tocado no palco vai relembrar o molho da Nação Zumbi, dos Novos Baianos, d’A Cor do Som ou dos muitos trabalhos de Continentino. Enquanto isso, o grupo comandado por André Bachur parece adicionar volume à banda, mas não dá profundidade aos esquemas propostos por Marisa.

Raras exceções à essa regra acontecem em “Aliança”, número pinçado do segundo disco d’Os Tribalistas, na já citada “Depois”, em que as cordas trazem bonita dramaticidade, e também em “Diariamente”. Uma das letras mais bonitas de Nando Reis, perfeito exemplar de tropicalismo fora de época, a canção de 1991 ganhou cordas que mandam aquele abraço para os arrojados arranjos escritos por Rogério Duprat para canções como “Domingo no Parque” ou “Luzia Luluza”, servindo de cama para a voz luminosa da cantora.

Remete a Gilberto Gil também outro momento curioso do show, quando Marisa faz uma dobradinha de “Panis et Circenses” com “Cérebro Eletrônico” – ambas registradas inicialmente em 1996, no ao vivo “Barulhinho Bom”. Distante do tom crítico de suas gravações originais, “Panis” parece pano de fundo à viagem da classe média ao paraíso, servindo mais como veículo para um belo improviso vocal da carioca. Já “Cérebro”, cuja letra soa extremamente atual em tempos de ChatGPT, também surge numa interpretação leve, quase acrítica – e em vez de fazer discurso ou contar piada, a artista responde ao público apenas com um coraçãozinho feito com as mãos.

O gesto pode parecer singelo, mas incomoda por evidenciar uma dualidade difícil para Marisa. De um lado, a cantora busca se colocar como diva da canção popular, ainda mais ao escolher o acompanhamento de uma orquestra para um espetáculo “popular”. Do outro, a escolha por um repertório afetivo e amoroso faz com que Marisa precise, como artista, se aproximar do público em sua interpretação. O equilíbrio aqui, infelizmente, pende mais para a frieza do que para o calor – e quando a cantora se deixa emocionar, como nos aplausos recebidos durante “Ainda Bem”, é dúbio entender se o gesto é espontâneo ou ensaiado, dada a sincronia da banda para retomar o refrão em sua execução final.

Não que a plateia não tenha adorado o espetáculo. Com um repertório cheio de sucessos, encerrado por um bis que tem “Velha Infância”, “Não Vá Embora” e, como disse Marisa, o “hino nacional” que é “Carinhoso”, é difícil o público não se emocionar. Para a maioria dos presentes, o que se apresenta em Phonica funciona bem justamente porque apela ao aspecto mais familiar e confortável da música brasileira. É uma espécie de museu da própria Marisa Monte – uma artista que surgiu no final dos anos 1980 prometendo grandes novidades, mas tem cada vez mais feito mais do mesmo, ainda que diga oferecer temperos variados.

Talvez esteja aí o ponto mais agudo da noite. Ao reunir tantos recursos, entre uma orquestra de 50 músicos, uma banda exemplar e um repertório variado, Marisa Monte tem o potencial de oferecer muito mais do que entrega – um espetáculo bonito, mas frio, em que os melhores momentos já aparecem distantes há décadas no retrovisor. Para uma cantora que abraça tanto a bandeira da canção brasileira, falta reconhecer que o que torna nossa música diferente é justamente o arriscado, o imprevisível, o imponderável. Depois de quase quarenta anos de carreira, talvez valha a pena lembrar um refrão que ficou ausente naquela noite de sábado no Ibirapuera: “o meu destino é querer sempre mais”. Ainda há caminhos pra voltar.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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