Entrevista: Em novo single (e disco), Rita Braga mergulha na história do fado com ukelele, marimba e violoncelo

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Uma das características de Rita Braga (@superbraguita) como artista é a sua capacidade de reinvenção à qual imprime a sua marca pessoal formando um corpo musical simultaneamente atrativo e estimulante. Quando nos encontramos, numa esplanada do Jardim da Estrela, em Lisboa, Rita acaba de lançar o seu novo single, “Fado Tango” (inspirado numa gravação de 1930 da fadista Ercília Costa) e volta a surpreender o público com uma faixa sofisticada e cinematográfica, onde é acompanhada pelos músicos Ryoko Imai (marimba), Bruna Moura (violoncelo) e João Cabrita (saxofone), mantendo o minimalismo definidor das suas criações. O clipe (assista mais abaixo), realizado por Joana Linda, destaca-se pela homenagem às cantadeiras meretrizes do século XIX e às atrizes de revista das primeiras décadas do século XX, que marcaram o fado primordial e por Rita se apresentar de uma forma sedutora num registo visual magnético. “Eu sempre gostei do período dos anos 1920. Foi um vídeo algo espontâneo, mas imaginei igualmente algumas poses características das atrizes dessa época. É uma evocação, mas também há um lado sedutor porque lembra as origens do fado. Está tudo ligado”, explica.

“Fado Tango” é o single de avanço do próximo álbum da cantora, compositora e multi-instrumentista lisboeta (“Fado Tropical”), que será editado em março de 2026 e dominará igualmente a nossa conversa. O disco será o seu primeiro trabalho cantado exclusivamente em português e resulta de uma pesquisa de documentos históricos e gravações do princípio do século XX, relativos ao fado. Esse material foi alvo de uma recriação sonora contemporânea e o universo dos discos “Exotica” (1957), de Martin Denny, é outra das várias referências do álbum, que terá diversos convidados. Um deles é JP Simões, que participa na versão de “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas, o provável próximo single. Rita assegura que “o disco contará também com a participação de músicos de rock”, mas sublinha uma ideia de continuidade: “O meu álbum de estreia, ‘Cherries That Went to the Police’ (2011) era igualmente de versões e terminava com uma faixa havaiana e o no disco anterior, “Illegal Planet”, de 2023, também tinha a marimba, que entra no novo trabalho”.

Sobre as suas expectativas quanto à recepção do álbum, a artista relativiza o acolhimento, mas manifesta um desejo particular: “Espero que haja pessoas que gostem e outras que não. O pior de tudo é a indiferença (risos). Acho que não há aqui um lado de provocação, mas também gostaria que as pessoas mais ligadas ao fado escutassem o disco e comentassem. Seria bom ter um feedback desse lado”. A intenção de excursionar com o novo álbum em Portugal e no exterior é confirmada pela artista, que exprime a vontade de abraçar um formato particular. “A tour vai acontecer. Eu sempre toquei muito solo, mas como este álbum é mais acústico gostaria de fazer um trio de ukelele, marimba e saxofone para ter mais soluções instrumentais”, deseja.

De Lisboa para o Brasil, Rita Braga conversou com o Scream & Yell. Confira:

“Fado Tango” é o seu novo single. Você contou que a inspiração para a canção foi uma gravação de 1930 da diva do fado e atriz de revista Ercília Costa em que participou também o guitarrista Armandinho. A partir dessas referências e do dramatismo lírico que lhe está associado como edificou a sonoridade sofisticada e cinematográfica que escutamos agora?
Eu tinha a ideia de fazer este disco há algum tempo. Queria que fosse em português e incluísse o fado, mas é um cenário imaginado a que eu chamei “Fado Tropical”. Isto começou em 2023 no festival MAP, em Oeiras, que é um festival de poesia. Na altura, convidaram três compositoras para musicar dois poemas e, no meu caso, foi um poema da Catarina Santiago Costa. Era tudo muito rimado e, sem querer, saiu-me uma música que soava a um pequeno fado e tinha para me acompanhar a Ryoko Imai, que toca marimba, e a Helena Espvall (violoncelo) e achei que estava ali uma ideia para um disco. A partir daí comecei a debruçar-me sobre o universo do fado, pesquisei as suas origens e li documentos muito antigos. Entretanto, já tinha escutado gravações da Ercília Costa (fados dos anos 20 e 30) que não conhecia e gostei muito. Já apreciava o trabalho do guitarrista Armandinho. Por isso, foi a mistura das duas coisas, ou seja, mergulhar na história do fado e de Lisboa dessa época, mas utilizar instrumentos que não são típicos do fado. É uma experiência que tem a ver com o passado, mas traz algo de novo (risos). Para a faixa “Fado Tango”, eu imaginei especificamente o ukelele, a marimba e o violoncelo. Depois, o álbum começou a desenvolver-se e entraram mais convidados. Mas, esta canção era o que eu tinha em mente para o disco. É um bom cartão de visita e tem também o saxofone do João Cabrita. A música tem algo de cinematográfico e evoca um pouco uma trilha sonora.

Como se processou a composição do seu novo álbum, “Fado Tropical”, que influências e referências a nortearam e o que podemos esperar deste novo capítulo da sua carreira?
O álbum será lançado em março de 2026 e mistura várias influências. Houve o aspecto da pesquisa de uma certa história e de conhecer gravações, mas também de livros do século XX que retratam como era o fado no século XIX. Essa foi uma das influências, para conhecer o imaginário em questão. Em termos musicais, junto muitas coisas. Uma dessas referências foram os discos dos anos 50 de Martin Denny. Ele era um compositor da Califórnia e inaugurou o estilo “Exotica”, que se tratava de algo pensado num paraíso e numa ilha distante. Aquilo remete para um cenário de ilha tropical, mas é produto da imaginação. Há também um lado onírico, mas peguei igualmente em elementos muito antigos do fado e dei-lhe novas cores a que chamei “Fado Tropical”. O álbum tem muita marimba e a marimba e o vibrafone fazem-me lembrar esses discos do “Exotica”. Inclui ainda um lado havaiano e o Brasil também está presente. Acho que, historicamente, a música de Portugal tem pontes com o Brasil e com o Havaí, porque o ukelele foi levado para lá pelos portugueses e a guitarra slide tem também descendência portuguesa. Existe de fato essa ligação e eu cheguei lá e alcancei vários sítios através da imaginação.

A decisão de abordar o universo do fado e transportá-lo para novos caminhos sonoros deveu-se apenas a uma tentativa sua de revitalizar o fado ou de testar os seus limites criativos?
Penso que está mais relacionado com os meus limites criativos. Cada disco que eu faço tem sido uma evolução e vou explorando coisas diferentes. Nos meus últimos álbuns, eu tinha muitos teclados eletrônicos e caixas de ritmo e agora pus isso tudo de lado e voltei ao registo mais acústico. Para além disso, nunca tinha feito um disco todo em português e apeteceu-me, igualmente, que houvesse um contexto em que entrasse num diálogo com Lisboa. Eu moro no Porto, mas sou de Lisboa e também, através da história do fado, procurei conhecer coisas que estão um bocado esquecidas da minha cidade. Os convidados são de cá, tirando a Ryoko Imai, mas ela mora em Lisboa. Acho que procurei expandir os meus limites criativos, reinventando-me, e utilizei o fado sem ser de forma tradicional. Por isso, sinto que é um pouco arrojado porque o fado segue uma certa convenção e tradição. Fiz este trabalho também como homenagem às vozes da Ercília Costa, e de outras fadistas, das quais nem sequer existem gravações e somente descrições. Inclusivamente há outras músicas do álbum em que peguei em poemas do século XIX e fiz música. Tudo isso está relacionado com o tributo a um fado muito antigo.

Rita Braga em foto de Sara Rafael

Do seu novo trabalho, já se conhecem os músicos que colaboraram no single “Fado Tango”, como Ryoko Imai (marimba), Bruna Moura (violoncelo) e João Cabrita (saxofone). Que outros convidados terá o disco e como define essas contribuições para o resultado final do disco?
Até o disco ser editado vão sair mais dois singles. Uma das faixas vem do Brasil, a “Chão de Estrelas”, do Sílvio Caldas. É um tema dos anos 30 (que foi desconstruído pelos Mutantes nos anos 70) que se parece com um fado e a dicção do Sílvio parecia portuguesa, porque era a forma de cantar daquela época. Para essa canção, convidei o JP Simões que também tem uma ligação ao Brasil e achei que a voz dele era perfeita para a música. Em princípio será o próximo single e é uma das faixas do álbum. Posso adiantar que a Ryoko Imai toca em todas as músicas, a Bruna Moura e o João Cabrita também participam em várias canções. Eles são o núcleo do disco, mas também fui buscar músicos mais rock n´roll. Sinto que o fado tinha um pouco disso, porque no início era algo marginal, da mesma maneira que o rock. Esta é outra ideia do álbum e asseguro que vão entrar guitarras elétricas.

Este é o seu primeiro disco cantado integralmente em português e concretiza um desígnio que já me tinha transmitido anteriormente. Sente que essa decisão e os caminhos sonoros que percorreu lhe permitiram alcançar o nível de criatividade que pretendia com este trabalho?
Sim. Acho que há um lado de aventura e de partir para uma coisa nova. Também tem a ver com algo que já fiz antes, mas nunca tinha abordado o fado. Sempre gostei de versões e no disco há algumas como esta da Ercília Costa e músicas que estou a fazer para poemas de fadistas anônimos de outra época. São canções em que musiquei versos do século XIX dos quais não havia gravações. Só há um tema original, com poema da Catarina Santiago Costa, que eu compus para o evento do MAP e também vai entrar no álbum (“Vita Nuova”). Essa faixa já existia antes de eu fazer o disco. Mas, o resto, são tudo músicas do passado. Sinto que é possível criar coisas novas a partir de material antigo. Julgo que a ideia de original não significa compor uma música, porque qualquer projeto que se faça está relacionado com outras coisas. Eu gosto desse aspecto de explorar elementos do passado, ou seja, material que já existia, e vestir-lhe roupas novas. Estou satisfeita a nível criativo e de me ter reinventado e concebido algo novo.

Pela sua natureza sonora e temática, o disco parece talhado para ser apresentado no Brasil. Gostaria de saber se pretende regressar e o que espera do público brasileiro relativamente a esta proposta mais recente.
Houve várias motivações para fazer este disco. No ano passado, quando fiz a tour brasileira diziam-me: “És portuguesa, canta o fado!”. Ainda não sei quando nem como, mas gostaria de voltar ao Brasil e apresentar o novo álbum. Julgo que será interessante pelo fato de se tratar da língua portuguesa. Existem imensas pontes com o Brasil e faz todo o sentido regressar. Também circula muito agora a teoria de musicólogos, como Rui Vieira Nery, de que o fado nasceu no Brasil. No ano passado, quando fui entrevistada em São Paulo pelo Arrigo Barnabé, falámos sobre fado e eu contei-lhe a história da fadista Maria Severa e foi o Arrigo que me falou na teoria de que o fado terá vindo do Brasil. Por isso, gostaria muito de voltar ao Brasil e a outros países de língua portuguesa e mostrar este reportório cantado em português.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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